O objeto de avaliação para a AC não é o nível de realizações do indivíduo em si (funcionamentos), pois estas dependem das preferências e diferentes funções de conversão de recursos, mas sim o universo de possibilidades (liberdades,
capacidades) verdadeiramente disponíveis aos indivíduos em dado arranjo social. O que se pretende medir, ao menos conceitualmente, são as cores disponíveis na palheta de Van Gogh, e não as cores efetivamente usadas em seus quadros. Tal questão é conhecida na literatura como o caráter "contrafactual", ou "transfactual" das capacidades. Comim (2008) aponta que muitos dos estudos que se pretendem dentro do marco da AC analisam o leque de realizações individuais, e não as capacidades propriamente ditas, questionando assim qual o valor heurístico verdadeiramente gerado pela AC. Lessmann (2012) apresenta levantamento de cinquenta e oito estudos que se posicionam dentro da AC, apontando que destes, apenas nove efetivamente focaram sua análise no espaço das capacidades, e todos os outros em realizações49.
Conforme vimos no primeiro capítulo (item 4.1), a liberdade para perseguir objetivos individuais é uma característica constitutiva do ser humano, um bem intrínseco, que confere humanidade ao ser. A expansão real deste conjunto de liberdades, as quais o indivíduo atribui valor, é a medida dos fins do desenvolvimento humano. (SEN, 1992, 1999). As capacidades seriam então uma expressão do grau de oportunidades e escolhas abertas para os indivíduos em moldar suas próprias ações e seu destino. Não se trata simplesmente sobre a realização destas escolhas (SEN, 1981;QIZILBASH,2008).
Sen (1981, p.209 apud Comim 2008, p.173) comenta que a abordagem das capacidades se destaca do utilitarismo não apenas por introduzir novas funções humanas, como a capacidade de deslocar-se livremente ou de não sentir fome, mas essencialmente por deslocar a atenção do desempenho realizado para as capacidades - o que uma pessoa pode fazer ao invés do que ela faz. Uma vez que capacidades não podem ser medidas diretamente, a solução seria estabelecer ligações entre as capacidades e as respectivas realizações (functionings) que são diretamente mensuráveis. (COMIM, 2008; KRISHNAKUMAR, 2007).
49 Lessmann (2012) divide seu levantamento em estudos completos, que pretendem avaliar o
desenvolvimento como um todo e em estudos que focam no desenvolvimento de capacidades selecionadas. No primeiro grupo (LESSMANN, 2012 p.11-2) são contabilizados vinte seis estudos, dentre os quais apenas cinco tem o foco em capacidades. No segundo grupo (LESSMANN, 2012 p.13-5), são trinta e dois estudos, dentre os quais quatro focam em capacidades.
Sen (1992, p.96) simplifica a questão, dizendo que por vezes, a natureza contrafactual das capacidades é fácil de ser apreendida, como no caso de epidemias, fome crônica e outras graves mazelas sociais, e ainda (SEN, 1999 p.131) que a avaliação das capacidades deve começar pela observação dos funcionamentos e então ser complementada por outras informações. Nesse sentido, o salto da ênfase de realizações para capacidades pode ocorrer pela própria avaliação interpessoal das realizações pessoais:
“There is a jump here (from functionings to capabilites) but it need not be a big jump, if only because the valuation of actual functionings is one way of assessing how a person values the options she has” (SEN, 1999 p.131).
Comim (2008, p.180) conclui que a contribuição do foco em capacidades parece mais nitidamente em estudos microeconômicos, nos quais a AC permite as pessoas expressarem seus poderes discricionários em relação a seu bem-estar e ao conceito de uma “boa vida”.
Krishnakumar (2007) desenvolveu modelos econométricos para a mensuração indireta de capacidades, considerando-as como variáveis latentes. Anand e Van Hees (2006) utilizam respostas a questionários sobre satisfação sobre a vida como variável dependente, que pode ser explicada pela realização de um leque de funcionamentos. Anand, Santos e Smith (2009) recomendam um método de aplicação de questionários direcionado à detecção de capacidades que tenham sido omitidas ou distorcidas. Sua tipificação abrange questões sobre oportunidades, habilidades pessoais, limitantes a realizações pessoais e questões que combinam realizações, razões essenciais para agir e presunções comumente aceitas sobre bem-estar e qualidade de vida.
Alkire e Ibrahim (2007) apontam para indicadores de empoderamento50 como métricas de autorrealização e expansão dos oportunidades individuais (agency). O termo empoderamento (do inglês empowerment), encontra dois sentidos, um geral, relacionado com autonomia, autodeterminação, liberdade para agir, participação e autoconfiança e outro específico, que aparece no World Development Report 2000/2001 do Banco Mundial que destaca o
50 “The concept of empowerment is related to term such as agency, autonomy, self-direction, self-
determination, liberation, participation, mobilization and self-confidence”. (ALKIRE e IBRAHIM,
processo de aprimoramento da capacidade das pessoas pobres em influenciarem as instituições que afetam suas vidas pelo fortalecimento da participação no processo decisório local, removendo as barreiras políticas, legais e sociais que agem contra grupos menos favorecidos, possibilitando que tais grupos possam participar livremente de mercados. (WORLD BANK ,2001 p. 39).
Os autores apresentam uma proposta de indicadores contendo exemplos de questionários baseados na sistematização de Rownlands (1997) sobre quatro tipos de poder: “Power over” (´poder sobre`, a habilidade de resistir à manipulação), “power to” (´poder para´, criação de novas possibilidades), “power with” (ressaltando a ação em grupo) e “power from within” (autorrealização e autoaceitação).
A metodologia AF não especifica como medir efetivamente toda a gama de capacidades, em contraposição à medição de realizações. Muito embora na maioria das aplicações, as dimensões avaliadas sejam o "acesso" a bens essenciais - água potável, saneamento básico, habitação digna - e não a efetiva realização deste acesso, na prática, o que se mede são os funcionamentos, perdendo o conceito original de "capability to function" desenvolvido por Sen.
A revisão da literatura permite realizar algumas inferências nesse sentido, de modo a conciliar esta forte exigência teórica com os recursos efetivamente disponíveis para aplicações empíricas. Primeiramente, na literatura da pobreza e desigualdade, é possível determinar alguns temas em que questões contrafactuais não apresentam desafios operacionais significativos, como nos casos de epidemias, fomes e grandes mazelas da humanidade. Em muitos casos, é admissível assumir que a expansão do conjunto de funcionamentos caminhe pari passu com a expansão do leque de capacidades. (SEN,1992 p.96). Outra interpretação relacionada pondera que a dicotomia entre medição de capacidades ou funcionamentos, embora muito importante no campo conceitual, tem maior relevância em estudos microeconômicos, nos quais é possível atentar se mais aos valores atribuídos por determinada população para determinadas liberdades de ‘ser’ e ‘fazer’.
Há casos ligados a empoderamento, direitos humanos e questões interculturais em que a diferenciação prática de capacidades e funcionamentos pode ser importante. Para tais casos, alguns autores, como Krishnakumar (2007), Anand e Van Hees (2006) e Anand, Santos e Smith (2009) desenvolveram técnicas distintas para encontrar tais capacidades em estado latente, envolvendo técnicas econométricas e desenhos de questionários adaptados a este objetivo. Tais técnicas admitem o pressuposto de conciliar informações sobre funcionamentos atingidos (condições de moradia, alimentação e saúde, por exemplo) com a investigação sobre capacidades com valor para determinada população a partir dos questionários desenvolvidos para este fim. Há ainda um entendimento de que a expansão do leque de capacidades pode ser detectada pelo avanço em indicadores setoriais de empoderamento (ALKIRE; IBRAHIM, 2007).
O caso de aplicação de AF para construção da política nacional contra a pobreza do México lida com esta problemática de modo bastante pragmático: admitindo que capacidades sejam de complexa concepção e mensuração, e que não há a possibilidade de calcular a preferência revelada dos conjuntos arbitrários de “seres e fazeres", por meio da observação dos conjuntos de fato escolhidos, o estudo assume que este é o primeiro aspecto da AC que é simplesmente "perdido" em aplicações empíricas. (FOSTER, 2007).
Não obstante, outros autores, como Silva-Leander (2011), continuam a buscar respostas no nível conceitual para que estes possam ser melhor traduzidos em aplicações empíricas
.
A fim de solucionar este problema em nível conceitual e prático, o autor sugere que o conceito de autonomia de Kant definido como "autolegislação" possa ajudar na operacionalização do conceito de "capability to function" de Sen, através da ligação da liberdade à moralidade e da escolha racional. A solução de Silva-Leander (2011) focaliza em realizações intencionais, de objetivos "de valor" para o sujeito, ao invés de focar em variáveis latentes não observáveis, ou oportunidades contrafactuais. O autor defende ainda que (1) a valoração ética de realizações atingidas deve se tornar parte integral e explícita do exercício de avaliação, medindo a liberdade por meio de realizações sociais a serem selecionadas com base empadrões objetivos - ou comumente aceitos como "valores" - como, por exemplo, aqueles fornecidos por instrumentos internacionais de direitos humanos; e (2) o processo decisório (ou "liberdade processual") torna-se uma parte indispensável do exercício avaliativo. No arcabouço kantiano, o valor moral não é determinado pelo valor dos resultados, mas sim pela motivação subjacente à ação que produz os resultados observáveis, portanto, o foco em resultados atingidos, em oposição a gama de oportunidades, exige que o processo pelo qual os resultados foram obtidos torne-se parte indissociável do processo avaliativo, refletindo o grau de liberdade e autodeterminação da escolha individual. (SILVA-LEANDER, 2011).
A sistematização da visão destes autores permite concluir que estamos longe de um consenso acerca de mensuração de capacidades e funcionamentos para aplicações empíricas da Abordagem das Capacidades. Todos os métodos acima listados, dentre ainda outros não listados, são capazes de produzir séries de dados para alimentar a metodologia AF, sejam estes cardinais, ordinais ou binários. Para que a aplicação da metodologia AF transcorra em conformidade conceitual com o marco das capacidades, é possível fazer duas recomendações de ordem prática: (1) Diferenciar casos em que é possível considerar que funcionamentos são expressões razoavelmente diretas de capacidades, especialmente em situações de privações extremas envolvendo fome recorrente, miséria e guerras (SEN, 1992); e (2) casos em que capacidades não são de fato diretamente observáveis e não podem ser diretamente deduzidas da observação de funcionamentos (realizações). Para esse segundo grupo, que pode envolver questões interculturais complexas, opressão de grupos menos favorecidos e questões ligadas a empoderamento e participação política, a aplicação das técnicas de pesquisa mencionadas pode conferir robustez adicional ao estudo. Em estudos participativos no nível local, em contrapartida, é sempre recomendável focar em tais técnicas. Em todos os casos, a opção metodológica e os axiomas devem ser explicitados.
A próxima seção relaciona-se diretamente com esta questão, aprofundando a questão das dimensões de avaliação empregadas em medidas de pobreza,
de modo a recuperar a problemática do foco metodológico individual da Abordagem das Capacidades.