4.2. Avrupa Birliği’nde Faaliyette Bulunan Serbest Bölgeler
4.2.10. İspanya
Para Hick (2012, p.13), embora a AC como arcabouço analítico não incorpore uma crítica direta ao capitalismo, a análise das capacidades deve apresentar informações importantes à construção e suporte de tal crítica, pois o enfoque na expansão de capacidades (nas dimensões monetárias e não monetárias) pode ajudar a avaliar os resultados sociais do modo capitalista de produção em termos da desigualdade na produção social de capacidades.
De fato, as citações diretas que Sen faz à Marx são bastante pontuais, refletindo muito mais preocupações humanistas43 do intelectual Karl Marx do que
43 Sen menciona, por exemplo, que os argumentos de Marx em favor do capitalismo justificam-se
com base na superioridade da liberdade formal dos trabalhadores no sistema capitalista contra o trabalho forçado e as restrições reais à liberdade em arranjos produtivos pré-capitalistas. No sistema capitalista ao menos, o trabalhador seria livre para trocar de emprego. Nos termos de Jon Elster, seria a ‘formal freedom ‘ do capitalismo contra a ‘real unfreedom’ de arranjos pré- capitalistas. (SEN, 1999 p. 29). Este ponto é importante para Sen porque ele considera formas de
qualquer menção ao seu legado em termos da teoria do valor trabalho e da alienação. Respondendo à crítica de O’Hearn (2009) e outros, o que Sen diz basicamente, é que enxergar o sistema capitalista apenas como “uma conglomeração de comportamentos gananciosos e individualistas” é subestimar sua ética (SEN, 1999). A ideia subsequente é que mercados eficientes são baseados em instituições sólidas e na confiança mútua, e que a liberdade de perseguir desejos e aspirações de modo racional e inteligente pode ser um grande fator de aprimoramento moral (como opção ao cerceamento das liberdades por regimes tirânicos ou ditatoriais, por exemplo). Contudo, ainda segundo Sen na mesma passagem, ‘apesar de sua eficácia’, a ética capitalista é severamente limitada em alguns aspectos, como a desigualdade econômica, a proteção ambiental e a necessidade de cooperação de agentes que operam fora do mercado. (SEN, 1999 p.262-3). O autor de fato não entra em maiores detalhes e não justifica as origens dessa ‘ética capitalista’ nesta obra.
Em sua investigação acerca das relações entre a Teoria da Alienação de Marx e a Abordagem das Capacidades, Chooback (2010, p.87-9) conclui que Marx, Sen e Nussbaum são claramente motivados pelo mesmo desejo de melhorar a qualidade de vida, o bem-estar e a liberdade humana. Marx condena o capitalismo nas bases de que este impede a realização do potencial humano como agentes ativos, em busca de nossos objetivos de vida, que é justamente o cerne do escopo da abordagem proposta por Sen e Nussbaum. Embora Sen e Nussbaum não condenem diretamente o modo capitalista de produção em suas abordagens metodológicas, por certo estão cientes que as mazelas da fome, desnutrição, do desastre ambiental e da exploração desumana do trabalho são decorrentes de visões, e de modos de vida em que o ser humano (assim como seu trabalho) é visto como meio, e não como, ele mesmo, o próprio fim do desenvolvimento. Em efeito, como espaço normativo de avaliações sociais, a AC não necessariamente apresenta temas substantivos em seu bojo, permitindo análises críticas a partir de seu espaço avaliativo.
A AC pode se beneficiar bastante das críticas tecidas por Dean (2009) com respeito ao foco de análise individualista em detrimento de estruturas coletivas de cooperação e redes de solidariedade. O tema foi abordado por Séverine Deneulin
trabalho escravo e forçado como um grande entreva ao desenvolvimento, assim como trabalho infantil e, em muitos países, a proibição mulher trabalhar fora de casa. (SEN, 1999 p.113-5).
(2008), que aponta que o foco de análise da AC exclusivamente no indivíduo, sem considerar as estruturas relacionais de convivência (termo emprestado de Paul Ricoeur), fragmenta a análise e, apesar de suas diversas vantagens metodológicas, desconsidera a construção de valores coletivos, que também constituem capacidades individuais. Esta opção metodológica influencia o juízo de valor, que por sua vez influencia os entendimentos distintos que cada agrupamento humano tem acerca dos fins do desenvolvimento. (DENEULIN, 2008). Os motivos expostos por Deneulin (2008, p.122) levam a crer que há fortes razões para inclusão destas estruturas de convivência de modo explícito na base informacional da avaliação da qualidade de vida e do desenvolvimento.
É importante lembrar que o desenvolvimento do marco das capacidades é fruto do processo de desconstrução crítica da Welfare Economics na medida em que Sen passa a contestar gradualmente sua inviabilidade prática e conceitual devido as grandes distorções que o modelo impinge a realidade social: no processo de simplificação e sistematização, a teoria neoclássica excluiu aspectos da escolha humana do universo de informações, criando assim uma representação distorcida de bem-estar.
Um segundo alicerce nesse processo de concepção do arcabouço teórico das capacidades é a incorporação da racionalidade ética, buscando reintegrar elementos de filosofia moral na teoria da justiça social em um continuum transversal e interdisciplinar entre a economia, a política e a filosofia. É neste ponto que Sen retorna as bases da filosofia ocidental, remontando à Ética de Aristóteles, à filosofia moral de Adam Smith e ao utilitarismo clássico de John Stuart Mill. No interior deste processo de alargamento da base informacional da economia, Sen e Nussbaum incorporam também certa preocupação de Marx com os objetivos últimos do desenvolvimento em torno da plena realização do ser humano. No entanto, o fato de Sen e Nussbaum não terem incorporado qualquer menção à teoria do valor trabalho e à teoria da alienação de Marx constitui hoje fonte de suas principais críticas.
Ben Fine (2001) afirma que a extensão da contribuição de Sen depende ultimamente do diálogo critico com sua obra, ao invés de permitir que esta seja capturada e transformada pela ‘funesta’ ciência, seja simplificada e utilizada como retórica do desenvolvimento para determinados grupos sociais em detrimento do
desenvolvimento como liberdade para as coletividades
.
Ao alargar o escopo informacional da teoria econômica neoclássica, Sen incorpora a temática da qualidade de vida, desigualdade e pobreza, propondo que o ponto focal do desenvolvimento deve ser sim a pessoa e seu direito de ter opções de vida. Os arranjos sociais e instituições são considerados na análise deste autor, como espaços capazes de construir condições, que possibilitem e favoreçam o aflorar das capacidades consideradas válidas e desejadas por meio de um processo de racionalidade prática individual e de escrutínio e deliberação pública. Nesse sentido, é possível afirmar que a contribuição da AC depende essencialmente de sua capacidade de incorporar críticas e refinar sua pesquisa e métodos em torno do desenvolvimento como fim do ser humano. A expansão das capabilities, ou liberdades individuais, deve ocorrer então num grau possível, intermediário, e não abusivo de subscrição à lógica do capital, valorizando o potencial humano de autorrealização.
O valor heurístico da AC pode também ser justificado na medida em que novas ferramentas para a avaliação de diagnóstico da pobreza são desenvolvidas em termos da expansão dos diversos ‘poder ser’ e ‘poder fazer’ constituintes da vida humana. Nesse sentido, as contribuições essenciais de Sen, Nussbaum e Alkire, inter alia, apontam para o desenvolvimento de ferramentas intuitivas como índices de desenvolvimento e metodologias dedicados a mensuração, análise e comparação da expansão ou retração das capacidades humanas. Estas ferramentas, embora também possam ser usadas para medir a qualidade de vida em países ricos, são especialmente úteis para o estudo da pobreza, pois abrem caminho para uma compreensão mais ampla entre o nível de correlação de seus determinantes em múltiplas dimensões. Nas próximas seções discutiremos os principais desafios à operacionalização dos conceitos centrais da Abordagem das Capacidades por meio da análise da ferramenta desenvolvida por Alkire e Foster.