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Os vínculos entre o empreendedorismo rural e o empreendedorismo solidário foram identificados a partir da reflexão empírica do campo como uma alternativa ao diálogo que esse fenômeno estabeleceu. Para entender esse vínculo, discutem-se, em um primeiro momento, alguns estudos empíricos realizados em outros contextos envolvendo o empreendedorismo rural e, em seguida, apresenta-se o cenário teórico do empreendedorismo solidário, ampliando a compreensão do fenômeno e revelando a inovação conceitual e a principal contribuição teórico-empírica desta tese.

6.2.1 Especificidades do empreendedorismo rural para o contexto estudado

Antes de abordar o empreendedorismo solidário no contexto rural, considerou-se pertinente uma reflexão e a busca de estudos empíricos sobre o empreendedorismo rural em nível nacional e internacional, dada a pertinência do tema e a necessidade de refletir sobre ele a partir dos resultados do contexto estudado.

Um estudo britânico sobre o fenômeno no País de Gales apontou para a necessidade de fatores externos para o desenvolvimento das pequenas produções rurais, em decorrência de seu baixo rendimento, focando na criação de novos centros coletivos produtivos, assemelhando-se a uma noção próxima de espaços comunitários (LOVE; MIDMORE; HENLEY, 2006).

Há um conceito geral adotado para definir o empreendedorismo rural, como o descrito por Antunes, Flores e Ries (2006, p.19), que trata da "necessidade de controlar e gerenciar um número cada vez maior de atividades que podem ser desenvolvidas dentro de uma

propriedade do setor agropecuário”. Autores como Chaves et al. (2010), Cella e Peres (2002),

Marques e Silva (2014) vinculam o empreendedorismo rural ao agronegócio, desta forma, tais pesquisas não estão relacionadas ao contexto pesquisado no presente trabalho, já que o cerne deste está na atuação do pequeno produtor rural.

No âmbito rural colombiano, as plantações rurais observadas possuem forte intenção local, sendo construídas em uma perspectiva bairrista, sem pretensões de expansão. O objetivo dos empreendedores rurais era preponderantemente voltado à manutenção e à sustentabilidade dos seus negócios (ARBOLEDA; ZABALA, 2011). Um estudo italiano desenvolvido sobre cooperativas sociais no meio rural indica que a singularidade social da cooperativa está enraizada nos membros, no compromisso de garantir a satisfação das suas necessidades e aspirações, e, acima de tudo, na obrigação de trabalhar visando o longo prazo para o bem-estar da comunidade local (RIVA: GARAVAGLIA, 2016).

Ainda sobre uma perspectiva mais ampliada do empreendedorismo na Europa Central, Lang, Flink e Kliber (2013) indicam que o empreendedorismo rural deve reconhecer as diferentes histórias locais, culturas e normas, bem como as variações nos significados subjetivos. O fenômeno possui um padrão o qual se caracteriza: a) pela identidade com o local e b) pelas normas baseadas em princípios de coletivismo e de solidarismo.

Para Dickes e Robinson (2014), os empreendimentos rurais de pequeno porte possuem uma perspectiva coletiva, em que a vizinhança colabora mutualmente para o desenvolvimento. Além disso, estas formas de organização social merecem apoio institucional para inserção de seus produtos no mercado, tendo em vista a acirrada concorrência dos grandes produtores rurais.

A literatura estrangeira consultada revela pontos em comum com o contexto pesquisado nesta tese, o sertão da Paraíba, em relação ao Empreendedorismo Rural, não quanto a uma perspectiva de similaridade histórica ou econômica, mas quanto aos fatores distintivos do fenômeno: a) a necessidade de apoio institucional, b) a perspectiva de

sustentabilidade sem a necessidade de expansão em larga escala, c) o forte vínculo à noção de coletivismo e solidarismo local. Estes pontos comuns são de grande relevância para o estabelecimento dos vínculos com o panorama solidário do fenômeno em tela.

6.2.2 Especificidades do empreendedorismo solidário para o contexto estudado

O conceito de Empreendedorismo solidário leva em consideração diversas experiências econômicas em grupos sociais. Entretanto, estas experiências não se findam no eixo econômico, pois também são geradoras de capital social. Tais experiências caracterizam- se por algum grau de socialização dos meios empregados na atividade econômica, por dispositivos de cooperação no trabalho, pela gestão democrática e participativa e por envolvimentos em ações mais amplas, a partir do entorno dos empreendimentos. Desta forma complementa-se aqui o quadro 1 das abordagens teóricas sobre o empreendedorismo social com a manifestação em tela.

Quadro 29 – Complementação das perspectivas teóricas com o ESR.

PERSPECTIVA DO EMPREENDEDORISMO SOCIAL ABORDAGEM/CARACTERIZAÇÃO AUTORES PRINCIPAIS Empreendedorismo social

 Criação de valor social;

 Geração de bem-estar para as comunidades;

 Transformação social;  Mudança social;

 Apoio de grupos, redes, e alianças entre organizações;  Resolução/amenização de problemas sociais. Galera e Bozarga, 2009; Nassif, Prando e Consentino, 2010; Noruzi, Westover e Rahimi, 2010; Matitz e Schelemm, 2012; Bozarga, Depedri e Galera, 2012; Dees, 1998. Empresas sociais

 Atuação em áreas críticas na sociedade;

 Missão de caráter social;  Grupos de cidadãos;

 Diminuição de riscos econômicos;  Novas formas de relacionamento

com o Estado. Dess, 1998; Kerlin, 2006; Defourny e Nyssens, 2010; Bronzo, Teodózio e Rocha, 2012; Barki, 2015. Negócios sociais

 Venda de produtos/serviços como atividade principal;

 Propósito social;

 Melhoria das condições de vida na sociedade;  Autossustentados. Defourny e Nyssens, 2010; Yunus, Moingeon e Lehmann-Ortega, 2010.

 Acesso ao consumo;

 Geração de renda. Austin, 2002; Reficco, 2011.

Empreendedorismo solidário no contexto rural (ESR)

 práticas de reciprocidade na busca da viabilidade econômica;

 articulação associativa com agentes públicos;  convergências entre empreendedorismo e solidarismo;  desenvolvimento de papéis na comunidade. Gaiger, correa (2011); Lima (2010); Love; Midmore; Henley, (2006); Dickes; Robinson, (2014); Lang; Fink; Kibler, (2014); Korsgaard; Muller; Tanvig, (2015) Fonte: elaborado pelo autor (2017)

De acordo com Gaiger e Correa (2011), são traços singulares do empreendedorismo solidário: a) práticas de reciprocidade na busca da viabilidade econômica, b) articulação associativa com agentes públicos, c) convergências entre empreendedorismo e solidarismo, e d) desenvolvimento de papéis na comunidade.

As práticas de reciprocidade envolvem processos conjuntos de geração de renda em que todos os participantes recebem ganhos semelhantes e proporcionais ao esforço despendido nas ações de produção. Neste ponto é recomendado que as associações estabeleçam, coletivamente, limites para que todos os participantes tenham a oportunidade de produzir e comercializar seus produtos.

A articulação associativa com agentes públicos remete-se à parceria genuína com representantes públicos, como as prefeituras, o Estado ou o governo, ou mesmo órgãos vinculados a ele. No campo empírico investigado, estas constatações ficaram evidentes a partir da interação ambígua de agentes públicos em relação com as associações, visto que, se por um lado elas auxiliaram no desenvolvimento social, como em Pombal por exemplo, ainda são limitadoras por não proporcionar capacitações no âmbito da elaboração de projetos.

Em uma relação de cooperação entre associação e Estado, ambos oferecem contrapartidas de acordo com suas competências para o desenvolvimento local. O Cooperar, por exemplo, ofereceu recursos financeiros para a construção dos espaços comunitários de produção. As associações, por sua vez, mobilizaram-se para construir os espaços e garantir, dentre outros aspectos, a melhoria da produtividade. A priori, os agentes públicos devem oferecer recursos, estrutura e condições ambientais viáveis para que a associação possa melhorar a produção, a geração de renda e a sua sobrevivência ao longo do tempo. A partir de um maior investimento cognitivo das gerações futuras, a associação terá condições de diminuir os laços de dependência, em busca de uma autogestão. De acordo com Lima (2010), a autogestão deve expressar valores relacionados a um desenvolvimento solidário entre os sujeitos pertencentes à comunidade. A convergência entre empreendedorismo e solidarismo

Figura 6 - Continuum do Empreendedorismo inserindo a perspectiva rural e a solidária

ocorre pela combinação de quatro elementos distintos: no âmbito do empreendedorismo - eficiência (capacidade produtiva) e viabilidade sustentável; e em relação ao solidarismo - autogestão (participação coletiva) e cooperação social (compromisso social).

Por fim, o desenvolvimento de papéis na comunidade se refere à criação ou aperfeiçoamento do saber produtivo dos sujeitos na comunidade, que participam direta ou indiretamente da associação/cooperativa. Percebe-se que tal organização possui como propósito não apenas o desenvolvimento dos participantes em si, mas indiretamente ela proporciona melhorias para o bem-estar dos indivíduos da comunidade onde está inserida.

Os elementos peculiares do empreendedorismo solidário e do empreendedorismo rural foram percebidos no contexto investigado, seja como características presentes na comunidade ou como aspectos de importância para o desenvolvimento do empreendedorismo social nas comunidades. A Figura 16, já proposta no referencial teórico, a partir da investigação realizada, incorpora o empreendedorismo solidário e o empreendedorismo rural, pois eles complementam o continuum sobre o fenômeno estudado.

Fonte: Elaborado pelo autor (2016).

Analisando o continumm proposto na fundamentação teórica, e pensando na inserção do empreendedorismo solidário nesta relação, chegou-se ao entendimento de que este fenômeno está mais próximo da dimensão social do que o próprio modelo de empresa social,

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visto que a sua peculiaridade solidária traz um novo significado se comparado aos demais elementos da empresa social.

Para que a perspectiva rural do fenômeno em tela fosse inserida no continuum elaborado, foi necessária sua divisão em duas perspectivas: a local e a voltada ao agronegócio. Uma delas foi considerada menos próxima à dimensão social, uma vez que a literatura nacional apresenta uma discussão mais capitalista, voltada ao âmbito do agronegócio em larga escala. A outra, com uma perspectiva mais local, se coloca à frente da visão de empresa social, pois há uma literatura estrangeira cuja discussão está pautada em elementos mais próximos de uma produção de caráter solidário (LOVE; MIDMORE; HENLEY, 2006; DICKES; ROBINSON, 2014; LANG; FINK; KIBLER, 2014; KORSGAARD; MULLER; TANVIG, 2015).

Analisando ambas as perspectivas e correlacionando-as com o contexto empírico estudado, percebeu-se a necessidade do estabelecimento de uma terminologia que compatibilizasse todas estas relações teóricas apontadas no estudo. Não se pode apenas intitular o fenômeno estudado como empreendedorismo solidário, ou como empreendedorismo rural (ainda que numa perspectiva local), visto a pertinência das categorias de empresa social no estudo e os mediadores de tensão identificados.

Desta forma, considera-se que o fenômeno em tela pode ser entendido como