De onde viemos? De que lugar, inicialmente, apareceram os homens e as mulheres? Como a evolução descreve essa fonte inspiradora de tanto conhecimento que os seres humanos possuem? Será que viemos dos macacos? Onde constituímos nossas raízes familiares? A cultura interfere nas nossas tomadas de decisões?
Para esses questionamentos não temos, talvez, repostas a contento, todavia, em alguns deles é possível trazer para nós algumas reflexões sobre a existência do homem e a sua relação recíproca com outros da mesma espécie. Aqui, não quero me aprofundar em questões do ponto de vista filosófico, mas, o que desejo é que esses questionamentos nos façam pensar um pouco sobre ancestralidade humana, sobre a evolução de nossa espécie e ainda, sobre a questão da necessidade da própria essência humana se debruçar sobre o como se deu a construção cultural e suas raízes, remetendo à noção de grupo, de pessoas, de relações, de interações, dentre outros eixos.
Segundo informações da evolução histórica e estudos da antropologia, a África foi o espaço geográfico onde os primeiros vestígios dos homens, denominados de primatas, foram encontrados. Com o passar dos anos, esse primata, por circunstâncias específicas de sobrevivência, foi crescendo e ocupando outros continentes no planeta terra. Esse alargamento se deu, sobremaneira, nos espaços que apresentavam água doce – os rios, com o objetivo da produção dos seus próprios alimentos. Logo, exemplos desses rios foram: o rio Nilo no Egito, o Ganges na Índia, o Tibre pela Europa e depois foram se capilarizando por outros continentes até chegarem às Américas.
O ser humano, ao longo do processo histórico, sempre mostrou capacidade de adaptação a seu meio, quer através do clima, quer através da interação com outros diversos
povos. O que nos mostra que ele, corriqueiramente, suplantou barreiras e limitações, com o objetivo de primar por sua sobrevivência dando sentido à vida. Mostrou, a todo o momento, sua capacidade de superação de desafios: deserto, neve, calor, animais violentos, montanhas altas, rochas, povos diversificados. Foi caçando, plantando, cultivando e colhendo, que esse ser humano foi se aperfeiçoando em suas funções e habilidades, até que chegamos, recentemente, ao processo de comercialização e de industrialização.
O ser humano dentro dessa leitura já mostrava, a todo instante, sua força interior de descobridor, desbravador, lutador, corajoso guerreiro, confiante precursor e aprendiz. Ele nascia já com esse arsenal de capacidade de busca, de criação e de sobrevivência. Muitos morreram no percurso, mas, os que sobreviveram trouxeram em sua existência a capacidade de se fazer presente naquele momento histórico na busca constante por se manter vivo.
Em cada região que o ser humano foi se adaptando as diferenças climáticas, localização espacial e ofertas ambientais – calor, frio, planícies, planaltos, água, arbustos, plantas, terra, bichos, vegetais etc. – provocaram no corpo do homem e da mulher a necessidade de criar também uma estrutura física que pudesse melhor interagir com esse meio, pois, novamente enfatizo, ele precisava sobreviver.
Neste contexto, então, na África, surgiram pessoas com suas características fenotípicas específicas: nariz alargado, cabelos crespos e pele escura. Na Europa, por outro lado, as pessoas apresentavam o nariz mais estreito, cabelos lisos e pele clara. Já na Ásia, as pessoas se destacaram com os olhos bem fechados, pele clara, corpo com estatura mediana e cabelos escuros. Ou seja, em cada região do planeta terra os seres humanos, carregados com sua genética, foram firmemente e, em total interação permanente e ininterrupta, se constituindo em virtude de seu meio ambiente.
Com o passar do tempo, os indivíduos foram se organizando naquilo que conhecemos hoje, como as raças e etnias. É possível visualizar, dentro dessa evolução, que todas as raças e etnias foram se aperfeiçoando em virtude do meio. Não houve uma supervalorização de uma raça em detrimento da outra. O foco central era a expansão dos seres humanos por outras terras e sua sobrevivência. O que se prezava, ai então, eram as diferenças entre as pessoas em virtude de serem seus espaços geográficos distintos.
Concomitantemente, assim, podemos dizer que os seres humanos são herdeiros de múltiplas experiências ancestrais que podem promover saúde, plenitude, crescimento, prazer e valorização para si mesmo. Em outros casos, podem repercutir doenças físicas e/ou mentais. Quando não se consegue expandir as potencialidades que cada pessoa possui, naturalmente, é
porque essa ficou presa a algum episódio que ocorreu no passado e que traz para os dias atuais a sua expressão em desarmonia.
De forma inconsciente, pode ocorrer a evidência de comportamentos disfuncionais, como dificuldades de enfrentar as problemáticas da vida, exteriorização de baixo limiar à frustração e fragilidade nas tomadas de decisões. Isso não significa dizer que se tem que viver do passado, mas, quer dizer que o passado diz quem somos hoje (ELIAS, 1997). É a ele que devemos ser gratos pelo que nos tornamos.
Segundo Maslow (1971), todos os seres humanos buscam, constantemente, pela “autorrealização”. Ele considerava que o ser humano possuía uma tendência inata e marcadamente saudável e positiva. Também, enfatizava a capacidade intrínseca da pessoa para inclinar-se rumo a um crescimento construtivo, à gentileza, à generosidade e ao amor. Os seres humanos procuram rotineiramente pela felicidade, pelo bem estar, pela satisfação, ou seja, almejam por se sentirem plenos a todo o instante de suas vidas. Maslow (1971), fazendo referência a sua descoberta da Hierarquia das Necessidades juntamente com a sua Teoria da Motivação, coloca uma íntima relação com a formação da personalidade, e conclui que, quanto mais o homem satisfaz as próprias necessidades instintivas, atua e desenvolve as próprias potencialidades, mais cria condições para ser feliz.
Diferentemente dessa sensação de buscar pela felicidade e o bem estar pleno, as pessoas que não apresentam as necessidades de valorizações subjetivas, se encontram num estado de desequilíbrio ou desgaste emocional acentuado, chegando à maior parte das vezes, a desenvolver quadros depressivos, ansiosos e fóbicos. No Brasil, 9,8% dos brasileiros apresentam quadro depressivo e mais de 5% da população mundial são acometidos pela depressão, o equivalente a 350 milhões de pessoas – muitas dessas pessoas nem sabem disso! Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2030, “a depressão já será a doença mais comum, à frente de problemas cardíacos e do câncer. Vive-se hoje uma espécie de epidemia de mal-estar. Há mais pessoas deprimidas do que nunca. Ironicamente, justo em uma época em que a busca pela felicidade é algo quase obrigatório” (apud CASTRO, 2013, p. 46).
Por que será que esses quadros psicossomáticos, em especial, a depressão, estão se agravando tanto nos últimos tempos? Como o nosso humor está sob constante influência do meio social e fazendo uma leitura histórica evolucionista, consideramos que o nosso cérebro que se desenvolveu há 200 anos, não requeria, naquele período, o exercício de tomadas de decisões tão complexas e urgentes como as de agora.
Ainda, segundo Castro (2013), esse cérebro não possuía um arsenal de opções, escolhas e decisões a serem tomadas. O sistema o qual se fazia parte era bem menor e mais conciso. Na atualidade, isso tomou outra dimensão. A complexidade de fenômenos que nos circunda ampliou-se. As escolhas, as tomadas de decisões, as subjetividades e objetividades são outras, totalmente expandidas. O cérebro, apesar de ser o órgão mais bem desenvolvido do ser humano, aparenta ainda, não estar adaptado a tais circunstâncias da vida presente. Talvez, aqui, esteja a explicação de que só o cérebro não é capaz de promover uma vida plena e satisfeita para o ser humano. Nasce aqui, a idéia de que é a inter-relação com outros elementos o que promove uma saúde mental a contento.
Outro aspecto que corrobora para o aumento percentual da depressão e de outros sofrimentos psíquicos é a escassez, por parte de nós, seres humanos, do exercício cotidiano da cooperação, da colaboração e do espírito de solidariedade em grupo. O “espírito” da competitividade está cada vez mais ocupando espaço de destaque e sendo absorvido integralmente nas mentes humanas. Esse “espírito” de competitividade não corresponde a uma característica natural do ser humano. É o que bem coloca Maturana (2002) quando afirma que os seres estão vivendo, hoje, numa cultura que promove a competitividade. Porém, os seres humanos em sua essência não são seres competitivos, mas, seres colaboradores. Atentando para isso, Maturana (2002, p.13) afirma:
A competição sadia não existe. A competição é um fenômeno cultural e humano, e não constitutivo do biológico. Como fenômeno humano, a competição se constitui na negação do outro. Observem as emoções envolvidas nas competições esportivas. Nelas não existe a convivência sadia, porque a vitória de um surge da derrota do outro. O mais grave é que, sob o discurso que valoriza a competição como um bem social, não se vê a emoção que constitui a práxis do competir, que é a que constitui as ações que negam o outro.
Dentro de uma leitura transgeracional, cabe ressaltar o porquê que está acontecendo esse desgaste emocional. É o que é chamado de aprisionamento do herdeiro, pois, faz com que a pessoa se paralise em suas ações (SOUZA; CARVALHO, 2010).
Freud, em seus escritos no período de 1913/1914, já sinalizava que não havia como as gerações passadas esconderem segredos aos seus descendentes. Os aspectos psíquicos de maior relevância – o legado – seriam transmitidos independentemente de sua vontade. Isso acontece para que as vozes das gerações não adormeçam e morram. As marcas indeléveis, em especial, as situações traumáticas, ou as que provocaram sentimentos angustiantes ou de menos valia, aparecerão de uma forma ou de outra na geração subsequente. Quanto mais trabalhadas forem as questões vinculativas familiares da vida, mais saudáveis elas se tornarão.
Porque, de um jeito ou de outro, elas aparecerão, seja para continuar emitindo os comportamentos disfuncionais, sejam para serem trabalhadas, refeitas e “ressignificadas”. Kaes (2001, p. 17) alerta:
Nada do que foi retido poderá permanecer totalmente inacessível para a geração seguinte, ou para aquela que a esta se segue [...]. Deixará traços pelo menos em sintomas que continuarão a ligar as gerações entre si, num sofrimento cuja motivação, mantida, lhes será desconhecida.
Cito um exemplo trágico, porém, que retrata a importância do resgate fiel da história da vida da pessoa com vistas a torná-la forte para se desprender das amarras do passado.
Recentemente, no ano de 2013, foi lançado um livro intitulado Holocausto Brasileiro – genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil, escrito pela jornalista Daniela Arbex, em formato de documentário com impactantes imagens fotografadas. O prefácio do livro foi escrito por outra jornalista de destaque, Eliane Brum. Este livro trata de internações psiquiátricas que foram feitas de forma equivocada no Brasil com pessoas que não expunham transtornos mentais, mas, que apresentavam outros tipos de “diagnóstico” que a sociedade tanto discriminava: prostituição, epilepsia, homossexualidade, gravidez precoce de meninas pobres e solteiras, insubmissão de esposas aos maridos, dentre outros. Tais enclausuramentos ocorreram no Hospital Colônia, ao longo do século XX, na cidade de Barbacena, Estado de Minas Gerais.
Essas pessoas marginalizadas, discriminadas, desprezadas e que não apresentavam quadro clínico de transtorno mental, eram enviadas para um lugar inóspito, longínquo, desumano, similar a um cárcere, que não ofertava tratamento adequado para as pessoas que apresentavam transtorno – imagine, então, para as pessoas que não os tinham – como forma de sentença de morte em vida. Estas pessoas sofriam maus tratos. Foi assim, com milhões de pessoas no Estado de Minas Gerais, mas também, em muitos outros estados brasileiros e mundo afora. A sociedade renegou-lhes o direito à vida, à dignidade, à liberdade e a ser sujeito.
As pessoas quando adentravam aquele manicômio eram despidas do seu passado, da sua história e de sua identidade, eram consideradas indigentes – principalmente, aquelas que não pagavam por sua estadia eterna. “Sem documentos, muitas pacientes da Colônia eram rebatizadas pelos funcionários. Perdiam o nome de nascimento, sua história original e sua referência, como se tivesse aparecido no mundo sem alguém que as parisse” (ARBEX, 2013, p. 30). Essas pessoas recebiam suas sentenças de criminosas sem terem cometido nenhum
crime. Muitas dessas pessoas passaram 50 anos presas nos porões da loucura. E tudo que acontecia naquele espaço, entre aquelas paredes, ficava marcado nas memórias daquelas pessoas e impregnado em suas almas.
Imagine mais de 60 mil pessoas mortas nesta Colônia. Gerações e gerações de vidas humanas foram aniquiladas, violadas, violentadas, despedaçadas dentro dos muros da Colônia. Eliane Brum acrescenta o objetivo da publicação da obra:
Daniela Arbex devolve aos corpos sem história, que eram os corpos dos “loucos”, uma história que fala deles, mas fala mais de nós, os ditos “normais”. Durante décadas, as pessoas eram enfiadas – em geral compulsoriamente – dentro de um vagão de trem que as descarregava na Colônia. Lá suas roupas eram arrancadas, seus cabelos raspados e, seus nomes, apagados. Nus no corpo e na identidade, a humanidade sequestrada, homens, mulheres e até mesmo crianças viravam "Ignorados de Tal" (BRUM, 2013, p. s/p).
Ao longo da leitura, a jornalista – autora Arbex (2013) cita, um caso de uma menina chamada Débora Aparecida Soares, que foi uma, dentre outros 30 bebês que foram roubados de suas mães dentro da própria Colônia – também chamado de hospício ou manicômio, veja abaixo a Figura 1).
FIGURA 1 – Interna do Hospital Psiquiátrico do município de Barbacena/MG
Foto 01: Luiz Alfredo/FUNDAC – extraído do artigo de Eliane Brum na Revista Época (2013).
Muitas das mulheres que estavam ali dentro, nem sempre, apresentavam diagnóstico de transtorno mental. Em alguns casos, foram trancafiadas ali dentro pela justificativa de
terem envergonhado seus familiares porque haviam perdido sua virgindade (década de 1960). Algumas delas, só depois, descobriam que estavam grávidas. Para proteger seu filho, algumas passavam fezes encima da barriga, para que ninguém pudesse se aproximar delas e tocá-las. A interna Sônia Maria da Costa foi uma dessas mães que passou as fezes no próprio corpo como forma de repelente humano. “Foi a única maneira que encontrei de ninguém machucar meu neném. Suja deste jeito, nenhum funcionário vai ter a coragem de encostar a mão em mim. Assim, protejo meu filho que está na minha barriga” (ARBEX, 2013, p. 53 – fala da mãe).
Contudo, quando os seus bebês nasciam, o segredo era revelado imediatamente e, elas, não podiam fazer mais nada, a não ser, gritar (com seu corpo e sua alma) para os quatro ventos quando chegara essa hora “trágica”27 de retirar, à força, seus filhos/as de seus braços e doados a pessoas que nem se quer sabiam sua origem.
Foi o que aconteceu com a mãe de Débora Aparecida Soares, Sueli Aparecida Resende. Débora foi “sequestrada” dos braços de sua mãe, assim que nasceu. Porém, todos os anos, quando completara mais um ano de vida de sua filha, Sueli, perguntava aos funcionários daquela instituição, por onde estava sua filha e dizia: – “Uma mãe nunca se esquece da filha, mesmo quando não está com ela”. Sueli procurou Débora a vida inteira.
Sonhava com o dia em que poderia tocar a menina e ver de perto um pedaço seu. Os prontuários do hospital revelam que, nos vinte e dois anos seguintes ao parto, ela se lembrou de todos os aniversários da filha, rezando por ela com o terço rosa. – No mês que vem, minha filha vai fazer dezoito anos, doutora. Vim aqui dizer que eu gostaria de estar em casa nesta data. O pedido foi dirigido à assistente social da instituição em 2002, quando Sueli completava trinta e um anos de internação no Colônia. A proximidade do aniversário de Débora sempre foi acompanhada de choro e crises registradas nos prontuários (ARBEX, 2013, p. 124).
No caso específico de Débora, ela foi adotada por uma funcionária do próprio hospício. Não tendo conhecimento do que havia lhe ocorrido no passado, ela sentia fortemente e de maneira inconsciente, o não pertencimento a família adotiva, que era formada pela mãe, pai e o irmão. Ela, constantemente, tinha a sensação de não pertencimento nesta família. Nutria um amor pelo pai e pelo irmão, porém com a mãe adotiva, mantinha uma relação bastante conflituosa. Chegou a tentar suicídio. Não se sentia feliz e de bem estar consigo mesma. Ela sentia que algo estava errado em sua vida. Sentia-se aprisionada em seu mundo interior, de tal forma, que, desejava a morte como alívio para a sua falta de ar e mal- estar.
27 Momento que era para ser mágico, transcendente, belo, passa a se tornar trágico, porque ocorrerá ai mais um sofrimento, a retirada do filho de uma mãe desejante de vida e de liberdade.
Anos depois, quando já se tornara adulta, ela foi à busca da veracidade dos fatos e, então, descobriu sua verdadeira história de vida, toda a origem de seu nascimento e quem era sua mãe biológica. Instintivamente, a universitária do curso de letras, “já amava a mãe que ainda não conhecia. Estava embalada pela certeza de que a mulher que a pariu não a havia abandonado, mas foi impedida de ficar com ela. Nem o fato de ser filha da loucura a perturbou” (ARBEX, 2013, p. 120). Débora não sentia vergonha da mãe, quando descobriu suas verdadeiras raízes familiares. Esse episódio do reencontro de Débora com sua história verdadeira marca um dos pontos mais tocantes do livro. O corpo, a alma, a mente, as lembranças, as imagens e as emoções de Débora proporcionaram-lhe um sentimento de profundo reencontro com a mãe. Passado, presente e futuro se entrelaçaram e tudo gerou um sentido e uma “ressignificação” para Débora. A partir deste momento, então, Débora conseguiu enxergar sentido e adquiriu forças para reconstruir seus projetos de vida.
Histórias, como estas, mostram a exteriorização do não dito na vida das pessoas. A história ancestral falada, dita, expressa, valorizada e afirmada, traz significações inúmeras. Presumimos, assim, que a transmissão dos fatos e episódios é passada para os membros das famílias futuras, mesmo, para aquele que não teve convivência diária.
A experiência de Débora demonstra também que, existe uma interligação harmônica entre o corpo físico, o emocional, o intelecto, a mente e a alma. Reforça a ideia do que bem coloca Damásio (2012), sobre a interconexão existente entre esses elementos. Fato este, visualizado, quando ela tentou o suicídio, os episódios dos quadros depressivos.
Quando a alma está ferida por um trauma que é transmitido por heranças transgeracionais, uma das maneiras dele eclodir é por meio do aparecimento de doenças físicas. A depressão, com suas sucessivas tentativas de suicídio, foi a expressão transgeracional de padrões comportamentais e emocionais de situações traumáticas que ocorreu dentro do sistema familiar, no episódio da Débora. Caso ela não encontrasse respostas para explicar seus sintomas depressivos, poderia desencadear, efetivamente, um transtorno mental grave que a impossibilitaria de desempenhar suas atividades da vida diária de forma satisfatória.
A tomada de consciência das tramas, dos sigilos, dos sofrimentos e, também, das alegrias e êxitos familiares tem fundamental importância no caminhar da vida das pessoas. Pois, toda memória ancestral está registrada nas células que são transmitidas de geração a geração. O sistema familiar é poderoso em suas conexões, mesmo, passado anos ou décadas, eles se afirmam no presente (KAES, 2001; EIGUER, 2007).
Quando as histórias traumáticas não são compreendidas, aceitas, interpretadas e elaboradas, passam para as gerações subsequentes de maneira desestruturada, ou pode acontecer na geração atual, o aparecimento de algum sintoma físico ou uma patologia crônica. É como se o aparelho psíquico não comportasse tamanhas informações, e então, ele transbordasse de alguma maneira. É o que Souza e Carvalho (2010) chamam de um transbordamento emocional. Se trabalhado, esse conteúdo psíquico e passado passa à geração posterior já como um padrão saudável.