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Vazgeçmek mümkün mü?

A expressão Idade Média aparece com os humanistas do século XVII, que encaravam sua época como época do Renascimento e chamavam o intervalo entre tal época e a época clássica de Idade Média, medium aovum.117 Como divisão histórica mais adotada, temos a queda do Império Romano do Ocidente em 476 como ponto de início da Idade Média e a queda do Império Romano Oriental, ou Bizantino, em 1453 como marco de seu fim e início da era moderna.

Essa periodização tradicional entre Idade Média e Idade Moderna em 1453 corresponde a importantes mudanças, sobretudo quanto à fragmentação da unidade da Igreja medieval, a ascensão do absolutismo e as grandes descobertas, entretanto a continuidade entre a Idade Média tardia e a época moderna (até meados dos séc. XVIII) não deve ser ignorada.

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A Revolução Industrial trouxe as bases para a produção em massa, estabelecendo uma sociedade técnica e industrial em contraposição àquela medieval, a qual podemos denominar pré-industrial, de sorte a perfazer o processo de mudança do modo produtivo, conforme veremos no item 3.5 abaixo. Por fim, o Iluminismo trouxe um novo modo de pensar, que rompe com os paradigmas e estruturas sociais anteriores.

A propriedade, foco do presente estudo, altera-se também nesta periodicidade, assumindo tratamento diverso, sobretudo após o século XVIII, cujo divisor de águas podemos estabelecer em 3 de novembro de 1789, quando a Assembleia Nacional Francesa decretou que extinguia por completo o regime feudal e os privilégios dele decorrentes. 119

Dentro desta ótica, estabeleceremos, para o presente trabalho, uma divisão histórica distinta da tradicional. Realizaremos, neste capítulo, os apontamentos históricos sobre a propriedade e o tratamento que lhe foi dado conforme o ambiente político, econômico e social no período referente ao início da Idade Média, século V, até o fim do sistema feudal, cujo

117 MANFRED, A. Z. Do feudalismo ao capitalismo. Trad. Maria Luiza Borges. 3ª ed. São Paulo: Global, 1987, p. 7.

118 CAENEGEM, R.C. van. Uma Introdução Histórica ao Direito Privado. Trad. Carlos Eduardo Machado. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p. 35.

119 TIGAR, Michael E.; LEVY, Madeleine R. O direito e a ascensão do capitalismo. Trad. Ruy Jungmann. Rio de Janeiro: Zahar, 1978, p. 240.

marco formal consiste no referido 3 de novembro de 1789. 120 No capítulo seguinte (item 4), trabalharemos os fundamentos filosóficos que geraram a ruptura ocorrida no século XVIII para, em seguida (item 5), apontar este momento como caracterizador da consolidação da propriedade como centro do ordenamento jurídico moderno.

Entendemos que a história da Idade Média possui especial relevo no estudo aqui proposto, posto ser essencial a compreensão dos conflitos entre classes sociais que se alocam nesta época para o entendimento da posterior consolidação da propriedade como centro do ordenamento jurídico moderno.

A Revolução Francesa instaura os paradigmas sociais e jurídicos que até hoje persistem. Posto desta forma, corremos o risco de analisá-la como um evento isolado. Em verdade, tratou-se de um longo processo histórico cujas raízes encontram-se, pelo menos, na Idade Média. É por conta desta conexão que a análise feita aqui merece destaque, pois foi durante este período que a burguesia inicia sua ascensão na forma de classe organizada.

Após a queda do Império Romano do Ocidente, a força de trabalho escrava ofuscava o trabalho livre, de tal sorte que os artesãos e pequenos produtores passaram a vaguear pela cidade sem ofício. Durante tal crise, os proprietários de escravos se viram diante de uma nova necessidade, a de fazer com que seus escravos se interessassem pelo trabalho, de modo a dar utilidade aos grandes latifúndios romanos. Assim, autorizaram que possuíssem e cultivassem suas terras mediante arrendamento ou aluguel.

O Mediterrâneo que consistia na ligação entre o Ocidente e o Oriente transformou-se em barreira, sobretudo após as invasões muçulmanas. 121 O comércio que era então dependente das navegações entra em forte declínio entre os séculos VII e VIII122, permanecendo apenas o fraco comércio.

Na visão de Henri Pirenne123, subsistiram apenas as cidades romanas que, por serem centro de administração diocesana, os bispos reuniam em torno de si um clero numeroso, entretanto verifica-se um empobrecimento geral, tendo o numerário de ouro desaparecido e

120 A partir deste recorte metodológico podemos verificar que a Renascença perde importância como divisão histórica, uma vez que o sistema produtivo e, consequentemente, a propriedade, não se alteram neste período. 121 Vale lembrar que as invasões não tomaram as águas da Itália Meridional, nem as do Adriático e Egeu (PIRENNE, Henri. História econômica e social da Idade Média. Trad. Lycurgo Gomes da Motta. São Paulo: Mestre Jou, 1968, p. 21)

122 Sintetizando este período histórico: “O fato de haver a expansão islâmica fechado este mar [o Mediterrâneo], no século VII, teve como resultado necessário a rapidíssima decadência daquela atividade. No decorrer do século VIII, os mercadores desapareceram em virtude da interrupção do comércio. A vida urbana, que ainda permanecia, graças a esses mercadores, malogrou ao mesmo tempo.” (PIRENNE, Henri. História econômica e

social da Idade Média. Trad. Lycurgo Gomes da Motta. São Paulo: Mestre Jou, 1968, p. 11).

123 PIRENNE, Henri. História econômica e social da Idade Média. Trad. Lycurgo Gomes da Motta. São Paulo: Mestre Jou, 1968, p. 11.

substituído pela moeda de prata colocada pelos carolíngios. Afirma, ainda, que a tarefa de realizar um progresso econômico não era possível a Carlos Magno, posto que não teria conseguido suprimir as consequências do desaparecimento do tráfico marítimo e o fechamento do mar, conforme descrito acima.

Neste cenário, por volta do século VIII, a Europa Ocidental regride ao estado de região exclusivamente agrícola, sendo a terra a única fonte de subsistência e a única condição de riqueza, ainda que decadente.

Quando os bárbaros se estabeleceram, os homens livres sentiram-se na dificuldade de encontrar proteção em sua comuna de origem, agora já desorganizada. Os reis dos estados bárbaros recém-formados eram inacessíveis ante a vasta distância de seu território e às péssimas condições de transporte. Neste contexto, o poder político se fragmenta e, como consequência, torna-se impossível a configuração de um tipo pleno de propriedade. Nos dizeres de Bobbio:

Na realidade, o estado decadente da agricultura e das cidades, da autoridade pública e das vias de transporte e comunicação, leva a uma fragmentação do poder político e do controle econômico cada vez mais acentuada, se bem que dissimulada por uma complicada trama de interdependências jurídicas, tendentes a negar, abaixo da autoridade imperial, qualquer forma de poder político soberano e de plena e exclusiva Propriedade. 124

Frente a tal situação, o pequeno produtor era obrigado a procurar proteção juntos aos homens poderosos de sua região, normalmente homens com poder armado e que conquistavam ou comprovam novas propriedades para aumentar a abrangência de sua influência: os senhores feudais.