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Kavramsal (Söylemsel) Yapının Göstergebilimsel Dörtgenle Açıklanması

Esra Saniye TUNCER **

Çizge 9: Kavramsal (Söylemsel) Yapının Göstergebilimsel Dörtgenle Açıklanması

Locke inicia o já mencionado parágrafo 36 do Segundo Tratado constatando a limitação imposta pela natureza para a acumulação concernente à capacidade humana de proteção e de consumo de bens. Isso significa que a um homem isolado e seu intrínseco poder de trabalho é possível apropriar-se tão somente de um determinado pedaço de terra, de certa quantidade de bens e consumir certa quantidade de frutos.

Podemos constatar que tal limitação caracteriza-se como sendo de ordem física. Afinal, um homem isolado, com apenas de seu trabalho, não pode apropriar-se de uma imensa

265 MACPHERSON, C. B. Teoria política do individualismo possessivo de Hobbes até Locke. Trad. Nelson Dantas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 224.

266 MACPHERSON, C. B. Teoria política do individualismo possessivo de Hobbes até Locke. Trad. Nelson Dantas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 224-225.

quantidade de frutos e terras, protegendo-os apropriadamente. Entretanto, ao analisar com a devida cautela o Segundo Tratado, percebemos que tal limitação é implicitamente superada por Locke conforme a ideia de trabalho assalariado seja pressuposta pelo autor como uma condição natural. Vejamos:

Assim a grama que o meu cavalo pastou, a turfa que o criado cortou, o minério que extraí em qualquer lugar onde a ele tenho direito em comum com outros, tornam-se minha propriedade sem a adjudicação ou o consentimento de qualquer outra pessoa. O trabalho que era meu, retirando- os do estado comum em que se encontravam, fixou a minha propriedade sobre eles. 267 (destacamos)

Com este trecho, Locke parece legitimar a apropriação do trabalho alheio – do criado – como forma legítima de aumento de propriedade – do senhor – e, ainda, supor a relação salarial também como condição natural. De fato, se analisarmos o argumento visto acima (item 4.2.3.2), onde Locke nos fala sobre a apropriação de grandes porções de terra para o aumento da produção voltada à troca, somos levados a crer que, de fato, estava supondo a validade da relação salarial, pela qual um homem pode licitamente adquirir o trabalho de outro como meio de aumentar sua riqueza, do contrário não nos falaria em hectares e mais hectares produtivos, algo que só é possível a um homem mediante a aquisição de força de trabalho alheia. 268

Conforme a visão de James Tully269, endossada por Edgar José Jorge Filho270, a turfa cortada pelo criado descrito por Locke consiste numa tarefa completa realizada por um servo, com seus próprios instrumentos, e não um trabalho realizado com instrumentos de produção pertencentes ao capitalista. 271 Nesta visão, o servo é livre para optar trabalhar ou não ao senhor, diferente do escravo e do trabalhador assalariado que não possuem real opção entre trabalhar ou não, visto que os meios de produção são açambarcados pelos capitalistas e,

267 LOCKE, John. Segundo Tratado do Governo. Trad. E. Jacy Monteiro. São Paulo: Nova Cultural (Os Pensadores), 1991, p. 228.

268 MACPHERSON, C. B. Teoria política do individualismo possessivo de Hobbes até Locke. Trad. Nelson Dantas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 226.

269 TULLY, James. A Discourse on Property: John Locke and his adversaries. London: Cambridge University Press, 1980, p. 135-145.

270 JORGE FILHO, Edgar José. Moral e história em John Locke. São Paulo: Loyola, 1992, p. 84.

271 “Therefore, in the light of Locke’s concept of the master-servant relation, and in terms of our historical knowledge of the period, it is incorrect and anachronistic to impute the assumption of capitalist wage-labour to Locke.” (TULLY, James. A Discourse on Property: John Locke and his adversaries. London: Cambridge University Press, 1980, p. 142). Tradução livre: “Portanto, à luz do conceito lockeano da relação senhor-servo, e em termos do nosso conhecimento histórico do período, é incorreto e anacrônico imputar a assunção de trabalho assalariado no sentido capitalista a Locke.”

portanto, não lhe pertencem. Em sua argumentação, Jorge Filho coloca que o produto do trabalho do servo se acrescenta à propriedade do senhor, conforme o contrato firmado entre eles e que:

Enquanto, sob o governo doméstico do pai, a família produzir as necessidades e conveniências para os cônjuges e filhos, o equivalente ao salário para o servo, e a subsistência do escravo, não haverá invasão do que ainda pertence em comum aos homens. Nesta medida, permanecem respeitados os limites naturais da propriedade mesmo com o crescimento da família ou o maior número de servos contratados. 272

Segundo esta visão, a relação descrita por Locke na referida passagem não consiste numa relação capitalista-assalariada, tal como defendemos aqui na linha de Macpherson, mas sim numa relação firmada entre servo e senhor para o acúmulo de propriedade deste mediante o trabalho e instrumentos (sendo a propriedade dos meios de produção o traço descaracterizador da relação capitalista-assalariada) daquele, sobretudo por conta do pagamento em dinheiro, convencionalmente aceito entre os homens.

Sobre esta discussão, entendemos que independente do criado descrito por Locke possuir ou não os meios de produção para a execução do trabalho, o trecho em comento consiste numa clara referência ao trabalho como fonte de moeda (esta convencionalmente aceita entre os homens) e não como fonte dos meios de subsistências próprios daquele que o faz. Ou seja, separa o trabalhador do produto de seu trabalho, que é vendido em troca de moeda. Esta, por óbvio, será utilizada pelo criado para adquirir seus próprios meios de subsistência – e até outros bens de consumo – num mercado que, nesta lógica, deve existir. Assim, permanece nosso entendimento de que Locke advoga pelo comércio no sentido capitalista como decorrente da condição natural humana e, ainda, pressupõe a venda da força de trabalho como legítima e, portanto, em conformidade com a lei da natureza.

Vale a pena lembrar que “cada homem tem uma propriedade em sua própria pessoa; a esta ninguém tem qualquer direito senão ele mesmo. O trabalho do seu corpo e a obra das suas mãos, pode dizer-se, são propriamente dele” 273; de modo que a possibilidade de

alienação da força de trabalho permanece coerente com o restante de sua argumentação, vez que vê a força de trabalho como uma propriedade e, portanto, alienável. Neste sentido, a justificativa jusnaturalista lockeana do trabalho encontra neste não apenas o meio de tornar

272 JORGE FILHO, Edgar José. Moral e história em John Locke. São Paulo: Loyola, 1992, p. 84.

273 LOCKE, John. Segundo Tratado do Governo. Trad. E. Jacy Monteiro. São Paulo: Nova Cultural (Os Pensadores), 1991, p. 227.

propriedade privada o que até então era comum, mas ele mesmo se torna propriedade, alienável tal como qualquer outra. Torna-se, portanto, mercadoria. Sobre este tema, Galvano Della Volpe nos apresenta importante lição:

É imediatamente claro que precisamente no conceito lockeano-jusnaturalista da força de trabalho ou ‘atividade operante’ como propriedade-direito da pessoa humana está a base filosófica, ou mais geral, da concepção económica burguesa da força de trabalho como algo de privado, ocasião, portanto, de relações de indivíduo a indivíduo, e numa palavra, objeto de troca, mercadoria (e não apenas a base da propriedade privada da terra trabalhada, segundo Locke). 274

Leia-se tal entendimento lockeano à luz do novo sistema produtivo e temos não apenas uma separação entre propriedade e trabalho, mas uma relação onde este se reveste com as características daquela – em especial a possibilidade de alienação. Nada mais oportuno num sistema onde a acumulação de propriedade pode ocorrer à custa do trabalho alheio.

Nesta mesma linha segue Macpherson, para o qual o núcleo do individualismo de Locke é a afirmativa de que todo homem é naturalmente o único proprietário de sua própria pessoa e de suas próprias capacidades – especialmente sua capacidade de trabalho –, não devendo nada à sociedade por isso. 275 Com efeito, a definição de sociedade de mercado possessivo em Macpherson exalta exatamente este ponto:

Se se procura um critério único para a sociedade de mercado possessivo, ver- se-á que o trabalho do indivíduo é uma mercadoria, ou seja, que a energia e a destreza de uma pessoa são de sua propriedade, e no entanto não são levadas em conta como integrantes de sua personalidade, mas como pertences, cujo uso e aplicação ele tem liberdade para entregar aos outros por um preço. 276

Desta forma, a argumentação lockeana se coaduna oportunamente com as ideias burguesas de propriedade e da validade da relação salarial como meio de aumento de propriedades, segundo a qual é lícito ao homem vender aquilo que lhe pertence, no caso, sua força laboral, mediante um contrato livremente firmado entre as partes que, neste novo sistema, são iguais. Dentro deste diapasão, o trabalho então vendido torna-se propriedade de

274 DELLA VOLPE, Galvano. Rousseau e Marx: a liberdade igualitária. Trad. António José Pinto Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 1982, p. 32.

275 MACPHERSON, C. B. Teoria política do individualismo possessivo de Hobbes até Locke. Trad. Nelson Dantas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 227.

276 MACPHERSON, C. B. Teoria política do individualismo possessivo de Hobbes até Locke. Trad. Nelson Dantas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 59.

seu comprador que, conforme exposto, tem o direito de se apropriar de tal trabalho para o aumento de suas propriedades. 277