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Rıdvan CEVHER **

“A finalidade de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Tais direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão.” 334

O art. 2º da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789), colocado como premissa da constituição de 1791, indica os fundamentos do Estado liberal.Segundo Mario Losano, o estudo da história leva a considerar que tal declaração seria o ponto de partida de uma futura evolução dos direitos individuais aos direitos sociais, entretanto ocorre o contrário, já que “para a Assembleia nacional aquela declaração constituía uma barreira instransponível: a revolução podia chegar até ali, e não ir além”. 335 Nos dizeres de Eric Hobsbawm, a

Declaração pode ser apontada como um manifesto contra a sociedade hierárquica de privilégios nobres, mas não um manifesto a favor de uma sociedade democrática e igualitária.

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332 FORTES, Luiz Roberto Salinas. Rousseau: o bom selvagem. São Paulo: FTD, 1989, p.62-3.

333 PISSARA, Maria Constança Peres. História e Ética no Pensamento de Jean-Jacques Rousseau. São Paulo: PUC-SP [Tese de Doutorado], 1996, p.38.

334 Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789), artigo 2º.

335 LOSANO, Mario G. Os grandes sistemas jurídicos: introdução aos sistemas jurídicos europeus e extra- europeus. Trad. Marcela Varejão. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 81.

336 HOBSBAWM, Eric J. A Era das revoluções: Europa 1789-1848. 18ª ed. Trad. Maria Tereza Lopes Teixeira e Marcos Penchel. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2004, p. 91.

Afinal, a Revolução poderia sair do controle e seguir rumo a uma futura emancipação das situações de exploração, as quais a nova classe dominante não pretendia extinguir, mas tomar para si:

Barbave, porta-voz da alta burguesia e presidente da Assembleia, pedia da tribuna: ‘Devemos concluir a revolução ou recomeçá-la?’ E anunciava que, para os burgueses, os tempos da revolução haviam terminado: ‘um passo adiante no caminho da liberdade seria a destruição do trono; no caminho da igualdade, a destruição da propriedade’. 337

Conforme tivemos oportunidade de analisar anteriormente (item 4.2 e subitens), é Locke que fornece as bases para a sustentação de que a propriedade consiste num direito natural. Para recapitular, a ideia central consiste em dizer que Deus deu a terra aos homens em comum e para seu sustento; consequentemente, é necessário um meio de apropriação dos frutos providos pela natureza que seja independente do consentimento dos demais homens, do contrário morreríamos de fome mesmo em situação de abundância. Assim, associando a ideia de apropriação com a condição natural de sobrevivência humana, o direito de propriedade não deve depender do consentimento dos demais, sendo a propriedade, portanto, não uma condição política, mas natural.

Proudhon, analisando a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, nota que a propriedade não se assemelha aos demais direitos consagrados naturais pela Declaração. A liberdade, vista como condição primária da humanidade, é inalienável e irrenunciável, de modo que não podemos dela abrir mão, sem abrir mão da qualidade de homens. A igualdade, por sua vez, analisada no seu viés de igualdade perante a lei, torna-se também inalienável. Quanto à segurança, temos que a sociedade não promete aos seus membros uma semi- proteção ou defesa parcial, em verdade ocupa-se inteiramente dos cidadãos, salvaguardando- os integralmente. “Quanta diferença na propriedade!”, exclama Proudhon. Em resumo, o pensador anarquista nos traz os motivos pelos quais desconsidera a propriedade digna do status de direito natural, analisando-a juntamente com a liberdade, a igualdade e a segurança.

338 Vejamos:

337 LOSANO, Mario G. Os grandes sistemas jurídicos: introdução aos sistemas jurídicos europeus e extra- europeus. Trad. Marcela Varejão. São Paulo: Martins Fontes, 2007, p. 81.

338 PROUDHON, Pierre-Joseph. O que é a Propriedade? ou Pesquisas sobre o Princípio do Direito e do Governo. Trad. Gilson Cesar Cardoso de Souza e Edison Darci Heldt. 1ª ed. Martins Fontes: São Paulo, 1988, p. 46.

Resumamos. A liberdade é um direito absoluto, porque constitui para o homem, como a impenetrabilidade constitui para a matéria, uma condição sine qua non de existência; a igualdade é um direito absoluto, porque sem ela não há sociedade; a segurança é um direito absoluto, porque aos olhos de todo homem sua liberdade e sua vida são tão preciosas quanto as de um outro: esses três direitos são absolutos, isto é, não suscetíveis de aumento ou diminuição, porquanto na sociedade cada associado recebe quanto dá, liberdade por liberdade, igualdade por igualdade, segurança por segurança, corpo por corpo, alma por alma, na vida e na morte.

Mas a propriedade, segundo sua razão etimológica e as definições da jurisprudência, é um direito exterior à sociedade; pois é evidente que, se os bens de cada um fossem sociais, as condições seriam iguais para todos e implicaria uma contradição afirmar: A Propriedade é um direito que tem um homem de dispor de maneira mais absoluta de uma propriedade social. Portanto, se estamos associados para a liberdade, a igualdade, a segurança, não o estamos para a propriedade; assim, se a propriedade é um direito natural, esse direito natural não é social, mas antissocial. 339

Em seguida, reforça a argumentação dizendo: “se a propriedade é um direito natural, absoluto, imprescritível e inalienável, por que, em todas as épocas, sua origem tem sido tão discutida?” 340 Em síntese, nos diz Proudhon que a propriedade e a posse, que se confundiam

no estágio primitivo, tornaram-se institutos jurídicos absolutamente distintos por conta de mera ficção criada pelo direito civil. Destarte, o pensador anarquista rejeita por completo o entendimento lockeano que vê a propriedade como direito natural, colocando-a na posição de instituto criado pela ficção legislativa e, portanto, dependente da sociedade civil para existir.

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Rousseau, refletindo acerca desta questão, posiciona-se claramente neste mesmo sentido, defendendo que a propriedade consiste numa instituição humana, objeto de convenção entre os homens. Vejamos:

Ademais, uma vez que o direito de propriedade não é mais que convenção e instituição humana, qualquer homem pode dispor a seu bel-prazer daquele que possui; mas não se dá o mesmo com dons essenciais da natureza, tais como a vida e a liberdade, cujo gozo é permitido a todos e das quais é pelo menos duvidoso que se tenha o direito de despojar-se: privando-se de uma, degrada-se o próprio ser, privando-se da outra, aniquila-se tudo quanto existe

339 PROUDHON, Pierre-Joseph. O que é a Propriedade? ou Pesquisas sobre o Princípio do Direito e do Governo. Trad. Gilson Cesar Cardoso de Souza e Edison Darci Heldt. 1ª ed. Martins Fontes: São Paulo, 1988, p. 49-50.

340 PROUDHON, Pierre-Joseph. O que é a Propriedade? ou Pesquisas sobre o Princípio do Direito e do Governo. Trad. Gilson Cesar Cardoso de Souza e Edison Darci Heldt. 1ªed. Martins Fontes: São Paulo, 1988, p. 50.

341 PROUDHON, Pierre-Joseph. O que é a Propriedade? ou Pesquisas sobre o Princípio do Direito e do Governo. Trad. Gilson Cesar Cardoso de Souza e Edison Darci Heldt. 1ªed. Martins Fontes: São Paulo, 1988, p. 70.

em si próprio; e, como nenhum bem temporal pode compensar uma e outra, seria ofender a um só tempo a natureza e a razão renunciar a elas pelo preço que for. 342

Conforme exposto neste item, temos que, na contramão do que sustenta John Locke, para Rousseau e Proudhon a propriedade consiste em um produto político, fruto de convenção humana e não mantém qualquer relação com os demais direitos considerados naturais. Não obstante esta colocação, é o modelo lockeano o que mais se adequa aos interesses dominantes do período, motivo pelo qual prevaleceu, sendo a propriedade, portanto, considerada como direito natural e inviolável pelas codificações posteriormente realizadas, conforme veremos no capítulo seguinte.

342 ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens: precedido de discurso sobre as ciências e as artes. Trad. Maria Ernantina de Almeida Prado Galvão. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 230.

5 A CONSOLIDAÇÃO DA PROPRIEDADE COMO CENTRO DO