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BEDEN SANATI, PERFORMANS ve FOTOĞRAF

Eren GÖRGÜLÜ **

THE TRANSFORMATION OF BODY TO THE CAMERA: DANI LESSNAU ABSTRACT

2. BEDEN SANATI, PERFORMANS ve FOTOĞRAF

A tarefa que ficou a cargo dos pensadores da chamada modernidade221 consistia em prover uma nova justificativa teórica para a realidade política e social em oposição ao modelo medieval, legitimando o poder político em novas bases, diversas daquela do antigo regime. O modelo contratualista é o que, neste aspecto, sugeriu uma alteração do entendimento anterior segundo o qual a sociedade política era vista como uma mera continuação da natureza – ideia predominante na Idade Média – e exaltou a participação do indivíduo como centro do ordenamento, e, por consequência, como fonte do poder político. Dentro deste diapasão, abriu novas perspectivas e estabeleceu novas justificativas teóricas para as instituições que se mostravam mais interessantes à nova realidade em fase de transformação por conta da alteração do modelo produtivo, conforme exposto no capítulo anterior.

Neste tópico iremos expor brevemente os motivos pelos quais o modelo hobbesiano não serviu ao sistema capitalista em ascensão e ao modelo de propriedade por ele pretendido.

Podemos sintetizar o pensamento hobbesiano quanto ao estado de natureza a partir de sua clássica passagem: “...durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum capaz de os manter a todos em respeito, eles se encontram naquela condição a que se chama guerra; e uma guerra que é de todos os homens contra todos os homens.”222 A partir desta situação natural, extrai como consequência a inexistência do justo e do injusto ante à ausência de um poder comum que os estabeleça. E, ainda:

Outra consequência da mesma condição é que não há propriedade, nem domínio, nem distinção entre o meu e o teu; só pertence a cada homem aquilo que ele é capaz de conseguir, e apenas enquanto for capaz de conservá-lo. É pois esta a miserável condição em que o homem realmente se encontra, por obra da simples natureza. 223

221 Nós os consideramos de transição, posto que a modernidade, a partir da leitura realizada, inicia com o fim do sistema feudal e seus privilégios, conforme exposto no item 3.1.

222 HOBBES, Thomas. Leviatã ou Matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. Trad. João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. 2ª ed. São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores), 1979, p. 75.

223 HOBBES, Thomas. Leviatã ou Matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. Trad. João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. 2ª ed. São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores), 1979, p. 77.

Com esse trecho, podemos iniciar a análise de Hobbes entendendo que para o referido pensador a propriedade não consiste em um direito natural. Já no capítulo XV de Leviatã expõe de maneira clara o que aqui se pretende apontar:

Portanto, para que as palavras ‘justo’ e ‘injusto’ possam ter lugar, é necessária alguma espécie de poder coercitivo, capaz de obrigar igualmente os homens ao cumprimento de seus pactos, mediante o terror de algum castigo que seja superior ao benefício que esperam tirar do rompimento do pacto, e capaz de fortalecer aquela propriedade que os homens adquirem por contrato mútuo, como recompensa do direito universal a que renunciaram. E não pode haver tal poder antes de erigir-se o Estado. O mesmo pode deduzir- se também da definição comum da justiça nas Escolas, pois nelas se diz que a justiça é a vontade constante de dar a cada um o que é seu. Portanto, onde não há o seu, isto é, não há propriedade, não pode haver injustiça. E onde não foi estabelecido um poder coercitivo, isto é, onde não há Estado, não há propriedade, pois todos os homens têm direito a todas as coisas. Portanto, onde não há Estado nada pode ser injusto. De modo que a natureza da justiça consiste no cumprimento dos pactos válidos, mas a validade dos pactos só começa com a instituição de um poder civil suficiente para obrigar os homens a cumpri-los, e é também só aí que começa a haver propriedade.

224 (destacamos)

Neste excerto temos a clara a ideia hobbesiana em relação ao tema que será desenvolvido neste capítulo. Para Hobbes, a propriedade não consiste em um direito natural, tal como Locke a coloca (conforme veremos abaixo), ao contrário, apenas passa a existir quando há um Estado que então estabeleça o que é de cada um, pois sem o Estado, sem um poder coercitivo, todos os homens têm, por natureza, direito a todas as coisas. Pois onde não há Estado, há uma guerra perpétua entre os homens, na qual cada coisa é de quem a apanha e conserva pela força, o que não se trata de propriedade, mas de incerteza. 225

Com o advento do Estado, cada súdito passa a ter propriedade, entretanto esta não se dá de maneira absoluta, posto que não exclui o soberano de sua ingerência:

De onde podemos concluir que a propriedade que um súdito tem em suas terras consiste no direito de excluir todos os outros súditos do uso dessas terras, mas não de excluir o soberano, quer este seja uma assembleia ou um monarca. Dado que o soberano, quer dizer, o Estado (cuja pessoa ele representa), se entende que nada faz que não seja em vista da paz e

224 HOBBES, Thomas. Leviatã ou Matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. Trad. João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silv. a. 2ª ed. São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores), 1979, p. 86. 225 HOBBES, Thomas. Leviatã ou Matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. Trad. João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. 2ª ed. São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores), 1979, p. 150.

segurança comuns, essa distribuição das terras deve ser entendida como realizada em vista do mesmo. 226

Em face de tais apontamentos, nada nos parece mais estranho às aspirações burguesas do que uma propriedade que preveja possibilidade de uso pelo soberano e uma distribuição de terras pelo Estado visando a paz e a segurança de todos. Aliás, no capítulo XXIX, Hobbes nos fala sobre as coisas que levam à dissolução de um Estado, dentre elas consta: “A quinta doutrina que tende para a dissolução do Estado é que todo indivíduo particular tem propriedade absoluta de seus bens, a ponto de excluir o direito do soberano.” 227 Ou seja, a

ideia de uma propriedade particular absoluta consiste, para Hobbes, em uma causa possível de dissolução de um Estado. Demonstrando a mesma inadequação do modelo político hobbesiano aos interesses burgueses, João Paulo Monteiro nos diz:

Parece-me insustentável que o Estado hobbesiano se deixe qualificar como Estado burguês. (...) Pelo contrário, o Estado hobbesiano exigiria dos grupos burgueses um certo tipo de submissão, tanto política como econômica, que dificilmente poderia ser encarada como favorável a seus interesses – e creio até que só poderia ser vista como contrária a esses interesses. 228

Afinal, a escolha de um modelo hobbesiano de sociedade política implica a dependência em relação à vontade de um soberano. Ademais, conforme a história demonstrou, o modelo político capaz de servir aos interesses da classe burguesa e à expansão da atividade capitalista privada foi o modelo antiabsolutista lockeano229 e não o modelo absolutista hobbesiano. Por esse motivo, bem como pelos demais apresentados acima, passaremos à análise da obra de John Locke, vez que o pensador, em sua obra Segundo Tratado sobre o Governo, exalta o objetivo da união dos homens em comunidade como sendo a proteção da propriedade privada, elevada à condição de direito natural, influenciando de

226 HOBBES, Thomas. Leviatã ou Matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. Trad. João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. 2ª ed. São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores), 1979, p. 151. 227 HOBBES, Thomas. Leviatã ou Matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. Trad. João Paulo Monteiro e Maria Beatriz Nizza da Silva. 2ª ed. São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores), 1979, p. 194. 228 MONTEIRO, João Paulo. Ideologia e economia em Hobbes. In: MORAES, João Quartim de (org.). Filosofia

Política. Vol. 2. Campinas: UNICAMP, 1985, p. 128.

229 “A teoria lockeana, prescrevendo a entrega do poder soberano a um corpo de representantes, encarregado das funções legislativas e também de indicar o detentor do poder executivo, o qual recebia apenas uma outorga fiduciária e não uma soberania propriamente dita, apresentava um programa muito mais consentâneo com os interesses dos grupos ‘burgueses’.” (MONTEIRO, João Paulo. Ideologia e economia em Hobbes. In: MORAES, João Quartim de (org.). Filosofia Política. Vol. 2. Campinas: UNICAMP, 1985, p. 133.)

maneira determinante a construção jurídica posteriormente desenvolvida. Motivo pelo qual dedicaremos o item seguinte à análise desta obra.