5.6. Varyant Konfigürasyon ve SAP ile MTO Yaklaşımı
5.6.2. Siparişe dayalı üretimde varyant konfigürasyon
5.6.2.2. Varyant konfigürasyonda SAP sınıf kullanımı
A relatora principal inominável, máscara de Milton, é a filha adotiva de Emilie. (SURDI, 2008). Milton aborda na sua obra frequentemente o tema do personagem adotado porque permite tratar a experiência de uma marginalização cultural. Estamos diante de uma construção identitária que faz com que um sujeito liminar marginalizado seja colocado no centro narrativo.
Estruturalmente, os oito relatos que compõem o romance Relato de um certo oriente buscam completar as versões do outro e, mesmo assim, as descrições ainda são parciais, inexatas, mas evidenciam uma “reinscrição” (hibridização), ou rasura no relato anterior ou correspondente a um determinado fato. Esse aspecto estrutural da narrativa simboliza a dispersão de identidades fixas das personagens e dos relatos, perdendo-se, portanto, a noção de origem. Há, nessa relação, um trânsito não apenas de relatos, mas de “olhares” e, portanto, de identidades que se complementam. Assim, as próprias personagens em situações diaspóricas ou de dupla inscrição cultural, como a própria relatora, Emilie, Lobato e Anastácia chegam à conclusão de que a
constituição de suas identidades não pode ser genuína ou homogênea, e que uma origem “pura” dessas “identidades em trânsito” dificilmente poderá ser recuperada.
No Relato, a narrativa em primeira pessoa foi adequada à construção de memória, de identidade e de alteridade. Ademais, a narração em voz feminina no início do livro ressalta o aspecto da alteridade da voz masculina do autor que deseja que sua história seja narrada por esta personagem. Essa voz insegura, que fala no início do Relato, é a relatora escolhida para contar sobre seu passado e que não se apresenta nominalmente para o leitor durante toda a narrativa.
Deitada na grama, com o corpo encolhido por causa do sereno, sentia na pele a roupa úmida e tinha as mãos repousadas nas páginas também úmidas do caderno aberto, onde rabiscara, meio sonolenta, algumas impressões do voo noturno. Lembro que adormecera observando o perfil da casa fechada e quase deserta... (p.9)
Ela vai procurando com “a chave da memória” (p.32) as identidades manauaras mestiças ao redor do percurso da mãe Emilie. Econtramos nessas “chaves” pretexto narrativo para a circulação do relato de uma voz para outra. Exemplos disso são: “o relógio” foi uma “chave” que evocou as lembranças de Hakim e “os cadernos” que passaram um entrenarrar para Dorner.
Também, ao estilo machadiano do “defunto autor”, Hatoum faz uma metaficção ao pôr em cena uma relatora que nos conta sobre o processo de narração:
Gravei várias fitas, enchi de anotações uma dezena de cadernos, mas fui incapaz de ordenar coisa com coisa. Confesso que as tentativas foram inúmeras e todas exaustivas, mas ao final de cada passagem, de cada depoimento, tudo se embaralhava em desconexas constelações de episódios, rumores de todos os cantos, fatos medíocres, datas e dados em abundância. Quando conseguia organizar os episódios em desordem ou encadear vozes, então surgia uma lacuna onde habitavam o esquecimento e a hesitação: um espaço morto que minava a sequência de idéias. E isso me alijava do ofício necessário e talvez imperativo que é o de ordenar o relato, para não deixá-lo suspenso, à deriva, modulado pelo acaso. (...)Tantas confidências de várias pessoas em tão poucos dias ressoavam como um coral de vozes dispersas. Restava então recorrer à minha própria voz, que planaria como um pássaro gigantesco e frágil sobre as outras vozes. (pp.165 -166)
Por meio de uma carta ao irmão, a relatora vai rasgando o invisível de uma memória embaçada dos espaços familiares como a Parisiense e o sobrado.
Enquanto Hatoum escrevia seu primeiro romance, se deparou com alguns problemas. O primeiro foi reconhecer que o passado recente não era bom para o romance, teve que ignorar as décadas de 1970 e 1960. Na primeira tentativa, começou a compor um romance em terceira pessoa, mas acabou percebendo que o mundo da subjetividade na ficção se adequava melhor à primeira pessoa do singular. Hatoum percebeu também que o narrador masculino também soava falso e então enfrentou a dificuldade de reproduzir o tom de uma mulher. Em um terceiro momento, o artista percebeu que não queria que o romance fosse dramatizado, com muitas cenas, pois, considerando Aristóteles, queria que soasse como uma forma direta e não indireta (drama). Isso além de querer que todas as personagens falassem na primeira pessoa. A solução para essas questões foi a narrativa epistolar que, ao invés de dar dramaticidade ou tons a todas as vozes, inscreve todas na mesma voz. (Aula com Milton Hatoum, 2009).
A narradora do Relato evoca o irmão em Barcelona referindo-se à Sagrada Família, talvez o monumento que melhor represente a modernidade em ruínas. A epígrafe de W.H.Auden Shall
the memory restore/ the steps and the shore/ the face and the meeting place remete a
possibilidade de um tempo restaurado pela mediação de muitas vozes. A rememoração extrai a experiência do passado para reorganizá-la, devolvê-la à vida da linguagem. Mas só pode fazê-lo enquanto ruína, enquanto linguagem em pedaços, numa língua migrante exilada. (CURY, 2007).
No Relato, temos uma narradora, que abre e fecha o romance, é quem reconstrói o mosaico de lembranças através das cartas que são a voz das outras personagens, pois ela sozinha não daria conta dessa reconstrução, uma vez que era muito pequena quando presenciou os fatos e que depois viaja e perde a continuidade da história. Por isso, Hatoum recorre à epístola de Dorner, o imigrante alemão, que viaja para Alemanha em 1955, enviada para Hakim, o filho de Emilie, que morava no sudeste do Brasil.
A técnica epistolar parece uma forma predileta para Hatoum, vemos como volta a reusar no conto “Uma carta de Bancroft”, onde o narrador está na cidade estadunidense de Bancroft e vai até uma biblioteca da cidade onde encontra uma carta do escritor Euclides da Cunha, mandada ao amigo chamado Alberto Rangel, que estava no Rio de Janeiro: Em 1946, ela foi
adquirida por um certo Charles P. Dutton num alfarrabista de Belém e doada três décadas depois para a Biblioteca de Bancroft, em Berkeley (SAMPAIO, 2010).
Profª Aíla Sampaio (2010) nota que Hatoum consegue com essa técnica epistolar criar uma ilusão de verdade:
Encontrar essa carta inédita em Bancroft, com a caligrafia nervosa de Euclides, é quase um milagre... só vim a Bancroft para ler uma carta amazônica do autor d’Os sertões” (p. 26). A suposta carta de Euclides da Cunha ao amigo Alberto Rangel, segundo o relato, conta, entre outras coisas, um sonho em que um militar é morto pelo amante da esposa, um dado biográfico de Euclides. Como para dar uma conotação de verdade, o conto termina com a seguinte observação: “Sabemos, enfim, que não há menção dessa carta na vasta correspondência de Euclides da Cunha. Por que não há menção dessa carta na vasta correspondência de Euclides da Cunha? O que o narrador quer dizer com essa observação? Aí está o jogo: não consta, por que está na Biblioteca de Bancroft ou não consta, simplesmente, por que a carta não existe, é uma criação do ficcionista.