B. MAHALLE HAYATI
2. Vakıf
Prática educativa é uma expressão que vem sendo utilizada comumente pelos educadores, contudo, muitas vezes, sem a percepção da abrangência e complexidade que o significado requer. Dessa forma, tornaram-se necessárias as contribuições de Sacristán (1999), Freire (1996), Zabala (1998) e Vygotsky (1984 e 2003), sobre o sentido adequado da referida expressão, assim como para denotar maior clareza sobre a prática educativa que está sendo tratada no contexto desta pesquisa.
Na visão de Sacristán, a prática educativa não se reduz na ação do professor, nem tampouco, ao domínio metodológico do espaço escolar, isto porque para o autor a atividade dos professores não se circunscreve apenas à prática pedagógica visível. No entender deste autor (1999, p. 76-77):
[...] a prática educativa é uma prática histórica e social que não se constrói a partir de um conhecimento científico, como se tratasse de uma aplicação tecnológica. A dialética entre conhecimento e acção tem lugar em todos os contextos onde a prática
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acontece. [...] A prática educativa não começa do zero: quem quiser modificá-la tem de apanhar o processo „em andamento‟.
Com base nesse argumento, apreendeu-se que não existe prática educativa totalmente original, o que existe na verdade é a conjugação de muitas outras práticas que de acordo com as necessidades e interesses vão se construindo, no processo, de forma dialética. Nesse sentido, Sacristán (1999, p. 82) ainda complementa:
Em educação, não existe um saber-fazer desligado de implicações de valor, de consequências sociais, de pressupostos sobre o funcionamento dos seres humanos, individualmente ou em grupo de opções etimológicas acerca do conhecimento que se transmite. A prática transmite a teoria que fundamenta os pressupostos da acção. Esta questão, ou se analisa, ou se propaga acriticamente. O fato de as práticas pedagógicas terem implicações noutros contextos torna essa análise ainda mais necessária e obriga a ampliar o leque de conhecimentos necessários para estudar a práxis educativa.
Como se pode observar, no entendimento de Sacristán, a prática educativa tem como foco o processo ensino-aprendizagem, ou seja, a ação didática. Mas, obviamente, que para este autor a atividade do professor não se reduz a uma prática pedagógica aparente, exigindo, portanto, a investigação de outros componentes menos evidentes.
Na concepção de Paulo Freire (1996, p. 17) “[...] a prática educativa tem de ser, em si, um testemunho rigoroso de decência e de pureza”. O autor se diz absolutamente convencido da natureza ética da prática educativa, “enquanto prática especificamente humana”. E para este autor, “ensinar é uma especificidade humana”. E sendo uma especificidade humana, passa pela afetividade. Ainda segundo Freire é difícil pensar numa prática educativa desprovida de sentimentos e emoções, fria e distante dos alunos. Como ele próprio diz: “[...] a prática educativa é tudo isso: afetividade, alegria, capacidade científica séria, domínio técnico a serviço da mudança, ou, lamentavelmente, da permanência do hoje”. (FREIRE, 1996, p. 161). Com base na concepção do referido autor, afetividade não significa fechar os olhos para a realidade e as dificuldades dos alunos. Afetividade ao seu modo de ver tem certa ambigüidade, ou seja, é possível ser afetivo sem deixar de lutar pelos direitos e pelo respeito à dignidade da atividade docente.
Já os estudos de Zabala indicam que a prática educativa se concretiza por meio de diversas variáveis que se inter-relacionam de forma complexa e se expressa no micro sistema da sala-de-aula. Como ele próprio coloca (1998, p.15):
Sabemos muito pouco, sem dúvida, sobre os processos de ensino-aprendizagem, das variáveis que intervêm neles e de como se inter-relacionam. Os próprios efeitos
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educativos dependem da interação complexa de todos os fatores que se inter- relacionam nas situações de ensino: tipo de atividade metodológica, aspectos materiais da situação, estilo do professor, relações sociais, conteúdos culturais, etc. De conformidade com o pensamento desses educadores reconhece-se a importância de se estabelecer um novo paradigma de prática educativa, onde o ensinar e o aprender precisam ser redimensionados. Mesmo com a convicção de que o professor tem um papel extremamente significante, para esses autores, o cerne da prática educativa está no processo, no fazer, e, não no resultado, no produto. Nessa perspectiva, apreende-se que as dificuldades de aprendizagem dos alunos podem transformar-se em possibilidades e o exercício mecânico de decorar pode ser substituído pelo ato da compreensão. Por isso, a necessidade do professor entender que a prática educativa passa, necessariamente, pela mediação do seu trabalho com os alunos e dos demais elementos que envolvem o processo da aprendizagem.
Para explicar melhor a questão da influência do processo de aprendizagem, recorreu-se ao conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) de Vygotsky. Segundo este autor (1984, p. 101):
Um aspecto essencial do aprendizado é o fato de ele criar a zona de desenvolvimento próxima (ZDP), ou seja, o aprendizado desperta vários processos internos de desenvolvimento que são capazes de operar somente quando a criança interage com pessoas em seu ambiente e quando em cooperação com seus companheiros. Uma vez internalizados, esses processos tornam-se parte das aquisições do desenvolvimento, independentemente da criança.
O autor deixa claro que a categoria de ZDP é condição inevitável no desenvolvimento dos processos de interação para situações de ensino. Ele sustenta a influência do papel do contexto social, e, mais especificamente, do contexto escolar e a ação do professor no processo de aprendizagem do educando. Vygotsky entende que, desde o nascimento, a criança é um ser social, imerso em interações sociais que conduzem o desenvolvimento dos processos cognitivos superiores. Sustenta que o professor (guia social) ajuda as crianças na aprendizagem, possibilitando-lhes ir além de suas próprias capacidades.
Dessa forma, a mediação pedagógica alicerçada na teoria de Vygotsky vem corroborar com as idéias dos autores supracitados que defendem o significativo papel do professor-mediador, considerando a mediação como um espaço instituído entre o aluno e o conteúdo de aprendizagem na perspectiva de satisfazer e dar consciência ao processo de interação que se efetiva entre esses dois componentes.
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Essa argumentação se sustenta, também, nas inquietações levantadas por Sacristán (1999, p. 76) quando trata da “[...] prática como algo que se molda e exprime em diferentes contextos a partilha do poder na sua determinação”. Nessa direção, ele levanta as seguintes inquietações:
Quem concebe a prática? Não são só os professores, evidentemente. Quem introduz idéias, hipóteses e valores na prática? Todos aqueles que, através de práticas escolares, institucionais e políticas, relacionadas com actividades dentro do que chamamos práticas concorrentes, configuram o mundo educativo.
Refletindo sobre a prática educativa na perspectiva das abordagens dos autores supracitados, chega-se ao entendimento da importância que exerce o professor como mediador da aprendizagem, capaz de potencializar o sucesso do aluno. Não obstante, a prática educativa conforme defendida anteriormente por Sacristán, não se reduz apenas a ação do professor, uma vez que a produção do conhecimento se processa mediante o diálogo coletivo, na relação que se estabelece entre os diferentes atores que atuam no âmbito do espaço pedagógico (professor, alunos, diretor, pais, etc.).
Tais considerações trazem um novo olhar sobre a prática educativa, pois mostram que esta não pode ser vista apenas pela vertente do ensinar, focada simplesmente no professor. A prática educativa tem a ver com o aprender e ensinar, com esses dois processos, mas, de forma articulada, onde o professor tem papel de mediador, capaz de potencializar o sucesso do aluno.
A partir dessas reflexões é possível entender que o sentido da prática educativa nesta pesquisa se situa nas relações sociais que o indivíduo estabelece com outros indivíduos no decorrer de sua história individual e grupal. Dessa forma, a fundamentação sobre esse processo de mediação, torna-se imprescindível para a compreensão da prática educativa vivenciada nas classes multisseriadas onde o aluno com o auxílio do professor ou de seus colegas pode chegar a resoluções desafiadoras na sua aprendizagem. Portanto, esse reconhecimento é fundamental na identificação das condições de possibilidade que convertem as críticas em ações na perspectiva da superação.