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A sociedade moderna possui uma característica marcante de valorizar principalmente as formas sobre a matéria. A industrialização junto à comercialização e marketing vêm, através da tecnologia e dos meios de comunicação, criando cada vez mais bens e serviços inovadores, valorizados pela sua utilidade ou pelo seu valor estético, desde modas do vestuário até características de paisagens admiradas em épocas diversas. Assim, também o meio ambiente tem sido visto mais pelas formas e estética marcantes de sua época e menos pelas matérias pelas quais são formados.

As paisagens, como o próprio meio ambiente natural, têm sido reverenciadas pelo deleite visual que proporcionam, privilegiando a visão dos contornos que delimitam as matérias e modificando-as ao prazer dos interesses sociais. Tal valorização foi uma das preocupações de análise do filósofo Bachelard (1997) que, através da afirmação de que a matéria é o inconsciente da forma, deixa clara a necessidade de valorização daquela enquanto mecanismo de aprofundamento do conhecimento do mundo exterior e interior dos indivíduos. Deixou isso claro após estudar formas, palavras e temas de obras literárias, chegando à certeza de que “... certas matérias transportam em nós seu poder onírico” (BACHELARD, 1997, p. 140), o que induz à revisão de conceitos apenas racionais, envolvidos na percepção das formas e matérias, com as quais se interage.

É relevante, mesmo que brevemente, conhecer o pensamento do filósofo sobre a matéria, neste caso a água. Através do seu livro A Água e os Sonhos faz uma inquieta análise das relações desta com o imaginário ocidental e com as percepções, sentimentos e interações dos indivíduos. Para ele, o expectador interpreta as imagens de acordo com seus sentimentos, sendo a realidade imaginária evocada antes mesmo de ser descrita, pois

Antes de ser um espetáculo consciente, toda paisagem é uma experiência onírica. Só olhamos com uma paixão estética as paisagens que vimos antes em sonho. [...] A unidade de uma paisagem se oferece como a realização de um sonho muitas vezes sonhado (BACHELARD, 1997, p. 125-126).

O filósofo afirma a importância dos quatro elementos materiais no reino da imaginação e de suas combinações: fogo, ar, água e terra. A água, neste trabalho, permeará a análise do processo turístico, na medida que sua junção com a areia forma as praias e estas se encontram como matéria principal de atração a lugares que as possuem, mesmo

compreendendo que “O pitoresco dispersa a força dos sonhos” (BACHELARD, 1997, p. 19), mas, completando o autor, não o elimina. O pitoresco de uma interação, muitas vezes, reproduz o que o autor chama de Complexo de Cultura, que seria uma “tradição ingenuamente racionalizada”, ou melhor, uma cultura ligada ao tradicional, a atitudes irrefletidas que comandam o trabalho de reflexão. Irrefletidas porque não aprofundam a forma para se chegar à matéria, satisfazendo-se com as “águas claras” mencionadas pelo autor, cujos reflexos induzem à metáforas comuns, fáceis e abundantes, muito usadas por poetas pobres e subalternos, encobrindo ou minimizando a força dos sonhos e do imaginário. As águas têm servido para estes poetas, assim como para os sujeitos que se satisfazem com o superficial ou com o reflexo, de ornamento das paisagens e não como substância de devaneios mais profundos e íntimos. O ornamento na composição das formas de uma paisagem no processo turístico faz com que seja apreciada, mas não aprofundada.

As imagens dos sujeitos, refletidas nas águas, sugerem a Bachelard uma idealização e uma naturalização destas, devolvendo um pouco de inocência à sua contemplação pois, para o autor, os espelhos são objetos demasiadamente civilizados, manejáveis e geométricos, cuja evidência não se adapta à vida onírica (BACHELARD, 1997, p. 24). Talvez se encontre aqui um dos motivos de atração das águas para os turistas - a busca da naturalização tão prometida pela mídia e desejada por eles, relacionando a natureza com a tranqüilidade, a perfeição, a origem dos seres humanos, enfim, figuras imaginárias que podem levá-los a sentir a atração por lugares que os envolvam com este significado, mesmo que tenham apenas o papel de observadores passivos, mas sendo, porém, ativos nos espelhos criados pela tecnologia – as fotografias – recurso civilizado e ideologicamente construído.

a água, por seus reflexos, duplica o mundo, duplica as coisas. Duplica também o sonhador, não simplesmente como uma vã imagem, mas envolvendo-o numa nova experiência onírica (BACHELARD,1997, p. 51).

Tal duplicação proporciona ao sujeito que se vê ou vê outros objetos e coisas no reflexo da água a dualidade da realidade e do sonho, do interior e do exterior, de si e do outro, enfim, da realidade interna e externa, onde o limiar entre as partes é tão fugaz que se permeiam num entrelaçamento constante. Também esta situação pode estar sendo buscada pelos turistas na sua atração pelas águas, porém poucos o conseguem.

Bachelard não procura na água apenas o seu reflexo, mas a sua profundidade, sua matéria, em cuja contemplação o sujeito tomaria também consciência de sua própria intimidade. Este aprofundamento é marcado pela poesia de Edgar Poe, na qual Bachelard, após uma análise enriquecedora, revela a importância das águas chamadas por ele de “pesadas”, nas quais as sombras e a escuridão penetram sua matéria pelo sofrimento, pela morte, pela tristeza, pela solidão, onde a água não é só reflexo, mas massa, matéria entranhada por sentimentos de tristeza, morte e solidão.

Assim como ressalta as águas “pesadas” na poesia de Edgar Poe, relata também outros significados das águas relacionados com o sonho e o imaginário, como as águas claras e fáceis, caracterizadas por seus reflexos e contemplação fácil; as águas ligadas ao devaneio da morte, água como túmulo e ataúde; as águas maternais relacionadas à natureza como símbolo materno, originalmente correspondente ao leite materno; as águas femininas, não somente pela relação com o imaginário materno, mas pela relação do elemento embalador da água, pela sua sensualidade; as águas puras e purificadas relacionadas ao bem, à limpeza, ao frescor; as águas violentas identificadas com a adversidade do mundo e pelo sentimento de superação da mesma, e a vontade de poder; além de outros significados. Mesmo que o autor não enfatize tal relação, estes significados estão referidos ao contexto vivido pela sociedade ocidental, com suas características socioambientais mais complexas e superficiais.

A visão é um dos sentidos destacados na análise de Bachelard por ser aquele que apresenta menores “correspondências”, apenas elaborando simples “traduções” do mundo sensível. No processo turístico, o viajante entra em contato com o meio ambiente predominantemente através da visão (conhece cinco praias, ou vai a dois museus em um só dia, por exemplo, crendo conhecer por estabelecer um contato visual), usando pouco e rapidamente os demais sentidos. A contemplação do turista se distancia do devaneio, cuja imaginação poderia ir além da realidade vista, e se “conforma” com as imagens sonhadas anteriormente ou, como afirma Moscovici, com as representações sociais construídas no desenvolvimento do sujeito e do lugar, enquanto participante que é de grupos sociais.

Bachelard trata ainda da possibilidade que as matérias teriam de proporcionar o que chama de “duplo poético” (1997, p. 13), ou seja, a criação de ambivalências que originam outras transposições, sempre com o que denomina de “dupla participação”, como desejo e

medo, bom e mau, branco e preto, dentre outros. Este “duplo”, ou esta dialética, faz com que se construa o novo, o diferente, o profundo, o íntimo. O dizer de Bachelard, quando afirma a necessidade da dialética na imaginação, deixa claro a ampliação dos conceitos e possibilidades: “Para uma imaginação bem dualizada, os conceitos não são centros de imagens que se acumulam por semelhança; os conceitos são pontos de cruzamentos de imagens, cruzamentos em ângulo reto, incisivos, decisivos” (1997, p. 54). Entretanto, pergunta-se se o processo turístico, nos padrões desenvolvidos de interação da modernidade atual pode vir a proporcionar condições para a geração deste “duplo”, desta dialética, desta construção do sujeito, pois parece que o imaginário dos grupos envolvidos e, entenda-se aqui o imaginário de todos os envolvidos, tem-se moldado a forças econômicas que o usam apenas como instrumento de sua expansão e não como instrumento de conhecimento e libertação.

Benzer Belgeler