3. UYGULAMA SONUÇLARININ ANALĠZĠ
3.2 Uygulama Sonuçları
A Escola de Aplicação da antiga Escola Normal fora criada em 1915, durante a Reforma de Instrução de Afrânio Peixoto. Segundo Accácio (1993), tal reforma foi a primeira tentativa de estabelecer uma separação entre o ensino propedêutico e o profissional na formação de professores primários. Separada nestes dois ciclos, a Escola Normal passaria a contar, durante o ciclo profissional, com uma Escola de Aplicação onde as normalistas poderiam desenvolver “maior eficiência da prática escolar” (Lourenço Filho, 1934a, p. 16). Esta escola de aplicação ficava situada no Campo de São Cristóvão, no bairro de São Cristóvão, onde depois se encontraria a Escola Gonçalvez Dias (cf. Serrano, 1945), ao passo que a Escola Normal se situava na rua São Cristóvão nº 18, no bairro do Estácio, não muito distante de São Cristóvão (cf. Accácio, 1993). A aproximação entre a Escola Normal e a Escola de Aplicação, no entanto, só aconteceria após 1930, quando, durante a Reforma de Fernando de Azevedo, a Escola Normal deixaria de ocupar prédios em outros estabelecimentos e ganharia um prédio próprio. Através da Lei de Ensino de janeiro de 1928, a Escola Normal do Distrito Federal passa por uma reforma que remodela suas estruturas. Deixa de ser um curso ginasial, no qual constavam algumas cadeiras pedagógicas, para tornar-se um curso de preparação profissional9. Esta remodelação abrangia uma reorganização do quadro de professores – no qual alguns foram aposentados compulsoriamente e se estabeleceu concurso público para as cadeiras da Escola Normal (cf. Accácio, 2001) –, uma mudança na estrutura do curso e uma reformulação curricular (Accácio, 2001; Silveira, 1954; Nunes, 1985). O prédio próprio da Escola Normal, agora situado à Rua Mariz e Barros, na Praça da Bandeira, seria representante dos ideais de transformação preconizados pela Reforma Azevedo. Tratava-se
de um prédio grandioso, como descreve um artigo da revista Arquivos do Instituto de Educação, de 1934:
“A construção, em rigoroso estilo tradicional brasileiro, é considerada um dos monumentos da cidade, pelas proporções e acabamento. O corpo central, em três pavimentos, aloja as dependências de administração e as de ensino. Sessenta e quatro salas são ocupadas em aulas e laboratórios; quatorze com a administração; três com a biblioteca; quatro com o serviço médico e dentário. Aos lados do corpo central acham-se o ginásio de educação física e o Auditorium (salão de festas e reuniões). Em pavimento isolado, funciona o Jardim de Infância. A construção ocupa uma área de 7.400 metros quadrados, em terreno de 17.800 metros quadrados” (O Instituto de Educação, 1934, p. 07).
O suntuoso prédio deveria abrigar, além da Escola Normal, a Escola de Aplicação. A proximidade entre o curso normal e a escola de aplicação demonstrava uma tentativa explícita de renovação da formação docente, já que a primeira seria o campo de aprendizagem e treinamento para os alunos da segunda. A transferência da Escola Normal da rua São Cristóvão para a rua Mariz e Barros, no entanto, deu-se sob certo tumulto. Segundo entrevistas realizadas por Accácio (1993), sob o boato de que as tropas revolucionárias de Getúlio Vargas, em 1930, ocupariam o prédio que ainda não estava com as obras completamente terminadas, o então Diretor da Escola Normal, Carlos Leoni Werneck, determinou uma mudança estratégica e urgente: “com a ajuda de professores e
alunos, realizou a mudança em 24 horas, tomando posse das novas instalações, cujas obras de acabamento não estavam completamente terminadas. Os gabinetes como os de Biologia, Física, estavam prontos, mas ainda pintavam salas, tiravam caliça, material de construção” (Accácio, 1993, p. 73).
Lourenço Filho, em ofício encaminhado ao Diretor Geral de Instrução Pública em 28 de maio de 1932, queixa-se das conseqüências decorrentes desta mudança repentina de endereço:
“O edifício da antiga Escola Normal mal acabava de ser
construído, quando sobreveio a Revolução. Compreende-se por isso que não chegou a última demão ás instalações internas com a transformação da Escola no grande Instituto, creado pelo Decreto 3.810, de 19 de março ultimo, mais e mais se agravam as deficiencias das instalações. Bastará considerar que os alunos que deviam ser diplomados em 1930, em número de 99, permanecem no estabelecimento; e que nada menos de 476 alunos novos foram admitidos. (...) O que se diz das instalações com maior razão se dirá
do mobiliário, hoje absolutamente deficiente para o número de alunos matriculados e professores em exercício” (Ofícios do Diretor nº 217, 28/05/1932).
Em relatório dos trabalhos realizados em 1931 pela Escola de Aplicação, apresentado por Haydéa Vianna Fiuza de Castro, então Diretora da Escola, encontramos queixas ainda mais severas. O relatório é datado de 31 de janeiro de 1932, apenas quatro meses antes do ofício de Lourenço Filho, e cerca de um mês e meio antes da criação do Instituto de Educação. O relatório é encaminhado ao Diretor da Escola Normal, Carlos Sá. Segundo Haydéa, a Escola de Aplicação passara a funcionar no prédio da rua Mariz e Barros em 1931 sob sua direção. Ao que parece, a partir do relatório de Haydéa e de outros indícios (Serrano, 1945; Ofícios do Diretor do Instituto de Educação; Ofícios da Diretora da Escola Primária), a Escola de Aplicação do prédio da rua Mariz e Barros teria sido criada em 1931 e não transferida de local como a Escola Normal: o corpo discente era integralmente novo e apenas pequena parte do corpo docente teria sido transferido da Escola do Campo de São Cristóvão. Ao mesmo tempo, em diversos momentos, documentos fazem referências à Escola criada na Reforma Afrânio Peixoto, possivelmente se referindo à legislação que rege a mesma.
Após a página inicial do relatório de Haydéa ser ocupada quase por inteiro por agradecimentos cuidadosos dos mais variados10, Haydéa desfere uma crítica afiada a Anísio Teixeira, sem mencionar-lhe o nome: “seria, entretanto, omissão lamentável neste
relatório (...) silenciar sobre o que parece não ter sido possível á Directoria Geral de Instrucção fazer pela Escola de Applicação – facto que, se me não compete criticar, cabe- me o direito, ou melhor, cumpre-me o dever de registrar” (Relatório de 1931). Prosseguindo o relatório, Haydéa denuncia:
“Com effeito, para abrir uma escola nova, uma escola de tanta responsabilidade, havia o predio e carteiras, pois, como deveis ter verificado por occasião de vossa posse, em Outubro, as salas de aula não dispõem de armarios para guardar, se não o material – que não foi fornecido – ao menos os trabalhos executados pelos alumnos com material por eles adquirido. Como podereis verificar do livro proprio, do inventario do material fornecido á Escola de
10 Em seu relatório, Haydéa agradece ao “apoio que nunca me faltou da administração da Escola
Normal, ao benefico concurso do Departamento do Material, a boa vontade e disciplina do pessoal discente e, acima de tudo, aos incansáveis esforços e real enthusiasmo sempre manifestado pelas minhas adjuntas e auxiliares administrativas. Merece ainda meu registro especial a dedicada colaboração das familias dos alumnos” (Relatório de 1931).
Applicação não consta ao menos um globo geographico ou uma caixa metrica.
Entretanto o que mais prejudicou a Escola de Applicação foi a demora da designação do corpo docente, pois, conforme consta do livro ponto e da secção official da Prefeitura no Jornal do Brasil, para que aqui ficassem as quinze adjuntas necessarias, a Directoria Geral designou, tornou sem effeito ou transferiu dias depois de para aqui designar, talvez mais de trinta adjuntas, e até fins de Maio eram enviados novos elementos embora a escola, com o corpo docente deficiente e sem substitutas, começasse a funccionar em principios de Abril” (Relatório de 1931).
Sobre os resultados obtidos em relação ao ensino no ano de 1931, Haydéa relata em tom de desagrado:
“Com tantas e tão serias perturbações em sua organização era natural que os resultados alcançados fossem deploravelmente pouco proporcionaes aos esforços dispendidos pelas adjuntas que dirigiram as classes. Acrescente-se a isso a maneira lastimavel por que foram promovidos os alumnos em 1930, talvez menos consequencia do decreto que facultou a media que da, por assim dizer confusa e nefasta interpretação dada ao que se convencionou chamar actividade da criança.
Muito embora desagradasse aos que não podem entrar em detalhes de administração ou não conseguem aprehender subtilezas de processos educativos, muito embora contrariasse alguns paes de alumnos, muito embora tenha experiencia sufficiente do meio em que vivo para saber que, em regra, os qualificativos extremos da escola dependem da percentagem de promoção, não hesitei em reduzir as promoções ao minimo compativel com o que julgo razoavel, antecipadamente convencida de que tal minino provocaria um maximo de descontentamento.
Sobra-me, como recompensa, a certeza de haver cumprido meu dever protegendo a criança, que precisa estudar para saber e não para ser promovida ou diplomada, e de não haver prejudicado a tarefa dos que, em qualquer outra escola, tenham de matricular, em 1932, os alumnos que frequentaram esta em 1931” (Relatório de 1931).
Há um descompasso no relatório de Haydéa, no entanto, que se explica pelos entusiasmados agradecimentos de seu início. No que diz respeito ao funcionamento das instituições escolares, das festas e exposições, aos esforços do corpo docente, à colaboração do corpo discente e dos pais, Haydéa é só elogios. Não se sabe se por um real contentamento em relação a esses acontecimentos, ou se por mera contraposição à
Diretoria Geral de Instrução Pública, única a nada fazer pela Escola de Aplicação, segundo Haydéa. De qualquer forma, em ofício de 29 de fevereiro de 1932 Haydéa informa estar se licenciando da Escola de Aplicação e do magistério com as seguintes palavras: “Somente
força imperiosa, acima de minha vontade, conseguiria afastar-me da Escola de Applicação e do magisterio, a que me consagro o mais ardente enthusiasmo e a que dediquei a maior parte da minha vida e toda minha saúde” (Ofícios da Diretora nº 22, 29/02/32).
O ofício seguinte ao da despedida de Haydéa é datado de 23 de março de 1932, e já apresenta em seu cabeçalho o título de Escola Primária do Instituto de Educação e não mais Escola de Applicação/Escola Normal. Orminda Isabel Marques, professora da Escola de Aplicação desde 1915, é a nova Diretora da Escola Primária do Instituto. Este primeiro ofício é dirigido à “Exma Snrª D. Zélia de Oliveira Braune/D.D. Chefe do Serviço de
Matrícula e Freqüência Escolares”, e traz a relação completa do corpo docente da Escola Primária – os professores presentes, os que se encontram em comissão e os transferidos para a Escola.
Em relação aos problemas que haviam sido apontados por Haydéa em seu relatório como Diretora, Orminda também terá que enfrentá-los. Em ofício de 28 de maio de 1932, Lourenço Filho reclama que “não foi até agora atendido UM só dos pedidos feitos no
presente exercício, que já vae em meio” (Ofícios do Diretor nº 217, 28/05/1932). Em relação às instalações físicas e materiais Lourenço Filho apela à responsabilidade direta de Anísio Teixeira: “o que urge, no momento, é que V. Exa., a quem já tanto deve este
Instituto, como seu criador, tome de frente a questão das deficiencias de instalações e de material didático, e a resolva definitivamente” (Ofícios do Diretor nº 217, 28/05/1932).
“A Escola Primária, anexa, que mantinha 14 classes, tem hoje 28. Com isso, o corpo discente duplicou, exigindo novas medidas, em relação ás instalações internas, para a boa marcha dos serviços, e perfeita eficiencia do ensino. (...) Nem mesmo carteiras há, em número suficiente. Várias salas de aula da Escola Primária não possuem armários, nem mesas para a professora. Cabides, quadros negros volantes, porta-chapéus não existem” (Ofícios do Diretor nº 217, 28/05/1932).
Apenas no dia 27 de setembro de 1932 a Escola Primária recebe material solicitado,
“primeiro material para o anno corrente, frisando estamos em ultimos dias lectivos de 1932 e contar esta Escola mensalmente mais oitocentos alumnos matriculados” (Ofícios
da Diretora, exp. nº 41, 27/09/32). No entanto, na lista de material recebido não se encontram os materiais dos quais Haydéa apontava faltarem em seu relatório. Estes, talvez, tenham sido enviados a partir de ofício de Lourenço Filho, em que solicita que o material
“sem utilização no momento” da Escola Gonçalves Dias – onde se situava a Escola de Aplicação – seja transferido para a Escola Primária e para o Jardim de Infância do Instituto de Educação. Neste ofício não há relação do material solicitado (Ofícios do Diretor nº 375, 13/08/1932).