A idéia de fundar uma capital no centro do Brasil é antiga, tendo sido expressa em diversas ocasiões desde o fim do século XVII. Na visão de Dom Bosco4, em 1883, "Entre os paralelos 15 e 20, no lugar onde se formará um lago, nascerá uma grande civilização, e isso acontecerá na terceira geração. Aqui será a terra prometida.” Em 1922, quando da comemoração do Centenário da Independência, a escolha da região Centro-Oeste como local da futura capital foi simbolizada pela Pedra Fundamental, erguida perto de Planaltina, a alguns quilômetros a nordeste da atual Brasília. Uma nova Capital seria construída para o Brasil partindo do nada. Para a escolha do sítio da nova capital no planalto central foi elaborado o relatório Belcher que, segundo MONTEIRO (1990, p.137), é um documento que fornecia excelentes elementos geomorfológicos e biogeográficos, quais os quais ele chegou a trabalhar em sua temporada na Universidade de Brasília.
Assim como Chandigarh a população prevista para Brasília era de 500.000 habitantes; em ambos os projetos os arquitetos puderam desenvolver seu trabalho com total liberdade e os projetos são praticamente contemporâneos. Na concepção de Brasília Lúcio Costa conciliou sua formação acadêmica tradicional com os princípios da Carta de Atenas: a setorização, a separação da circulação de pedestres das vias de tráfego de veículos, a eliminação da rua tradicional como estruturadora do espaço urbano e o conceito da unidade de vizinhança (GOROVITZ, 1985). Em Brasília, na concepção original de Lúcio Costa5, a escala residencial com a proposta inovadora da superquadra, a serenidade urbana assegurada pelo gabarito uniforme de seis pavimentos, o chão livre e accessível a todos através do uso generalizado dos pilotis e o franco predomínio do verde trouxe consigo o embrião de uma nova maneira de viver, própria de Brasília e inteiramente diversa das demais cidades brasileiras. As extensas áreas livres, a serem densamente arborizadas ou guardando a cobertura vegetal nativa, diretamente contíguas às áreas edificadas, marcam a presença da escala bucólica, que intervém no ritmo e na harmonia dos espaços urbanos e se faz sentir na passagem sem transição do ocupado para o não ocupado, delimitando a cidade por áreas livres arborizadas.
Toda a estrutura residencial do Plano Piloto é baseada nas superquadras, que têm cerca de 200 x 200 metros cada. Os blocos de apartamentos são dispostos de maneira diversa, mas obedecem a um padrão geral: máximo de três andares nas quadras 400, máximo de seis nas quadras 200, 100 e 300, com vegetação e iluminação natural abundantes. As superquadras são separadas por vias transversais onde funciona o comércio local destinado a servir aos moradores. Cada conjunto de oito superquadras constitui uma unidade de vizinhança, com espaços reservados para áreas de esporte, templos e postos policiais. As superquadras residenciais se integram à escala monumental não apenas pelo gabarito das edificações como pela definição geométrica do território de cada quadra através da arborização densa da faixa verde que a delimita e lhe confere o uso de pátio interno urbano.6
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5 COE - Código de Obras e Edificações de Brasília, em www.guiabrasilia.com.br 6 www.guiabrasilia.com.br
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No centro a densidade de ocupação é maior e os gabaritos mais altos, à exceção dos dois setores de diversões. O plano-piloto optou por concentrar a população próxima ao centro através da criação de áreas de vizinhança que só admitem habitação multifamiliar, mas não da forma tradicional. A proposta de Brasília mudou a imagem de morar em apartamento, e isto porque morar em apartamento na superquadra significa dispor de chão livre e de gramados contíguos à casa, numa escala em que um lote individual normal não tem possibilidade de oferecer. E prevaleceu a idéia de distribuir a ocupação residencial em áreas definidas para apartamentos (superquadras) e para casas isoladas, estas mais afastadas do centro.
Da proposta do plano-piloto resultou a incorporação à cidade do imenso céu do planalto, como parte integrante e onipresente da própria concepção urbana; segundo Lúcio Costa os vazios são por ele preenchidos; a cidade é deliberadamente aberta aos 360 graus do horizonte que a circunda. Na implantação de Brasília, assim como Canberra, foi criado um grande lago (fig.3.18 e 3.19). O Plano-piloto (fig.3.20) refuga a imagem tradicional no Brasil da barreira edificada ao longo da água; a orla do lago se pretendeu de livre acesso a todos, apenas privatizada no caso dos clubes. De acordo com o COE - Código de Obras e Edificações de Brasília, complementar e preservar as características originais da cidade significa, dentre outras providências, manter os gabaritos vigentes nos dois eixos e em seu entorno direto, permanecendo não edificáveis as áreas livres contíguas, e baixas a densidades, com gabaritos igualmente baixos, nas áreas onde já está prevista a ocupação entre a cidade e a orla do lago.
Segundo o Código, Brasília deverá manter-se diferente de todas as demais cidades do país: não terá apartamentos de moradia em edifícios altos; o gabarito residencial não deverá ultrapassar os seis pavimentos iniciais, sempre soltos do chão. Este será o traço diferenciador: o gabarito alto no centro comercial, mas deliberadamente contido nas áreas residenciais, a fim de restabelecer, em ambiente moderno, escala humana mais próxima da nossa vida doméstica e familiar tradicional. Deve-se também garantir a estrutura das unidades de vizinhança do Eixo Rodoviário Residencial, mantendo a entrada única nas superquadras, a interrupção das vias que lhes dão acesso para evitar o tráfego de passagem, bem como ocupando devidamente as entrequadras não comerciais com instalações para esporte e recreio e demais equipamentos de interesse comunitário, sobretudo escolas públicas destinadas ao ensino médio. Deve-se proibir a vedação das áreas cobertas de acesso aos prédios (pilotis) e dos estacionamentos, sejam eles cobertos ou não.
De acordo com a classificação de Köppen, o clima do DF se enquadra entre os tipos tropical de savana e temperado chuvoso de inverno seco. Existem duas estações bem definidas: uma chuvosa e quente, que normalmente se prolonga de outubro a abril, e outra fria e seca, em geral de maio a setembro. A temperatura média é de 20,5ºC; a máxima absoluta é de 35ºC e a mínima absoluta é de 2ºC. A umidade relativa do ar é baixa, variando entre 25% no inverno e 68% no verão. O mês mais seco do ano é setembro, com precipitação pluviométrica média de 75 mm, e o mais chuvoso é dezembro, com precipitação de 875 mm. A precipitação pluviométrica anual é de 1.925 mm.
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Figura 3.18 - Palácio da Alvorada e Vale do Paranoá (futuro lago), em 1958. (fonte: Guia de Brasília)
Figura 3.19 – O solo árido de Brasília, com o Lago Paranoá ao fundo. (foto: J. Calsinski)
Figura 3.20 - Esboço original do projeto do Plano Piloto de Brasília: Lúcio Costa, 1957, e imagem de satélite da cidade de Brasília. INPE: Landsat ,1985. (fonte: GDF/SETUR/SEBRAE – CODEPLAN
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No depoimento de Günter Weimer sobre a época da construção de Brasília (TOLEDO, 1999) ele diz que o local era um imenso canteiro de obras, sem um mínimo de áreas verdes. O pouco de cerrado que não havia sido removido pela terraplanagem estava queimado por longa estiagem. Qualquer lufada de vento levantava imensas nuvens de pó. Weimer fala sobre sua convivência com o Eng. Eustáquio Toledo Filho, politécnico, que foi professor da Universidade de Brasília. Segundo Weimer, Eustáquio afirmava que Brasília estava sendo construída sobre premissas equivocadas, com altos investimentos em grandes centrais de ar condicionado, quando o clima local permitia quase sempre estar na zona de conforto, excetuando-se a baixa umidade, que poderia ser equacionada.
ROMERO (1999) faz um diagnóstico das alterações climáticas em Brasília, na periferia do plano-piloto. De acordo com a autora, a degradação do meio ambiente da periferia, em consequência da ausência de planejamento urbano adequado e sustentável, pode ser caracterizado através de cinco grandes categorias: desestruturação da paisagem, inadequação da infra-estrutura, carência de vegetação, excesso de radiação e reflexão. Romero critica o superdimensionamento do sistema viário que privilegia carros em prejuízo dos pedestres, a relação entre largura e altura dos canyons urbanos e a falta de vegetação não permitida pelas estreitas calçadas. A resolução destas questões, que evitaria a excessiva exposição à radiação solar e propiciaria sombra, dificilmente é encontrada na periferia do plano-piloto. Sombra e vegetação não são pensadas como elemento de composição, e ficam como elementos residuais sem desempenhar nenhum papel na ambientação dos espaços. Segundo a autora, nas cidades da periferia do plano-piloto a concepção espacial se parece com um grande espaço aberto contínuo onde se instalam edifícios como sólidos independentes. Trata-se de uma estrutura de sólidos que reduz a rua a um papel secundário, de fundo, sem características de volume aparente. As funções de circular, de viver, de se reunir, desaparecem: a rua passa a ser somente via, delimitada sobre o terreno. A análise de Romero é feita em 4 escalas: na grande dimensão das estruturas urbanas, na escala do sítio, na dimensão pontual do lugar e na escala dos edifícios. Romero conclui que mesmo numa cidade planejada como Brasília, os espaços urbanos que a compõem apresentam dentro de um mesmo setor os mais variados aspectos que precisam de uma abordagem diferenciada. De acordo com BRUAND (1991) Lúcio Costa não tinha planos para as cidades satélites; eles foram elaborados posteriormente como meros paliativos.
Referências Bibliográficas
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5. Energy and environment in cities. A global strategy for EXPO’98 Lisbon. Principles and tools. [Lisboa]: [1998].
6. EXPO’98 Lisboa. Guia Oficial. [Lisboa]: [1998].
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10. GUERRA MACHO, José J. et al. Control Climático em Espacios Abiertos. Evaluación del Proyecto EXPO’92. Sevilha: CIEMAT, 1994.
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13. MONTEIRO, Carlos A. F. Entrevista com o Prof. Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro. Geosul, Florianópolis, n.9, p.124-139, 1990.
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Distrito Federal. Analise das constantes morfológicas. Brasília: UNB/FAU, Relatório Final de Projeto de Pesquisa CNPq, 1999.
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O papel da arborização e dos corpos d’água em áreas urbanas 87