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O lítio boliviano é o novo “ouro branco”, tão significativo para o mundo quanto o ciclo da prata – e mais importante que o ciclo do estanho. Este minério consegue ser quase tão relevante quanto o pré-sal brasileiro, cujo petróleo extraído pode gerar uma renda de cinco

trilhões de dólares217. Todavia, a diferença é de que o preço do lítio apresenta uma forte alta desde os últimos anos. Há três anos, a tonelada do lítio custava 300 dólares; em 2009, passou a custar três mil (Kummetz, 2009)218. Estimativas colocam o montante do negócio na casa dos

430 bilhões de dólares (Kummetz, 2009). Dadas as cifras, muitos analistas passaram a considerar a Bolívia como a Arábia Saudita do lítio, ou ainda como detentora de um “pré-sal boliviano”. Como se vê, as imagens de fato são realistas.

O lítio, componente essencial das baterias, será um dos elementos de sustentáculo em um novo paradigma energético. A crise da produção de hidrocarbonetos, por sua escassez ou por seu custo econômico, social ou ambiental, abre espaço para o debate em torno de um novo paradigma energético, assunto diretamente ligado ao papel das tecnologias da produção. O novo modelo, para ser sustentável, terá de ser baseado em energias renováveis, onde entram células fotovoltaicas, energia termosolar, eólica e de biomassa e o uso combinado com supercondutores, semicondutores e nanotecnologia. O computador e a rede são os centros de decisão econômica pelo qual pode se gerir a transição para um modelo de desenvolvimento efetivamente sustentado. De toda a forma, é preciso ressaltar que o lítio tem papel fundamental nesta transição e pode ser um dos pilares do novo paradigma energético.

O movimento separatista, ainda que condenado ao fracasso, pode ser orquestrado a partir do exterior para que a Bolívia faça concessões para exploração do seu lítio. Seu valor bruto e refinado oscila dramaticamente – em termos brutos representa cerca de 20 bilhões de dólares. O ingresso desses recursos na região pode permitir a alavancagem de toda economia regional sul-americana. Evidentemente que, além da própria Bolívia, os maiores beneficiários seriam a Argentina e o Brasil, países que contam com base industrial e como tal agregam maior valor a suas mercadorias219. O ciclo do lítio, nesta perspectiva de integração, serve

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Segundo Maia (2009), “há uma possibilidade de o pré-sal ter 300 bilhões de barris de petróleo. Façamos uma conta por um terço disso, 100 bilhões de barris. O custo de produção, hoje, no mundo, é de cerca de 8 dólares por barril. Como a tecnologia necessária para explorar o pré-sal é maior, façamos a conta a 20 dólares o barril para extração. Com a cotação do barril a 70 dólares, hoje, é possível ter um “lucro” de 50 dólares sobre o barril. Se multiplicarmos esses 50 dólares de “lucro” por 100 bilhões de barris, teremos 5 trilhões de dólares. Essa é a riqueza já pesquisada e descoberta pela Petrobrás, calculada pela hipótese mais pessimista possível. É uma riqueza realizável no tempo, durante, por exemplo, 20 anos, e levaremos 6 ou 7 anos para atingir uma boa produção. Divididos esses 5 trilhões de dólares por 20 anos, dá 250 bilhões de dólares ao ano” (grifos meus).

218 A tendência à alta do lítio pode ser vista, por exemplo, no preço praticado pela chilena SMQ, no Salar do

Atacama. Esta empresa detém um terço da produção de lítio no mundo e é a líder do setor: vende a tonelada do minério por 12 mil dólares.

219 Daí a possibilidade de se criar, por exemplo, uma empresa binacional Brasil-Bolívia de baterias ou de outros

materiais do setor elétrico. Pode-se estabelecer sistemas de subcontratação de múltiplas camadas, modo de produção responsável pela ascensão do leste Asiático e, em especial, pelo “milagre” japonês (Arrighi, 1997:79). Neste caso, a descentralização da produção pode contribuir não só para o fortalecimento da integração entre os Brasil e Bolívia, mas também para o desenvolvimento sócio-econômico. No sistema japonês, quantidades enormes de donas-de-casa processavam, em casa, peças minúsculas de metas ou eletrônicas (Arrighi, 1997:68).

como motor, juntamente com o pré-sal, para o soerguimento econômico, político e militar de toda região220. A Bolívia tem, claramente, esta intenção; proclama a si mesmo como “centro

energético sul-americano”221 (Bolívia, 2007). Ao mesmo tempo, o Presidente Evo Morales

lançou quinze projetos de leis222 que têm como propósito recuperar a capacidade defensiva do país. Trata-se de uma clara janela de oportunidades para a criação de uma economia de defesa, tendo como núcleo uma base industrial de defesa sul-americana.

Dentre as iniciativas de defesa propostas pelo presidente boliviano, algumas merecem especial atenção, por sua analogia com as próprias iniciativas brasileiras (SINAMOB e Plano de Defesa Nacional).

A primeira iniciativa de destaque é o projeto lei “Ley de Seguridad y Defensa Integral”. Por esta proposta, o conceito de Segurança Nacional passa a abarcar os âmbitos estatal, social, econômico e ambiental223. Ao contemplar estas dimensões, a Lei parece implementar a noção de segurança multidimensional da ONU e da OEA. Dentro da nova regulamentação proposta são identificadas vinte e seis ameaças. Merecem destaque: (1) a preocupação com a ingerência de potências estrangeiras e organismos ou agências internacionais; (2) o cuidado com a violação da integridade territorial e a remoção de marcos fronteiriços224; (3) a preocupação com o desequilíbrio militar regional225; (4) a ameaça do separatismo ou da secessão (Bartolomé, 2010).

No caso da Bolívia, cooperativas das comunidades indígenas dos povos originários podem estabelecer, por exemplo, associações produtivas de componentes eletrônicos, fortalecendo um Terceiro setor boliviano.

220 Por enquanto, as empresas e países que manifestaram interesse em cooperar com a Bolívia na industrialização

do lítio, o que aumenta exponencialmente seu valor agregado são: Japão, China, Rússia, Brasil, França e Coréia do Sul. Chama a atenção, de um lado, a ausência dos Estados Unidos e, de outro, que o único desses países que efetivamente já está na Bolívia é o Japão. Embora a França também seja uma candidata forte, são representantes da empresa Mitsubishi que já estão residindo em La Paz; cientistas japoneses também estão na Bolívia realizando pesquisas sobre a forma de extração do lítio. Por enquanto, a extração está a cargo da Comibol (Corporación Minera de Bolívia).

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Atualmente, o país conta com 1,4 trilhões de m3 de gás natural – segunda maior reserva da América do Sul, menor que a Venezuela apenas – e uma reserva de petróleo de 441 milhões de barris (Carra, 2008:127)

222 (1) Ley de Seguridad y Defensa Integral; (2) Ley Orgánica de las Fuerzas Armadas; (3) Ley de Seguro Social

Militar; (4) Ley de Intereses Marítimos Lacustres y Fluviales; (5) Ley del Consejo Supremo de Defensa del Estado Plurinacional (COSDEP); (6) Ley del Sistema Educativo Militar; (7) Ley de Administración de Personal; (8) Ley de Régimen de Fronteras; (9) Ley del Fondo de Defensa; (10) Ley de Servicio Militar Obligatorio; (11) Ley de Armas Municiones y Explosivos; (12) Ley de Inteligencia del Estado; (13) Sistema Judicial Militar; (14) Código Penal Militar; (15) Código de Procedimiento Penal Militar.

223 Por exemplo, o ministro da Defesa boliviano, Wálker San Miguel, anunciou que pretende espalhar pelo país

seis batalhões de engenharia. O propósito é que qualquer município, departamento, ou a própria União possa contratar esses serviços para realizar obras de infra-estrutura, como a construção de estradas e a reparação de instalações públicas (Espinozza, 2009).

224 Parece haver especial preocupação com o Chile. O Chile, embora em 2010 seu poder Legislativo planeje

revogar a Lei do Cobre, em geral possui as Forças Armadas mais modernas da América do Sul e investe 10% da receita de exportação deste minério na modernização de seu material bélico. Ademais, o país possui minas com todos países que faz fronteira: Argentina, Peru e Bolívia. Em relação a esta última, mantêm-se meio milhão de minas, apesar de haver um acordo entre os dois países (1997) que determina sua remoção (Mares, 2001: 47;225).

Há também a iniciativa legislativa relacionada à Lei de Inteligência do Estado que visa à criação de uma agência central de inteligência (composta por militares e civis). Importa também a lei orgânica das Forças Armadas que, entre outras disposições, prevê a criação do Fundo de Abastecimento e Reposição de Equipamentos (FARE). São considerados contribuintes do Fundo: a União Federal, Fundações e Autarquias e Empresas Mistas, o que deverá incluir as empresas produtoras de gás e petróleo e os próprios jovens que prestam o serviço militar (Bartolomé, 2010).

Contudo, a principal contribuição dos recursos naturais ao incremento da capacidade de defesa provém do projeto lei de criação do Fundo de Defesa (“Ley del Fondo de Defensa”). O projeto prevê a destinação de 3% da arrecadação oriunda da venda dos recursos naturais em meios de defesa. São explicitamente mencionados, o gás, o petróleo, o ferro e o lítio. Considerando-se a aplicação da lei apenas sobre os ingressos obtidos apenas a partir da venda de hidrocarbonetos (gás e petróleo) em números de hoje (2009) ter-se-ia o concurso de US$ 19 milhões para as Forças Armadas Bolivianas (Bartolomé, 2010). À primeira vista parece tratar-se de uma gota d’água em um oceano. Contudo, aqui importa a escala, deve-se considerar que o orçamento militar total da Bolívia em 2006 foi de apenas US$ 155 milhões. (IISS, 2006) Deste modo, a receita estimada (US$ 19 milhões) representaria um acréscimo de 12% ao orçamento. Contudo, ainda é prematuro afirmar, como fazem alguns observadores, de que se trata do equivalente boliviano à Lei do Cobre chilena. Trata-se de exagero. Ainda que os valores percentuais pareçam altos, os montantes reais são extremamente baixos. Contudo, deve-se admitir o potencial de expansão contido na lei do Fundo de Defesa. Afinal ainda não foi computado o papel do lítio, cuja exploração está apenas começando. Neste caso, se confirmadas às estimativas acerca do significado das reservas bolivianas de lítio, talvez efetivamente o Fundo de Defesa possa-se ter uma semelhança real com a lei do cobre.

Qualquer que seja o caso, importa a criação do Fundo, pois cria, por menor que seja, um gatilho contra o sucateamento das Forças Armadas bolivianas ora ameaçadas pela pura e simples obsolescência. É justamente esta receita constante, possivelmente progressiva, que cria a expectativa – historicamente inexistente – da criação de uma economia de defesa aliada a uma base industrial composta por pesquisadores e empresa sul-americanas226. A regularidade das receitas assegura uma demanda fixa em torno da produção, e da manutenção

225 Preocupação que merece atenção. Conforme Dullius (2008), o Chile gastou 23% do orçamento nacional

(2004) e 27,5% (2007) em reequipamento militar. Para o mesmo dado, a aliada da Bolívia, a Venezuela, gastou 15% (2004) e 5,2% (2007).

226 Além das iniciativas econômicas, pode-se estabelecer parcerias entre cidades brasileiras e bolivianas, de

de sistemas de armas. Traz a oportunidade ao incremento da Pesquisa, do Desenvolvimento e da Inovação (P&D&I) no âmbito do subcontinente da criação de novas empresas e de todo o ramo de produção, negócios e serviços.

Em suma, conjugadas as iniciativas brasileiras e bolivianas com a existência do Conselho de Defesa da Unasul, a janela de oportunidades tem efeito multiplicador – quesito auspicioso para projeção de desempenho de qualquer tipo de negócio. Trata-se de uma oportunidade ímpar de, utilizando-se a economia de defesa, obter a verticalização em âmbito sul-americano, isto é, uma ação dos meios de pagamento orientada a partir dos gastos militares que efetivamente seja capaz de construir o Centro de Decisão Econômica – desta feita, em âmbito de América do Sul.

4.5 – Integração Supranacional: 2º Pilar para a Bolívia Reescrever o