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Em matéria veiculada no jornal O Estado de São Paulo em 08 de setembro de 197124, na qual o intuito era fazer uma espécie de balanço do primeiro ano de atividades do movimento, o Mobral é assim definido:
O Mobral é a mais séria tentativa de acabar com o analfabetismo jamais idealizada e executada neste País. Não se trata de uma ‘campanha’ contra o analfabetismo, mas de um Programa de ação integrada, intensiva, continuada, que tem por objetivo erradicar o analfabetismo.
O modo como essa definição do Mobral é enunciada no texto jornalístico nos permite inferir que, para além da validação de suas ações, o uso dos advérbios “mais” e “jamais” na função de intensificadores daquilo que se afirma visa a criar do efeito de sentido de desqualificação das iniciativas que vinham sendo adotadas até o momento. É como se, para assegurar seu status inovador e garantir a adesão, fosse necessário negar todas as ações que o precederam. O próprio uso das aspas utilizadas na palavra campanha tem esse tom de crítica, marcando uma suposta inocuidade dessa prática no fomento à alfabetização. É importante lembrar que a primeira ação de fato pública de erradicação ao analfabetismo foi denominada Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos e essa crítica nos parece incidir diretamente sobre ela. É nessa desconstrução marcada na materialidade linguística pelo emprego dos advérbios que o Mobral visa a se consolidar e validar como “ação, intensiva, continuada, que tem por objetivo erradicar o analfabetismo”.
Como pudemos constatar tanto em matérias jornalísticas quanto em publicidades veiculadas a seu respeito, a tônica dos discursos que orientam tal tentativa está na preocupação com a promoção humana. Diferentemente dos movimentos de educação e cultura popular dos anos 1950 e 1960, essa promoção não se relacionava a uma conscientização e libertação da população da situação de opressão em que vivia, mas a uma suposta melhoria em suas condições materiais de vida. É o que se verifica, por exemplo, na referida matéria do dia 08 de setembro de 1971, na qual se afirma que “o movimento ‘está
muito mais preocupado em promover o homem, do que apenas ensiná-lo a ler e escrever’”.
Também nela, assevera-se que “o problema da promoção humana implica,
fundamentalmente, condições de ordem socio-economica”, imaginário este que já perpassava
24 A matéria está no Anexo nº 4.
a publicidade de um plano previdenciário do Banco Bradesco, veiculado em 1970 pela revista Veja, a qual reproduzimos abaixo e foi transcrita no Anexo nº 5.
A representação da prática de leitura (e aqui também de escrita) aí expressa e que norteia seu fomento é aquela que a toma como avalista de um futuro melhor. Isso porque, de acordo com a mesma publicidade: “Uma nação que sabe ler e escrever é uma nação que conhece os seus caminhos. Melhores empregos. Melhores oportunidades. Futuro garantido. O Brasil desperta para a alfabetização. E o Mobral, agora lançado, é o seu maior
Figura 10 – Publicidade do Banco
Bradesco
instrumento”. Obviamente, é preciso pensar em quem fala (nesse caso, na empresa que produz a publicidade) e por quais razões o faz. Tendo em vista que, como exposto, o Mobral se pretende um movimento de erradicação do analfabetismo, cujo foco em ensinar a ler estaria na possibilidade de promoção humana, ao assumir essa posição sujeito “incentivador da leitura” valendo-se dos mesmos discursos que orientam as ações do movimento bem como através da criação de um fundo que lhe destina recursos, o Banco visa gozar do status que o incentivo a essa prática gera, mas também dos benefícios econômicos que uma transformação na estrutura social poderia gerar.
Este é o teor de outra publicidade, dessa vez produzida pelos idealizadores do Mobral e da qual, infelizmente, não pudemos precisar nem o ano nem onde foi veiculada. Nela, conclamam-se os empresários a financiar as ações do Mobral, tal como reproduzido no cartaz abaixo:
Figura 11 – Convite do Mobral aos empresários
Pautados pelo princípio de que o domínio da cultura escrita, pela alfabetização ou de que o domínio da leitura, enfim, é o avalista de um futuro melhor e responsável pelo progresso econômico de cada um, nessa publicidade do Mobral, os empresários são chamados a cooperar financeiramente com o movimento. Trata-se de um texto bastante interessante, porque hoje nos soa até irônico, uma vez que não apenas é muito objetivo e explícito em seu objetivo, como também traz uma representação dos empresários, de sua lógica, de seus interesses, crenças e hábitos, excessivamente sincero, uma representação um tanto crua e não modalizada, por isso inadequada tendo em vista o objetivo do gênero campanha, que é o de agregar forças junto ao empresariado. Ao explorar de maneira didática uma das justificativas meritocráticas que fundamentam a crença dos empresários, de que sua riqueza é fruto exclusivo de seu trabalho e esforço, de sua inteligência e competências, o enunciador dessa campanha reproduz um desses mitos que explicam a sociedade tal como ela é: desigual. Ele também encontra uma justificativa adequada: uns estudaram, outros não.
As segundas intenções expressas no título do referido cartaz para o auxílio ao movimento estariam, portanto, no iminente retorno financeiro, mas também no valor simbólico agregado à imagem da empresa, escamoteado sob a forma de uma suposta filantropia: Ajudando o Mobral você reforça a boa imagem da sua empresa de maneira mais prática, direta e simpática do que mil coquetéis ou notinhas de viagem à Europa.
Tal como é enunciado acerca do domínio da escrita, a leitura como habilidade fundamental da alfabetização é representada frequentemente também como condição que explica e justifica as diferenças sociais e materiais dos indivíduos, tal como se pode depreender do enunciado “Todo analfabeto é pobre”, no qual se explicita uma relação direta entre saber escrever e ler e ter boas condições materiais de vida. Além disso, por meio dessa publicidade é possível verificar, de certo modo, que a leitura, ou a possibilidade de ler, segue sendo, tal qual no século XIX, restrita a uma pequena parcela da população que detém os meios para acedê-la. Evidentemente, essa divisão é um tanto quanto estanque e redutora à medida que desconsidera as distintas maneiras de ler bem como as diferentes relações com o texto, dado que a leitura “é sempre uma prática encarnada em gestos, em espaços, em hábitos” (CHARTIER, 1999, p. 13) e:
a clivagem entre alfabetizados e analfabetos, essencial mas grosseira, não esgota as diferenças em relação ao escrito. Aqueles que são capazes de ler textos não o fazem da mesma maneira, e há uma grande diferença entre os letrados talentosos e os leitores menos hábeis, obrigados a oralizar o que lêem para poder compreender, ou que só se sentem à vontade com algumas formas textuais ou tipográficas.
Ainda no que concerne ao público-alvo do Mobral e os discursos sobre a leitura que sustentam suas ações, em outra publicidade, veiculada pela Editora Abril, mas da qual não foi possível precisar o ano, a exemplificação das pessoas a quem se destina a alfabetização (empregada, jardineiro, irmã da costureira, costureira) reitera a representação da leitura como avalista de um futuro melhor, de melhores condições de vida, o que justifica seu incentivo. Na publicidade, também se evidencia a condição socioeconômica daqueles que são chamados a alfabetizar o que novamente aponta para o fato de a leitura ainda ser privilégio de determinadas classes sociais e de atuar como uma forma de distinção em duplo sentido: o relativo à divisão entre leitores e não leitores; e o relativo aos que, sendo leitores, podem se afirmar como tal ao se proporem a ajudar a formar não-leitores.
Além disso, há todo um discurso filantrópico que orienta as ações do Mobral e que pode ser depreendido, por exemplo, pelo enunciado: “Ensine o primeiro analfabeto que
encontrar”. Se o conclame aos empresários tinha como mote os possíveis lucros advindos de
uma mudança na estrutura social, o convite às pessoas para participar da alfabetização dos que ainda não sabiam ler tinha um caráter muito mais filantrópico tendo em vista não contar efetivamente com nenhum benefício material: “Se você ajudar, e se todos ajudarem, em dez
anos ninguém mais usará essa assinatura aí acima”.
Figura 12 – Publicidade do Mobral produzida pela Editora Abril
O modo como esse conclame a participação pública é enunciado na publicidade da Editora Abril evoca uma memória discursiva relacionada à filantropia com ecos religiosos que perpassa outras ações de erradicação ao analfabetismo, tal como a Liga Brasileira contra o Analphabetismo. Tal conclame público sob um viés filantrópico pode ser depreendido, por exemplo, pelo uso do condicional “se” no enunciado “Se você ajudar, e se todos ajudarem, em dez anos ninguém mais usará essa assinatura aí acima”. O emprego do condicional coloca esse engajamento sob a ótica da opção, reafirmando sua dimensão caridosa porque não obrigatória. Além disso, nesse conclame, vemos o aspecto de improviso, de ausência do papel político como agente efetivo desse tipo de mudança e não apenas como a voz de uma consciência nacional coletiva, inócua, porque pouco engajante assim como apolítica.
No que se refere aos discursos de promoção da leitura que norteiam as ações do Mobral, pudemos observar que também nelas o imaginário sobre essa prática é eufórico, no sentido de que ela é avalista da promoção humana. Essa promoção, no entanto, não passa pelo desenvolvimento da criticidade, dado que, diferentemente do que era proposto nos movimentos de educação e cultura popular havia um esvaziamento da sua dimensão problematizadora nos materiais produzidos pelo movimento, como afirmam Soares e Galvão (2005). Em matéria publicada pelo jornal O Estado de São Paulo em 09 de setembro de 1971, cujo título é “Lampião aceso, começa aula do Mobral”25, algumas asserções do secretário
executivo do Movimento, padre Fernando Spotorno, evidenciam estas distinções: “Nossas
cartilhas – afirma o padre Spotorno - contém mensagens positivas, radicalmente diferentes
das que eram usadas até então, porque não apelam para a miséria e ensinam o homem a
viver melhor”. Esse viver melhor, por sua vez, é pautado pelo trabalho e esforço individual, o
que indicia também um discurso meritocrático imiscuído ao/no discurso da alfabetização como avalista da promoção humana. Isso porque, ainda segundo o secretario-executivo do Mobral, “cada um é que tem que melhorar, não adianta esperar passivamente o que o governo vai fazer”.
O discurso filantrópico que, como vimos, permeia as ações de erradicação do analfabetismo desde o início do século XX é, nesse caso, afetado também por esse imaginário meritocrático, visto que, no Mobral, o trabalho de alfabetização é realizado por voluntários, e, nesse sentido, acreditava-se que “o exemplo do que outros fizeram e estão fazendo por êle é mais um estímulo para o aluno trabalhar. Ele vê que quem está ali é um companheiro seu,
que se desvela em ajudá-lo a melhorar”. Assim, a bondade e exemplo dos voluntários
25 A transcrição se encontra no Anexo nº 6
deveriam servir de motivação para seus esforços. De acordo com Soares e Galvão (2005), em seus anos finais, o Mobral é investigado por uma CPI que visa a apurar a destinação dos recursos financeiros do movimento bem como recebe críticas pedagógicas, sendo extinto em 1985 e é substituído pela Fundação Educar, cuja duração também é curta. Ainda segundo os autores, a Fundação faz parte do Ministério da Educação e suas ações são supervisionar e acompanhar as instituições e secretarias que recebiam os recursos destinados à execução dos programas de alfabetização. É extinta em 1990, cinco anos após sua implantação, pelo governo Collor, não sendo substituída por nenhuma outra iniciativa em âmbito federal até 1996, quando é lançado o Programa Alfabetização Solidária durante o governo Fernando Henrique Cardoso.