6 Inter@ctive TV ve Ev Ağı 37
6.4 Ev ağı bağlantısı ile video, müzik ve fotoğraf
A primeira ação de fato pública de erradicação do analfabetismo ocorre em 1947 com o lançamento da Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos Analfabetos (CEAA). Duas razões são elencadas por Soares (1996) para explicar o surgimento dessa ação: uma é relativa às recomendações da Unesco (fundada em 1945) no que toca a educação de adultos no período pós-guerra e a outra referente à necessidade do aumento da quantidade de eleitores no período de redemocratização do Brasil após o fim do Estado Novo. O alto índice de analfabetos adultos (em torno de 56%) também é apontado por Soares e Galvão (2005) como outra de suas causas. Os autores supracitados afirmam que “foram criadas, inicialmente, dez mil classes de alfabetização em todos os municípios do país e uma infra-estrutura nos estados e municípios para atender à educação de jovens e adultos” (SOARES; GALVÃO, 2005, p. 266). O objetivo, segundo os autores, era alfabetizá-los em três meses, oferecer-lhes curso primário em dois períodos de sete meses e depois disso ofertar cursos de capacitação profissional e desenvolvimento comunitário. Para o processo de alfabetização, foram produzidos diversos materiais pedagógicos. Reproduzimos abaixo dois desses materiais encontrados junto ao acervo do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. São intitulados: Ler: primeiro guia de leitura e Saber: segundo guia de leitura, baseados no método silábico.
Figura 4 – Ler: primeiro guia de leitura
Fonte: CPDOC/FGV
Figura 5 – Saber: segundo guia de leitura
Ao final dessas publicações, são veiculados textos que, de modo geral, versam sobre as finalidades da leitura e nos interessam à medida que, por meio deles, é possível depreender como essa prática era concebida no período e, consequentemente, as razões que levam seus idealizadores a fomentá-la. O primeiro deles é intitulado “Já sei ler”, publicado no manual
Ler: primeiro guia de Leitura e o segundo “José quer saber”, publicado em Saber: segundo
guia de leitura. Os textos são reproduzidos abaixo:
Já sei ler Já sei ler!
Posso entender qualquer palavra escrita. E estou por isso muito contente.
Pudera! sinto-me como um cego a quem tivesse voltado a vista. Todos os segredos da vida estão escritos. Agora poderei conhecê-los. Poderei ler para aprender como se conserva a saúde, como se ganha mais dinheiro, como se pode manter uma casa, como se encaminha um negócio, como se ajuda a pátria, como se pode ser mais feliz com a família.
Todos os dias lerei alguma coisa, e, assim, poderei educar-me a mim mesmo.
Lerei o que está escrito sôbre coisas verdadeiras e boas. A verdade é poderosa. Conhecendo a verdade serei melhor e mais livre.
Vou ensinar alguém como me ensinaram a mim.
Esse alguém terá o mesmo contentamento que tenho agora.
José quer saber José sabe ler. Lê no livro. Lê no jornal.
Lê os letreiros da rua.
Lê os letreiros das fitas do cinema. Lê ainda devagar, mas certo. Para que José aprendeu a ler?
José aprendeu a ler para saber. E quer saber para proceder sempre com acêrto.
A gente não deve ler para dizer que lê. Nem deve aprender para dizer que aprendeu.
A gente deve ler e aprender para proceder com acêrto e viver melhor. A ignorância nos leva ao êrro. Quem não sabe é como quem não vê. Ao contrário, quem sabe pode evitar muitos males.
Bem diz o ditado que um homem prevenido vale por dois.
Selecionamos alguns enunciados de ambos os textos que nos parecem elucidar uma representação sobre a leitura (e em certa medida sobre os leitores em formação) que
sustentam a Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos Analfabetos. Em ambos, a estrutura frasal e o conteúdo textual são muito simples (especialmente o veiculado no segundo guia), em muito se assemelhando àqueles utilizados na educação das crianças, crítica esta recebida pela Campanha, especialmente por alguns de seus membros (entre eles Paulo Freire) que, posteriormente, engajariam-se no Movimento de Cultura Popular, como afirmam Soares e Galvão (2005). Segundo eles, “como não se tinha uma tradição, um acúmulo de experiências e de estudos sobre como alfabetizar adultos que dessem suporte às ações governamentais, o discurso em torno da Campanha, os argumentos didáticos e pedagógicos tinham como ênfase a educação das crianças” (SOARES; GALVÃO, 2005, p. 267).
A estratégia de construção do texto “Já sei ler” é apresentar aos leitores, por meio da voz de um sujeito que também acaba de ser alfabetizado (criando um efeito de identificação), tudo o que saber ler lhe permite. Algumas das benesses propiciadas pela leitura são assim elencadas:
Poderei ler para aprender como se conserva a saúde, como se ganha mais dinheiro, como se pode manter uma casa, como se encaminha um negócio, como se ajuda a pátria, como se pode ser mais feliz com a família.
Alguns dos discursos sobre a leitura que sustentam o texto em questão relacionam-na ao seu caráter utilitarista, exclusivamente pragmático da prática que se intenta promover. Isso porque seus usos estão relacionados à possibilidade de amealhar dinheiro, gerenciar o próprio negócio, mas também ao bem-estar físico do sujeito pela conservação, melhora em sua relação familiar; verifica-se, ainda, uma associação da leitura a um imaginário nacionalista, uma vez que saber ler ensina como ajudar a pátria.
Outro dado importante, tendo em vista o público a quem se destinam esses guias, é a divisão social muito marcada entre as leituras idealizadas e propiciadas para as classes mais abastadas, leituras estas que primam pelo gozo estético e pelo desenvolvimento intelectual, e as práticas utilitaristas reservadas ao leitor popular, tal como é possível depreender pelos modos como a leitura é enunciada aqui. Essa distinção das leituras voltadas a um e outro público tem a ver com a representação que se faz dos sujeitos analfabetos bem como demonstra essa visão salvacionista mas reprodutora das diferenças sociais que perpassam as ações de promoção da alfabetização.
O texto também se inscreve numa formação discursiva religiosa, entendida aqui segundo a célebre definição foucaultiana, para a qual:
No caso em que se puder descrever, entre um certo número de enunciados, semelhante sistema de dispersão, e no caso em que entre os objetos, os tipos de enunciação, os conceitos, as escolhas temáticas, se puder definir uma regularidade (uma ordem, correlações, posições e funcionamentos, transformações), diremos, por convenção, que se trata de uma formação discursiva. (FOUCAULT, 2008, p. 43) Isso porque reconhecemos nele tipos de enunciação e escolhas temáticas próprias do universo sacro, como, por exemplo, quando se afirma, no texto “Já sei Ler” (reproduzido anteriormente, que “Lerei o que está escrito sôbre coisas verdadeiras e boas. A verdade é
poderosa. Conhecendo a verdade, serei melhor e mais livre”, cujo enunciado estabelece uma
relação parafrástica com outro enunciado contido em uma passagem bíblica, no qual se afirma: “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. Essa representação da leitura como detentora do “poder sagrado de revelar a verdade” também está expresso em outra passagem do texto: Pudera! sinto-me como um cego a quem tivesse voltado a vista! Esse enunciado tal qual o anteriormente expresso também evoca uma memória discursiva religiosa à medida que novamente é possível estabelecer uma relação entre ele e a parábola bíblica do cego que recobra a visão. Os discursos sobre a leitura que levam a promovê-la são, então, sustentados por uma sua representação como prática redentora e, nesse caso, detentora de um poder capaz de revelar verdades. Vê-se que distintas são as estratégias e argumentos de seu incentivo (baseados em princípios nacionalistas e salutares, por exemplo), mas que guardam semelhanças com os modos e razões do fomento dessa prática na atualidade, haja vista ambos serem orientados por um seu imaginário exclusivamente e altamente eufórico.
Esse imaginário eufórico sobre a leitura também pode ser verificado no texto publicado no Saber: segundo guia de leitura, cujo título é José sabe ler. Nele, há uma representação de que essa prática provê uma melhora na qualidade de vida se perpassada por uma conduta acertada. No entanto, ela não se dá a qualquer finalidade, mas deve servir ao propósito de evitar erros, tal como expresso nos enunciados abaixo reproduzidos:
A gente não deve ler para dizer que lê. Nem deve aprender para dizer que aprendeu./A gente deve ler e aprender para proceder com acêrto e viver melhor/A ignorância nos leva ao êrro. Quem não sabe é como quem não vê.
A ideia de “proceder com acerto e viver melhor” resgata uma dimensão moral associada a essa prática em muito relacionada à formação discursiva religiosa que perpassa o texto, remetendo à retidão, à lisura que garantiriam uma vida melhor porque pautadas em princípios ligados ao universo sacro.
Vê-se que a representação da prática de leitura que sustenta o texto em questão não prevê uma sua promoção irrestrita, à medida que de nada adianta ler por ler, pois aprender a fazê-lo deve ter uma finalidade. Uma consideração importante a se fazer aqui é que se, tal como a Liga Brasileira contra o Analphabetismo, a Campanha de Educação de Adolescentes e Adultos Analfabetos também tem o intuito de erradicar o analfabetismo, intuito este pautado, em ambos os casos, por representações eufóricas sobre as práticas de leitura, as estratégias utilizadas em uma e em outra são distintas. Enquanto a Liga o faz norteada por um discurso filantrópico, altruísta, que marca o lugar de leitor daqueles que se comprometem com o “dever de honra” de auxiliar a acabar com a “vergonha nacional” do analfabetismo, a Campanha vale-se da estratégia de criar um efeito de identificação com os enunciatários. Esse efeito de identificação pode ser depreendido, por exemplo, pela voz do enunciador, que swe inclui entre os que devem aprender, postulando A gente não deve ler para dizer que lê ou A
gente deve ler e aprender para proceder com acêrto e viver melhor. No entanto, esse efeito de
identificação não se sustenta quando o enunciador assevera que Quem não sabe é como quem
não vê. Isso porque o uso do pronome “quem”, tem aqui um efeito de sentido de exclusão
daquele que enuncia com relação ao que está sendo enunciado, o que nos leva a constatar esse funcionamento muito próprio dos discursos de promoção da leitura no que se refere ao trabalhar por sua expansão e ao mesmo tempo a necessidade de nutrir sua raridade.
Outro dado sobre a leitura presente no texto é o de que ela não é concebida necessariamente em sua associação com o livro impresso, mas em diferentes suportes: José
sabe ler./Lê no livro./Lê no jornal./Lê os letreiros da rua./ Lê os letreiros das fitas do cinema.
Isso porque tais dados vão de encontro aos modos como essa prática é comumente enunciada nos materiais que coletamos, ao menos naqueles publicados em período próximo. Em geral, e como abordaremos em outro tópico de análise, estabelece-se uma ligação quase que intrínseca entre a leitura e o objeto cultural livro impresso. Até por essa razão, por muito tempo uma das ações mais recorrentes de promoção dessa prática eram aquelas destinadas a fazer com que o livro, historicamente item de alto valor aquisitivo no Brasil, fosse barateado e estivesse acessível ao maior número possível de pessoas, quer através da compra quer através de sua disponibilidade em bibliotecas e escolas, clubes de leitura.
Outras iniciativas de extinção do analfabetismo se seguiram no período, como a Campanha Nacional de Educação Rural em 1950 e a Campanha Nacional de Erradicação do Analfabetismo em 1958, que pouco diferiam em relação à campanha de 1947 e foram extintas em 1963, segundo Soares e Galvão (2005). É notável uma preocupação com o incentivo à leitura, entendida aqui com o intuito de tornar as pessoas leitoras por meio da alfabetização e
evidenciada pelo número de ações em prol da erradicação do analfabetismo promovidas na primeira metade do século.