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Se até esse momento a pessoa não alfabetizada era considerada ser da falta (imaginário recorrente em se tratando da relação do brasileiro com a leitura), tomada como ignorante e incapaz (SOARES; GALVÃO, 2005), essa perspectiva começa a se alterar com os movimentos de educação e cultura popular que se espalharam pelo Brasil (em especial, pelo Nordeste) no final dos anos 50 e começo dos anos 60, baseados no método freireano.

A perspectiva freireana reconhecia os analfabetos como portadores e produtores da cultura, o que se opunha de maneira contundente às representações de analfabeto até então preponderantes, fortemente marcadas pelo preconceito. A educação teria o papel de libertar os sujeitos de uma consciência ingênua, herança de uma sociedade opressora, agrária e oligárquica, transformando-a em consciência crítica. (UNESCO, 2008, p. 27)

Como já exposto, uma das críticas feitas às campanhas de extinção do analfabetismo dos anos 1940 e 1950 dizia respeito aos seus materiais serem baseados naqueles desenvolvidos para a educação de crianças, não respeitando as singularidades dos educandos adultos. Parece-nos que não se trata tão simplesmente de uma questão da singularidade do público, mas também, e sobretudo, diz respeito ao fato de esses materiais serem infantilizantes por relacionarem desconhecimento do código escrito com desconhecimento de modo geral, com falta de inteligência e de competência. A educação proposta pelos movimentos de educação e cultura popular, dos quais destacamos o Movimento de Cultura Popular (doravante MCP), no Recife, e o De Pé no Chão também se aprende a ler, em Natal, são voltados à conscientização (SOARES; GALVÃO, 2005) dos alfabetizandos. O próprio conceito de cultura popular que orientava o trabalho dos movimentos “não [era] a disseminação da cultura erudita aos setores populares, mas tomar a cultura do povo como expressão de sua visão de mundo e, a partir dela, no que se designou conscientização, pensar a transformação da realidade em uma perspectiva democrática” (FÁVERO; FREITAS, 2011, p. 371). Se na Liga Brasileira contra o Analphabetismo, por exemplo, os sujeitos analfabetos são concebidos como ignorantes e incapazes, no Movimento de Cultura Popular (e está aí um de seus grandes ganhos e diferença com relação ao que vinha sendo proposto no que se referia à erradicação do analfabetismo), os sujeitos são vistos de uma forma humana e considerados

produtores de cultura, cultura essa que é utilizada no processo de ensino da leitura. É nesse sentido que os referidos autores também afirmam que:

Os movimentos de educação popular, surgidos todos no mesmo período, dão um salto qualitativo em relação às campanhas e mobilizações governamentais contra o analfabetismo de adultos, ou de educação rural, dos anos de 1940 e 1950. Foram iniciativas qualitativamente diferentes das ações anteriores. Havia um compromisso explicitamente assumido em favor das classes populares, urbanas e rurais, assim como orientação da ação educativa para uma ação política. (FÁVERO; FREITAS, 2011, p. 373)

Promover a leitura é, nesse caso, não apenas ensinar a ler, mas utilizá-la como ferramenta de conscientização e de libertação. Desse modo, embora ambos os movimentos se caracterizem pela intenção de erradicar o analfabetismo, seus posicionamentos são distintos. Por isso, como nos relembra Foucault (2008) é preciso ter sempre no horizonte “quem fala” e qual posição sujeito ocupa.

Tendo em vista a célebre colocação de Paulo Freire de que a leitura do mundo precede a leitura da palavra, os materiais eram organizados utilizando palavras que concerniam a realidade dos educandos, com vistas a consciencializá-los, como é possível verificar já na lição 1 do “Livro de Leitura para adultos” do Movimento de Cultura Popular, no Recife.

Figura 6 – Livro de Leitura para Adultos - Movimento de Cultura Popular

Parte dos movimentos de educação e cultura popular do período, na Campanha De Pé no Chão Também Se Aprende a Ler também verificamos a representação da leitura como prática libertária, empoderadora, emancipadora, o que justifica, e mais do que isso, faz necessária sua promoção. Isso porque, segundo mensagem do então Secretário da Educação de Natal, Moacyr de Góes, veiculada no livro de leitura entregue aos alfabetizandos, o fim da Campanha é a “liberação popular através da educação”.

Figura 7 – Livro de Leitura para Adultos - Movimento de Cultura Popular

Figura 8 – De Pé no Chão Também Se Aprende a Ler

Fonte: Fórum EJA

Figura 9 – De Pé no Chão Também Se Aprende a Ler – Mensagem Secretario de Educação

Na própria capa da publicação, vemos a menção ao “Livro de Leitura para Adultos” do MCP, no qual a Campanha de Pé no Chão se inspira e adapta para as condições do Rio Grande do Norte. A referência aos pés no chão deixa implícita a situação de pobreza em que provavelmente se encontra a população abrangida pela Campanha e, nesse sentido, a consciência crítica gerada pela alfabetização é instrumento para romper com a situação de opressão em que vivem:

(...) a ‘Campanha De Pé no Chão Também se Aprende a Ler’ é a resposta de um Povo que se levanta para lutar contra a miséria, contra a expoliação, pela afirmação do direito de todos à educação, pela autenticidade de uma cultura brasileira, por uma escola brasileira consciente, crítica e demonstrativa.

Visando também a erradicar o analfabetismo, essa iniciativa não se configura a partir de um discurso filantrópico, como um favor de uma parcela da população a outra em função da situação vexatória que lhes possa causar frente a outras nações viver num país cujo número de analfabetos seja alarmante. O que vê aqui é a consciência de que a educação é um direito e também a possibilidade de libertação da opressão em que vive grande parte do povo, o qual sofre, ainda e historicamente, com nossa estrutura social injusta. Outro dado importante é a referência a um levante popular na luta pelos seus direitos e não mais a representação daquele que não sabe ler como ignorante e incapaz.

É o que se expressa também em um dos itens do Plano de Ação do MCP de 1963:

A demanda por uma consciência popular adequada ao real e possuída pelo projeto de transformá-lo é característica do movimento popular porque este se assenta nas três seguintes pressuposições: a) só o povo pode resolver os problemas populares; b) tais problemas se apresentam como uma totalidade de efeitos que só pode ser corrigida pela supressão de suas causas, radicadas nas estruturas sociais vigentes; c) o instrumento que efetua a transformação projetada é a luta política guiada por ideias que representam adequadamente a realidade objetiva.

Essa é a perspectiva também orienta o Plano Nacional de Alfabetização que vinha sendo desenvolvido por Paulo Freire junto ao Ministério da Educação, mas foi interrompido pelo golpe militar de 1964. Com relação ao período da ditadura militar, a iniciativa de maior vulto referente à alfabetização de adultos foi o MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização.

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Benzer Belgeler