14. AVRUPA BİRLİĞİ MUHASEBE STANDARTLARI
14.1. Uluslararası Muhasebe Standartlarının Oluşumunda Etkili Olan
Amália nasceu em uma pequena cidade rural e pouco se sabe sobre a história do casamento de seus pais. Dentre os nove filhos do casal, Amália é a sétima, sendo a terceira entre as quatro meninas. Quando ela nasceu, sua família morava e trabalhava em uma olaria457.
As condições de moradia e trabalho nas olarias pelo interior do Brasil são precárias. É comum a exploração de trabalho escravo, o trabalho infantil, a exploração sexual, o abuso de álcool e drogas e a violência doméstica.
A infância de Amália foi vivida em meio a muita pobreza e violência doméstica. O pai era um homem violento, batia na esposa e nos filhos. A mãe ajudava o pai no trabalho e era submissa ao marido. Desde muito pequena ela enfrentava, com os pais e irmãos, as duras condições de trabalho na olaria e ajudava nos afazeres domésticos em sua casa. O pai não permitia que os filhos frequentassem a escola. Ela não sabe ler ou escrever e aprendeu a assinar o nome quando adulta. Ao relatar sua infância Amália emociona-se e chora.
O Eu é antecipado pelo discurso do meio sociocultural, que, assim como os pais, deve investir, pré-enunciar e antecipar à criança um lugar no grupo por meio do qual ela terá um prazer futuro na forma de reconhecimento social. Diante dessa realidade histórica, marcada pela pobreza e exclusão social, qual lugar o discurso social destina a esses sujeitos? Quais emblemas identificatórios a investir para obter um prazer futuro?
Ao se identificar pelo termo “analfabeta”, Amália chora revelando o sofrimento por não ser portadora de um emblema identificatório valorizado pelo discurso social e pelo qual o sujeito obtém prazer na forma de reconhecimento social. Por não ter tido acesso à educação escolar, Amália sente-se inferiorizada e excluída.
Amália e seus irmãos, ao invés de irem para a escola, foram para o trabalho, com o conhecimento e cumplicidade dos empregadores da olaria, o que denota o rompimento do contrato narcisista pelo meio social e o não investimento nessas crianças como sujeitos cidadãos. Embora sejam possíveis variações no contrato narcisista dentro de certos limites, nestes sujeitos esses limites foram ultrapassados e não desempenham apenas um papel secundário no destino psíquico. A “relação entre o casal parental e a criança leva sempre o traço da relação entre o casal e o meio social que o cerca” 458
; e neste caso, a ruptura pelo meio social é marcada pela pobreza, exploração, da violência, analfabetismo e estigmatização.
Assim como o meio social, a atitude dos pais de Amália revela um frágil investimento em ideais para os filhos. Essa relação com os filhos é marcada pela relação dos pais com o meio sociocultural, em que os pais também não foram investidos como sujeitos cidadãos, não tiveram acesso à educação, remuneração e condições de trabalho dignas.
Minha suposição é que este rompimento do contrato pelo meio social reforça a ruptura do contrato pela família, favorecendo a interpenetração da realidade de exclusão social e da representação fantasmática de rejeição e desproteção vivida na relação com os pais.
Além de antecipar ao sujeito o lugar de excluído, a ruptura do contrato pelo meio social parece favorecer também a exclusão das diferenças entre adultos e crianças, em que todos estão submetidos às mesmas condições no que se refere ao trabalho. Essa exclusão das diferenças permeia a relação entre o pai e os filhos, inclusive no campo da sexualidade.
Para compreender a ruptura do contrato narcisista pela família é necessário analisar o meio psíquico ambiente, organizado pelo discurso e desejo dos pais entre si e pelo filho no qual o Eu se constitui. Embora em um primeiro momento a
458 AULAGNIER, Piera. (1975) A violência da interpretação: do pictograma ao enunciado. Trad. Maria
presença da mãe e seu desejo sejam prevalentes nos cuidados com a criança, Aulagnier assinala a precocidade com que entra em cena a presença do pai e seu desejo pelo filho, participando de forma fundamental na inauguração do psiquismo e na primeira forma como o Eu se constitui.
O casamento entre os pais de Amália é marcado por agressões do pai contra a mãe, inclusive na presença dos filhos, e por uma total submissão da mãe ao pai. Conforme já referido, é por meio do desejo da mãe pelo pai que se dá o primeiro encontro da criança com ele. Neste caso a mãe é submissa ao marido e cúmplice na violência deste contra os filhos: violência física no caso dos meninos e violência sexual no caso das meninas.
O pai mandava a mãe acender o forno na olaria de madrugada e, ao sair, ela colocava as filhas para dormir na cama junto com o marido: “Minha mãe colocava eu e minha irmã para dormir junto com o meu pai”; nestas ocasiões o pai abusava de Amália e suas irmãs. Amália foi abusada pelo pai dos 4 aos 11 anos de idade, quando fugiu de casa. Ele abusou sexualmente de todas as filhas, desde muito pequenas e durante todo o período em que elas permaneceram sob seu teto.
Na ruptura do contrato narcisista, à exclusão das diferenças, favorecida pela “perversidade da exclusão social”459, soma-se a presença de um pai que por meio do incesto estende essa recusa à diferença entre gerações e ao campo da sexualidade, com a cumplicidade materna.
No exercício da sexualidade, tanto o pai quanto a mãe revelam o não recalcamento da sexualidade infantil. Por meio do incesto o pai satisfaz o desejo incestuoso, não com sua mãe, mas com sua filha. Em sua cumplicidade, ao oferecer as filhas para serem abusadas pelo marido, a mãe busca ser amada por ele e busca também algum controle sobre ele.
Em um primeiro momento o encontro com o pai e as razões para sua existência se dão no registro do desejo da mãe (a presença dele é desejada por ela), e num segundo momento, no registro do desejo do pai. Ao interditar a mãe, o pai é objeto a odiar e seduzir, em que a criança espera ser desejada, tornando-se equivalente ao que o pai deseja na mãe. Ao buscar no pai um saber sobre o desejo,
459 VIOLANTE, Maria Lucia Vieira. A perversidade da exclusão social. In: LEVISKY, David Léo.
que tem função identificatória, o que ele veicula em resposta por meio do incesto é que a lei da diferença entre os sexos e as gerações, assim como a castração, é um falso saber. Desse modo, o prazer está a serviço desse saber, portanto, no desafio a lei.
Ao ouvir a irmã dizer à mãe que “não aguentava mais o pai mexer com ela”, Amália pergunta à mãe se o pai poderia “mexer com a filha”. Em um primeiro momento a mãe negou, perguntando de onde a filha teria tirado isso; mas depois responde que “não é normal, mas o pai faz isso sim”. Quando Amália questiona a legalidade do desejo transgressor do pai, o que recebe em resposta é que é errado, mas é assim, “ela via e ficava quieta”. Em sua cumplicidade com o pai a mãe confirma o enunciado do pai sobre a lei e sobre o desejo. Pela resposta da mãe evidencia-se o pacto do silêncio na família: o abuso sexual ocorre com o conhecimento de todos, mas nada pode ser dito ou questionado. O pacto do silêncio favorece a alienação, interditando a atividade de pensar sobre o desejo paterno e sobre a situação familiar.
Enquanto as irmãs não enfrentavam o pai em suas investidas sexuais, aparentemente aceitando a condição de objeto de desejo – ainda que dissessem para a mãe que não agüentavam mais -, Amália se opunha ao pai, ao tentar impedir a penetração. Ela disse ser “muito dura”, o pai batia nela e ela não chorava, aumentando com isso a ira do pai e as surras. Quanto mais ela se recusava a fazer o que o pai queria, mais apanhava, inclusive com fio de ferro. A agressão é erotizada e a virgindade é qualificada como a posse, o objeto que ela acredita ser desejado pelo outro e o que a torna valorizada.
Segundo Aulagnier, a angústia de castração na menina equivale ao temor de que o outro considere sem valor o que ela oferece ao seu desejo. Em sua busca pelo saber sobre o desejo, é no desejo do pai que ela procura as respostas para o enigma do desejo do outro. Ao invés do interdito, a resposta do pai (o ato incestuoso) revela que não é da diferença que o pai é desejante e que seu desejo não está na feminilidade – encarnação da diferença entre os sexos e que recobre a falta na mulher – da mãe, a qual, aliás, não é valorizada por ele e sim repudiada; seu desejo está em outro lugar. Mediante o desejo do pai, Amália parece ter encontrado na virgindade o atributo da feminilidade pelo qual ela pode ser valorizada pelo
homem ao oferecê-la ao seu desejo. Ao colocar o hímen no lugar da falta, a virgindade é o engodo que a mulher recorre para enganar o desejo do outro.
O discurso social que valoriza a virgindade na mulher antes do casamento é comum em pequenas cidades rurais pelo interior do Brasil. Em O tabu da virgindade460, Freud escreve que frente essa valorização da virgindade da mulher
pela civilização, a destruição do hímen leva à uma “injúria narcísica”, que diminui o “valor sexual” da mulher. No incesto o que diminui o “valor sexual” da mulher não é apenas a ausência da virgindade, é a participação do pai no ato sexual.
Por não ter sido “estuprada” pelo pai, Amália se coloca em uma condição diferenciada em relação às irmãs, inclusive quanto às consequências do abuso sexual, que ela acredita terem sido piores na vida das irmãs: dificuldades no casamento, no relacionamento com os filhos, obesidade, etc. Ao penetrar as filhas com essa falsa lei, o falo transgressor do pai produz efeitos devastadores em seu psiquismo. Na sequência tratarei sobre esses efeitos em Amália.