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A orientação característica do pensamento de Michelet reaparece, sob diversas formas, nas nações submetidas a dominação estrangeira. Giuseppe Mazzini (1805-1872), por exemplo, que era uma combatente pela unidade da Itália liberta do jugo austríaco, concebe essa luta - em A Santa Aliança dos Povos (1849) - como uma primeira etapa no sentido da fraternidade universal dos povos da Europa. f: esse mesmo sentimento - no qual intervêm freqüentem ente considerações religiosas e sociais - que guia os patriotas poloneses e húngaros, os movimentos eslavos que rejeitam ao mesmo tempo a submissão aos Habsburgos ou à Sublime Porta e a tutela do Tzar, e, de modo mais geral, todos os que se inspiram nas Declarações de 1787 e 1789 e no princípio da soberania nacional entendida como soberania do povo.

Todavia, os eventos europeus dos anos 1848-1849, o fracasso das revoluções democráticas e "nacionalitárias", confirmam o duplo conflito que ameaça o equilíbrio europeu fundado na Santa Aliança dos Estados: conflito interno nos países "avançados", nascido do desenvolvimento da ordem industrial e das reivindicações de uma numerosa classe operária, miserável, porém cada vez mais consciente de sua força, e cujos pontos de vista internacionalistas se afirmam; e conflito entre os Estados mais poderosos, envolvidos em crises econômicas, que

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inevitavelmente os opõem uns aos outros. Acrescentam-se a isso os riscos de guerra constituídos pelos empreendimentos de libertação efetuados pelas nações européias ainda mantidas em estado de dependência. Essa situação favorece o desenvolvimento - em particular na França, mas também na Alemanha e no Reino Unido - de um outro tipo, de nacionalismo, que apela para os valores da tradição (a família, a terra, os ancestrais) e da moral do sacrifício, da renúncia e da obediência, para conservar o que existe e para denunciar a anarquia que resultaria de qualquer mudança que não fosse cuidadosamente controlada. Esse nacionalismo é reacionário - na sentido etimológico - e, na França, deplora o infeliz episódio da Revolução, que interrompeu o curso normal da evolução. Essa exaltação da Nação corno substância da vida coletiva inscreve-se facilmente na corrente de pensamento positivista e evolucionista, dominante nessa segunda metade do século XIX; tal corrente apela para a Razão e para as virtudes clássicas, desconfiando do romantismo, que conduziria a excessos. O representante francês mais típico desse estado de espírito é Hyppolite Taine (1828-1893). Sua análise das Origens da França contemporânea (1875-1893) pretende estar a serviço da ciência: considera os atos dos homens como' produtos de um estrito determinismo. Taine felicita um crítico por ter compreendido que sua história é, de fato, urna psicologia dos agentes da história; e especifica que a investigação psicológica se reduz, por seu turno, a uma investigação fisiológica e química.

Se o determinismo que regula as questões humanas não é aparente, isso ocorre porque as causas que nelas interferem são complexas. Todavia, é possível distribuí-Ias em três elementos:

- a raça: ou seja, o conjunto de caracteres biológicos transmitidos hereditariamente;

- o meio: as tradições, as crenças, os hábitos mentais, as instituições que modelam Os indivíduos; - o momento: isto é, o conjunto das circunstâncias que desencadeiam a ação.

Munido desse método, Taine explica - no sentido estrito do termo - a Revolução corno produto de agitadores de cérebro doentio; no mesmo espírito, erige em leis deduções abstratas operadas a partir de coleta de exemplos, e estabelece, entre outras coisas, que existem caracteres nacionais. Dessa psicologia histórica determinista, ele retira

ensinamentos políticos. O primeiro e mais seguro é que o governo é um problema de saber e que é preciso estabelecer um sistema que permita às elites competentes calcular boas decisões e implantar uma educação da população que a previna contra a tirania de um só e contra a tirania de todos. B essa mesma preocupação do cálculo adaptado às circunstâncias que lhe faz temer a potência centralizadora do Estado, o sufrágio universal e a espontaneidade popular.

Com Taine, a Nação se imobiliza numa rede de determinações. O importante, então, é prevenir-se contra a "demência" que viria perturbar essa rede de causas e efeitos. Inteiramente oposta é a atitude desse outro mestre da República conservadora que foi Ernest Renan (1823-1892): ensaísta, eclético tanto no que se refere aos objetos quanto aos modos de argumentação, historiador de bela erudição, mentor algumas vezes solene, Renan ama os matizes e não se recusa a modificar seus pontos de vista. Todavia, tem em comum com Taine a idéia de que, doravante, a ciência positiva tomou o lugar outrora ocupado pela religião, e é ela que ilumina a moral. Renan também compartilha com Taine uma profunda aversão pela massa e por todas as políticas que apelam para a democracia direta. Como Taine, Renan teme a decadência da França - cuja derrota de 1870 seria um sintoma - e pede o seu reerguimento. Nessa perspectiva, sua pregação moral se organiza em torno do tema A Nação como princípio espiritual (discurso de 1882), como alma do território, cuja sobrevivência e expansão devem ser o objetivo de todas as vontades...

Uma outra imagem da pátria, portanto, delineia-se aqui: uma imagem que irá encantar a direita, de Barres a Maurras e aos herdeiros da "Action Française". Essa direita se considera - por sua cultura, origens e opções – como uma elite depositária da essência superior da Nação: ela é xenófoba e radicalmente antidemocrática, condenando num mesmo opróbrio o bárbaro estrangeiro e o povo ignorante. O caso Dreyfus (1894-1895) irá permitir que ela se afirme como racista.

INDICAÇõES BIBLIOGRAFICAS

HyppoJite TAINE (1828-1893), Les origines de Ia France contempora n~ (1875-189J). extratos, ;Hachette, 1947.

Erncst RENAN (1823-1892), (Euvres completes, Ca1mann-Lévy, 1947. R. Girardet. Le nationalisme trançais (1871-1914). A. Colin, cal. "U". 1966.

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