2.3. Çevre Kavramı
2.3.11. Uluslararası Çevre Sözleşmeleri
dizer que, na prática, a venda dos gêneros proibidos em si não foi uma condição sine qua non para a execução das ordens estabelecidas nos bandos, que buscavam regrar aquela sociedade.
4. A aguardente e seus designativos
Interessa agora investigar os designativos referentes às bebidas derivadas da cana presentes nos dezenove autos de achada, que podem ser visualizadas pelo Gráfico 8. Ao todo, foram empregadas quatro denominações: aguardente (4), aguardente do reino (4), aguardente da terra (4) e cachaça (12), totalizando 24 referências. Embora a documentação não forneça pistas quanto à qualidade das bebidas em questão, sua leitura indicou que as duas últimas designações apareceram comumente como sinônimas e, em alguns poucos casos, a cachaça foi associada à aguardente de forma genérica. Apenas em um caso, o termo aguardente apareceu como sinônimo de aguardente do reino. Trata-se da que foi trazida na carregação de Custódio Francisco e seus sócios. Apesar de se referirem apenas como aguardente, o fato de fazer parte de um conjunto de mercadorias que os sócios trouxeram do litoral, inclusive vinho, e dos frascos estarem acondicionados em uma frasqueira de viagem são indicativos de que se tratava da bebida importada do reino.468
A designação mais frequente, representando 50% dos casos, foi a de cachaça o que, quando lida no conjunto da documentação, aponta para o fato que o termo cachaça – mais do que a aguardente da terra e até mesmo a aguardente – apareceu, quase sempre, combinado aos negros, o que revela não só que o(a)s escravo(a)s e forro(a)s eram os que mais comumente vendiam essa bebida ilegalmente, como o mercado consumidor dos morros, majoritariamente formado pelos escravos nos serviços de mineração, era o seu maior consumidor. Não por acaso, eram ele(a)s o alvo maior da legislação, o que, em
468
APM. CMOP. Cx.07, doc.52. AUTUAÇÃO de auto de achada de Custódio Francisco morador no Morro Ouro Fino, que se sente injustiçado. Vila Rica, 03 de março de 1735.
certa medida, se coaduna com a alegação dos moradores no abaixo-assinado em prol do fazedor de carros, de que, no bando, “se proíbe coisas pretendentes aos negros”. O universo dos comerciantes e dos bebedores de cachaça era o dos desclassificados sociais e a venda e o consumo dela denegria os agentes sociais com ela envolvidos.
GRÁFICO 8
Relação das designações cachaça, aguardente, aguardente da terra e aguardente do reino constantes nos autos de achada de Vila Rica (1730-1735)
Fonte: APM. CMOP. Autos de achadas: Cx.02, doc.30; Cx.03, doc.10, doc.16-19, doc.21-26, doc.29; Cx.04, doc.01, doc.48; Cx.05, doc.20; Cx.06, doc.14-15; e Cx.07, doc.52.
Exemplo disso, foi quando os moradores de São Bartolomeu, encolerizados com o escrivão da vintena, descreveram-no como bebedor de cachaça, que andava “metido nas taberna com os negros e negras”. Outro caso também emblemático é o de José Marinho de Andrade, que recebeu o castigo de se emendar e foi acusado de dar “sortimento de aguardente da terra e outras várias coisas a algumas vendas”, enquanto sua escrava foi associada à venda cachaça. Nessa mesma direção, pode-se apontar o caso de Francisco da Silva Ferreira. Quando o meirinho e o aferidor ditaram o ocorrido ao escrivão, relataram que o autuado tinha em casa um frasco de cachaça. Francisco da Silva Ferreira, ao se defender, negou veementemente a existência não de um frasco de cachaça, mas de
Aguardente, 4
Aguardente do Reino, 4
Aguardente da Terra, 4 Cachaça, 12
aguardente, fazendo uso desse termo para se tornar mais respeitável aos olhos das autoridades. Finalmente, há também a autuação de Joana, preta e forra, acusada de possuir frascos de cachaça na sua venda localizada dentro de uma senzala.
Quanto à aguardente do reino, ela aparece em apenas 4 ocorrências, ou seja, 16,7% do total. Excetuando-se Vicente de Souza Pereira e Francisco Rodrigues, que foram achados com um barril de aguardente do reino, todos os demais as tinham armazenada em frascos, o que revela ser bebida mais cara e vendida em porções menores, já vindo engarrafada do reino. Dessas quatro ocorrências, em uma ela foi associada diretamente ao consumo particular do proprietário. Manoel de Barros, acusado de ter mandado sua negra vender três frascos de aguardente do reino no morro, foi inocentado porque, segundo o juiz ordinário, que acatou o recurso da defesa, este era um dos produtos que se poderia ter em casa, sendo normalmente associado ao consumo dos brancos da elite e não destinado à venda para os negros do morro. Esta também foi a única vez que a aguardente do reino aparece referenciada a uma negra, mas esta estava a serviço de seu senhor, que era o verdadeiro dono da bebida.
Os recipientes nos quais estas bebidas eram armazenadas para serem comercializadas, que apresentavam diferentes volumes, fornecem indícios sobre a qualidade das mesmas e os preços que alcançavam no mercado. Como ponto de partida, tomemos o inventário do preto, forro e cego, Francisco Medeiros, morador de Mariana, que foi aberto em abril de 1762. Entre os diversos trastes arrolados na loja que possuía, constavam bateias, gamelas, panelas, copos de vidro, molhos de alho, rolos de fumo, alqueires de amendoim em casca, queijo da terra, frascos de vinho, bem como dois barris de cachaça, um cheio e outro com quatro frascos, avaliados em 1$500 réis; meio barril de cachaça de cabeça,469 avaliado em 2$000 réis e 06 frascos de aguardente do reino, a 4$950 réis.470 Observa-se então que o maior volume de bebida era em cachaça, armazenada em barris, e, em menor quantidade, aparecem a cachaça de cabeça, a aguardente do reino e o vinho, os dois últimos em frascos.
469
Na documentação pesquisada essa foi uma das poucas referência à “cachaça de cabeça” o mais comum foram menções à “aguardente de cabeça”.
470
Em meados do século XVIII, os barris podiam ser encontrados em três diferentes medidas de capacidade, correspondendo a 16,80; 8,40 e 1,40 litros.471 Com vistas a uniformizar a cobrança do subsídios literário, a câmara de Mariana determinou que cada barril deveria corresponder a “oito frascos, que é a canada do país, pagando por cada um oitenta réis de prata, que corresponde a dez reis por canada”. 472 Ao se converter essas medidas aos dias de hoje, conclui-se que, em Minas, durante a vigência do tributo, um barril comportava cerca de 16 litros.
Esse parâmetro foi utilizado para calcular o volume de bebidas possuídas por Francisco Medeiros à hora de sua morte, conforme pode ser observado no Quadro 2.
Observa-se que, na região das Minas, a aguardente do reino era quase duas vezes (1,65) mais cara do que a aguardente de cabeça e, aproximadamente, seis vezes e meia (6,60) mais cara do que a cachaça.473 A relação entre as duas últimas era de 4 para um em favor da cachaça de cabeça. O Quadro 2 deixa bastante evidente a hierarquia que se estabelecia entre estas bebidas.
QUADRO 2
Preços por litro da aguardente do reino, aguardente e cachaça pertencentes ao inventário de Francisco de Medeiros - 1762
Medida Volume
convertido em litros
Valor total Valor do
litro Aguardente do Reino 6 frascos 12,00 4$950 $412,5 Aguardente (Cachaça) de Cabeça ½ barril 8,00 2$000 $250 Cachaça 1 barril cheio (16,00L) 1 barril com 4 frascos
(8,00)L
24,00 1$500 $62,5
Fonte: CSM.CPO. Caixa 152, auto 3185. Francisco de Medeiros, 1762.
471
BARRIL, vasilha de feita madeiras de aduelas para conter líquidos, pode conter um almude (16,8L), um pote, (8,4L) ou uma canada (1,4L). In: MATOSO, Caetano da Costa. Códice Costa Matoso, v.2, p.78.
472
Os valores eram: 80 réis por barril de aguardente e 225 réis por cabeça de gado. APM, CMM-25. REGISTRO das instruções do que se deve seguir as câmaras sobre a arrecadação do subsídio Literário. Mariana, 27 de Maio de 1774, f.166-168v.
473
Se o cálculo fosse realizado com a medida de 8,4L chegaríamos aos seguintes valores: aguardente do reino 12L/$412,5 o litro; aguardente de cabeça 4,20L/$476 o litro; e cachaça 16,40L/$091. Logo, a bebida reinol seria 0,87 vezes mais cara que a cachaça de cabeça e 4,53 vezes mais cara do que a cachaça.
Unid. de medidas e preços Produtos
Embora os 21 inventários post mortem e testamentos dos proprietários de venda e lojas agrupados no Quadro 1 não forneçam o mesmo detalhamento encontrado no inventário de Francisco Medeiros, foi possível constatar uma variação similar dos preços entre os produtos reinóis e da terra. No inventário de José Barbosa da Silva, morador do arraial de Santa Luzia, freguesia de Roça Grande, que teve início em 1775, o barril aguardente do reino foi avaliado em 1$200 réis, enquanto o de aguardente de cana foi estimado em um quarto desse valor, $300 réis.474 Em 1806, no inventário do comerciante Lourenço de Oliveira Porto, morador na Vila de Sabará, essa diferença foi ainda maior. Nele, foram relacionados um barril de aguardente do reino a 9$700 réis e seis barris de cachaça a 3$600 réis, o que equivale dizer que um barril da bebida reinol era 16,66 vezes mais cara do que a da terra.475
Portanto, não eram sem fundamentos as queixas do ministro do ultramar Martinho de Mello e Castro, em fins do século XVIII, endereçadas ao visconde de Barbacena, governador da capitania, cujo fragmento constitui a epígrafe deste capítulo. Nele, segundo o ministro, os gêneros “produzido na terra, e de bebidas destiladas, ou produzidas da cana-de-açúcar e de outras frutas semelhantes” eram mais consumidas do que “as que vão deste reino” que, por serem “caras, só os ricos e poderosos podem comprar”. 476 E eis a razão porque Manoel de Barros conseguiu convencer o juiz ordinário de que a aguardente da terra que sua escrava carregava no morro era para seu auto consumo.
Em quinze, ou seja 71%, dos 21 inventários e testamentos analisados, foi possível constatar a presença da aguardente do reino. A cachaça aparece em quase metade deles, onze, ou 48%, e a aguardente de cana que, nesses casos foram entendidas como sinônimo de aguardente de cabeça, foi evidenciada em sete documentos, ou seja 33% do total. Nesse caso, não se levando em consideração os volumes, mas sim a recorrência da bebida, a aguardente do reino prevaleceu sobre a aguardente de cana e esta, sobre a de cabeça. Apesar do preço elevado, a aguardente do reino esteve frequentemente disponível
474
CBG. CSO-I (42) 317. Inventário de José Barbosa da Silva, 1774. Nesse inventário foram relacionados 08 barris de aguardente do reino, 9$600 e 02 barris de aguardente de cana; $600.
475
CBG. CSO-I (83) 685. Inventário Alferes Lourenço de Oliveira Porto, 1806.
476
INSTRUÇÃO para Visconde de Barbacena Luiz Antônio Furtado de Mendonça, governador e capitão general da Capitania de Minas Gerais, p.48.
nas vendas e lojas, para o consumo daqueles que possuíam condições financeiras para consumi-las. Não se pode esquecer que, como chama a atenção Júnia Ferreira Furtado, estas estavam situadas nos retículos centrais das urbes mineiras e eram frequentadas pelas camadas mais abastadas que ali viviam, situação muito distinta das vendas de morro, frequentadas por escravos e pela população forra.477 Fica claro então porque nos testamentos e inventários de lojistas a aguardente de reino aparece em maior número de ocorrências e a cachaça no autos de achada, a tipologia documental refletindo o perfil social dos comerciantes e consumidores dessas bebidas.