No Brasil, as primeiras escolas normais foram estabelecidas por iniciativa das Províncias, após a reforma constitucional de 12/08/1834, que conferiu às Assembléias Legislativas Provinciais a atribuição de legislar sobre a instrução pública e os estabelecimentos próprios para promovê-la. Essas escolas enfrentaram muitas dificuldades, contradições e problemas que interferiram em seu funcionamento e as caracterizaram pela instabilidade: eram instaladas, passavam por sucessivas reformas, mudanças de prédio, extinções e reinstalações. Ou seja, as escolas normais estabelecidas nesse período tiveram sua organização e seu funcionamento bastante precários, não sendo possível afirmar que cumpriram com eficácia os propósitos pretendidos. Entretanto, visando ao atendimento a um projeto social proposto para a nação brasileira, as escolas normais, aos poucos, foram se consolidando como instituições responsáveis pela formação das professoras primárias.
Conforme Tanuri (2000), em todas as províncias, as escolas normais tiveram trajetória incerta e atribulada. Uma indefinição que somente foi superada na década de 1870, um momento em que “[...] se consolidam as idéias liberais de democratização e obrigatoriedade da instrução primária, bem como de liberdade do ensino”. Para a autora, até então, as escolas normais não foram mais que um projeto irrealizado. (TANURI, 2000, p. 64).
A partir de então, as escolas encontram espaço e motivo para sua implantação e gradativa consolidação como instituições formadoras de professores para as escolas primárias, constituindo-se como locais legítimos e autorizados para difusão dos conhecimentos necessários à formação dos novos profissionais do ensino. Há, neste processo, uma grande centralidade dos hábitos disciplinares e da moralização dos indivíduos, uniformizando padrões culturais e instituindo uma nova sociabilidade, que possibilitaria a implantação e a adesão aos princípios da ordem e da civilidade, por parte da
população em processo de escolarização.
A Escola Normal Oficial de Montes Claros foi criada em 1878 e instalada no ano seguinte, momento em que as diversas Províncias ampliam seu número de escolas normais, sendo extinta em 1905, juntamente com outras nove escolas oficiais mineiras. Com a extinção, Montes Claros permaneceu sem escola de formação de professores até 1915, período em que foi fundada uma escola livre, a Escola Normal “Norte Mineira. Posteriormente equiparada e, 1925, assumiu a denominação de Escola Normal “Mello Vianna”, sendo encampada pelo governo mineiro em 1928, com a antiga denominação, Escola Normal Oficial de Montes Claros. A sua segunda extinção ocorreu pelo Decreto lei nº 63, de 15 de janeiro de 1938, juntamente com outras cinco escolas oficiais (Diamantina, Campanha, Uberaba, Itabira e Curvelo).
Como justificativa para o fechamento das escolas normais, o governador Benedito Valadares apresentou alguns considerandos. O primeiro baseava-se no plano de reforma do ensino normal do Estado, cujo ante-projeto encontrava- se em andamento e pretendia assegurar a completa formação do professor e o atendimento de sua vocação profissional. O segundo, fundava-se na constatação da existência de grande número de Escolas Normais reconhecidas, que preenchiam os fins a que eram destinadas na atual organização, sendo que muitas cidades possuíam estabelecimentos oficiais, ao lado dessas escolas particulares reconhecidas, nas quais os alunos poderiam dar continuidade aos estudos, sem qualquer prejuízo148.
No contexto dessa discussão não pretendemos questionar o fechamento da Escola Normal. Interessa-nos entender os motivos que produziram o silenciamento da Gazeta do Norte, uma vez que existia uma intensa e profícua aliança entre escola e imprensa, dados os interesses dessas instituições e a missão de instruir, educar e “desanalfabetizar” a população.
No contexto montesclarense, a extinção das escolas foi dada a conhecer pela Gazeta do Norte, que noticiou o fato e publicou o decreto que tornava oficial o fechamento de cinco escolas normais mineiras. Sob o título “supressão de escolas normaes no Estado” e o sub-título “Montes Claros é atingida por
148
MINAS GERAIS. Decreto Lei nº 63/1938. In: Gazeta do Norte. Ano XX, nº 1092, 22 de janeiro de 1938.
esta medida” 149, foi tornada pública a medida administrativa do governo mineiro. Contudo, o jornal não conferiu grande visibilidade ao fato; localizando a matéria na página 4, não denunciou, lamentou ou comentou o fechamento.
Peixoto (2003) discutiu essa questão no âmbito estadual e entende que, em Belo Horizonte, o silêncio da imprensa em relação ao fechamento das escolas normais pode ser interpretado de, pelo menos, duas maneiras. “Uma primeira hipótese é a de que o governo, não tendo interesse em espalhar „aos quatro ventos‟ a notícia, tenha proibido qualquer menção ao fato. Outra hipótese seria a de que não podendo denunciar o fato, tenha a imprensa preferido ignorá-lo”. Além disso, segundo a autora, como porta-voz do Estado, o jornal Minas Gerais justificou a decisão com base na “superprodução de normalistas” (PEIXOTO, 2003, p. 419).
Entendemos que em Montes Claros, no lugar de assumir uma posição apaixonada e emocional, a Gazeta do Norte tenha optado por uma forma objetiva e racional de abordar a extinção da Escola. Opção que lhe tornou possível controlar os conflitos, dominar os temores e aguardar o momento adequado para uma reação. Assim, a Gazeta do Norte organizou um modo de atuar “estratégico” e também “tático”. Por suas operações visava à sua sobrevivência: como instituição, o jornal possuía uma base material que precisava ser preservada; como “um lugar próprio”, possuía um espaço imaterial de atuação e de poder, que também poderia ser atingido como resultado de contundentes manifestações de protesto.
De Certeau (1999a) entende que, na vida comum cotidiana, os sujeitos produzem “mil maneiras de fazer” que podem ser táticas e estratégicas. Para o autor, a estratégia é a ação que define um lugar e um espaço próprios; enquanto tática é a ação determinada pela ausência de um próprio. Ou seja, tática é um recurso utilizado quando não se dispõe de meios para manter-se em si mesmo, sendo necessário colocar-se à distância e numa posição recuada. Tática é, dessa forma, um movimento de jogo no campo de visão do inimigo e no espaço por ele controlado. Usar de tática é jogar no terreno do outro, com as condições que lhes são impostas, é não ter um controle da totalidade da situação, é operar lance por lance, aproveitar as ocasiões, utilizar
149
Supressão de escolas normaes no Estado. Gazeta do Norte. Ano XX. Nº 1092. 22 de janeiro de 1938, p. 04.
as falhas na conjuntura para beneficiar-se e garantir o seu espaço. Em suma, “tática é a arte do fraco” (DE CERTEAU, 1999ª, p. 101).
Por essa lógica analisamos as ações da Gazeta do Norte e as inscrevemos em duas abordagens. Por um lado, ao publicar a notícia, mesmo sem conferir-lhe grande visibilidade, o jornal foi “estratégico”, pois cumpriu sua função jornalística e preservou o seu “lugar próprio”. Ou seja, o jornal não poderia ser acusado de não servir ao seu público leitor, pois não se recusou a dar ciência dos fatos relevantes para o contexto local. Por outro lado, como forma “tática” de atuação, o jornal manipulou o imaginário social, produzindo um deslocamento do problema e apresentando o excesso de normalistas como justificativa – não para o fechamento da escola, mas para sua própria passividade e a aceitação do fato. Se o jornal não poderia fazer nada para reverter a situação, se a extinção da escola era fato consumado, restava-lhe preservar a integridade da instituição – tanto física como moral.
Entendemos, com Dines (1986), que “uma notícia não se proíbe; no máximo, consegue-se limitar sua circulação”. Isso porque, “o processo de comunicação não se interrompe; consegue-se reorientar o seu sentido” (1986, p. 76). Ou seja, a Gazeta do Norte, mesmo imersa no regime autoritário, não foi silenciada e não silenciou-se; não estava proibida de divulgar a extinção da escola normal e não deixou de noticiar o fato, apenas o fez por uma outra lógica. Ao deslocar significados, produziu um apagamento da notícia e reorientou o sentido da extinção, fez crer que os benefícios prestados pelo governo mineiro suplantavam eventuais prejuízos e que Montes Claros continuava sua trajetória rumo à modernidade e ao progresso.
Ao reorientar a opinião pública, a Gazeta do Norte preservou-se como empresa jornalística. Denunciar o ato do governo poderia significar o aniquilamento do jornal em sua materialidade. Em lugar de apontar possíveis prejuízos, o jornal atestou a falência e apontou a pouca utilidade do Curso Normal, discutiu o desemprego das normalistas e sinalizou para outras possibilidades de formação profissional. Em matéria de João Netto, professor do Instituto Norte Mineiro de Educação, intitulada “30.000 normalistas sem colocação!”, foi abordado o excesso de normalistas no Estado de Minas e em Montes Claros:
O problema da chômage attingio a classe das professoras. Não há empregos, não há classes para trinta mil normalistas. Quando a moça faz o curso normal, tem em vista duas finalidades: educar-se e adquerir um diploma que lhe garanta a sua manutenção no futuro. A primeira finalidade é quase sempre colimada, a segunda muito raramente é satisfeita. As escolas normaes de Minas Geraes lançaram no ano passado 4.000 normalistas. Montes Claros contribuio com 59 diplomadas! O número de portadores de diploma de curso normal já é phantastico! 150 (VER QUADRO VIII, ANEXO VII, que mostra o número
de matrícula da Escola Normal entre 1917 e 1938)
Não temos dados que permitam afirmar a veracidade desse suposto excesso de formandas. Provavelmente, essa afirmação não tem base de sustentação, em função do quadro educacional da época, em que a grande maioria da população encontrava-se excluída da escola. Em 1926, ao reivindicar a instalação de uma escola normal oficial em Montes Claros, a
Gazeta do Norte considera ser necessária a ampliação do quadro de
professores primários para atendimento à demanda por escolarização. Em suas palavras:
Pensamos que para que a diffusão do ensino possa ser efficiente, necessário seria que houvesse diplomados em número capaz de prover às inúmeras cadeiras vagas, ou prehenchidas por não diplomadas, principalmente nesta vasta região Norte Mineira, onde por falta de escolas é maior que em outras regiões do Estado, o numero de analphabetos151.
Ao aceitar o posicionamento do governo mineiro e apresentar o excesso de normalistas como justificativa para o fechamento de escolas normais, queremos sinalizar para o fato de que, para a Gazeta do Norte, a adoção desse argumento era uma alternativa estratégica de ação, que preservava o seu lugar como empresa jornalística. Em sua matéria, João Netto afirmava que “o curso normal falio sob o ponto de vista pratico”, pois as jovens normalistas recém- formadas não se tornariam professoras. Por falta de colocação no magistério, a normalista, “quando terminar o curso irá desempenhar o atrahente cargo de caixa de um café, de uma casa comercial”. E “não é preciso saber Psycologia, pedologia, Methodologia, Francez para se effetuar um troco, costurar um
150 JOÃO NETTO, 30.000 normalistas sem colocação!. Gazeta do Norte. Ano XX, nº
1099, 12 de março de 1938, p. 01.
151
Escolas Regionaes. Gazeta do Norte, Ano VIII. nº 419, 06 de fevereiro de 1926, p. 01.
vestido!”152. Por seu raciocínio, o diploma de normalista era desnecessário. O diploma, para Bourdier (1999), é “uma certidão de competência cultural que confere ao seu portador um valor convencional”, é uma forma de capital cultural intimado a demonstrar esse valor convencional e se fazer reconhecer (BOURDIEU, 1999, p. 78). Em sua argumentação a Gazeta do
Norte tentou demonstrar que o “capital institucionalizado” pelo diploma de normalista, apesar de permanecer com um valor convencional e reconhecido na capacidade cultural de suas detentoras, havia perdido sua capacidade de converter-se em capital econômico. O jornal procurou convencer os seus leitores que a carreira docente estava inflacionada e que a certificação obtida na Escola Normal era desnecessária.
Ou seja, no mercado de bens simbólicos, o diploma estabelecia uma distinção cultural por legitimar o conhecimento científico e técnico adquirido pelas normalistas, mas não era capaz de facultar-lhes uma colocação no magistério primário e converter conhecimento em emprego e renda. Conforme Bourdieu, “o investimento escolar só tem sentido se um mínimo de reversibilidade da conversão que lhe implica for objetivamente garantido” (BOURDIEU, 1999, p. 79). Dessa forma, em sua operação estratégica, o jornal procurou mostrar a não-empregabilidade da normalista e a falta de sentido do curso normal, incapaz de favorecer a inserção das formandas no mercado de trabalho.
Para Baczko, “a legitimidade de um poder é um bem particularmente raro e asperamente disputado” (1985, p. 310). Por isso, o poder estabelecido protege sua legitimidade contra os que a atacam, imaginando uma contra legitimidade. Ainda segundo o autor, ao longo da história, as formas de poder dominante, a fim de protegerem esse bem raro, têm produzido um conjunto de dispositivos extremamente variados e bem “reais”, visando assegurar-se do lugar privilegiado no domínio dos imaginários sociais. Além disso, as épocas de crise de um poder são aquelas em que se intensifica a produção de imaginários sociais concorrentes e antagonistas, em que as representações de um futuro diferente proliferam e ganham difusão e agressividade. (BACZKO, 1985).
152
JOÃO NETTO, 30.000 normalistas sem colocação!. Gazeta do Norte. Ano XX, nº 1099, 12 de março de 1938, p. 01.
Ainda segundo Bourdieu (1999), os benefícios materiais e simbólicos que o capital institucionalizado é capaz de garantir, dependem da raridade do certificado escolar. Raridade que, para a Gazeta do Norte, não era uma realidade em relação ao diploma obtido no Curso Normal – nas palavras de J. da Rua, “a Escola Normal diplomou mais uma „fornada‟ de futuras professoras”. E essa grande quantidade de formandas estabelecia o seu destino em um mercado inflacionado – “é mais uma turma de moças que deixa de lisar as carteiras velhas da Escola, para lisar os bancos sujos da Praça Dr. Carlos” 153.
Enfim, se até então coube à Gazeta do Norte um papel de aliada do progresso de Montes Claros e defensora dos interesses coletivos, não denunciar um problema e deslocar o olhar dos leitores, naquele momento, era ação tática de preservação do jornal – na materialidade de suas oficinas e do seu lugar de poder, prestígio e influência.
Dessa forma, o jornal produziu não apenas a idéia de um número excessivo de normalista – o que justificava o fechamento da Escola Normal –, mas deslocou os sentidos da formação dos moços e moças de Montes Claros. Na matéria de João Netto, publicada pela Gazeta do Norte, o professor também indicava que os pais das jovens tinham o dever moral de assegurar- lhes uma carreira mais feliz. Ao dirigir-se aos pais, o jornal considerava que eles deveriam favorecer outras possibilidades de formação profissional para suas filhas, pois “continuar na mesma rotina, dando inúteis canudos de normalistas às filhas, é permanecer no mesmo erro sob o ponto de vista utilitario154”.
Nessa mesma direção, em abril de 1938, Freitas Coutinho Filho, professor do Ginásio Municipal de Montes Claros, indicava a necessidade de cursos de preparação para o trabalho. “As escolas devem formar homens e mulheres para enfrentarem e vencerem a luta pela vida. É preciso que os jovens de ambos os sexos sahiam das escolas, sabendo como poderão utilmente empregar seus braços e sua intelligencia” 155. Ainda em sua opinião, o ensino secundário devia ser dado sempre em ginásios, que preparassem os
153
J. da RUA. Registro social – professoras e alumnos. Gazeta do Norte. Ano XIX. nº 1038, 19 de dezembro de 1936, p. 06 (ênfases no original).
154 JOÃO NETTO, 30.000 normalistas sem colocação!. Gazeta do Norte. Ano XX, nº
1099, 12 de março de 1938, p. 01.
155
COUTINHO FILHO, Freitas. O ensino primário e o secundário no Brasil. Gazeta do Norte. Ano XX. nº 1102, 02 de abril de 1938, p. 01.
jovens de ambos os sexos para os cursos profissionais que formassem professores, industriais, comerciantes e agricultores. “Estes cursos profissionaes adiantados seriam abertos aos diplomados pelos gymnasios e ensinariam apenas a especialidade relativa ao bom desempenho da profissão no curto período de um amno”.156
Dessa forma, afirmar a falência do Curso Normal, com base na saturação do mercado de trabalho, e dar visibilidade a outras possibilidades de formação profissional, foi opção adotada pelo jornal. Essa estratégia visava deslocar o foco da atenção e produzir uma compreensão diferenciada acerca do significado do fechamento da escola. A sua extinção passava a ser vista como decisão técnica, uma medida de racionalização de investimentos. Para preservar-se, a Gazeta do Norte não publicou matérias de autoria de seus redatores ou colaboradores, mas opiniões de leitores do jornal.
Para o interventor Benedito Valadares, Montes Claros não precisava de uma escola oficial, porque já tinha um colégio equiparado. Para o diretor de um Curso Comercial em Montes Claros, João Netto, a docência no nível primário estava em colapso, cabendo aos pais dar uma outra formação profissional a seus filhos. Para Freitas Coutinho Filho, os cursos profissionais deveriam ser oferecidos pelos ginásios.
Uma outra ação tática utilizada pelo jornal, e que também produziu deslocamentos nas representações da população, relacionou-se ao governo. Em lugar de desqualificar sua ação, o jornal deu visibilidade à figura de Benedito Valladares, conferindo publicidade à inauguração de retrato a óleo no salão nobre da Prefeitura Municipal, momento em que o prefeito elogiou o governo e destacou a gratidão de Montes Claros pelos benefícios recebidos – a sede de uma circunscrição administrativa recém-criada e a promessa de se resolver o “secular problema do abastecimento de água”157.
Igual homenagem foi prestada pelo grupo escolar da cidade, fato que novamente foi divulgado pela Gazeta do Norte. Nas palavras de José Raymundo Netto, ex-diretor da escola normal e Assistente Técnico do Ensino no momento, “o governador de Minas Gerais faz jús à grande estima e a
156 COUTINHO FILHO, Freitas. O ensino primário e o secundário no Brasil. Gazeta do
Norte. Ano XX. nº 1102, 02 de abril de 1938, p. 01.
157
Homenagem da Prefeitura ao governador Valladares. Gazeta do Norte. Ano XX, nº 1107, 07 de março de 1938, p. 01.
radicada gratidão que lhe devotam os montesclarenses”, sendo que professoras e alunas do grupo escolar acompanham, “com profunda gratidão, o especial carinho com que o governador Benedito Valladares vem dando acolhida aos problemas capitais de Montes Claros, tudo fazendo no sentido de promover a grandeza desta terra e a felicidade de seus habitantes”158. Enfim, parece-nos que a cidade – a Gazeta do Norte, o grupo escolar, o prefeito e outros – relativizaram a perda da sua Escola Normal e não estavam insatisfeitos com as ações do governo mineiro.
Se no plano nacional havia uma aceitação do novo regime por parte dos intelectuais, que viam no governo forte uma possibilidade de realizar o interesse coletivo, não era de se esperar que o contexto montesclarense fosse marcado por fortes oposições e que os posicionamentos dos jornais conflitassem com os interesses políticos ou contrariassem o poder. Assim, a
Gazeta do Norte conferia publicidade a problemas, fatos e questões que não
representassem conflitos com a ordem estabelecida e com o projeto de nação em curso. Então, por que considerar que a Gazeta do Norte estava na posição do “fraco”, jogando com o lugar de poder do outro?
Compreendemos que três ordens de fatores se cruzavam e colocaram o jornal em uma posição fragilizada: o contexto político estadonovista, que restringia liberdades; a afiliação política do periódico que, na Revolução de 1930, não havia apoiado a candidatura Vargas; e as acirradas disputas políticas locais.
Em Montes Claros, independentemente do Estado Novo, eram ferrenhas as disputas. Conforme Newton Prates, “as divergências políticas cortavam a cidade em duas”159. Existia uma complexa rede de relações de poder, em que os apoios às eleições eram feitos, e muitas vezes, desfeitos após os resultados das urnas. A parentela era uma forma de organização e exercício do poder político, sendo que os chefes políticos se dividiam em dois blocos160.
158 RAYMUNDO NETTO, José. In.: O primeiro aniversário do Estado Novo. Gazeta do
Norte. Ano XXI, nº 1133, 12 de novembro de 1938, p.01.
159
PRATES, Newton. Um retrato - Prefácio. In: PAULA, Hermes Augusto de (1957). Montes Claros: sua história, sua gente e seus costumes. Coleção Sesquicentenária. Vol 01.Montes Claros: Unimontes Editora, 2007, p. XVI.
160 Um dos grupos era Liberal, chefiado pelos Prates. Era apoiado pelas famílias
Chaves, Sá, Souto, Teixeira, Dias, Fróes, Figueredo, Freitas, Abreu, Costa, Durães, Soares, Guimarães, do qual fazia parte o Intendente da República, deputado Camilo Prates. O outro grupo era Conservador, encabeçado pela família Alves e apoiado pelos Veloso, Versiani,
Nessas disputas locais, a Gazeta do Norte não ficava isenta. Para ilustrar, em 06 de fevereiro de 1930, ocorreu um conflito armado, em que foi ferido o Vice-presidente da República, Fernando de Melo Viana, e ainda morreram várias pessoas, dentre elas, Iraci de Oliveira, filha de José Thomaz de Oliveira. O fato provocou a exaltação dos ânimos, ficando os adversários políticos quase inimigos. Ainda no ano de 1930, no mês de outubro, em