A. İdari ve Lojistik Faaliyetler
2. Ulaşım ve Ulaştırma
A conscientização é, neste sentido, um teste de realidade. Quanto mais conscientização, mais se “desvela” a realidade, mais se penetra na essência fenomênica do objeto, frente ao qual nos encontramos para analisá-lo. Por esta mesma razão, a conscientização não consiste em “estar frente à realidade” assumindo uma posição falsamente intelectual. A conscientização não pode existir fora da “práxis”, ou melhor, sem o ato ação – reflexão. Esta unidade dialética constitui, de maneira permanente, o modo de ser ou de transformar o mundo que caracteriza os homens (FREIRE, 1979b, p.26).
O texto que se segue propõe um elo entre o nosso olhar e as falas das participantes, buscando tecer essa análise em comunhão. É importante ressaltar que, desde a pré-análise, elas já puderam colaborar com o entendimento que tivemos em relação ao que elas estavam dizendo, o que garante a fidedignidade e o respeito com as pessoas que participaram da pesquisa, garantindo desta maneira, que as pedagogas da terra estivessem presentes durante todo o processo do pesquisar.
Estar em diálogo com essas mulheres significa neste momento reviver em conjunto momentos, situações e experiências que elas vivenciaram no processo de se tornarem pedagogas da terra. Através das entrevistas foi possível conhecer um pouco mais da vida pessoal dessas mulheres, entender alguns porquês de elas terem escolhido esse curso e como está a vida delas após essa formação. No diálogo verdadeiro não há cortes de informação, há confiança e cumplicidade e, desta maneira, aprendemos uma com a outra, na troca de experiências.
Durante as entrevistas (que chamarei aqui de diálogos) as mulheres abriram suas casas, suas vidas, reservaram um tempo, apesar de serem todas muito ocupadas, adiantaram os afazeres domésticos, tudo em colaboração com esta pesquisa. Não tem como começar de outra maneira esta análise a não ser agradecendo cada uma delas pela parceria estabelecida ao longo desta caminhada, que vem desde 2008, com o início do curso de Pedagogia da Terra. A amizade e a cumplicidade, que foi estabelecida entre nós, através da convivência, foi um dos elementos fundamentais para que esta pesquisa pudesse se desenvolver da maneira como foi desenvolvida. A confiança exige tempo, o tempo de cada uma é muito particular, e, tivemos sim, ao longo desses anos, algumas
desavenças, momentos de desconfiança, de insegurança por ambas as partes, mas o respeito e a esperança em prol de uma mesma sociedade fez com que conseguíssemos juntas criar laços verdadeiramente sólidos e, reciprocamente, solidários.
Conviver é estar junto, olhar nos olhos, conversar frente à frente [...] é a arte de se relacionar, dá intensidade à relação, sabor ao fazer e gera afetividade e saber [...] Conviver se aprende convivendo e para essa convivência há algumas moedas: simpatia, confiança, humildade, sensibilidade, respeito, flexibilidade em relação aos tempos. (OLIVEIRA; STOTZ, 2004, p.15).
Esta análise é fruto do pensar a educação como uma das responsáveis por realizar transformações na sociedade. É fruto da valorização da cultura camponesa e da educação que acontece no meio rural. De entender que através das diferenças é que se constrói o novo e, através do novo que se criam novas possibilidades de ser e estar no mundo. O curso de Pedagogia da Terra da UFSCar possibilitou que homens e mulheres, ao se inserirem na Universidade, pudessem entrar em contato com outras culturas, com outros conhecimentos e romper com um passado histórico de negação à educação para as classes populares. Esses (as) estudantes tiveram a possibilidade de nos ensinar e aprender conosco, de quebrar pré-conceitos e estereótipos em relação aos movimentos sociais do campo, de realizar a práxis dentro de um ambiente que, muitas vezes, é autoritário e excludente, que é o espaço da Universidade.
Começamos este diálogo trazendo o sonho destas mulheres, pois, como afirma Freire (2001a, p.35) “é impossível existir sem sonhos”. Elas nos contam como foi o caminhar delas até chegarem à faculdade, alguns percalços que tiveram que passar para poderem se tornar professoras e contribuírem com a educação em seus assentamentos:
Eu tinha o sonho de fazer pedagogia. Sempre tive, desde pequenininha. Sonhava em ser professora. E o sonho, cada dia mais acabando, eu achava que não era mais possível, porque casou, teve filho, como é que estuda agora? E atrasou tudo, mas, eu sempre culpava meus pais, sabe? Eu não estudei, porque vocês não me deixavam estudar. Ficavam viajando para cima e para baixo, beleza, e eles também, sempre carregaram essa culpa, né? Mas aí, eu fui mais persistente (Ariane).
No começo de nossa conversa, Ariane contou seu percurso até chegar ao curso de Pedagogia da Terra. Ela foi uma estudante que teve muitas dificuldades na escola,
repetiu de série, mudou de escolas algumas vezes, fez curso supletivo e, por conta da militância de seu pai, estava sempre na estrada, mudando de cidade e, por conseguinte, mudando várias vezes de escola. Ela relata as dificuldades, momentos que chegou a pensar em desistir dos estudos, pois por ser repetente sempre era a maior da sala e sentia-se envergonhada por isso. Também contou que após casar e ter filho pensou que não conseguiria mais voltar a estudar e realizar seu sonho de se tornar professora. Destaca o apoio de seu companheiro, de amigos e familiares na época para que ela conseguisse retornar aos seus estudos e diz que foi através do MST que ela teve muitas oportunidades, primeiro pelo convite de cursar Magistério no Rio Grande do Sul e depois com a seleção para participar do curso de Pedagogia da Terra.
Ariane também faz reflexão sobre sua relação com o MST:
[...] a minha vivência no movimento, assim, é muito marcante. Para mim, que odiava o movimento. Odiava, de morte, assim, quase que meu pai perde a família inteira, com essa história de ir para o MST, sabe? Então, ele foi, eu era contra, minha mãe era contra, meus irmão eram contra. A gente não foi de início. Enrolamos muito para ir. A gente odiava, e eu era a primeira, assim, que achava que isso não era perspectiva de vida para ninguém, sabe? E aí, com o passar do tempo, eu fui tendo todas essas oportunidades, e, meio que calando a minha boca, né? Tipo, olha só, quantas coisas eu fui adquirindo, bem naquele lugar que eu achava que ninguém ia ter oportunidade de nada, né? E, para mim, assim, é muito marcante. Não tenho nem palavras, assim, mas, eu tenho tudo a agradecer ao MST, mesmo. Tudo que eu sou hoje, sabe? É, não tem palavras para dizer! (Ariane) Ela conseguiu entender, no caminhar da militância, o papel do movimento social, as possibilidades que ele trazia para os sujeitos que estavam naquela luta e passou, com isso, a olhar com outros olhos, vendo sobre uma ótica positiva o significado real que o movimento tinha para a luta da Reforma Agrária e também para a educação, principalmente no que concerne a uma busca por melhores condições de ensino, mas, vemos que não é um caminho fácil a se percorrer, há muitos conflitos e dificuldades. Nesta fala da Ariane fica explícita a ideologia do oprimido hospedando o opressor.
Destaca a possibilidade que o curso trouxe para ela aprofundar seus estudos sobre o contexto agrário e os movimentos sociais e fazer com que a história de vida e de luta de sua família passasse a ter outro sentido para a vida dela. Podemos notar que, por não entender os objetivos e o contexto de luta pela Reforma Agrária, ela acreditava que
seu pai estava saindo de casa e abandonando os (as) filhos (a) e toda família, porém, depois que entendeu que o MST é um movimento que além da luta pela terra também tem outras bandeiras, e que essas estão totalmente relacionadas à busca de melhores condições de vida, uma garantia de educação de qualidade para todos e todas, de saúde e de respeito à população do campo, ela começa a ver o movimento com outros olhos, passa a militar com mais consciência e, hoje, agradece por todas as possibilidades que o MST lhe deu, como aponta Freire (1979b, p.15)
A conscientização é, neste sentido, um teste de realidade. Quanto mais conscientização, mais se “desvela” a realidade, mais se penetra na essência fenomênica do objeto, frente ao qual nos encontramos para analisá-lo. Por esta mesma razão, a conscientização não consiste em “estar frente à realidade” assumindo uma posição falsamente intelectual. A conscientização não pode existir fora da “práxis”, ou
melhor, sem o ato ação – reflexão. Esta unidade dialética constitui, de
maneira permanente, o modo de ser ou de transformar o mundo que caracteriza os homens.
Ariane nos mostra também o conflito familiar existente com a autoridade do pai, que determinava que sua família seguisse o que ele achava que seria melhor, o típico caso do patriarcado. Contudo, através da conscientização, ela consegue hoje dar sentido a tudo que teve que passar, consegue entender a realidade de um modo mais crítico e refletir sobre ela, transformando assim seu modo de estar no mundo, como Freire (1979b) nos ensina, que as pessoas se transformam e transformam o mundo onde vivem ao se relacionar.
No nosso diálogo com Valéria, ela também relatou como foi esse processo de entendimento dos movimentos sociais:
Eu acho que enriqueceu a minha vida e muito. Tanto na parte de entender o significado do por que um assentamento existe e tudo isso é bem relevante [...]Por entender o porquê o meu pai deixou a gente na cidade e foi acampar... e resolveu acampar. Hoje em dia eu vejo um significado nisso, que antes eu não via, não. Antes eu não via. Antes era como se meu pai tivesse abandonada a nossa família pra ir correr atrás de um pedaço de terra. Eu não enxergava um significado nisso... e nunca enxerguei... antes de entrar no curso, né? Depois disso, é... a mentalidade é diferente (Valéria).
[...] quando eu entrei no curso tinha muita raiva de movimento social, eu tinha raiva do Hélio Neves, eu tinha raiva... eu tinha raiva dele, porque na minha cabeça, ele tinha tirado meu pai de dentro de casa pra
ir lá para o assentamento, para o acampamento, né? Na verdade, para mim, ele tinha feito isso tudo. Tinha feito uma revolução na cabeça do meu pai e levou ele lá para ocupar a terra dos outros. Para mim era invadir terra. Até o termo invadir ou ocupar, hoje, faz a diferença. Mas antes, não. Antes era... ah, está lá roubando terra dos outros. Então, toda essa formação crítica que o curso, possibilita pra gente, ela é relevante. Pra você entender o que meu pai está fazendo (Valéria).
Será que vai ser o melhor? Quando a gente mudou pra cá então, nem se fala. Foi uma choradeira... foram meses e meses chorando porque ia vir pra cá, ia vir morar no mato e tudo mais. E hoje a gente enxerga que não é bem roubar uma terra e simplesmente vir morar nela. [...] E depois que a gente faz uma formação, a gente entende, passa a entender o porquê de tomar um banho de caneca, o porquê de buscar água lá na frente. Não é só o que eu tenho que enxergar não é só a minha condição enquanto ser humano, mas eu estou ajudando, além de me ajudar, eu estou ajudando outras pessoas, que poderiam estar roubando, matando, pra sobreviver e estão aqui dentro lutando por uma vida melhor e mais digna. Tudo isso faz a diferença sim de um curso de Pedagogia da Terra, esse curso deve ter continuidade porque precisamos valorizar e acima de tudo respeitar as diferenças de cada um, precisamos compreender a nossa história e sermos escritores dela (Valéria)
Econtinuacontando sobre a consciência crítica que o curso possibilitou:
Ter consciência de que esse espaço que nós estamos vai fazer muita diferença amanhã. O que cultivamos aqui... ixe... na cidade não teria nem um terço. Se nós estivéssemos na cidade, jamais conseguiria fazer R$20.000,00 em 24 horas. Então, é lucrativo o espaço, só que também não pode ter preguiça de trabalhar né... é um espaço que exige do físico de todo mundo. Essa mentalidade eu tenho, de que o curso trouxe uma consciência crítica que me faz enxergar que aqui é valioso. Isso eu tenho em mente. A convivência, o diálogo e as amizades que nasceram no curso de Pedagogia da Terra afirmavam que é possível mudar a história, e nós podemos ser os escritores e contar a história na nossa ótica (Valéria).
Vemos nessas falas vários aspectos sobre a formação humana, social e política que o curso possibilitou. Ela destaca o ódio que sentia por um dos líderes dos movimentos sociais, por achar que esse estava destruindo sua família e, hoje, após o curso, consegue entender o real significado disso. Também pontua sobre o diferencial do “invadir” terras e “ocupar”43,que são conceitos políticos muito importantes dentro do
43O termo “invasão” é utilizado para enquadrar um ato como crime, com o desrespeito à propriedade
privada, com a apropriação de bem demarcado em sua posse. Os movimentos sociais, preocupados com a dimensão simbólica das palavras e de sua tradução na vida social, assumiram a palavra “ocupação”, em
contexto da Reforma Agrária, pois são conceitos que carregam traços ideológicos. Outro aspecto destacado é sobre a possibilidade de vida dentro dos assentamentos, ela conta através de sua fala que com trabalho é possível ter condições de viver com qualidade de vida no espaço rural. Também traz um elemento muito significativo para sua vida, que é, através do conhecimento sobre a história sobre sua história de vida, ter ferramentas para poder fazer a transformação através de suas próprias mãos. Ou seja, ao conhecer e ter consciência de sua condição de opressão, adota a responsabilidade de mudar essa situação. Neste sentido, Freire (1979b, p.22) traz que:
Ninguém luta contra as forças que não compreende, cuja importância não mede, cujas formas e contornos não discerne; mas, neste caso, se as suporta com resignação, se busca conciliá-las mais com práticas de submissão que de luta [...]A realidade não pode ser modificada, senão quando o homem descobre que é modificável e que ele pode fazê-lo. Mais uma vez, as mulheres relatam conflitos familiares e novamente a figura do pai aparece como autoridade. A mulher, as crianças, os familiares não parecem ter escolhas a não ser acatar o que o pai está decidindo para todos e todas. Por mais que depois elas relatam que a vida delas foi se transformando, naquele momento elas foram obrigadas a deixarem sonhos, vontades e suas vidas de lado por um objetivo que não era delas. Conforme Freire (1979b, p.22) “ninguém luta contra as forças que não compreende” podemos ver que na época Valéria não tinha elementos para entender o porquê das ações e escolhas do pai, e hoje, após a formação que teve, percebe que é possível transformar a realidade através de sua ação no mundo, que era o que o pai dela estava tentando fazer.
Além do conhecimento sobre movimentos sociais, luta pela terra e consciência crítica da condição de ser assentada, é também ressaltado que após a formação em Pedagogia da Terra, aumentou a vontade de estar no assentamento e contribuir com ele, como vemos nas seguintes falas:
Pedagogia da Terra, para mim, trouxe, só despertou, acho que o que eu já tinha, sabe? Aquela questão de querer fazer alguma coisa, só que não sabe como, entendeu? Eu não tinha um conhecimento, eu lugar de invasão. O termo “ocupar” nos indica sentido como "estar em lugar devoluto". Ocupar terras que são improdutivas e, portanto, terras que podem ser destinadas a Reforma Agrária, é uma maneira utilizada para pressionar o governo para o processo de assentamentos rurais.
morava no assentamento, mas você não tinha assim, aquela inserção. Não tinha um movimento, você não sabia como participar das coisas. Como fazer, por onde começar, o que fazer, entendeu? Aí, o curso contribuiu muito com isso. Não foi só a questão, tem a questão pedagógica, essencial, mas eu acho que para mim, contribuiu mais nessa questão, assim, do sujeito do campo mesmo. O que é o sujeito do campo? Qual a importância? O que ele pode fazer? O que ele deve fazer? Como, entendeu? É, mais pessoal, assim, você quer realmente lutar, você quer fazer alguma coisa. Você sente necessidade. Você não é uma pessoa, assim, um ser, sozinho no mundo e vive aquela vida, assim, trabalha, volta para casa. Para mim, não é isso. E com o curso, só reforçou isso. Cresceu mais ainda, dentro de mim, essa questão de querer contribuir com a sociedade. Querer fazer alguma coisa! (Natália).
Você querer estar nos espaços, de participar mais, de você conversar com as pessoas, de levar essa discussão, sabe? Porque as vezes, a pessoa mora aqui no assentamento, só que não tem aquela, não é, não sei se eu posso dizer, politização. Não tem essa politização de saber, como é que a gente deve agir, de poder, de fazer! Então, acho, isso, a discussão muito importante. Você poder conversar com as pessoas e poder mostrar a realidade, mostrar as dificuldades, o que a gente pode fazer. Querer contribuir! Fazer um movimento mesmo, né? [...] Em todos os espaços que eu vou, e eu vejo alguma coisa errada, eu falo: “Não, não é assim! Não pode ser assim”! [...] Você não se acomoda com muita coisa. Você se sente incomodado. Você não é acomodado mais, uma pessoa incomodada. Eu já era e, aí, o curso me fez ser mais ainda, né? Incomodada, querer ajudar aquelas pessoas que não têm o conhecimento, tanto conhecimento como a gente conseguiu adquirir na faculdade, dos direitos, de tudo que a gente pode conquistar e ter, sem ser submisso. Então, é isso que acrescentou! (Natália)
Vemos nessas duas falas da Natália que a formação crítica que o curso propiciou a ela, fez com que ela tivesse ainda mais vontade e condições (agora com outros conhecimentos) de poder contribuir com o seu assentamento. Ela destaca a vontade de dialogar com as pessoas sobre seus direitos e sobre a vida dos homens e mulheres no campo. Afirma a necessidade da politização das pessoas para que ao se sentirem incomodadas com a situação em que vivem, tenham condições para modificá-la e, para isso, é preciso que as pessoas se unam, que sejam solidárias umas com as outras, que não pensem somente individualmente, mas pensem de maneira coletiva. Freire (2009, p.32) destaca a importância da “politicidade” da educação:
A educação não pode ser somente técnica, porque a educação tem como característica uma outra qualidade, que eu chamo de politicidade. A politicidade da educação é a qualidade que a educação
tem de ser política. Em um princípio relacionado com esta qualidade é que a educação nunca foi e nem nunca será neutra.
Durante toda formação em Pedagogia da Terra, os (as) estudantes tiveram a possibilidade de estudar teoricamente a formação dos movimentos sociais, entender como eles funcionam e qual a proposta de Educação do Campo preconizada por esses movimentos, tudo isso contextualizado com o histórico da Reforma Agrária no país. , É essa a politicidade que Freire (2009) está nos falando. Durante nossa conversa ficou muito explícito o amadurecimento e o processo reflexivo das mulheres, unindo a teoria com a prática, ação e reflexão, no processo da práxis, Freire (2005a, p.14) diz que:
A verdadeira reflexão crítica origina-se e dialetiza-se na interioridade da “práxis” constitutiva no mundo humano – é também “práxis”. Distanciando-se do seu mundo vivido, problematizando-o, “decodificando-o” criticamente no mesmo movimento da consciência o homem se re-descobre como sujeito instaurador desse mundo de sua experiência. Testemunhando objetivamente sua história, mesmo a consciência ingênua acaba por despertar crítica-mente, para identificar-se como personagem que se ignorava e é chamada a assumir seu papel. A consciência do mundo e a consciência de si crescem juntas e em razão direta; uma é a luz interior da outra, uma comprometida com a outra.
Outra participante da pesquisa, a Raquel, também destaca seu percurso antes de chegar à Pedagogia da Terra, contando sobre a dificuldade que era estudar, a relação com a militância, com o mundo do trabalho e com a condição de ser mulher e pertencente à classe popular:
Ah, foi difícil, sempre foi complicado estudar, né? Sempre a gente mudava muito de uma escola para a outra, mesmo no Paraná, mesmo sem ser na forma de reforma agrária, que é um costume das pessoas acampadas de ficar mudando [...] Eu estudei em várias escolas no primário... depois que até tirar a oitava eu firmei mais em uma escola só, mas era longe, aí com os quatorze anos, com treze, quatorze anos eu fui para o colégio de freiras e com dezesseis saí. Depois eu estudava, trabalhava, aí já comecei a trabalhar em uma escola e eu andava doze quilômetros todo dia pra estudar [...] aí terminei a oitava