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TEKÂLİF-İ MİLLİYE EMİRLERİ

B. İstiklâl Mahkemeleri’nin Kuruluşu ve Sakarya Muharebesi İle İlişkisi

III. TEKÂLİF-İ MİLLİYE EMİRLERİ

O processo de Reforma Agrária proporciona para a vida das famílias envolvidas muitos processos de sociabilidade, mas também momentos difíceis e de desumanização. Ao mesmo tempo em que é um espaço de luta, de conquista, de aprendizado, de reconhecimento das pessoas como sujeitos de direitos, o processo de reforma agrária também é um espaço marcado por violências e abuso de poder. Durante esse processo também podemos vivenciar diferenciações de papéis assumidos entre homens e mulheres. Há relatos de mulheres que dizem que ser mulher e militante da Reforma Agrária é um risco, pois, se é o homem que sai para a luta, quando ele volta para a sua casa, encontra sua mulher, cuidando do lar e dos (as) filhos (as). Se é a mulher que escolhe ir para a militância, para as marchas, para a luta da Reforma Agrária, ela muitas vezes não tem esse respaldo do companheiro e, corre o risco de ao retornar para seu lar, o homem tê-la abandonado. Outro aspecto que diferencia é que quando os homens saem para a luta, eles deixam os (as) filhos (as) em casa e sabem que estarão sendo cuidados, quando é a mulher que opta por sair, em geral, ela precisa levar as crianças junto.

O processo de Reforma Agrária começa a ter outro caráter para a vida das mulheres quando o assentamento é estabelecido, pois, nesse momento, criam-se outras formas de vivência e de relações de gênero dentro do campo, como relata Pimenta, (2006, p.162) em uma experiência de um Assentamento no Vale do Jequitinhonha (MG):

O processo de criação do assentamento inaugurou um novo tempo na vida de homens e mulheres para o qual concorreram as dinâmicas locais de participação e o contexto social de luta das mulheres trabalhadoras rurais. Várias mulheres não só passaram a frequentar a feira, mas construíram iniciativas de produção e comercialização, ganhando e gerindo seu próprio dinheiro. O trânsito das mulheres no espaço público, antes reservado aos homens, foi acompanhado por mudanças no modo de se apresentarem, incluindo o modo de se vestir e se cuidar. Entre tantas mudanças, a principal novidade destacada pelas mulheres é o fato de descobrirem que são trabalhadoras rurais. Nas entrevistas, as assentadas se referem a um novo tempo em que descobriram, passaram a entender, passaram a ser trabalhadeira rural.

Podemos notar com essa experiência que o princípio em si sobre o trabalho não se modificou, o que se modificou foi o entendimento sobre ele, a valorização das ações que até então eram vistas como dadas. O poder de decisão das mulheres nos espaços públicos se alterou e isso demonstra um movimento emancipatório dessas mulheres camponesas em relação ao momento anterior à conquista do assentamento. Não podemos deixar de nos questionar sobre a questão da sobrecarga de trabalho na vida dessas mulheres, pois, se por um lado elas conseguem o direito de estar em outros espaços de trabalho, por outro, passam a assumir mais um papel como trabalhadora, duplicando, ou até mesmo, triplicando sua jornada de trabalho.

A divisão igualitária do trabalho é enfatizada pela maioria das famílias do assentamento e quase sempre associada às mudanças que vêm acontecendo, principalmente na vida das mulheres. Entretanto, pode se observar a persistência de diferenciações de gênero nos diversos espaços que compõem o cotidiano do assentamento, prontamente justificadas pelos costumes e tradição. As mulheres, ao falarem do trabalho que realizam, primeiramente ressaltam as tarefas da roça, afirmando a atividade de trabalhadora rural como a principal. Sempre o fazem demonstrando sentimentos de satisfação e orgulho, ainda que o trabalho na roça e na farinheira seja cansativo. Por vezes revelam-se desgastadas fisicamente pelo acúmulo de trabalho no dia- a-dia, situação agravada pelo corpo já maltratado por uma trajetória

muito penosa (PIMENTA, 2006, p. 166).

O processo de rompimento com a estrutura de sociedade patriarcal e hierarquizada é constante na vida dessas mulheres camponesas. Vemos que diariamente elas buscam estarem presentes em reuniões, em assembléias, em espaços de decisões, com o intuito de garantir melhores condições de trabalho e de vida. Assim, novos processos de transformações que estão ocorrendo, dependem de novas relações sociais, de novos parâmetros e de repensar valores.

Construir processos emancipatórios dentro desse contexto permite criar novas possibilidades de mudança, possibilidades de autonomia para as mulheres estarem nos espaços, interagirem com ele e transformá-lo. A autonomia das mulheres pode quebrar laços de subordinação, de dominação e de dependência das mesmas. É preciso que ao conquistar espaços se rompa com a invisibilidade do trabalho da mulher camponesa, pois, como já dito anteriormente, elas sempre trabalharam duro e acumularam muito serviço para a manutenção da produtividade e da família.

Outra maneira que as mulheres camponesas encontram para se emancipar é através da educação, seja com um projeto de educação formal nas escolas, que ensinem as crianças a questionar discursos machistas, promovendo debates sobre igualdades de gênero, seja na formação das próprias mulheres camponesas, que a cada dia estão conquistando seus lugares nas escolas, nos cursos médios e superiores. Embora a taxa de escolaridade das mulheres seja mais elevada que a dos homens, isso não tem garantido melhores salários e nem melhores oportunidades de trabalho.

Os dados do IBGE-Pnad (2009) demonstram que em todas as regiões do Brasil, a média de anos de estudo das mulheres rurais é superior ao dos homens. No Norte é de 4,4 anos para os homens, enquanto para as mulheres é de 5,1. No Nordeste é de 3,5 para os homens e 4,3 para as mulheres. No Sudeste é de 5,1 para os homens e 5,5 para as mulheres. No Centro-Oeste é de 5,0 para os homens e 5,6 para as mulheres, sendo que a média no Brasil é de 4,3 para os homens e 4,9 para as mulheres.

Esses dados mostram que em todas as regiões do país a média de anos de estudo das mulheres é sempre maior que a dos homens, apesar de elas sempre terem jornadas de trabalho muitas vezes duplicada. Em relação aos dados oficiais, referentes ao trabalho feminino, não é isso que encontramos. Vemos a porcentagem de mulheres com ocupação permanente, por exemplo, muito inferior ao dos homens, já que 22% de homens e somente 5,1% das mulheres. Em relação a empregos temporários temos 17% dos homens e 6,1% da mulheres empregadas. Com trabalho não remunerado, esses números se alteram, ficando em 11% para os homens e 30,7% para as mulheres. Também em ocupações de autoconsumo as mulheres ficam com 46,7% enquanto os homens somam apenas 14% (IBGE-Pnad 2009).

Outra comparação que podemos fazer é em relação aos salários, que apesar das mulheres terem maior escolaridade que os homens, isso não garante salários melhores, como demonstram os dados a seguir: homens que ganham até meio salário mínimo somam 20,2% enquanto as mulheres somam 9,7%. Homens que ganham de meio a um salário mínimo formam 25,%, e as mulheres 6,8%. Homens com até 2 salários mínimos, 19%, e as mulheres 4%. De dois a cinco salários mínimos, somam 7,8% de homens e apenas 1,1% das mulheres. Se pegarmos a porcentagem dos que trabalham sem rendimento, esses dados se invertem, ficando 77,9% para as mulheres e 25,5% para os homens (IBGE-Pnad 2009).

Após a apresentação dos dados, traremos as relações entre gênero e educação no meio rural, enfocando o ensino superior. Traremos como exemplos os cursos de Pedagogia da Terra que aconteceram e acontecem no país, como uma das maneiras de inserção das mulheres na universidade e, consequentemente, em outros espaços públicos da sociedade.