A partir do que se considerou acima, pode-se conceituar as necessidades naturais, distinguindo-as das culturais, como aquelas que são produto do processo de adaptação às mudanças no meio material e ambiental. Elas têm um desenvolvimento que faz parte do acaso da natureza e suas leis e que, portanto, não contêm em si as mesmas alternativas conscientes. Portanto, inserem-se em um sistema fechado de possibilidades para o indivíduo humano, ou mesmo para a sua espécie. Alimentar-se, por exemplo, significa um imperativo natural, cujas leis o homem não pode negligenciar sob pena do seu perecimento.
Ao contrário, a necessidade produzida pela cultura só poderá ser compreendida na complexidade da vida coletiva, como unidade complexa que expressa as especificidades da própria atividade viva e social, cujas leis representam a história das escolhas feitas pelos homens.
A necessidade humana não pode ser compreendida a partir de si mesma como simples existência natural de uma condição do ser, ou, como tendo um fim em si mesma e transcendente ao homem. Que a necessidade humana adquira características muito diferentes das biológicas e, por vezes, contraditórias ao sentido da própria vida biológica, como, por exemplo, o uso de produtos tóxicos, significa que ela não é um ente autoproduzido e com força própria, mas tem uma gênese naquilo que caracteriza a própria atividade humana e sua motivação.
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Vigotski (1997a, p. 175), ao explicar sobre o que compreende como característica do processo essencial do desenvolvimento, aponta que, de fato,
As condições sociais nas quais a criança deve enraizar-se constituem, por um lado, todo o âmbito de sua inadaptação, da qual derivam as forças criativas de seu desenvolvimento, a existência de obstáculos que impulsionam a criança ao desenvolvimento, reside nas condições do ambiente social ao qual
deve incorporar-se. Por outro lado, todo o desenvolvimento da criança está
orientado a alcançar o nível social necessário. Aqui está o princípio e o fim, o alfa e o ômega. (tradução nossa, grifo do autor)
Pensando que o desenvolvimento humano não está determinado a priori, que indica a inadaptação e que depende das condições nas quais ocorre, é pertinente afirmar que uma característica da necessidade humana é a sua instabilidade ou mobilidade. Diferente das carências naturais, como aquelas da nutrição e da reprodução, que são estáveis e existem continuamente, as especificamente humanas são produzidas pela interferência dos homens, como coletividade, sobre o meio natural. Têm a característica de serem condicionadas pelas escolhas das alternativas criadas nas situações concretas de sua própria gênese. Portanto, a sua historicidade é uma característica a priori.
Percebe-se que as transformações das atividades externas equivalem às transformações das necessidades, portanto, o desenvolvimento da atividade está inter-relacionado ao das necessidades. Vale, por isso, incluir no desenvolvimento da necessidade a ideia de que ela se forma como um conjunto de condições externas e internas que exigem, por sua vez, a formação de uma nova atividade. Por exemplo, pelo fato de que no desenrolar de uma atividade surgem problemáticas ou impedimentos que exigem uma alteração na consciência e a produção de novos objetos ou conhecimentos.
As novas atividades, por sua vez, exigem conhecimentos, aprendizagens e recursos já produzidos pelas gerações anteriores ou a serem produzidos na atualidade. Assim, pode-se entender que o indivíduo, enfrentando as suas necessidades tanto se torna mais humano quanto mais se expandem as suas possibilidades sobre as transformações da sua atividade, por meio da aprendizagem.
Elkonin (1999, p. 84) esclarece que:
A mente da criança desenvolve-se por meio da aprendizagem. Tudo que a criança adquire durante o curso do seu desenvolvimento mental é dado a ela na forma ideal e dentro do contexto da realidade social, a qual é a fonte do desenvolvimento. A atividade de aprendizagem é o eixo central. (tradução e grifo nosso)
Na necessidade não se encontra, portanto, somente um caráter negativo (carência), ela é a mola propulsora da aprendizagem e adquire, com isso, o caráter humanizador na medida
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em que se cria no indivíduo uma forma de domínio consciente em relação às determinações da natureza e da sociedade sobre a sua vida, por meio da aprendizagem. Isso inclui na motivação correlacionada à necessidade, como conteúdo ineliminável, a escolha entre possibilidades, bem como a possibilidade ou não de escolher, ou a liberdade.
Engels, (1976, p. 95-96) confirma que,
A liberdade não reside, pois, numa sonhada independência em relação às leis naturais, mas na consciência dessas leis e na correspondente possibilidade de projetá-las racionalmente para determinados fins. Isto é verdade não somente para as leis da natureza exterior, mas também para as leis que presidem a existência corporal e espiritual do homem: duas espécies de leis que podemos distinguir, quando muito, em nosso pensamento, mas que, na realidade, são absolutamente inseparáveis. O livre arbítrio não é, portanto, de acordo com o que acabamos de dizer, senão a capacidade de decisão com conhecimento de causa.
Chega-se, aqui, ao ponto de considerar o aspecto consciente da necessidade. A consciência como necessidade e as necessidades da consciência são aspectos de análise importantes para definição desses conceitos (necessidade e consciência) e para sua avaliação no processo educativo, o que equivale dizer que semelhantes conceitos só podem ser compreendidos a partir de suas inter-relações. De maneira que se exige sua avaliação como processos que têm uma base comum e não uma origem em si mesmos, mas no próprio fenômeno histórico da atividade social.
A consciência como necessidade pode ser compreendida pelo fato de que a criança ao nascer desconhece o mundo tanto material quanto social. Deve conhecê-los como imperativo para a sua própria vida e para a superação da sua posição inicial em relação às suas condições concretas e da afetação sofrida por causa da referida sua “inadaptação”. Já as necessidades da consciência representam o processo histórico de inserção no mundo simbólico e da significação cultural, portanto, da aprendizagem e da apropriação das qualidades psicológicas específicas de sua comunidade.
Em decorrência, faz sentido considerar a mudança da qualidade das necessidades como alteração da qualidade das relações do homem com a natureza e com os próprios homens. Qualidade significa justamente que a relação com o objeto/objetivo da atividade é mediada pela afetação produtora de sentido pessoal da significação social da atividade na qual ocorreu a mudança.
No caso humano, tanto a pessoalidade do sentido quanto a significação abrem diferentes caminhos para a produção e extinção das necessidades, e também, para a criação de novas necessidades. Tome-se, como exemplo, o caso em que um sujeito encontra, em uma
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atividade, objetos (materiais ou ideacionais), que já possuem um sentido aversivo ou ameaçador. Nesse caso, surge para ele uma necessidade própria para aquela situação: contornar, desviar a atenção, fugir etc.
Assim, a constituição das relações da consciência com as necessidades tem como mediador o sentido da existência do indivíduo nas suas atividades. A necessidade tem como condição primeira para ele, a busca pelo seu sentido, até porque é justamente a existência de alguma concordância entre o sentido na sua versão pessoal e na sua significação social que possibilita a sua orientação e vinculação como sujeito em uma atividade social (LEONTIEV, 1978 p. 94). Essa compreensão é de suma importância, já que a vinculação adequada de um indivíduo às atividades sociais significa que a educação dos sentidos, o processo de aprendizagem e a humanização estão ocorrendo a contento para a formação da consciência.
As correlações entre a atividade, a necessidade e a consciência se dão pelo fato de que a atividade viva cria a necessidade de outras atividades, as culturais. Isso significa que o desenvolvimento da consciência no processo da sua apropriação liga cada indivíduo ao seu mundo, como um entorno sociocultural que tem para ele um sentido pessoal correspondente de orientação, que o afeta de uma forma especial. Passamos, então, às considerações sobre a afetividade na produção das necessidades.