Aqui é necessário considerar que, na história da humanidade, ocorre uma mudança na gênese das necessidades como alteração da qualidade das relações do homem com a natureza e com os próprios homens. A mudança de qualidade, como já foi dito acima, significa que a relação que um indivíduo mantém com o objeto/objetivo da sua atividade, mediada pela afetividade, adquiriu um novo sentido não apenas biológico. No caso das novas necessidades humanas o sentido que se desenvolveu é o sentido social ou da relação, ou melhor, o significado das ações produzidas entre os homens passa a preponderar na orientação psíquica.
O desenvolvimento do significado social, no entanto, não eliminou a relação biológica de um indivíduo com o mundo. É necessário lembrar que qualquer processo de significação inicia-se com a afetação sensível atual ou com a recuperação pela memória, de uma experiência passada. Existe sempre um registro biológico constituindo os significados sociais, então, pode-se afirmar que a formação do sentido social (significado) tem uma dupla gênese, tanto no indivíduo (experiência própria) quanto nas relações objetivas, sociais. Por isso, na
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orientação social da atividade está presente a inter-relação com a história das experiências sensíveis e da valoração destas pelo indivíduo.
A título de exemplificação, posso relatar que em uma conversa com alunos sobre significados e sentidos, uma aluna com deficiência visual explicou como as suas limitações sensíveis (biológicas) possibilitaram a criação de um sentido pessoal/social para a palavra céu. Ela afirmou que o signo tem para ela o significado de claro/escuro e que essa palavra não evoca nela nada mais do que a sensação de um “flash de luz” (sic). É possível compreender que a forma da existência da sensibilidade possibilita o surgimento de um sentido pessoal e é meio para a constituição do conteúdo social da significação, embora esta, por sua vez, se sobreponha na maioria dos casos à orientação biológica.
Nesse sentido, Bozhóvich (1987, p. 252) aponta para o fato de que ao analisar-se o desenvolvimento da personalidade se pode reconhecer que
Na qualidade de traço fundamental desse desenvolvimento assinalamos o surgimento, no homem, da capacidade de comportar-se independentemente das circunstâncias que atuam sobre ele na forma imediata (e inclusive contra elas), guiando-se por objetivos próprios, conscientemente propostos. O surgimento de tal capacidade condiciona o caráter ativo, e não reativo, do comportamento do homem e o torna não o escravo das circunstâncias, senão o dono delas e de si mesmo. (tradução nossa)
As novas necessidades humanas demonstram essa duplicidade na sua formação; por um lado, são pessoalmente constituídas com base na orientação psíquica; por outro, são socialmente significadas e orientam-se pelas exigências da coletividade.
O conceito que melhor pode explicar essa relação de dupla gênese para o aparecimento das necessidades é o de situação social de desenvolvimento. Esse conceito nos coloca diante do fato de que a criança nasce constituída pela natureza, com sentidos biológicos que se expressam na atividade motora reflexa. Igualmente, o que possibilita o surgimento de novas qualidades na forma da expressão e desenvolvimento da atividade são, justamente, as circunstâncias criadas socialmente, ao seu redor.
Vigotski (1996, 264) definiu esse conceito assim:
No início de cada período de idade a relação que se estabelece entre a criança e o entorno que a rodeia, sobretudo o social, é totalmente peculiar, específico, único e irrepetível para esta idade. Denominamos essa relação como situação social de desenvolvimento nesta idade. A situação social do
desenvolvimento é o ponto de partida para todas as mudanças dinâmicas
que se produzem no desenvolvimento durante o período de cada idade. Determina plenamente e por inteiro as formas e a trajetória que permitem à criança adquirir novas propriedades da personalidade, já que a realidade social é a verdadeira fonte do desenvolvimento, a possibilidade de que o social se transforme em individual. Portanto, a primeira questão que
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devemos resolver, ao estudar a dinâmica de alguma idade, é esclarecer a situação social de desenvolvimento. (tradução nossa, grifo em negrito, nosso; grifo em itálico no original)
Forma diferente ocorre com as necessidades naturais que não se formam por uma alternativa dada sócio-culturalmente, isto é, aquelas que são produto do processo de adaptação às mudanças no meio material e ambiental. Dessas necessidades se pode dizer que não têm em si mesmas um desenvolvimento que não faça parte do acaso da natureza e da ação reflexa do organismo. Isso quer dizer que a necessidade como expressão natural, ou como condição no movimento da atividade viva, corresponde ao movimento do meio no qual a vida se desenvolve. Assim, essas necessidades existem em um sistema fechado de possibilidades para os indivíduos, ou mesmo para a espécie, quando permanecem fora do sistema cultural de relações. Somente a inclusão das necessidades naturais no processo de significação cultural alterará a sua condição e possibilitará novas formas de existência.
Fica assim entendido que as necessidades humanas são constituídas na atividade produtiva da vida social, e suas características têm origem tanto nas valorações pessoais quanto nos interesses coletivos. Portanto, nas relações interpessoais, a necessidade aparece como constituída pelos interesses resultantes da vontade como expressão da personalidade em relação com a sua sociedade. Ocorre também a carência material, instrumental ou meios operacionais das ações. Esses aspectos criam a existência de condições ou interesses que imprimem à necessidade sempre um caráter de situação problemática.
Se, por um lado, a atividade social produtiva cria necessidades especiais nos indivíduos para a execução da sua atividade, necessidades materiais que têm implicações na objetividade de sua vida; por outro lado, cria também situações afetivas, isto é, situações nas quais existem implicações pessoais. Essas situações, também, ocupam um lugar na objetivação (finalidade) da atividade social e individual. A objetivação não é, porém, dada naturalmente aos homens, mas, posta pelos próprios homens, segundo seus interesses.
Compreende-se, assim, que ocorre, ao mesmo tempo, uma autoria individual e coletiva das necessidades.
Essa concepção da autoria consciente das definições da objetivação da atividade social e individual exige uma explicitação do processo de orientação psíquica e do afeto como base desse processo, porque o que faz desenvolver na idealidade a representação objetivada (finalidade) da atividade é uma necessidade ineliminável da própria condição de ser vivo, isto é, a exigência de um sentido para as ações e operações, em todas as atividades. Aqueles sentidos da atividade biológica, já inscritos na própria constituição orgânica têm em si
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mesmos a sua motivação (a ativação dos recursos fisiológicos correspondentes às necessidades metabólicas), no entanto, os da vida social podem ser produzidos pelos próprios homens, e isso tem uma implicação fundamental na produção da vida humana.
Para iniciar a explicitação, ainda que breve, sobre a orientação psíquica, quero partir da assunção radical da origem da vida humana e do seu desenvolvimento como produto da natureza, valendo-me desta citação na qual Lukács (2004, p. 157) refere-se ao que seja o homem.
[...] o homem, membro ativo da sociedade, o motor das transformações e dos avanços desta, continua sendo, em sentido biológico, um ser inelutavelmente natural: sua consciência, em sentido biológico, — apesar de todas as mudanças decisivas de função no plano ontológico — está indissociavelmente ligada ao processo de reprodução biológica do seu corpo; considerando a universalidade desta ligação, a base biológica da vida permanece intacta também na sociedade. Todas as possibilidades de prolongar este processo, por exemplo, por meio da aplicação do conhecimento, etc., não podem alterar em nada esta vinculação ontológica em última instância da consciência com o processo vital do corpo.
Depreende-se que o homem é um ser natural e não há nenhuma perspectiva que não o seja por essa condição. No entanto, Vigotski chama a atenção para a incompletude do aspecto inato sobre o caráter humano e aponta a necessidade da socialização para a transformação do reflexo instintivo como meio de orientação psicológica. Assim, ele observou que:
Com efeito, a lastimável indefensibilidade do recém-nascido se deve à falta de mecanismos instintivos terminados. São inerentes ao ser humano determinados impulsos elementares, certos esforços para conservar a vida; sua superior organização espiritual tende assim mesmo a um grande desejo de existir, de atividade, ser feliz, ter bem-estar. Não obstante, tudo isso é muito indefinido, é um projeto que exige ser completado pelo adestramento e pelo intelecto. Em comparação com a exigência estritamente regulada dos insetos, os instintos humanos se revelam difusos, débeis, ramificados, marcados por profundas diferenças individuais até ao ponto de que cabe se perguntar se se trata do mesmo mecanismo natural (VIGOTSKI 1996, p. 300).
Todo o processo de modificação da natureza instintiva é produzido pela afetação sensível e pela produção de um sentido para essa afetação, que é inicialmente biológica, significada e simbolizada.
Nos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844, Marx (2004, p. 110) apresenta uma correta consideração sobre o desenvolvimento dos sentidos humanos, quando afirma que,
Não só no pensar, portanto, mas com todos os sentidos o homem é afirmado no mundo objetivo.
Por outro lado, subjetivamente apreendido: assim como a música desperta primeiramente o sentido musical no homem, assim como para o ouvido não
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musical a mais bela música não tem nenhum sentido, é nenhum objeto, porque o meu objeto só pode ser a confirmação de uma das minhas forças essenciais, portanto só pode ser para mim da maneira como a minha força essencial é para si como capacidade subjetiva, porque o sentido de um objeto para mim (só tem sentido para um sentido que lhe corresponda) vai precisamente tão longe quanto vai o meu sentido, por causa disso é que os sentidos do homem social são sentidos outros que não os do não social; [é] apenas pela riqueza objetivamente desdobrada da essência humana que a riqueza da sensibilidade humana subjetiva, que um ouvido musical, um olho para a beleza da forma, em suma as fruições humanas todas se tornam sentidos capazes, sentidos que se confirmam como forças essenciais humanas, em parte recém cultivados, em parte recém engendrados. Pois não só os cinco sentidos, mas também os assim chamados sentidos espirituais, os sentidos práticos (vontade, amor, etc.), numa palavra o sentido humano, a humanidade dos sentidos, vem a ser primeiramente pela existência do seu objeto, pela natureza humanizada. (grifos no original)
Vigotski (1997, p. 100) afirma que, “Mediante a abstração, o processo psíquico se separa ou subtrai do psicofisiológico, mas é em seu seio onde unicamente adquire significado e sentido.” Essa afirmação ajuda-nos a compreender que a formação de um sentido tem como base sempre a existência do caráter biológico, inicialmente dado pela experiência direta, que causa uma afetação sensível que produz do ponto de vista instintivo, um valor, isto é, uma qualidade da relação para as orientações vitais do organismo. Esse valor se manifesta no controle psíquico da atividade viva e adquire um sentido biológico. Vigotski (1996, p. 282), afirmou que “Na percepção inicial do recém nascido todas as impressões exteriores estão indissoluvelmente unidas com o afeto que lhes matiza o tom sensitivo da percepção. A criança percebe antes o afável ou ameaçador, ou seja, em geral, o expressivo, que os elementos objetivos da realidade exterior.” (tradução e grifo nossos)
Contudo, ocorre o processo de significação social dessas experiências. Por meio desse processo, a criança adquire os signos sociais para as experiências que vive e começa a organizar o seu comportamento baseando-se na abstração que faz das relações e das afetações que as acompanham. Dessa forma, preponderam sobre os sentidos biológicos, os sociais (LEONTIEV, 1978 p. 183-185).
Por exemplo, a criança ao relacionar-se pela primeira vez com a chama de uma vela, dirige-se a ela atraída pelo seu brilho e movimento. No entanto, ao tocar a chama, a experiência direta com o calor excessivo que é negativo para o reflexo instintivo de preservação da integridade biológica, faz com que a criança afaste a mão atribuindo um sentido para essa relação. Ao longo das suas experiências sociais com a chama de qualquer fonte de calor, os outros indivíduos proporcionarão ao mesmo tempo um signo (palavra, por exemplo) e um significado (a ação do fogo sobre os objetos), e de posse desse signo e de
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tantos outros mais, a criança poderá articular imagens, sons, ações e consequências das relações entre objetos e pessoas, generalizando e simbolizando (produzindo novos significados para os signos articulados entre si) de forma que possa orientar-se psicologicamente nas suas próprias relações.
É assim que a afetação inicialmente sensível une, nos planos mais complexos e superiores da orientação psíquica, as funções psicológicas superiores criando uma cadeia de relações materiais, biológicas e simbólicas.
Vigotski (1996, p. 297) pondera, por exemplo, que “As investigações demonstram que o processo central, que no primeiro ano une as funções sensoriais e motoras em uma estrutura única central, é o impulso, a necessidade ou, falando mais amplamente, o afeto. A percepção e a ação estão unidas pelo afeto.” (tradução e grifo nossos)
Por conseguinte, para o surgimento de novas necessidades para uma atividade específica já desenvolvida, será indispensável uma afetação material e concreta correspondente às novas finalidades. Compreende-se que, para as novas necessidades intelectuais do pensamento, também correspondentes, tal afetação deve mediar a recuperação dos conhecimentos já adquiridos e articular pela imaginação, que age com representações ideais, a produção de novas necessidades intelectuais, cognitivas ou teóricas, por meio do pensamento.