A inserção da criança, ainda quando bebê, no mundo da cultura, passa por uma dupla mediação, necessariamente, processo composto pela mediação dos signos e pela mediação do outro, que detém a significação. Pela Psicologia Histórico-Cultural é possível afirmar que, por meio destes processos, a criança experimenta o nascimento cultural, que constitui a porta de acesso para a gama de significações humanas, “cuja apropriação é condição da sua constituição como um ser cultural” (Pino, 2005, p. 59). O autor fala então na existência, segundo a perspectiva vigotskiana, de um duplo nascimento da criança, o biológico e o cultural.
Pino (2005) utiliza o termo mediação semiótica, explicando que se refere a um mecanismo que opera como um conversor que permite à criança a transposição de planos de funções humanas. Por meio dos signos, há a possibilidade de a criança transformar aquilo que é alheio a ela – modos de falar, agir e pensar externos, do outro – em algo propriamente seu,
sem que isso precise se ausentar deste outro. Destarte, “a mediação semiótica permite à criança apropriar-se do saber humano que a capacita a interpretar o mundo e lhe dá condições para comunicar-se com os outros” (Pino, 2005, p. 160).
Na perspectiva da Psicologia Histórico-Cultural, as relações entre as pessoas são mediadas, culturais, obedecendo à sociabilidade necessária ao homem para sua constituição. A criança estabelece relações com o seu meio social que são mediadas pelos outros, com a interposição de um terceiro elemento, que é o signo – ou a própria significação das funções realizadas pelo indivíduo da relação, o outro (Pino, 2005).
Sobre esta temática, Facci (2004, p. 172) afirma que “a idéia de que um sinal se interpõe como mediador na relação entre estímulo e resposta conduz Vigotski ao conceito de signo. Uma maior elaboração do conceito de signo conduzirá Vigotski a idéia da mediação semiótica, em que a palavra ocupa lugar central”.
Fontana (2005), ao falar sobre o desenvolvimento humano a partir desta mesma perspectiva, ressalta que um dos processos que nele ocorrem, o de conceitualização, é considerado como uma “prática social dialógica” (Fontana, 2005, p. 3), no sentido de ser mediada pela palavra e “pedagógica” (idem, p. 3), devido à já mencionada mediação do outro. Sendo este um processo essencial na constituição do sujeito, faz-se necessário ressaltar sua importância nos processos intrapsíquicos individuais. A respeito da palavra, Smolka e Nogueira (2002) afirmam que elas só adquirem significado nas relações entre as pessoas, quando a linguagem emerge, exercendo necessariamente um papel de interação.
Nesse sentido, Fontana (2005, p. 19) afirma que:
A mediação do outro desperta na mente da criança um sistema de processos complexos de compreensão ativa e responsiva, sujeitos às experiências e habilidades que ela já domina. Mesmo que ela não elabore ou não apreenda conceitualmente a palavra do adulto, é na margem dessas palavras que passa a organizar seu processo de
elaboração mental, seja para assumi-las ou para recusá-las. No curso da utilização conjunta e da internalização dessas palavras, a criança reproduz, apreende e começa a operar com conceitos e praticar o pensamento conceitual antes de ter uma consciência clara da natureza dessas operações (Vigotsky, 1987, p. 59).
A partir de um intenso processo no qual o indivíduo interage com seu meio social, neste processo de mediação realizado pelo outro é que ocorre a apropriação dos bens culturais necessários ao desenvolvimento do seu psiquismo (Leite & Kager, 2009). Nesta perspectiva vigotskiana, a mediação do/pelo outro é vista como algo que pode ocasionar a emergência de funções não dominadas de forma autônoma pela criança, mas que, coletivamente, possa vir a desempenhar. Portanto, para Vigotski, ensinar é algo que precede o desenvolver do indivíduo e as funções psicológicas básicas necessárias para a aprendizagem são desenvolvidas pelas contribuições e solicitações, em contínua interação (Fontana, 2005). Segundo Facci (2004, p. 153), “a psique humana é mediatizada, e as funções psíquicas superiores são o produto da própria interação mediatizada pelos objetos criados pelo homem”.
A mediação do adulto parte de uma decisão, sendo portanto intencional, já que docentes e discentes ocupam papéis sociais organizados hierarquicamente na trama educacional. O adulto “compartilha com a criança sistemas conceituais instituídos, procurando induzi-la a utilizar-se das operações intelectuais, das possibilidades sígnicas e dos modos de dizer neles implicados” (Fontana, 2005, p.21). O desenvolvimento do psiquismo do ser humano é mediado pelo outro, também pertencente ao seu grupo social; este demarca, sugere e confere significados a conduta individual e, por meio dessas intervenções, há a possibilidade de que o indivíduo tome posse da cultura humana de seu grupo e da herança histórica (Leite & Kager, 2009).
Por meio de signos, que podem ser atos, palavras ou gestos, o outro realiza a mediação da criança, que já nasce inserida em um aparelho dotado de significados sociais e vai
integrando-se à cultura e história acumuladas pela articulação de pensamento e linguagem (Fontana, 2005). Todo este processo de elaboração infantil é mediado pela palavra, que possui funções de designação, além das analíticas e generalizadoras, conforme afirma Luria (1987, citado por Fontana, 2005).
Porém, Vasconcellos (2010), ao falar sobre os processos de ensino-aprendizagem, afirma que “não há mediação boa em si” (p. 112), o que sugere a reflexão de que a mediação, por si só, não garante resultados. Isto não significa que, por existirem um educador e um aluno envolvidos em um processo educacional, haverá uma mediação necessariamente resultante em aprendizagem. Para compreender esta questão, é necessário o entendimento sobre a temática da Zona de Desenvolvimento Iminente, que consiste na possibilidade de que o indivíduo aprenda novos conteúdos diferentes daqueles que já conhece de antemão.