Pensando sobre as relações com o outro, é possível afirmar que são de extrema importância no contexto educacional e em outros âmbitos, sendo essencial para que o sujeito se constitua e para que conviva em sociedade (Meira & Antunes, 2003; Zanella, 2005). Lev S.Vigotski [1896-1934], o principal autor da Psicologia Histórico-Cultural, afirmou que o psiquismo humano se forma a partir das e nas relações sociais humanas estabelecidas pelo sujeito (Zanella, 2005), considerando as relações interpessoais como fundamentais para o desenvolvimento humano. Góes (2000), pesquisadora da Psicologia Histórico-Cultural, também se interessou pela temática e propôs importantes reflexões referentes à relação com o outro.
Em uma reflexão sobre as teorias de Vigotski e Pierre Janet, a autora afirma que ambos apresentam teorias que se baseiam em ideias de que o indivíduo constroi-se socialmente na relação com os outros, tanto pelas interações “face-a-face” quanto pelas relações sociais ditas mais amplas, e embora o outro seja um constante companheiro, para Fontana (2000a) esta parceria não se encerra em uma harmonia permanente. Góes (2000, p.119) complementa, afirmando que “as relações sociais, que fundam os processos individuais, são caracterizadas por tensões e equilíbrios”.
Se na perspectiva de Vigotski, nos constituímos na relação com o outro, o termo “social”, de acordo com Sirgado (2000), é um dos que o autor russo usou com mais frequência em seus trabalhos, aparecendo em diferentes contextos, locais e momentos. Isto mostra-se coerente com sua produção, já que a origem da natureza e o princípio social das funções superiores constituem o marco da concepção apresentada pelo autor, introduzida por ele na psicologia como uma nova concepção a respeito do desenvolvimento psicológico.
Segundo Sirgado (2000, p. 61):
O social ao qual Vigotski se refere especificamente é o social humano8, cuja emergência, com maior razão que a das formas animais de sociabilidade, tem de ser explicada por princípios outros, e não os meramente naturais ou biológicos. As formas humanas de organização social, em que a sociabilidade natural se concretiza, são obra do homem e, como tal, obedecem a leis históricas que determinam as condições concretas de sua produção. É o caráter histórico dessa produção que define o social humano.
Nesta nova concepção de Vigotski sobre o desenvolvimento psicológico ressalta-se a importância das relações sociais, pois nelas os processos realizam-se, primeiro no plano social (processos interpessoais e interpsicológicos) para depois se tornarem individuais
(intrapessoais e intrapsicológicos), sendo a origem das formas superiores de comportamento encontradas nos relacionamentos com o outro que o indivíduo estabelece, ou seja, na relação com o mundo externo (Meira, 2007; Facci, 2004).
Conforme a teoria de Vigotski,
é no curso de suas relações sociais (atividade inter-pessoal) que os indivíduos produzem, se apropriam (de) e transformam as diferentes atividades práticas e simbólicas em circulação na sociedade em que vivem, e as internalizam como modos de ação/elaboração ‘próprios’ (atividade intra-pessoal), constituindo-se como sujeitos (Fontana, 2005, p. 11).
As pessoas compartilham ações externas e depois, por meio de um processo de “individuação pelo outro” (idem, p. 11), o sujeito vivencia a reconstrução interna do que foi experienciado externamente, o que Vigotski nomeia como um processo de “internalização”, no qual o “processo inter-pessoal inicial transforma-se em intra-pessoal” (Fontana, 2005, p. 11). Os sujeitos se constituem, portanto, no plano interno, a partir de suas experiências vivenciadas externamente.
Fontana (2005) concebe que a internalização tem, em sua base, o processo de “mediação semiótica (particularmente a linguagem)” (p. 12), o que, segundo ela, abarca tanto as ações desenvolvidas pelo indivíduo, como as táticas e conhecimentos que ele ou os outros dominem, consideradas as condições de realidade da ocorrência de interações. A autora afirma que quando as funções, os papéis e as ações sociais são internalizadas pelos sujeitos, estes passam a controlá-los, adquirindo a possibilidade de direção sobre seu comportamento.
Interpretações superficiais das concepções e palavras vigotskianas poderiam levar a afirmações de que o que ocorre no plano pessoal trata-se de mera imitação do que ocorre no plano interpessoal, das relações com o outro. Porém, o processo de interiorização, analisado cuidadosamente, refere-se ao significado que a relação com os outros passa a ter na esfera
íntima do próprio indivíduo, levando-se em consideração a gama de relações diferentes que podem ser estabelecidas por uma mesma pessoa, influenciando em sua constituição intrapsíquica (Sirgado, 2000).
Silva, Almeida e Ferreira (2011, p. 222) afirmam que: “é na relação com o outro que se constitui o plano interpsicológico do desenvolvimento cultural do indivíduo. Neste sentido, o outro é signo mediador de condutas, gestos, sentimentos e pensamentos, valendo lembrar que toda e qualquer função psicológica superior foi social antes de tornar-se interna ao indivíduo”. Pino (2005) corrobora este raciocínio, ao asseverar que o outro é condição imprescindível para que haja desenvolvimento humano, pois a história de cada função psíquica é uma história, necessariamente, social e que, portanto, as funções superiores que constituem o sujeito foram, antes disso, funções entre as pessoas, ou seja, relações sociais.
Meira (2007), ao falar sobre a Psicologia Histórico-Cultural e a relação entre indivíduo e sociedade, afirma que aquela “tratou da relação entre indivíduo e sociedade de uma forma inteiramente nova, apontando para o caráter mediado e sócio-histórico dos processos psíquicos” (p. 41). González Rey (2000), outro autor que discute esta Psicologia, ao estudar o lugar das emoções na constituição social do sujeito, com destaque para as contribuições de Vigotski, analisou a questão da personalidade, identificando-a como uma construção teórica que reconhece a subjetividade individual, entendendo-a como um processo inerente a um sujeito que existe socialmente.
Segundo Fontana (2005), Vigotski trabalha com o conceito de funções psicológicas superiores, concebendo a ideia de que existem as funções psicológicas elementares, que são aquelas que vêm do “capital genético da espécie, da maturação biológica” como a atenção, a percepção e a memória, por exemplo e, por meio das experiências do sujeito, vão sendo transformadas e passam a ser consideradas funções mediadas.
atividade psicológica, que tem como base as operações com signos. Os processos psicológicos chamados de elementares desaparecem, são incorporados a um novo sistema de comportamento culturalmente desenvolvido, configurando uma nova forma, ou seja, as funções psicológicas superiores (Vigotski, 1998).
A função dos signos, instrumentos simbólicos, transformação do funcionamento psicológico humano, é comparada, na teoria vigotskiana, com a função dos instrumentos de trabalho na transformação da natureza. Instrumentos e signos são mediadores para a construção dos processos psicológicos dos indivíduos.
Fontana (2005) destaca que a elaboração conceitual é uma forma superior de ação consciente, e se trata de uma forma culturalmente desenvolvida de as pessoas refletirem, cognitivamente, sobre as suas experiências. “Tal elaboração resulta de um processo de análise (abstração) e de síntese (generalização) dos dados sensoriais, que é mediado pela palavra e nela materializado” (Fontana , 2005, p. 12).
Como parte da constituição do sujeito também precisa ser considerada a elaboração conceitual. De acordo com Fontana (2005), os conceitos são produtos históricos, não sendo analisados como formações inerentes à mente e reflexo de vivências pessoais dos indivíduos, mas sendo constituídos por historicidade, carregando consigo marcas e incoerências de momentos específicos nos quais tiveram seu desenvolvimento e consolidação possibilitados. Mas a questão da formação de conceitos “depende fundamentalmente das possibilidades que os indivíduos têm (ou não) de, nas suas interações, se apropriarem (dos) e objetivarem os conteúdos e formas de organização e de elaboração do conhecimento historicamente desenvolvidos” (Fontana, 2005, p. 14).
A formação de conceitos, por ter um caráter histórico e social, abre espaço para a emergência do papel da aprendizagem, na sua constituição e no seu desenvolvimento, e do outro como sendo de suma importância neste processo. Na criança, há o desenvolvimento da
conceitualização por meio da incorporação das experiências comuns à humanidade, mediadas pelas práticas sociais, dentre elas a palavra e por meio da interação com outros indivíduos (Fontana, 2005).
Compreender a constituição humana em seus aspectos intrapsíquicos e os aspectos da aprendizagem só se tornam possíveis se nos atentarmos para a importância das relações interpessoais e dos processos interpsíquicos, considerando o quão essenciais são as considerações teóricas sobre a mediação semiótica, a mediação pedagógica e sobre a Zona de Desenvolvimento Iminente, situações que envolvem a relação eu-outro, sendo estas temáticas que constituem o cerne dos processos de ensino-aprendizagem a serem trabalhados neste estudo, sobre os quais trataremos a seguir.