A proposta da EBAP é plural na sua essência: tende a conciliar uma vertente acadêmica com uma vertente pragmática, de impacto direto na sociedade, e procura os recursos humanos que sejam melhores para isso.
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E N E D I C T OS
I L V AEm 1951 foi criado na Fundação Getulio Vargas o Instituto Brasileiro de Ad- ministração, o IBRA, dirigido pelo professor Luiz Alves de Mattos. Em se- guida foi criada, com a sua participação, a Escola Brasileira de Adminis- tração Pública. Como nasceu o projeto da EBAP?
Benedicto Silva — Nasceu entre 1950 e 1951, mas era um projeto
quixotesco, primeiro, porque não havia literatura sobre a matéria em lín- gua portuguesa e mesmo em outras línguas. Segundo, não havia profes- sores da matéria, nem no Brasil, nem nos países latino-americanos. Fi- nalmente, não havia estudantes interessados. Graças ao apoio das Nações Unidas, onde eu era funcionário, foi possível contratar professores de ou- tros países para ministrar as aulas. As Nações Unidas também concede- ram bolsas de estudos, especialmente a brasileiros, que eram a maioria dos alunos, mas também a outros latino-americanos: argentinos, chilenos, mexicanos etc. Os primeiros professores eram estrangeiros que não fala- vam português, e era necessário haver tradução simultânea.82
Como o senhor se tornou funcionário das Nações Unidas?
Benedicto Silva — Eu era técnico de administração do Dasp. Quando o
general Dutra assumiu a presidência, em janeiro de 1946, seu ministro da Viação e Obras Públicas, Edmundo de Macedo Soares e Silva, o homem que tinha criado Volta Redonda, me convidou para ser seu oficial-de-gabinete.
82 Visando à preparação de uma escola de administração no Brasil, no decorrer de 1949 o pro- fessor Luiz Alves de Mattos fez uma viagem aos Estados Unidos para conhecer instituições do gênero. Visitou 27 instituições e sobre elas fez relatórios minuciosos. Na mesma ocasião, sua mulher, Dora Alves Mattos, visitou escolas de segundo grau com vistas à organização do Co- légio Nova Friburgo (ver Relatório anual da FGV de 1949). Depois dessa viagem, e de enten- dimentos da FGV com Benedicto Silva e Martinez Cabañas, representantes da ONU, e com o professor Adiseshheah, da Unesco, ficou decidido, em março de 1951, que a FGV iniciaria cur- sos de administração em colaboração com a ONU. Em novembro começaram a funcionar os primeiros cursos especiais, com os seguintes professores estrangeiros: Roscoe Martin, da Syra- cuse University, NY, Princípios de administração pública; George Ladislas Langrod, da Uni- versidade de Sarrebruck e do Centre National de la Recherche Scientifique, Paris, Adminis- tração comparada; Henry Reining Jr., da University of South California, Administração de pes- soal; Enrique Tejera Paris, da Universidad de Caracas, Organização e métodos; Harvey Walker, da Ohio State University, Elaboração e execução orçamentária. A partir de abril de 1952, sob a direção de Luiz Alves de Mattos, a EBAP transformou-se em uma escola de graduação, a pri- meira da América Latina. Em maio de 1962 o curso foi reconhecido pelo Ministério da Edu- cação. Para acompanhar a criação da EBAP, ver Jorge Gustavo da Costa, Fundação Getulio Var-
Três ou quatro meses depois, o ministro fez uma viagem aos Estados Unidos para obter um empréstimo, e fui com ele. Percorremos o país, visitamos 14 estados e, no hotel em que eu me encontrava, recebi da Casa Branca um convite para visitar as Nações Unidas, que ainda não tinham sede. A razão do convite era o fato de que eu tinha estudado na American University, e tra- balhava na Casa Branca alguém que tinha me conhecido nessa universidade. Fui, então, ao escritório das Nações Unidas e recebi o convite para trabalhar lá. O ministro Macedo Soares achou que era importante para o Brasil ter um funcionário graduado nas Nações Unidas, uma organização que estava surgindo, e telefonou para o general Dutra, que concordou. Em virtude disso é que me foi possível lançar o projeto do ensino de admi- nistração pública. Eu tinha muito boas relações com o dr. Simões Lopes e vim ao Brasil com a idéia de prestar algum serviço ao país. Entendi-me com Simões Lopes, que me abriu todas as portas e me deu todas as opor- tunidades. Era uma experiência nova, quase uma aventura, e não era pos- sível prever os resultados, mas felizmente tudo correu bem.
Quem participou da montagem da EBAP? Havia uma equipe, um projeto? Benedicto Silva — É claro que havia pessoas, mas, como eu disse,
era um projeto quixotesco, e conseqüentemente a imaginação funcionava mais do que o conhecimento de fato. Mesmo nos Estados Unidos havia então poucas escolas de administração. A França, por exemplo, só criou a sua escola de administração pública em 1945.
Os recursos que mantiveram a EBAP nos primeiros anos vieram só das Na- ções Unidas?
Benedicto Silva — Só das Nações Unidas. Foram as Nações Unidas
que tornaram possível a existência da escola, tanto na contratação de pro- fessores quanto na seleção de alunos. Isso funcionou assim pelo menos du- rante uns quatro ou cinco anos. Não havia participação financeira do go- verno brasileiro, apenas o espaço era da Fundação Getulio Vargas.
O senhor deixou de ser funcionário das Nações Unidas para ser funcionário da Fundação?
Benedicto Silva — Fui funcionário das Nações Unidas até me apo-
sentar e aí passei a ser diretor do INDOC, o Instituto de Documentação da Fundação Getulio Vargas, ao qual se subordinavam a biblioteca e a edi- tora. Enriquecemos a biblioteca com literatura nova, importada graças aos recursos das Nações Unidas. Fiquei no INDOC 17 anos, cuidando da li-
teratura, do ensino e também das finanças da EBAP. Uma das responsa- bilidades importantes do instituto era editar livros, inclusive escrever tex- tos de administração municipal. Esses trabalhos eram uma novidade.
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I O G OL
O R D E L L OComo foi seu primeiro contato com a Fundação Getulio Vargas?
Diogo Lordello — Em 1952, o governo americano estava concedendo
bolsas a brasileiros para cursarem mestrado e doutorado em administração pública na Universidade do Sul da Califórnia. Eu era oficial da Aeronáutica e consegui que o governador do Paraná, Bento Munhoz da Rocha Neto, me pedisse emprestado à Aeronáutica. Iria para os Estados Unidos e, quando voltasse, trabalharia no Departamento de Assistência Técnica aos Municí- pios. A seleção dos bolsistas era feita na EBAP, da Fundação Getulio Var- gas, por uma comissão composta por Benedicto Silva, Luiz Alves de Mattos, José de Nazaré Teixeira Dias e o diretor da escola de administração pública da Universidade do Sul da Califórnia. Fui aprovado e viajei, com uma bolsa mensal de 300 dólares do governo americano e mais 200 dólares do go- verno do Paraná. Passei 18 meses fora, mantendo contato constante com o dr. Benedicto, que foi responsável pela publicação da minha tese de mes- trado sobre administração municipal. Nesse trabalho eu proponho um sis- tema de governo que era muito comum nos Estados Unidos: o sistema do administrador-chefe, em que o prefeito escolhe um profissional competente para gerenciar a parte adjetiva da administração pública. Ou seja, não a parte substantiva, que inclui polícia, obras públicas etc., mas tudo o que tem que ver com finanças, administração, relações públicas, pessoal.
Quando voltei dos Estados Unidos, fui para o Paraná trabalhar no Departamento de Assistência aos Municípios. No segundo semestre de 1955, o professor Benedicto Silva me pediu emprestado ao governo do es- tado, para que eu preparasse o curso de administração municipal da EBAP, porque o professor que dava o curso, um inglês da Universidade de Oxford, estava terminando o seu tempo aqui. Passei cinco meses fazendo esse trabalho e nesse período fui convidado pelo governo federal para or- ganizar o Ibam. A Fundação cedeu duas salas no edifício da 13 de Maio, porque o Ibam não tinha sede. Quando assinei o contrato para trabalhar no Ibam, o dr. Luiz Simões Lopes, que era presidente da Fundação Ge- tulio Vargas e do Conselho de Administração do Ibam, exigiu que o meu contrato incluísse Ibam e Fundação Getulio Vargas — eu tinha que con- tinuar sendo professor da Fundação.
Comecei a ensinar na Fundação em 1º de fevereiro de 1956 e sou professor até hoje. A EBAP estava começando a crescer, tinha um curso de bacharelado muito procurado. Mais tarde o curso de graduação foi ex- tinto e só ficou o de mestrado.83 Participei muito desse processo e fui o coordenador do curso de mestrado durante dois anos, até que consegui- mos a aprovação do Ministério da Educação.
O senhor conheceu, na Fundação, o professor Luiz Alves de Mattos? Diogo Lordello — Sim. Era um grande pedagogo, tanto que seu in-
teresse era criar escolas, e não administrar. Ele concebia as escolas, o con- teúdo das disciplinas, as metodologias, e passava a direção para outra pes- soa. Não dirigiu por muito tempo nenhuma das escolas que criou. Foi o primeiro diretor da EBAP, mas pouco tempo depois passou-a para o pro- fessor Benedicto Silva. Ele também concebeu o Colégio Nova Friburgo.84
Luiz Alves de Mattos participou ainda, em 1964, da criação da Escola In- teramericana de Administração Pública, a EIAP. De onde vinham os alunos da EIAP?
Diogo Lordello — Vinham de toda a América Latina, de países como
Peru, Colômbia, Equador, México. A escola era para estrangeiros, não para brasileiros. Era apoiada pelo BID e atraiu muitos alunos. Foi um curso muito importante, e com seu fim a Fundação perdeu uma grande opor- tunidade de receber alunos de fora. Agora continua a haver alunos es- trangeiros, mas apenas uns poucos bolsistas da Capes, uma média de seis a 10 por ano, vindos da América Latina e da África.85
O senhor participou, nos anos 60, de um grande projeto editorial que foi de- senvolvido pela EBAP, patrocinado pela Fundação Ford?
Diogo Lordello — Sim. Fui nomeado chefe do centro de pesquisas li-
gado à EBAP, que na verdade tinha uma atividade editorial. Havia um con- vênio entre a Fundação Getulio Vargas e a Fundação Ford para a publi-
83 O último vestibular para o curso de graduação da EBAP foi em 1980, e a última forma- tura em 1983. O curso de mestrado começou em 1967.
84 Sobre o Colégio Nova Friburgo há um amplo histórico nos relatórios anuais da FGV de 1949 e 1950. Ver também Irene Mello de Carvalho, Colégio Nova Friburgo da Fundação Ge-
tulio Vargas: histórico de suas realizações (Rio de Janeiro, Fundação Getulio Vargas, 1988).
85 Sobre as atividades da EIAP ver Jorge Gustavo da Costa, Fundação Getulio Vargas, pio-
neirismo a serviço do desenvolvimento do nacional, op. cit., e Fundação Getulio Vargas, 30 anos a serviço do Brasil; 1944-1974, op. cit.
cação de 15 livros de autores brasileiros, praticamente todos da EBAP. Coordenei essas publicações nos anos 60 e lembro de algumas: Guerreiro Ramos, Administração e estratégia do desenvolvimento: elementos de uma so-
ciologia especial de administração; Othon M. Garcia, Comunicação em prosa moderna; Alberto Venâncio Filho, A intervenção do Estado no domínio eco- nômico; Paulo Reis Vieira, Em busca de uma teoria da descentralização. Du-
rante dois anos chefiei esse centro, até que fui substituído pelo Simon Schwartzmann. Ao mesmo tempo, a Fundação publicava cadernos, com o apoio da Usaid, e quem cuidava disso era a professora Ana Maria Brasileiro.
O senhor foi um dos fundadores da RAP, a Revista de Administração Pública, a primeira no gênero no Brasil, lançada em 1967. Em que modelo se inspirou? Diogo Lordello — Conversei com o pessoal da Fundação sobre os
temas relacionados aos diversos aspectos da administração e me inspirei nos livros que a Fundação publicava sobre administração pública. Havia uma série organizada por professores americanos sobre administração es- tadual e municipal e outras publicações sobre recursos humanos — na- quele tempo se chamava administração de pessoal. Dirigi os primeiros nú- meros da revista, até passar a função para o Paulo Roberto Motta, em 1972. Essa foi uma missão muito interessante.
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A U L OR
E I SV
I E I R AComo foi seu primeiro contato com o ensino da administração na Fundação Getulio Vargas?
Paulo Vieira — Minha trajetória profissional está bastante associada
ao início do ensino da administração pública no Brasil. Entrei em 1955 para a Fundação Getulio Vargas, que então estava buscando brasileiros que pudessem se interessar pelo ensino e a pesquisa na área de administração. Eu tinha me formado em direito, já conhecia a Fundação Getulio Vargas e me submeti a um concurso. Esse concurso constava de uma redação e, fun- damentalmente, de ouvir uma aula dada por professores estrangeiros e tra- duzi-la. Através dessa prova de seleção, José Rubens Fonseca, o escritor, Nelson de Melo e Sousa e eu fomos aprovados e contratados. Começamos a atuar como assistentes de professores — era o nosso cargo oficial na Fun- dação —, e fui designado para trabalhar com um inglês já bastante idoso, Levy Clement Hill, um gentleman britânico, especialista em administração municipal. Comecei a estudar administração municipal no Brasil para poder comparar com as aulas que ele dava sobre administração local na In-
glaterra. Mais tarde, em 1956, através de um acordo com a Prefeitura de Belo Horizonte, a EBAP pôde enviar aos Estados Unidos um professor para, juntamente com os funcionários da prefeitura, fazer um curso de admi- nistração municipal na Universidade de Denver, no Colorado. Acabamos indo dois: Jorge Gustavo da Costa, ex-aluno, professor da EBAP e muito amigo do professor Benedicto Silva, e eu.
Em Denver propus que, simultaneamente ao curso feito para o grupo de brasileiros, eu, que já falava bem o inglês, fosse aceito para fazer um curso de mestrado. A universidade concordou e fiz o mestrado em ad- ministração pública em 11 meses. Nessa altura, o professor Benedicto Silva deixou a direção da EBAP, e quem assumiu foi o professor Raul Jobim Bittencourt, cuja vinda teve o propósito claro de conseguir a re- gulamentação da profissão.86 Depois que foi regulamentada a profissão, o professor Raul Bittencourt deixou a direção e foi substituído pela profes- sora Beatriz Wahrlich, que já era da casa e tinha sido do Dasp. Era uma pessoa muito preocupada com as questões de administração pública no Brasil, tinha uma relação muito estreita com Hélio Beltrão, com o pro- fessor José de Nazaré Teixeira Dias, e tinha trânsito também com a ad- ministração pública em termos profissionais. A meu ver, ela não era só professora, era administradora, já tinha uma história anterior. Tinha feito o mestrado no exterior e ficou uns 10 anos como diretora da EBAP. Foi durante a sua gestão que começou a surgir um movimento no sentido de a escola eleger o seu diretor. Mas isso só veio muito depois.
Como era feito o recrutamento dos alunos da EBAP?
Paulo Vieira — O curso de graduação teve um modelo institucio-
nalizado por Benedicto Silva, que eu achava pioneiro. Buscavam-se ta- lentos no Brasil inteiro, e essas pessoas ficavam aqui o dia todo. Meu an- tecessor na direção da EBAP, Kleber Nascimento, foi um desses casos: veio do Amazonas, é muito inteligente. Participei desse trabalho de recruta- mento e vi que muitas pessoas vinham dos rincões mais longínquos para estudar no Rio de Janeiro. Recebiam bolsas e viviam aqui por conta disso.
A EBAP sempre fez um vestibular independente?
Paulo Vieira — Nosso vestibular sempre foi independente. Em uma
determinada época tivemos 800 alunos de graduação. Era o que dava vi-
86 A profissão de administrador foi regulamentada pelo Decreto nº 61.934, de 12 de dezembro de 1967.
sibilidade à EBAP. Penso que a EBAP perdeu muito da sua visibilidade por causa do fim do curso de graduação. Já tivemos logística, aqui, para fazer vestibular com mil e tantos candidatos.
A EBAP no começo vivia bem, financeiramente?
Paulo Vieira — Quando se compara aquela época com hoje, vê-se
que as coisas eram realmente diferentes. Os recursos governamentais que vinham para a Fundação eram fartos. Houve época em que 80% do or- çamento da Fundação provinham de repasse feito pelo governo federal, sem prestação de contas. Era tão diferente que às vezes fica difícil com- parar. Nunca percebi nenhuma dificuldade na EBAP em termos de recur- sos para contratar pessoas. Essas coisas talvez tenham começado na dé- cada de 80. A partir desse momento foi que as dificuldades começaram a se delinear para a EBAP, e creio que para a Fundação como um todo.
Como foi a sucessão da professora Beatriz Wahrlich na direção da EBAP? Paulo Vieira — Ela me contou que levou dois nomes ao dr. Simões
para substituí-la: o de Kleber Nascimento e o meu. Nesse momento o dr. Si- mões lhe teria perguntado o que ela achava do Arantes para diretor da es- cola, mas acabou nomeando o Kleber. As coisas a partir de então mudaram muito, porque o Kleber contestou muito a gestão da Beatriz. Quando as- sumiu a direção, pôs a EBAP de pernas para o ar, e houve grandes difi- culdades internas. As pessoas não se entendiam, não sabiam que caminho seguir. Beatriz Wahrlich sempre teve uma relação muito maternal com al- gumas pessoas que foram alunos da escola e depois passaram a ser pro- fessores, inclusive o Kleber. Mas ele começou a sua gestão reagindo contra tudo o que ela havia feito. Ela teve uma surpresa e, de certa forma, uma de- silusão, porque não esperava que as suas ações fossem tão contestadas.
Quando assumi a direção da EBAP, em 1973, várias pessoas me pe- diram para fazer com que todos trabalhassem juntos novamente. Funda- mentalmente, acho que o que fiz, nos três anos de mandato, foi pacificar os ânimos. Fizemos a consolidação da pós-graduação, algumas revisões em ter- mos de conteúdo e começamos a trabalhar mais com a idéia de convênios, de parcerias. A graduação estava num tumulto tremendo, mas consegui fazer com que as coisas acontecessem de uma forma mais equilibrada.
E por que um curso de graduação tão bom como o da EBAP foi extinto? Paulo Vieira — A argumentação é que era deficitário. Como na ori-
que se aumentassem as anuidades, o déficit continuaria. Acho ainda que havia um posicionamento político da Fundação, no sentido de que a gra- duação não interessava mais. Não interessava muito ter a juventude aqui dentro. Creio até que isso foi predominante, embora houvesse no discurso oficial a alegação financeira.
O senhor dirigiu a EBAP num período politicamente complicado. Houve algum episódio de aluno desaparecido, de polícia aqui dentro?
Paulo Vieira — Não. Tive dois casos de mães de alunos que tinham
sido reprovados e que vieram me procurar com ameaças. Mas não houve nenhum aluno preso, nenhuma invasão, nenhum fato que pudesse retra- tar o que estava acontecendo fora. É claro que discussões em sala de aula, esse tipo de coisa, sempre acontecem.
Como o senhor se relacionava com a estrutura administrativa da Fundação? Paulo Vieira — Quando dirigi a EBAP, o superintendente era Dar-
deau Vieira, e eu era chamado para explicar coisas absolutamente irre- levantes. Sempre achei que os órgãos administrativos da Fundação não ti- nham a visão de que existiam como suporte para as atividades-fim. Meu contato com os demais órgãos da casa era praticamente inexistente.
Eu havia assumido a direção da EBAP com um mandato de três anos. No fim desse período, fui ao dr. Simões e disse que indicava o pro- fessor Paulo Roberto Motta para me substituir. Como ele sempre ouvia o diretor que saía, convidou o Paulo Motta. Depois disso, os três anos de mandato desapareceram, e a escola não se movimentou.
De 1964 a 1988 funcionou na Fundação Getulio Vargas a EIAP. Como o se- nhor vê a trajetória dessa escola?
Paulo Vieira — Acho que a questão individual esteve muito pre-
sente na história da EIAP. Houve interesses pessoais, do próprio dr. Si- mões e do professor Athyr Guimarães,87 em abrir, para um grupo de pes- soas, um espaço de atuação para a área da América Latina. A inauguração da EIAP causou rebuliço na EBAP. Minha posição, e de outras pessoas, foi a seguinte: a Fundação tem uma escola de administração pública que já vem se dedicando há algum tempo ao ensino do tema. Para que criar ou-
87 A EIAP foi dirigida durante sua criação por Luiz Alves de Mattos, substituído a seguir por