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Todos os que colaboravam na Fundação, e que eram homens representativos nas suas várias áreas de conhecimento, preservavam ali dentro sua liberdade de opinião.

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Como foi criado o Núcleo de Direito Público na Fundação, em 1947?80 Jorge Flôres — Foi criado por Themístocles Brandão Cavalcanti, que

foi fundador da Fundação e era membro do Conselho Curador. Ele mon- tou um núcleo muito bom, com Caio Tácito, Carlos Medeiros Silva, Sea- bra Fagundes, Djacyr Menezes. Depois esse núcleo virou o INDIPO.81

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Como foi seu primeiro contato com a Fundação Getulio Vargas?

Caio Tácito — Gostaria de começar destacando a posição da Fun-

dação Getulio Vargas e também do Dasp no período político do Estado Novo, que significou a ausência de um poder legislativo no Brasil. Quer o Dasp, quer a Fundação eram uma espécie de suporte do presidente da Re- pública para a elaboração legislativa, que se traduzia em decretos-leis. O Dasp foi basicamente o poder legislativo durante a interrupção do Con- gresso, enquanto a Fundação Getulio Vargas era o centro de estudos que alimentava os projetos que o Dasp executava. O dr. Simões Lopes, por sua vez, era ao mesmo tempo diretor-geral do Dasp e presidente da Fundação. Mas a Fundação também foi criada, originariamente, com a capta- ção de recursos da iniciativa privada. Foi parcialmente financiada, desde a origem, pela colaboração de várias áreas da indústria e do comércio. Creio que a Fundação Getulio Vargas, independentemente de sua vinculação um pouco estreita com o governo, sempre se pautou por uma extrema inde- pendência. Todos os que colaboravam na Fundação, e que eram homens representativos nas suas várias áreas de conhecimento, preservavam ali dentro sua liberdade de opinião. O dr. Simões estimulava muito que hou-

80 Entrevista publicada em Jorge Oscar de Mello Flôres, Na periferia da história, org. por Maria Celina D’Araujo, Ignez Cordeiro de Farias e Lucia Hippolito, op. cit., e complementada para esta publicação.

81 O Núcleo de Direito Público foi criado em 1947 por Themístocles Brandão Cavalcanti, que associou à iniciativa, como membros permanentes, Carlos Medeiros Silva e Olavo Bilac Pin- to. Funcionou como núcleo por cinco anos e em 1952 foi transformado no Instituto de Di- reito Publico e Ciência Política (IDPCP). Em 1973 o instituto, mantendo a mesma denomi- nação, passou a atender pela sigla INDIPO. Sobre esse órgão ver Jorge Gustavo da Costa,

vesse essa plena captação de várias correntes de opinião. A Fundação era uma espécie de catalisadora da opinião pública.

Tive uma aproximação grande com o dr. Simões Lopes e mais di- retamente com o dr. Carlos Medeiros Silva, que foi, desde a primeira hora, um participante direto, colaborador da Fundação e de seus vários proje- tos. Também Alfredo de Almeida Paiva foi um grande colaborador do dr. Si- mões, através sobretudo do dr. Carlos Medeiros Silva. Minha colaboração com a Fundação não era permanente, mas creio que poderia destacar duas ou três atividades mais significativas.

Uma delas foi na Revista de Direito Administrativo, criada pelo dr. Car- los Medeiros Silva em 1947 para suceder à Revista do Serviço Público, edi- tada pelo Dasp. A Revista do Serviço Público possuía uma seção de direito, e o dr. Simões apoiou o ponto de vista de Carlos Medeiros, de destacar essa parte e criar uma revista própria especializada em direito. A Fundação deu apoio permanente à Revista de Direito Administrativo, que era um grande ce- leiro de estudos e contribuições. Posteriormente, em 1983, quando o dr. Car- los Medeiros faleceu, sucedi-o na direção da revista, onde estou até hoje — embora a revista não esteja mais vinculada à Fundação.

Outra colaboração que dei foi através do dr. Themístocles Caval- canti, fundador e presidente do instituto que cuidava especificamente de matéria jurídica, o INDIPO. Por último, eu destacaria uma colaboração muito peculiar, que foi a formação, na Universidade do Estado da Gua- nabara da época, do Ceped, Centro de Estudos e Pesquisas do Ensino de Direito, destinado basicamente a tentar modificar a formação didática para o ensino do direito, com a integração da economia.

De onde vinha sua relação com o dr. Carlos Medeiros Silva? Da Faculdade de Direito?

Caio Tácito — Ele não tinha qualquer relação com a Faculdade de

Direito, porque nunca foi professor. Foi uma amizade natural, que se es- treitou pela colaboração na Revista de Direito Administrativo. Desde a pri- meira hora em que a revista foi criada, auxiliei-o na preparação do ma- terial, na busca de colaborações etc. Daí nasceu uma amizade muito profunda. Acho que até hoje não foi bem documentado o papel repre- sentado por Carlos Medeiros no sentido da garantia da ordem jurídica no Brasil. Ele tinha uma posição firme; era acatado por Getúlio e influen- ciava o Simões. Sua presença resguardou muito a “constitucionalidade” das ditaduras brasileiras. Simões também ajudava nesse aspecto, porque era um intermediário natural entre o poder econômico e o governo. Aju- dou a criar órgãos importantes, como a Confederação da Indústria e a Confederação do Comércio, que serviam de interlocutoras com o governo.

De que trata exatamente o direito administrativo?

Caio Tácito — O direito administrativo tem evoluído muito histori-

camente. Em suas origens, trata basicamente do processo de legalização da atividade que o Estado desempenha em relação aos particulares. Histori- camente, sempre houve uma norma regulando, mas a Revolução Francesa é que trouxe o princípio de que essa atividade era subordinada a um prin- cípio de legalidade, para garantir o direito dos administrados. A partir daí o direito administrativo vem evoluindo, vem crescendo de importância, par- ticularmente à medida que cresce a intervenção do Estado no domínio eco- nômico. Adquiriu agora uma certa estatura constitucional, porque muitas de suas normas foram incorporadas à Constituição, de modo que hoje o di- reito administrativo é muito afim ao direito constitucional. Há um autor francês que usou uma frase famosa dizendo: “Os títulos dos capítulos do di- reito administrativo estão no direito constitucional”. O direito constitucio- nal é o que gradua a ação do Estado, limitando os poderes da adminis- tração pública e garantindo os direitos individuais, já agora direitos sociais do cidadão. Esse desenvolvimento do direito administrativo acompanhou um pouco a ampliação do direito constitucional.

A Revista de Direito Administrativo foi pioneira na divulgação desses prin- cípios doutrinários?

Caio Tácito — Acho que ela foi, na época, um dos grandes centros

de divulgação e de consolidação da ordem jurídica administrativa. O Dasp operava em relação ao governo, e a Revista de Direito Administrativo ope- rava em relação à elaboração de uma doutrina de direito administrativo mais sólida, estruturada.

A Revista de Direito Administrativo recebia colaboração estrangeira? Caio Tácito — Não. A revista foi sempre estruturada com base em ju-

ristas brasileiros. Apenas, quando o dr. Simões e eu encontrávamos um ar- tigo estrangeiro que tivesse certa expressão, providenciávamos a tradução e publicávamos. Mas colaboração direta de juristas estrangeiros nunca hou- ve. Havia sempre a idéia de procurar fazer a divulgação da doutrina es- trangeira desde que fosse relacionada ao desenvolvimento nacional.

E nesse caso a contribuição era mais italiana, francesa, americana...? Caio Tácito — Francesa. Nosso direito administrativo é muito in-

fluenciado pela doutrina francesa. Outra coisa que a revista fez desde o início, e acho que perdura até hoje, é trazer conceitos mais amplos, di-

vulgar matérias que não dizem respeito estritamente ao direito adminis- trativo, veicular concepções jurídicas correlatas. Por exemplo, o direito constitucional sempre esteve muito presente na revista, e o direito tribu- tário também. Procurou-se ainda divulgar matéria processual, naquilo que fosse relativo a mandado de segurança, habeas-corpus. A Revista de Direito

Administrativo sempre teve esse sentido mais lato: divulgar tudo aquilo

que estivesse direta ou indiretamente relacionado à legalidade da admi- nistração pública. Ela manteve sempre, desde o início, uma seção que pu- blicava a legislação, e isso era uma fonte informativa muito importante para os profissionais do direito.

Numa certa fase o dr. Simões estimulou muito a publicação de co- mentários de juristas sobre acórdãos. Isso foi, em grande parte, uma ela- boração construtiva da revista em relação à formação doutrinária no Brasil. Participavam muito nessa época Vítor Nunes Leal, Gonçalves de Oliveira, Al- fredo de Almeida Paiva. Eram esses os que, além de mim, tinham mais as- siduidade nos comentários.

Quando o Núcleo de Direito Público, sempre sob a direção do dr. Themís- tocles Cavalcanti, se transformou no INDIPO, em 1952, a Fundação chegou a oferecer cursos regulares na área de direito?

Caio Tácito — O INDIPO promovia seminários, discutia questões

que estavam precisando de uma certa definição. Themístocles Cavalcanti teve uma atuação muito importante. Em geral, quando ele montava esses seminários, eu era debatedor. O dr. Themístocles também fez uma outra revista, a Revista de Direito Público e Ciência Política, que depois passou a se chamar Revista de Ciência Política. Essa revista tinha uma temática pa- ralela aos temas jurídicos. Os estudos eram comuns.

Como foi criado o Ceped?

Caio Tácito — O Ceped nasceu de uma iniciativa em grande parte

minha, com a colaboração, de um lado, da Fundação Ford, que financiou parte do projeto, e, de outro, da Fundação Getulio Vargas, especificamente da sua área econômica. Sustentávamos a tese de que era preciso formar entre os advogados uma mentalidade voltada para o direito de empresa. Queríamos mostrar os subsídios que a lei pode trazer à formação e ao de- senvolvimento da economia brasileira. Houve na época uma grande ela- boração legislativa. Os estudos do Ceped tentavam mostrar que a econo- mia era um lastro do fenômeno jurídico. Além disso, procuravam também mudar os métodos de ensino, adotando a análise de casos, a formação de hipóteses de trabalho, enfim, aprimorando o sentido indutivo do estudo.

Tivemos um apoio muito grande da Fundação, no sentido material, porque as aulas eram dadas na sede da FGV, com o suporte da estrutura da Escola de Pós-Graduação em Economia, dirigida por Mario Henrique Simonsen, e de seus colaboradores mais diretos, como Jefferson Lemos. Ambos davam aulas e participavam dos debates. Essa foi uma colabora- ção muito íntima entre a área jurídica da universidade e a Fundação Ge- tulio Vargas.

O curso do Ceped foi iniciado em 1966 e funcionou durante sete anos, preparando turmas anuais de 40 advogados. A idéia era, em grande parte, contribuir para a melhoria da metodologia de ensino nas faculda- des de direito, procurando criar uma nova mentalidade de professores jo- vens. Aconteceu, no entanto, um fenômeno curioso: como o “milagre” bra- sileiro criava muitas oportunidades de emprego para advogados com formação econômica, os formados por esse curso eram imediatamente re- crutados pelas empresas, e praticamente nenhum foi para o ensino. Ao lado disso, também havia uma certa resistência nas estruturas conserva- doras das faculdades a que inovações didáticas fossem introduzidas.

Depois de sete anos interrompemos o curso, porque era penoso e não havia uma boa recompensa, já que não se alcançava objetivo maior, que era o de modificar a metodologia de ensino nas faculdades de direito.

O que permitiu que, mesmo com a extinção do INDIPO, em 1990, a Revista

de Direito Administrativo continuasse a ser publicada?

Caio Tácito — É que quando fui surpreendido, sem qualquer aviso

prévio, com a comunicação de que a Revista de Direito Administrativo havia sido extinta, juntamente com outras publicações da casa, em função da grave crise financeira enfrentada pela Fundação, procurei o dr. Simões e lhe pedi que me cedesse o título da revista. Encontrei no mercado a Editora Re- novar, que se interessou em retomá-la, e depois de uma interrupção de cerca de dois anos a revista ressuscitou. Hoje está em dia e tem mais con- teúdo. Na época da crise financeira da Fundação, começou a emagrecer, passou a ter um tamanho reduzido e a sair com muito atraso. Quando rei- niciei, fiz a primeira tiragem com dois números acoplados, para poder re- cuperar o tempo perdido. Daí para a frente, ela tem mantido o tamanho ori- ginal, sempre umas 400 páginas. Fiz um acordo com a editora para a re- vista sair com presteza. Como é trimestral, em vez de esperar o fim do tri- mestre para preparar o número abrangendo a legislação do período, no curso do trimestre já entrego a matéria antecipada e no final apenas com- pleto a legislação. A revista sai dois meses depois, atualizada. Quando a re- vista saiu da Fundação, estava reduzida a 200 assinantes. Agora está com cerca 2 mil. É muito importante para os advogados, tem muita saída. Há tri- bunais que assinam para todos os desembargadores.

Benzer Belgeler