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2.3. Kadınların Siyasal Katılımını Etkileyen Faktörler

2.3.1. Tarihsel, Toplumsal ve Kültürel Faktörler

2.3.1.1. Toplumsal Cinsiyet Rolleri

O menor número de tutoras que deixaram indícios da educação dada aos órfãos foi o grupo daquelas pertencentes ao grupo 3 – menores patrimônios. Identificamos apenas quatro (11,76%) tutoras no conjunto de 33 mulheres. Acreditamos que um número tão pequeno se deva ao fato de que constituíram as que menos foram chamadas para apresentar as contas de sua tutela. Como já mencionamos, o valor dos bens era muito pequeno, e, em virtude das custas do processo, algumas tutoras conseguiram que os bens não fossem partilhados. Além disso, identificamos algumas mulheres que simplesmente não responderam à convocação do juiz de órfãos para trazer as contas de sua tutoria, documentos que, como destacamos, em geral apresentam mais informações sobre a educação dos menores230.

229 Apesar da aprovação por parte do juízo, no inventário consta um requerimento da viúva, datado de 1809,

no qual menciona que sua filha estava casada com o soldado Francisco José de Lima. Assim, mesmo que, conforme a avaliação da tutora e das testemunhas, Domingos fosse “um bom partido”, o contrato de casamento parece que não se concretizou. De qualquer modo, para a viúva, o importante era garantir que a filha tomasse “estado de casada”, o que foi alcançado. Três anos depois – em 1812 – consta que Dona Ponciana estava morando no Rio de Janeiro. Nessa data, sua filha já estava casada, e o filho havia se tornado soldado, o que demonstrava que ela havia atingido seus objetivos de educar e dar condições de sobrevivência aos filhos.

230 É importante mencionar que as famílias aqui estudadas, ainda que classificadas como possuidoras de

menores patrimônios, não correspondem àquela parcela da população que era mais pobre. Na verdade, esse

grupo não foi abarcado na presente pesquisa. Como já mencionamos, apenas a população que tinha algum bem era obrigada a fazer inventário. Nesses termos, já estamos trabalhando com uma população

163 Entretanto, ainda que o número identificado seja pequeno, julgamos importante apresentar as estratégias femininas para educar as crianças e jovens sob sua tutela e os direcionamentos educativos dados.

Começamos por Maria Coelha de Barros. Ela era casada com o Furriel João Ferreira da Rocha, de quem teve quatro filhas, concebidas antes do matrimônio e legitimadas pelo casamento. Além dessas quatro filhas, o falecido era pai de mais um filho natural, que era seu homônimo. No testamento João nomeou Maria Coelha por tutora de todos os filhos e declarou que o fazia pela “grande capacidade que tenho experimentado no decurso de muitos anos”. O furriel fez questão de destacar em várias partes de seu testamento a pobreza em que vivia sua família e determinou que sua esposa acabasse de cuidar da testamentaria pertencente à Madalena Ferreira da Rocha, pois seria da herança proveniente dessa administração que seria possível satisfazer suas dívidas e deixar algum legado para os filhos. Realmente sua herança era constituída de sua casa de morada, localizada na Ponte de Antônio Dias em Vila Rica, um escravo e alguns poucos trastes de casa, que perfaziam um total de 267$525231.

Apesar das dificuldades financeiras pelas quais, segundo o marido, a família estava passando, Maria Coelho Barros fez questão de investir no aprendizado de um ofício para suas quatro filhas. Dois anos após o falecimento do marido, Maria Coelha entrou com um requerimento ao juiz de órfãos em que solicitava o dinheiro que estava guardado no cofre para comprar roupas para suas filhas. Segundo a tutora, as roupas seriam para frequentar a casa de mestras que estavam ensinando às suas filhas as costuras.

Conforme destacou Oliveira (2008, p. 131), o ensino de ofícios como a costura, considerada uma ocupação lícita e “honesta” para o sexo feminino, era uma forma de garantir “uma ajuda na renda da família como um todo e até mesmo o ganho do próprio sustento”. É possível que a tutora Maria Coelha tenha investido na educação de suas filhas, pois elas poderiam ajudar no sustento e sobrevivência da família, sendo a ocupação eleita “bem vista pelas autoridades locais”. Tanto foi assim que o juiz, entendendo a necessidade apontada pela tutora, concedeu o pedido feito e mandou que fosse entregue a quantia solicitada. Por outro lado, investir na educação das “prendas femininas” era uma forma de prepará-las para exercer os papéis a elas destinados de esposa e mãe.

“diferenciada”, ainda que, para os interesses dessa pesquisa, classifiquemos parte da nossa amostra como possuidores de menores patrimônios

164 Como vimos, ao menos entre as tutoras, todas as mulheres analisadas no grupo 3 —menores patrimônios — eram legitimamente casadas. Isso representa em alguma medida o aspecto já apontado anteriormente: de que o valor do casamento foi difundido e internalizado em alguma medida por algumas pessoas daquela sociedade.

Encontramos também nesse grupo uma preocupação em dar “estado de casado” para sua filha. Trata-se de Maria do Espírito Santo, moradora de Vila Rica e viúva de Inácio Francisco Xavier, de quem teve duas filhas. Inácio faleceu sem testamento, e, por causa disso, Maria foi nomeada tutora pelo juiz em 1808. Segundo o juiz de órfãos, ele a nomeara por “fazer dela bom conceito e saber que cria e está sustentando [os filhos] com amor e zelo louvável”. O juiz ainda adjudicou à viúva todos os bens do casal, que eram constituídos unicamente de um escravo avaliado em 130$000. Onze anos depois dessa nomeação, consta que suas duas filhas estavam casadas com autorização do juiz232.

A preocupação em garantir que seus tutelados tivessem condições de ganhar o próprio sustento também se fez presente em relação aos órfãos do sexo masculino. Uma das tutoras que investiu na aprendizagem de ofícios por parte dos meninos foi Teresa Ribeiro de Miranda. Mãe de três filhos, todos menores quando seu marido faleceu, ela era moradora de Vila Rica. Teresa foi nomeada tutora por seu marido Manoel Pereira Campos. Entre os poucos bens, consta que o casal tinha dois escravos e uma pequena mina, que em conjunto com algumas ferramentas foram avaliados em 193$275233.

Como era determinado pela legislação, uma vez inventariados os bens, o juiz determinou que eles fossem colocados em praça para arrematação. Entretanto, em requerimento, a tutora pediu que um dos escravos – chamado Manoel – não fosse colocado em praça. Segundo Teresa, era esse escravo que estava servindo de “mestre de ofício de minerar” para os filhos e, por isso, se fazia muito necessária sua manutenção. A partir dessa informação apresentada pela tutora, percebemos que as estratégias para educar seus filhos poderiam partir dos mais diferentes pontos. Teresa aproveitou-se do próprio escravo para ensinar um ofício aos filhos e dar condições de sobrevivência aos mesmos234.

Mas a tutora no grupo 3 —menores patrimônios — que mais investiu na educação de seu tutelado foi Maria de Castro Lima. Assim como algumas mulheres pertencentes aos outros dois grupos, Maria de Castro Lima possibilitou uma educação

232 Inventário de Inácio Francisco Xavier. AHMINC/IBRAM. 2º Ofício, Códice 17, Auto 180, Ano 1808. 233 Inventário de Manoel Pereira Campos. AHMINC/IBRAM. 2º Ofício, Códice 47, Auto 527, Ano 1804. 234 Não podemos deixar de considerar também que ao pedir que o escravo não fosse colocado em praça a

tutora estivesse, na verdade, preocupada em não perder a mão de obra e a força de trabalho diária fornecida pelo cativo.

165 “mista” para seu filho Ventura. Nomeada em testamento por seu marido João Gonçalves Dias, ela assinou o termo de tutela em 1773. É provável que uma explicação para essa possibilidade de investimento numa educação “mista” esteja no fato de que, entre as mulheres pertencentes a esse grupo – menores patrimônios –, era a família de Maria de Castro que tinha o maior monte-mor — 429$300 — distribuído em algumas ferramentas, trastes de casa, uma morada de casas no Areão das Cabeças em Vila Rica e um escravo235.

Maria de Castro Lima foi uma das poucas tutoras que conseguimos identificar como detentora de mais de uma conta referente à sua tutoria. Foram cinco contas no total, distribuídas entre 1775 e 1790. Em todas elas, Maria de Castro fez questão de mencionar a educação dada ao filho Ventura. Assim, nas duas primeiras contas dadas em 1775 e 1781, declarou que o filho estava na escola “para saber ler e escrever”. Além disso, afirmou que seu filho estava em sua companhia e que “dava a educação e ensino que se deve fazer os bons pais de família”. Já nas contas de 1786, 1788 e 1790, reforçou que o órfão permanecia sob seus cuidados, que era ela quem o sustentava e que o havia empregado a aprender o ofício de sapateiro. Segundo a tutora, a aprendizagem do ofício e também das primeiras letras seria para que “em todo o tempo” o filho pudesse “ter saída e tratar da sua vida”.

Maria de Castro deu claras mostras de seus objetivos ao direcionar seu filho para que ele pudesse ter acesso a uma educação “mista”. Conforme a tutora, essa forma de educação seria uma forma de o filho “se arranjar” e “cuidar de sua vida”. Nesses termos, percebemos que, mesmo no caso do ensino das primeiras letras, a pretensão da tutora era possibilitar melhores condições para seu tutelado.

A análise dos quatro casos identificados mostrou-nos que no grupo 3 —menores

patrimônios — o investimento na educação foi majoritariamente voltado para o

aprendizado de algum ofício236. Essa constatação já tinha sido observada por outros

autores como Oliveira (2008), Fonseca (2005a) e Paula (2016).

Comparando-se com os outros dois grupos, percebemos que as estratégias das tutoras para educar os órfãos estavam baseadas nas “cartas” que o jogo social ofereceu. Entretanto, quando analisamos os direcionamentos dados, percebemos que em todos os três grupos houve tutoras que investiram tanto na educação das letras quanto no ensino de ofícios. A diferença que encontramos esteve especialmente nos estudos avançados, que, no grupo 3, ao que parece, nenhuma tutora teve condições de proporcionar para seus tutelados. De qualquer modo, percebemos que nos três grupos

235 Inventário de João Gonçalves Dias. AHMINC/IBRAM. 1º Ofício, Códice 66, Auto 801, Ano 1772. 236 Para melhor visualização da educação dada a cada um dos órfãos, fizemos um quadro demonstrativo

166 uma mesma preocupação permeava as ações de algumas das tutoras – garantir que o órfão conseguisse sobreviver com o próprio trabalho e possibilitar, a partir do acesso às letras, alguma forma de distinção social.

Do mesmo modo como observou Paula (2016) para o Termo de Mariana, constatamos que o sexo dos órfãos foi uma variável importante nos direcionamentos dados à educação dos menores. Vimos que as meninas aprendiam invariavelmente as “prendas próprias de seu sexo e condição”. Já no que se refere às condições econômicas, apesar de existir uma propensão a seguir esse fator, consideramos que, no Termo de Vila Rica, do mesmo modo como apontou Fonseca (2014, p. 34), as determinações legais eram praticadas com muitas variáveis. Havia uma preocupação em dar uma educação conforme a condição socioeconômica do menor, mas, ao mesmo tempo, existiram tutoras que agiram para promover uma educação “mista” para seus tutelados, o que reflete uma resposta da tutora como jogadora do jogo social numa sociedade marcada pela diversidade na sua conformação.

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Capítulo 3

Parcerias que deram certo? – Ajustes entre homens e mulheres para a