2.3. Kadınların Siyasal Katılımını Etkileyen Faktörler
2.3.1. Tarihsel, Toplumsal ve Kültürel Faktörler
2.3.2.1. Siyasal Partiler
O inventário era o momento de se conhecerem o patrimônio, os créditos e as dívidas do falecido. Conforme Carvalho (1840, p.10)103, o primeiro passo para se fazer
o inventário era a nomeação do "Cabeça do Casal"104. Era essa pessoa que apresentava
todos os pertences e débitos do falecido, declarava os herdeiros, e, todos juntos, aprovavam os avaliadores dos bens e também dos dotes, caso os houvesse. Era da competência do "cabeça do casal", ainda, mencionar o dia do falecimento do inventariado e se o mesmo havia feito testamento. Todos esses dados compunham um termo que deveria ser assinado pelo juiz, pelo escrivão e pelo inventariante. (CARVALHO, 1840, p. 24).
As Ordenações Filipinas determinavam que era da competência do juiz de órfãos proceder à descrição dos bens para posterior partilha. Entretanto, a mesma compilação de leis estabelecia que, caso o magistrado não iniciasse o inventário em até dois meses, os pais ou parentes dos menores do falecido deveriam requerer o inventário. Caso o pai ou parente não cumprisse com o determinado, perderia o direito na sucessão de seus filhos e netos menores, além do usufruto dos bens. Quando eram as mães ou avós,
103 A respeito desta obra — "Primeiras Linhas sobre o Processo Orphanológico", de José Pereira de
Carvalho — é importante mencionar que a edição utilizada aqui é a quarta publicada em 1840. De acordo com Camargo & Moraes (1993, p. 156), era "uma obra clássica que foi reeditada com revisão e acréscimo de diversos jurisconsultos, em Portugal e no Brasil, até fins do século XIX. Esta edição [1815] é considerada a primeira (Innocencio, 13, 164), muito embora a Gazeta do Rio de Janeiro de 9 de set. 1815 a anuncie como 'huma nova edição'. T. de Alencar Araripe, na advertência à edição da Livraria Popular de A.A. da Cruz Coutinho, Rio de Janeiro, 1879, informa que a obra "teve sua primeira edição em Portugal em 1815".
104 O "cabeça do casal" era aquela pessoa que ficava na posse dos bens até a partilha, também chamado de
inventariante. Quando casado, aquele cônjuge que sobrevivesse era assim nomeado. Se viúvo ou solteiro, era nomeado como "cabeça do casal" o herdeiro que vivia com o falecido. Caso nenhum dos herdeiros morasse com o inventariado, o juiz de órfãos deveria nomear aquele que mais conhecia os bens.
91 além da privação da herança, perderiam o direito de serem tutoras ou de ter os filhos e netos sob sua governança105.
Percebemos na documentação as duas situações: o inventário feito a mando do juiz e também em decorrência do pedido feito pelo "cabeça do casal". No que se referia aos prazos, nem sempre os mesmos eram respeitados. Inicialmente, consideramos que o não cumprimento do tempo determinado pela legislação estava relacionado com o local de moradia, tendo em vista que o Termo de Vila Rica era bastante extenso, e o juiz de órfãos atendia não apenas à sede, mas a todos os arraiais. Por isso, acreditamos que aquelas pessoas que não eram citadas pelo juiz ou que não requeriam o inventário no prazo estabelecido não o faziam porque moravam mais distante.
No entanto, percebemos que essa questão não necessariamente influenciava o processo. Domingos José Ferreira, por exemplo, morava em Vila Rica. De acordo com a inventariante e esposa Maria Teodora da Silva, ele havia falecido em 02 de fevereiro de 1802. Entretanto, o inventário teve início apenas em 07 de setembro do mesmo ano, não havendo nenhuma justificativa para o referido atraso106. Já José Antônio da Silva,
morador no Arraial de Itabira do Campo, morreu em 17 de agosto de 1795, e sua esposa e inventariante Luzia da Silva Moreira apresentou os bens para inventário pouco depois, em 18 de setembro107.
Todos os bens ficavam na posse do "cabeça do casal" até a partilha, quando primeiramente eram feitos os pagamentos das dívidas e o funeral. O restante era dividido em duas partes, cabendo uma delas ao viúvo, caso houvesse; a outra metade era separada em três partes iguais, sendo uma delas para pagamento dos legados testamentais, conhecida como "terça", e as outras duas, repartidas entre os herdeiros.
A entrega dos bens para inventário era feita sob juramento dos Santos Evangelhos. Sendo a mãe a falecida, o processo tinha a seguinte ordem: descrição, avaliação e partilha. Nesse caso, os bens partilhados ao menor ficavam sob a responsabilidade paterna, já que o pai era o legítimo administrador. O pai deveria conservar tais bens, mas tinha o direito de gastar "as rendas e novidades" enquanto o filho estivesse sob o seu poder. Ele deveria entregar toda a herança do herdeiro quando o mesmo deixasse de ser menor, com exceção dos bens móveis108.
105 [Ordenações Filipinas] Código Filipino... Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2012. Livro 1,
título 88, p. 209-10.
106 Inventário de Domingos José Ferreira. AHMINC/IBRAM. 1º Ofício, Códice 35, Auto 422, Ano 1802. 107 Inventário de José Antônio da Silva. AHMINC/IBRAM. 1º Ofício, Códice 73, Auto 877, Ano 1795. 108 Entende-se por bens móveis: trastes de casa, roupas, ferramentas, dentre outros. Esses bens poderiam ou
não ser entregues caso ainda existissem. Isso porque havia o entendimento de que os bens móveis poderiam acabar antes de o menor alcançar a maioridade ou se ele se emancipasse. Essa determinação está nas
[Ordenações Filipinas] Código Filipino... Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2012. Livro 1,
92 No caso de morte do pai, o processo era um pouco diferente depois de feitas as partilhas. Como já mencionado, o menor era considerado órfão, e, por isso, era necessária a nomeação de um tutor109. Uma vez instituída essa pessoa, todos os bens
do órfão passavam para sua responsabilidade.
Entendia-se que, na divisão do patrimônio, todos os herdeiros deveriam receber bens de todas as naturezas: móveis, semoventes e de raiz110. Uma vez feita essa
divisão, a legislação estabelecia que o tutor deveria arrendar os bens de raiz do órfão para que pudessem dar algum lucro, quando não fossem usados para sustento e sobrevivência do menor. Os bens de raiz não poderiam ser vendidos, salvo por extrema necessidade. Já para as demais propriedades cabia julgamento por parte do juiz. Se ele considerava que elas teriam mais proveito para o menor se fossem vendidas, assim se deveria proceder, colocando todos os bens em pregão. Os rendimentos dessa venda seriam entregues ao tutor que, com autoridade do juiz, deveria comprar mais bens de raiz para os menores111.
Todos os lucros das vendas e arrendamentos, quando não utilizados para a compra de outros bens de raiz, além de dinheiro, joias, ouro e prata partilhados aos órfãos deveriam ser colocados no cofre do Juízo dos Órfãos112. Dois livros deveriam
ficar na arca, sendo um para as receitas e outro para as despesas registradas pelo escrivão. Cabia ao juiz juntamente com o escrivão requererem ao tutor que colocasse tudo no cofre quando houvesse algum rendimento113.
No primeiro ano da partilha, antes de os valores herdados serem colocados no cofre, competia aos partidores taxar uma determinada quantia para as despesas, segundo a qualidade do órfão, quando o mesmo não poderia ser dado por soldada e não tivesse bens para se alimentar114. Depois disso era função do juiz de órfãos
109 Falaremos sobre o tutor mais à frente.
110 Os bens móveis já foram explicados na nota anterior; bens semoventes seriam os escravos e animais;
bens de raiz eram as moradas de casas, sítios, fazendas, terrenos etc.
111 [Ordenações Filipinas] Código Filipino... Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2012. Livro 1,
título 88, p. 213-15.
112 Esse cofre era uma arca com três chaves feita à custa do dinheiro do órfão. Uma chave ficava com o
juiz, outra com o escrivão e outra com o depositário. Este, por sua vez, era uma pessoa abonada que era julgada apta para ficar com o depósito. [Ordenações Filipinas] Código Filipino... Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2012. Livro 1, título 88, p.215.
113 [Ordenações Filipinas] Código Filipino... Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2012. Livro 1,
título 88, p.215-6. Pela documentação foi possível perceber que os tutores eram convocados para colocar os rendimentos dos bens em duas situações: quando havia a arrematação dos bens dos órfãos e depois de prestadas as contas de tutoria e identificado algum rendimento.
114 A qualidade do órfão era definida pelo grupo social a que pertencia, que, por sua vez, correspondia
àquela de seus ascendentes. Quando não havia rendimento algum ou o menor não era de “qualidade”, ficava estabelecido pelas Ordenações que o órfão deveria ser dado por soldada. Isso acontecia a partir de um pregão feito pelo juiz que escolhia entre os interessados aquele que tivesse o trabalho mais próximo do falecido pai. As mães e avós eram as preferidas. A intenção da soldada era criar meios para o menor se sustentar e aprender algum ofício. [Ordenações Filipinas] Código Filipino... Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2012. Livro 1, título 88, p.212. Falaremos mais sobre o assunto ainda nesse capítulo
93 determinar a quantia que deveria ser gasta com o menor anualmente. Nos dois casos, cabia ao tutor a obrigação de administrar os valores.
Não foi possível identificar entre os inventários pesquisados um valor fixado pelos partidores, conforme determinado nas Ordenações. Entretanto, a documentação revelou inúmeros casos de solicitação de valores por parte dos tutores para o sustento, educação e vestuário dos órfãos, muitos anos depois de assumirem a tutoria. Esses pedidos eram feitos ao juiz de órfãos, o que nos leva a deduzir que nem sempre essa determinação legal era cumprida.
João da Silva Barbosa nomeou sua filha Ana Maria da Silva como tutora dos seis irmãos ainda menores no seu testamento. Ela assinou o termo em fevereiro de 1788. Em maio de 1794, prestou contas de sua tutela. Nessas contas, além de apresentar os rendimentos, despesas e educação efetuados com cada um dos menores, solicitou ao juiz que arbitrasse determinada quantia para compensação dos alimentos e o mais com que supriu os órfãos. Como já haviam se passado mais de seis anos, imaginamos que até aquela data era ela quem arcava com as despesas e que o juiz não tinha arbitrado nenhuma quantia para os custos com os menores115.
Mas havia casos nos quais sequer deveria ocorrer o inventário, como destacou Carvalho (1840, p. 12). Segundo o jurista, quando os herdeiros menores alcançavam suplemento de idade ou fossem casados e emancipados ou ainda "a herança de pouca ponderação", não era necessária a feitura do inventário. Para o jurista, no caso da herança insignificante, os custos do inventário absorveriam todas as legítimas. Entretanto, defendia que, por menor que fosse a herança, necessariamente o juiz deveria descrever os bens como forma de se conhecer a natureza do patrimônio e, também, caso surgisse algum crédito, ter ciência de mais essa posse.
A documentação revelou alguns casos apoiados nesse entendimento defendido pelo jurista, especialmente no que se refere ao montante dos bens. Percebemos que houve situações em que o juiz optou por não realizar a partilha e, em consequência, os bens dos menores não foram colocados à venda ou no cofre. Dentre as situações que impediram a partilha, podemos citar: uma avaliação muito baixa do patrimônio; qualidade dos bens, que não podiam dar rendimentos; e poucos pertences, que eram utilizados para a subsistência e sobrevivência da família — no caso de escravos de ganho ou para o serviço doméstico e ferramentas de trabalho.
quando discutirmos as ações femininas voltadas para o provimento e manutenção da família e as estratégias para educar. Sobre o valor estabelecido pelos partidores, ver [Ordenações Filipinas] Código Filipino... Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2012. Livro 1, título 88, p.216.
94 Esse parece ser o caso presente no inventário de José Antônio de Meira, morador de Vila Rica. Seus bens, constituídos de algumas ferramentas, roupas, algumas cabeças de gado, joias e quatro escravos, receberam a avaliação total de 488$206. Depois do pagamento das despesas com o enterro e dívidas, cada herdeiro recebeu a quantia de 32$546 4/5. Diante desse valor e do fato de que os bens eram utilizados para o provimento e manutenção da família, o juiz determinou que a viúva, nomeada tutora em testamento, deveria ficar com todos os bens partilhados para o sustento dos órfãos. Ele estabeleceu ainda que ela e os órfãos teriam direito ao conjunto dos rendimentos e que todos se serviriam deles conforme a necessidade, "correndo- lhes todos os riscos em partes iguais atendida a infância dos mesmos órfãos e probidade da viúva sua mãe, abonada pelo falecido (...) quando eu também faço dela bom conceito..."116.
A não ocorrência das partilhas não isentava a nomeação de um tutor, ao contrário. Percebemos na documentação que, mesmo nesses casos, um tutor era nomeado, assim como defendia Carvalho (1840). Para ele, nessas situações, o tutor tinha uma função muito importante: cuidar da educação dos órfãos. Nas palavras do jurista (1840, 2 parte, p. 07), em não se nomeando um tutor, havia o risco de que à pobreza fossem somadas a falta de educação e o desamparo. "E o que pode esperar a sociedade de milhares de indivíduos, que, perdendo os autores de sua existência nos mais tenros anos de sua infância, não acham um braço benfazejo, que os desviasse da estrada do crime, ensinando-lhes a da virtude?"
Nesses termos, a função do tutor revelava-se de extrema importância para o futuro do órfão. Diante disso, torna-se fundamental fazermos uma abordagem a respeito desse personagem, o seu processo de escolha e as obrigações exercidas por ele.