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Mas, afinal, como acontecia a instituição de um tutor? Ela poderia ocorrer a partir de três formas: testamentária, legítima e dativa. Seguindo essa ordem, apresentaremos a seguir cada uma dessas formas.

2.2.1 A nomeação testamentária

A nomeação testamentária era aquela feita em testamento pelo pai ou avô do menor. Cabia ao juiz buscar nos testamentos se existia essa indicação, sendo esse desejo prioritariamente atendido, desde que a pessoa recomendada não tivesse algum dos impedimentos já apresentados anteriormente.

A tutoria testamentária era preferencialmente atendida porque, conforme Carvalho (1840, 2 parte, p.04), “sendo nomeado pelas pessoas em quem se presume maior afeto e amizade e que maior interesse têm na felicidade dos órfãos, deve supor- se que são os mais capazes de administrarem bem a tutela e de desempenharem os pesados deveres que ela impõe”.

Assim, entendemos que a pessoa nomeada em testamento seria aquela com a qual o pai do órfão estabelecera importantes laços de amizade e parceria, mas também aquela pessoa que, na avaliação do testador, tinha grande capacidade e competência para assumir a função; ou seja, uma pessoa digna de confiança por parte do testador e que, conforme Morais (2009, p. 178), deveria ser um sujeito respeitado pelo seu grupo social, além de ser da mesma condição ou qualidade do órfão, já que o exercício da tutoria encerrava grande obrigação.

No que se refere às mulheres, acreditamos que, quando eleitas para tutoras nos testamentos, essa eleição se encerrava na certeza de que elas tinham realmente condições de administrar a família e os bens, como forma de garantir a sobrevivência dos seus. Como apresentaremos mais à frente (gráfico 6), 81 (74,31%) das 109 mulheres foram tutoras a partir dessa forma de nomeação. De um modo geral, todos os homens que optaram por nomeá-las declararam que tinham muita confiança na capacidade das mesmas, independente do grupo social a que pertenciam.

Manoel Teixeira Campos, morador na Freguesia de Congonhas do Campo, Termo de Vila Rica, fez o seu testamento em 1780. Nele declarou que era casado com Ana Maria de Jesus, com quem havia tido oito filhos. Em seu testamento nomeou sua esposa como tutora dos filhos, justificando que assim o fazia "por conhecer na referida

101 minha mulher (...) a precisa capacidade e juízo para administrar os meus bens e dar boa educação a meus filhos..."135

Foi bastante comum identificarmos nos testamentos expressões como: "bom conceito que faço dela"; "tem todos os requisitos necessários para o dito emprego"; "tem toda capacidade e agilidade". Tais expressões revelavam, acreditamos, uma abonação da mulher por parte do pai do órfão, mas sobretudo uma cumplicidade estabelecida ainda em vida entre eles, que dava elementos importantes para elegê-la como tutora das pessoas e bens dos órfãos depois que ele falecesse.

A parda Dona Rita Vaz de Carvalho era esposa do português João Francisco dos Santos136. Residindo na Freguesia de Nossa Senhora de Antônio Dias, pertencente ao

Termo de Vila Rica, eles tiveram cinco filhos, sendo que um deles – Feliciano – ainda tinha 20 anos quando os bens do casal foram inventariados. A grande admiração de João Francisco por Dona Rita foi expressa várias vezes em seu testamento. Na disposição da terça parte de seus bens, como era de direito, definiu que, após a realização de suas últimas vontades, sua esposa seria a herdeira, por ser "a pessoa mais grata com merecimento na dita herança". Nomeou-a ainda por sua primeira testamenteira e declarou que "... pelo grande conhecimento que de mais de trinta e cinco anos tenho de minha mulher e do seu bom e louvável governo, paridade em gastos e em tudo o mais respectivo a despesas (...), por isso a nomeio por tutora do meu filho Feliciano de menor idade e por administradora de sua legítima...”

Essas declarações de João Francisco dão-nos indícios para inferirmos uma vida de cumplicidade entre os dois. A relação duradoura que tiveram possibilitou que dividissem as tarefas, os gastos e o governo da família, dando oportunidades para que Dona Rita pudesse dar mostras de sua capacidade para tutelar e administrar seu filho e as legítimas que o mesmo recebeu na partilha137.

Outros trabalhos já salientaram essa preferência em nomear as mulheres em

135 Inventário de Manoel Teixeira Campos. AHMINC/IBRAM. 1º Ofício, Códice 118, Auto 1499, Ano

1780.

136Inventário de João Francisco dos Santos. AHMINC/IBRAM. 1º Ofício, Códice 70, Auto 831, Ano 1788.

Alfagali (2012) traz algumas informações interessantes sobre João Francisco. Conforme a autora, após um cruzamento de fontes variadas, foi possível identificar que o mesmo era um ferreiro que solicitara em 1750 à Câmara de Vila Rica sua carta de exame de ferreiro, sendo aprovado pelo mestre e juiz de ofício Baltazar Gomes de Azevedo. A partir daí, passou a ser um dos representantes dos oficiais do ferro. Fora ainda juiz de ofício em 1752 e, em 1753, examinador de Domingos Antônio, ferrador, processo em que assumiu a função de escrivão de ofício. João Francisco, conforme informação presente em seu inventário, foi também sócio do Padre Domingos Vaz de Carvalho, com quem estabelecera uma loja de negócio de caldeiro e um serviço de mina. Dos oito escravos que possuía, seis exerciam as mesmas atividades que seu dono – quatro eram mineiros, e dois, oficiais de ferreiro –, o que possibilita inferir um contínuo processo de ensino- aprendizagem ali existente entre o senhor e os escravos. Agradeço a Crislayne Alfagali por me enviar parte do inventário de João Francisco. Importante mencionar que o padre Domingos Vaz de Carvalho era sogro de João Francisco dos Santos.

102 testamento para assumir a tutoria. Morais (2009, p.179) destacou que, no universo de sua pesquisa relativa a São João Del Rei, dos 49 processos de nomeação de tutor, 25 eram parentes e, destes, 17 eram as esposas do falecido. Gorgulho (2011, p. 87), analisando a questão relativamente à Comarca do Rio das Velhas, mencionou que, dos 32 inventários analisados com referência à tutoria, em 17 (53%) deles foram as mulheres que exerceram a função.

A nomeação em testamento dependia, conforme as Ordenações, da confirmação por parte do juiz. Nos casos de filhos legítimos, bastava verificar se aquele tutor dado em testamento não tinha nenhum impedimento, como já mencionado. Entretanto, quando o filho era natural, o juiz precisava aprovar aquela nomeação138.

Identificamos na documentação alguns casos de mulheres que foram impedidas de exercer a tutela, apesar de nomeadas em testamento. Acreditamos que elas não foram aprovadas pelo juiz para desempenhar tal função, ainda que os pais dos órfãos as considerassem aptas.

O negociante Jerônimo Ferreira de Souza, por exemplo, morador de Vila Rica, tinha dois filhos "brancos" com Dona Francisca de Almeida Pinta. Ao que tudo indica, os dois mantinham uma relação afetiva, mas moravam em casas distintas, situação bastante comum em Minas Gerais, como destacou Figueiredo (1997). Ao fazer o seu testamento, Jerônimo escolheu Dona Francisca como tutora de seus filhos, por entender que tinha "capacidade para administrar e reger". Entretanto, o juiz de órfãos optou por nomear o Alferes e Solicitador Manoel Pinto Cardoso, sem apresentar nenhuma justificativa para essa alteração139.

Manoel não era parente dos órfãos, pois, de acordo com o escrivão, não havia nenhum parente para ocupar o cargo de tutor. Apesar dessa nomeação de Manoel, conseguimos identificar que os filhos ficaram com a mãe Dona Francisca, que declarou várias vezes as dificuldades financeiras vivenciadas por ela e os filhos, inclusive no que se referia ao envio dos menores para a escola. Diante disso, julgamos que, para o juiz de órfãos, ela não tinha a habilidade para o exercício legal da função, isto é, para responder pela administração dos filhos e bens e cobrar as dívidas pertencentes a eles. Entretanto, a manutenção dos filhos em seu poder era tolerada e de conhecimento do magistrado. Isso nos levou a imaginar que existia uma concordância por parte do juiz da existência de parcerias entre os tutores e as mulheres, sendo essa parceria uma das formas possíveis de sanar as dificuldades para instituir um tutor "capaz"140. E, também,

138 [Ordenações Filipinas] Código Filipino... Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2012. Livro 4,

título 102, § 2, p.998.

139 Inventário de Jerônimo Ferreira de Souza. AHMINC/IBRAM. 1º Ofício, Códice 72, Auto 858, Ano

1793.

103 que a "incapacidade" de Dona Francisca não estava relacionada com a habilidade de cuidar dos filhos e da sua educação.

Por outro lado, havia casos em que, mesmo nomeada e considerada "capaz" por parte do pai dos órfãos, as mulheres não se julgavam em condições de assumir a tutoria. Antônia da Rocha de Jesus era casada com Francisco de Almeida Pinto, com quem tivera seis filhos, dos quais quatro ainda eram menores quando foi feito o testamento. Classificamos essa família para esta tese como pertencente ao grupo de maiores

patrimônios, já que o total dos bens foi avaliado em 6:979$149, e possuíam 14 escravos.

Mesmo diante desse significativo plantel de escravos e um expressivo monte-mor, Francisco, certo de que sua esposa tinha "inteira capacidade" para reger e governar os filhos, determinou que ela fosse a tutora deles e sua testamenteira. Ela aceitou a testamentaria, mas pediu ao juiz que nomeasse outra pessoa "que fosse capaz" para exercer a tutela141.

O detalhe importante foi que um dos irmãos da viúva, ao ser convocado para assumir a função de tutor, declarou que Antônia estava administrando os bens do casal e os filhos menores "com louvável zelo", lembrando que a mesma havia sido eleita pelo falecido entre todos os parentes. Assim como ele, vários outros homens se esquivaram da função, sendo eleito ao final o genro João Gonçalves Vieira. Ao que tudo indica, os menores permaneceram sob os cuidados da mãe.

Assim, reforçando as discussões que desenvolvemos no primeiro capítulo, a noção de capacidade possuía duas vertentes distintas. Uma delas estava relacionada à ideia de habilidade para exercer legalmente a função da tutoria e ter que responder por ela junto ao juiz de órfãos. Outra, bem diferente, referia-se à destreza para os assuntos ligados à sobrevivência e provimento da família no cotidiano e para cuidar da saúde, alimentação e educação dos órfãos.

Seja como for, a nomeação para a tutoria em testamento representava uma das oportunidades para estar à frente na administração dos bens e das crianças e jovens depois do falecimento de seus pais. Uma oportunidade que, acreditamos, já tinha sido construída pelas mulheres na parceria estabelecida com alguns homens enquanto estes estavam vivos. Assim, apesar de elas serem preferencialmente eleitas nos testamentos paternos, como a documentação demonstrou, essa nomeação testamentária não era algo dado e automático, mas fruto de uma cumplicidade que fornecia elementos para serem julgadas capazes de assumir a função.

141 Inventário de Francisco de Almeida Pinto. AHMINC/IBRAM. 1º Ofício, Códice 58, Auto 696, Ano

104 2.2.2 A nomeação legítima

Caso não houvesse a indicação de um tutor no testamento, tinha lugar a nomeação legítima. Essa forma de instituição ocorria entre os parentes, respeitando-se os laços de sucessão, a começar pelas mães ou avós, se elas quisessem142. Se o órfão

não tivesse mãe ou avó, ou caso elas não desejassem a tutoria, então deveria ser constrangido um parente mais próximo.

A legislação estabelecia que, com exceção das mães e avós, aquele parente que se recusasse a assumir a tutoria perderia o direito de herdar os bens dos menores. Tal circunstância aconteceria caso os órfãos falecessem antes dos 14 anos (quando meninos) e 12 anos (se fossem meninas)143.

Especificamente sobre as mulheres, a instituição legítima seria a segunda forma para se assumir a tutoria, além da testamentária. Entretanto, se nas nomeações em testamento era possível ao pai do órfão nomear qualquer pessoa que julgasse em condições para assumir a tutoria, inclusive tias, filhas e comadres, nas legítimas, a legislação autorizava apenas a designação de mães e avós. Outro ponto importante era que a legislação estabelecia que a mulher não poderia contrair um novo matrimônio. Tal determinação nos dá indícios para entendermos que, no caso da mãe, apenas aquela que tinha sido legalmente casada com o pai do órfão era quem poderia ser nomeada tutora legítima144.

A nomeação de uma mulher na tutoria legítima poderia seguir dois caminhos distintos, a partir do momento que elas demonstrassem algum interesse. O primeiro

142 Conforme os comentários do jurista Borges Carneiro citado em nota nas Ordenações, a preferência pelas

mães e avós estaria ligada primeiramente à contemplação do amor maternal. [Ordenações Filipinas]

Código Filipino... Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2012. Livro 4, Título 102 § 3, p. 998. De

qualquer modo, para além desse "amor maternal", para serem aceitas como tutoras, elas deveriam demonstrar habilidade para a função.

143 [Ordenações Filipinas] Código Filipino... Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2012. Livro 4,

Título 102 § 6, p. 1002.

144 Não identificamos na documentação nenhum caso que contradissesse esse entendimento a respeito das

mães. Entretanto, no que diz respeito às avós, percebemos que tal determinação era cumprida de modo mais flexível. Apesar de estar além do período abarcado pela presente pesquisa, identificamos Dona Tereza Maria de Jesus, que nos deu indícios sobre esse assunto. Ela era avó natural de Bernarda. Esta era filha natural de Júlio Pires, filho de Dona Tereza e de Genoveva Francisca, que, por sua vez, era filha do inventariado Francisco Soares. A mãe da menina faleceu durante o parto, e, por isso, a menina Bernarda inicialmente ficara aos cuidados de uma cuidadora. Entretanto, depois da quitação desse encargo, a cuidadora deixou-a sob a responsabilidade da avó Dona Tereza. Em um requerimento em que solicitava a tutoria da neta, a avó mencionou que já estava com a menor "criando, educando e sustentando a dita órfã (...) a quem adquiriu amor e a deseja amparar". Diante dessa solicitação, a avó assinou a tutoria da órfã e a administração dos bens. O detalhe importante era que o pai da menor ainda era vivo, mas não quis assumir a tutoria, e a avó, mesmo não estabelecendo nenhum laço "legítimo", foi aprovada pelo juiz. Inventário de Francisco Soares. AHMINC/IBRAM. 1º Ofício, Códice 52, Auto 628, Ano 1829.

105 deles era a instituição por parte do juiz de órfãos. Já o segundo caminho era a partir de uma solicitação diretamente ao rei, via Desembargo do Paço145.

No primeiro caminho, as Ordenações Filipinas determinavam que a nomeação só poderia ocorrer se as legítimas de cada herdeiro não ultrapassem os 60$000146.

Nesses casos, a mãe ou a avó fazia a solicitação ao juiz, que a fazia assinar o termo de tutoria. Depois disso, ele deveria fazer a entrega dos menores e suas legítimas para a solicitante.

Entretanto, conseguimos identificar na documentação alguns casos em que o juiz nomeou a mãe para tutora mesmo quando as legítimas excediam aquele valor, sem que houvesse alguma confirmação por parte do Desembargo do Paço. Ana Francisca Gomes, por exemplo, era mãe de oito filhos de seu legítimo matrimônio com João Antunes Guimarães. As legítimas de cada menor foram de 282$423. Apesar disso, o juiz determinou em despacho que a viúva deveria ser inquirida se desejava ou não assumir a tutoria e, em caso positivo, seria obrigada a assinar o termo diante ele. Pouco tempo depois, ela assinou o termo de tutoria, documento que comprovava a aceitação de tal encargo147.

Mas, afinal, se existiam casos de nomeações de tutoras para os menores que possuíam legítimas acima dos 60$000, como ficava o estabelecido nas Ordenações? Percebemos que a legislação abria brechas para a interpretação, pois havia duas ordenações a respeito desse assunto com alguns detalhes distintos148. Carvalho (1840,

2 parte, p.05),ao discorrer sobre a preferência na tutela legítima pelas mães e avós, apresentou diferentes posicionamentos sobre isso. Dentre eles, destacou o jurista Mello149, que, sobre o assunto, declarou que as mesmas não eram obrigadas a solicitar

ao Desembargo do Paço quando os órfãos eram púberes.

Esse foi exatamente o caso na nomeação de Ana Francisca Gomes. Todos os oito filhos eram maiores de 17 anos. Não podemos afirmar que o juiz teve acesso ao livro do jurista Mello, mas acreditamos que ele se baseou nessa forma de pensamento e entendeu que não havia a necessidade de solicitação ao Desembargo do Paço.

Conseguimos identificar oito mulheres que foram nomeadas pelo juiz, como apresentaremos mais à frente (gráfico 6). Dentre essas oito mulheres, uma delas

145 [Ordenações Filipinas] Código Filipino... Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2012. Livro 1,

Título 62 § 37, p. 124.

146 Conforme os comentários de Cândido Mendes de Almeida nas Ordenações, o Alvará de 16 de setembro

de 1814 passou esse valor para 180$000. [Ordenações Filipinas] Código Filipino... Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2012. Livro 4, Título 102 § 04, p. 1000.

147 Inventário de João Antunes Guimarães. AHMINC/IBRAM. 1º Ofício, Códice 84, Auto 1028, Ano 1811. 148 Uma estava nas [Ordenações Filipinas] Código Filipino... Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial,

2012. Livro 1, Título 62 § 37, p. 124; a segunda estava nas [Ordenações Filipinas] Código Filipino... Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2012. Livro 4, Título 102 § 03, p. 998.

106 classificamos para o interesse dessa tese como pertencente ao grupo de maiores

patrimônios, e quatro no grupo de patrimônios intermediários, sendo as legítimas dos

menores maior do que o estabelecido na legislação. Essas nomeações foram feitas em tempos distintos, por juízes variados, o que nos leva a acreditar que realmente não havia um consenso por parte das autoridades a respeito das ordenações no que se referia a esse assunto.

Independente das interpretações, temos o segundo caminho para a nomeação da tutoria legítima — a solicitação de mercê real via Desembargo do Paço. Como já dito, ela deveria acontecer quando as legítimas ultrapassavam o valor de 60$000. A partir do cruzamento de fontes variadas, selecionamos 20 solicitações de mulheres que foram enviadas ao Desembargo do Paço e que receberam a provisão real para serem tutoras. Não identificamos na documentação nenhum caso em que, sendo pedida a tutela, a mãe ou avó não tivessem alcançado a provisão.

O valor de 60$000 era bastante frequente nos inventários, como destacou Chequer (2002, p. 63). Por isso, a autora defendeu a ideia inicial de que haveria muitos pedidos da mercê real. Entretanto, para a segunda metade do século XVIII, ela conseguiu identificar apenas 113 pedidos para a Capitania de Minas Gerais. Conforme a autora, o número reduzido poderia ser explicado pela perda desses documentos ao longo dos séculos. Estamos propensos a concordar com a autora nesse aspecto, especialmente porque, ao confrontar a documentação disponível do Arquivo Histórico Ultramarino e as cópias das provisões presentes nos inventários, percebemos que algumas não se repetiam.

No entanto, a autora percebeu que houve um aumento das solicitações nas duas últimas décadas do século XVIII. Tal aumento, de acordo com Chequer, estaria ligado à mudança do "carro-chefe" das atividades econômicas, que passaria da mineração para a agricultura na capitania. Para a autora, a crise da mineração poderia ter deixado muitas pessoas endividadas, o que significaria perda do patrimônio quando ocorria um falecimento, fazendo-se necessário o pagamento das dívidas e, consequentemente, auferindo-se valores muito pequenos para os herdeiros no momento da partilha. Com o fortalecimento da agricultura e de outras atividades ligadas ao abastecimento do mercado interno, essa situação seria alterada, e mais mulheres recorreram à provisão real. Em outros termos, para a autora o patrimônio mais significativo teria aumentado o interesse da mulher para se tornar tutora.

Apesar de não termos os números para o período anterior a 1770, estamos nesse ponto mais inclinados a defender que a solicitação ou não da mercê real dependia de cada caso, não necessariamente ligado ao valor significativo das heranças. Temos situações de mulheres que classificamos como pertencentes ao grupo de maiores

107

patrimônios e que foram extremamente ativas quando o assunto era a administração

dos bens e das crianças e jovens, mesmo não assumindo a tutoria, conforme apresentaremos no terceiro capítulo. Nesses casos, geralmente a tutoria estava sob o encargo de algum parente, o que sugere que elas tinham confiança nessa parceria e puderam gerir e direcionar a família e todo o patrimônio de maneira compartilhada. Além disso, não viam como um perigo ou um problema o fato de que as heranças da família legalmente estavam nas mãos de outra pessoa. Além disso, como mostraremos (gráfico 7), houve uma ligeira queda das tutorias assumidas por mulheres pertencentes ao grupo