3 GÖSTERİŞ AMAÇLI TÜKETİM
3.2 Toplumsal Açıdan Gösteriş Amaçlı Tüketim
A avaliação das densidades populacionais de bactérias aeróbias mesófilas é legalmente aceita como bioindicadora da qualidade sanitária de alimentos (BRASIL, 2010; WHO, 2007). O grupo engloba diversas espécies que apresentam temperatura ótima de crescimento na faixa 25°C a 40°C. De modo geral, a presença de altas densidades populacionais destes microrganismos em um alimento indica a sua insalubridade (JAY, 2004). Densidades elevadas podem resultar do uso de matéria prima de qualidade insatisfatória, processamento sob condições inadequadas de higiene e/ou por inadequações nas condições sanitárias presentes na comercialização, exposição, transporte e armazenamento dos produtos (MORTON, 2004; WHER; FRANK, 2004; AGARWAL et al., 2014).
2.4.2 Escherichia coli
E. coli é um bacilo Gram-negativo pertencente à Família Enterobacteriaceae. É um
organismo anaeróbio facultativo, não esporulado, capaz de fermentar glicose e lactose com produção de ácido e gás. Por sua capacidade de continuar a fermentação da lactose com produção de gás à temperatura na faixa de 44-45,5°C/24-48 horas, enquadra-se no grupo denominado “coliformes termotolerantes” ou “coliformes a 45°C (BARROW; FELTHAM, 2003; WHER; FRANK, 2004; BRASIL, 2010).
Constitui-se como a principal espécie anaeróbia facultativa componente da flora intestinal de mamíferos e outros animais homeotérmicos, sendo eliminados em suas fezes. Suas densidades populacionais em um dado produto relacionam-se com a contaminação fecal (WHER; FRANK, 2004; ODONKOR; AMPOFO, 2014). Apesar das controvérsias acerca da sua confiabilidade como indicador deste tipo de contaminação (JAY, 2004), no Brasil a presença de certos níveis populacionais de E. coli em alimentos e superfícies de trabalho é legalmente aceita como indicadora de contaminantes fecais (BRASIL, 2010).
A detecção de E. coli em produtos destinados ao consumo humano por via oral é importante, pois denuncia a possível presença de enteropatógenos e/ou parasitas, tais como certos vírus, bactérias, cistos de protozoários e ovos de helmintos, passíveis de veiculação pela rota fecal-oral (JAY, 2004).
2.4.3 Bolores e Leveduras
Os fungos são organismos eucariontes, quimioeterotróficos, aeróbios ou anaeróbios facultativos, uni ou multicelulares. Suas paredes celulares podem conter quitina, glicana ou mananas. De forma simples, podem ser divididos em dois grupos, os bolores e as leveduras. Os bolores são multicelulares, filamentos, formados por hifas cenocíticas ou septadas. Formadores de esporos de fácil dispersão são importantes contaminantes ambientais. As leveduras por sua vez, são unicelulares, não filamentosas, de formato esférico ou oval (TORTORA; FUNKE; CASE, 2010). Alguns fungos, em especial espécies patogênicas, são dimórficos, assumindo uma ou outra forma, em função de fatores extrínsecos, tais como a temperatura e a concentração de CO2 (LUGAUSKAS et al., 2009).
Contrariamente à maioria das espécies bacterianas, os fungos são resistentes à condições ambientais desfavoráveis tais como baixos valores de pH e atividade de água, com crescimento ocorrendo entre 25oC a 37ºC (PITT; HOCKING, 2009). Tais características permitem que possam ser encontrados em materiais desidratados como folhas, caules, cascas e raízes, formas de apresentação predominantes das plantas medicinais no comércio em feiras livres (HELL et al., 2009; TOMA; ABDULLA, 2013).
Os bolores geram ampla variedade de enzimas (lipases, proteases, carboidrases...) capazes de atuar sobre os substratos orgânicos presentes no material que contaminam (PITT; HOCKING, 2009). No caso das plantas medicinais, a degradação microbiana pode provocar alterações químicas nos princípios ativos presentes em seu fitocomplexo podendo resultar em toxicidade, redução ou perda da ação terapêutica esperada (GONDA et al., 2012; AGARWAL et al., 2014).
O consumo de plantas medicinais ou preparos tradicionais contaminados por bolores acima dos níveis recomendados pela OMS deve ser evitado, já que espécies dos gêneros
Aspergillus Micheli (1729), Penicillium Link (1809) e Fusarium Link (1809) comuns neste
tipo de material, produzem metabólitos secundários tóxicos, as micotoxinas. A contaminação por tais substâncias resulta em micotoxicoses, intoxicações de caráter agudo ou crônico. A OMS aponta as micotoxinas, como um dos principais contaminantes em plantas medicinais,
enquadrando-as juntamente com as endotoxinas bacterianas no grupo denominado “materiais tóxicos e perigosos” (WHO, 2007).
A contaminação de plantas medicinais por fungos toxigênicos e seus metabólitos secundários é um problema recorrente no material disponível em mercados e feiras livres, estando associada às condições inadequadas de estrutura física e baixa higiene em geral presentes em tais espaços (ASHIQ; HUSSAIN; AHMAD, 2014; SHARMA; GUPTA; BHADAURIA, 2014).
A intoxicação por micotoxinas é conhecida desde a Idade Média. Cerca de 80 espécies diferentes de fungos filamentosos (bolores) podem produzir mais de 100 metabólitos secundários tóxicos. As micotoxinas são compostos não voláteis, com peso molecular relativamente baixo, destacando-se pela sua toxicidade as aflatoxinas, ocratoxinas, zearalenona, fumonisinas e tricotecenos (PERAICA et al., 1999). Apesar de todos os grupos representarem risco à saúde humana, as aflatoxinas, merecem especial destaque nesta discussão, por serem caracteristicamente termorresistentes, mutagênicas, teratogênicas, carcinogênicas e imunossupressoras para humanos e animais (ABBAS, 2005).
A ingestão de produtos contaminados pela Aflatoxina B1, por exemplo, tem sido
implicada na gênese do Carcinoma Hepatocelular (HCC), apontado como sendo o quinto câncer mais comum entre homens e o sétimo entre mulheres, ocupando o terceiro lugar entre os cânceres com maior índice de mortalidade. Embora os casos de HCC estejam distribuídos mundialmente, 80% das ocorrências relacionam-se a países em desenvolvimento, em especial na Ásia e África (WU; SANTELLA, 2012). Na China, o HCC responde por cerca de 350.000 óbitos anualmente (CHEN; ZHANG; CHEN, 2010).
A contaminação de produtos da medicina tradicional por micotoxinas tem sido constatada em produtos comercializados em feiras livres e mercados dispersos ao redor do mundo (SAREEN et al, 2010; GRIGORIAN et al., 2011; SHARMA; SUMBALI; SHARMA, 2013; TEXEIRA-LOYOLA et al., 2014; YOGENDRARAJAH et al., 2014). Neste contexto de agravo à saúde das populações humanas, é necessário o controle estrito da sua presença em plantas medicinais (WHO, 2007; BRASIL, 2010).
A despeito da crença popular de que as temperaturas envolvidas no preparo de produtos da medicina tradicional tais como lambedores e chás eliminariam o risco à saúde do usuário, é importante relembrar que certas toxinas de origem bacteriana e fúngica são termoestáveis e podem permanecer ativas no produto final (ABBAS, 2005; SHIM et al., 2014).
Adicionalmente, os riscos de proliferação microbiana e produção de toxinas em preparos tradicionais podem ser mais graves, quando consideramos o caso das macerações. Tais preparos tradicionais consistem em extratos aquosos obtidos a frio, nos quais a planta medicinal é mantida em contato com água à temperatura ambiente por período determinado, que pode corresponder a várias horas. O extrato obtido pode ser utilizado tanto externamente, quanto internamente (MATOS, 1987; BRASIL, 2010), o que pode resultar em intoxicações de gravidade variável no usuário.
Apesar dos riscos implícitos ao consumo de plantas medicinais e preparos tradicionais de qualidade microbiológica questionável, inexiste no Brasil legislação específica voltada ao estabelecimento de parâmetros de qualidade sanitária para a sua comercialização em feiras livres e mercados. O vácuo criado pela ausência do aparato legal adequado impossibilita a fiscalização por parte dos agentes locais da Vigilância Sanitária, ampliando o risco à saúde da população (ROCHA; MEDEIROS; SILVA, 2010; MEDEIROS et al., 2012; ROCHA, 2013a, b).
A elaboração do aparato legal necessário deve contemplar dentre outros aspectos, as normas que definam os padrões de conduta e higiene vigentes nos pontos de comercialização, estrutura mínima presente nestes e as atribuições/responsabilidades legais dos órgãos e instâncias do poder público.
Apesar da importância do tema nos contextos socioeconômico, cultural e de gestão de saúde, a comercialização de plantas medicinais em feiras livres não tem sido suficientemente estudada do ponto de vista da saúde pública. Em pesquisa realizada em bases bibliográficas virtuais não foram encontrados estudos com abordagem interdisciplinar que perpassasse de forma simultânea os aspectos intrínsecos aos comerciantes, as instalações físicas e práticas empregadas nos pontos de venda/entorno, chegando até a qualidade final do produto. Igualmente, não foram encontradas ferramentas de avaliação adequadas à comercialização de produtos da medicina tradicional em feiras livres, nem propostas de regulamentação para a atividade.
Apesar do risco à saúde pública representado pela disseminação de patógenos nos produtos da medicina tradicional, não foram identificadas ações voltadas ao desenvolvimento de materiais didáticos específicos, a serem utilizados na realização de cursos de capacitação em Boas Práticas no contexto socioeconômico e cultural do comércio de plantas medicinais nas feiras livres.
Diante do quadro atual, evidenciou-se a necessidade do desenvolvimento de estudo interdisciplinar visando à compreensão da comercialização de plantas medicinais nas feiras livres enquanto fenômeno socioeconômico e cultural, avaliando a sua importância, sustentabilidade e impacto sobre a saúde humana. Nesta abordagem, a atividade deve ser enfrentada como estratégica, sendo alvo de ações que visem à sua preservação e ao estabelecimento de parâmetros de qualidade, considerando a segurança alimentar e a proteção da Saúde Pública.