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Carl Gustav Jung propõe um modelo de psique dinâmico, dotado de um sistema auto-regulador, envolvido por uma complexa combinação de fatores. Trata-se de um processo que se define pelo pressuposto da totalidade todo-abrangente que envolve tanto os aspectos conscientes quanto os inconscientes, numa relação de complementaridade e compensação que necessita de um meio externo para se expressar e concretizar a meta da sua jornada: a realização do potencial individual. A base ontológica do paradigma junguiano constitui a concepção de totalidade psíquica, consciente e inconsciente, que integra os mundos interno e externo, assim como abarca aspectos pessoais e coletivos por intermédio de uma dimensão simbólica arquetípica (Penna, 2003).

Para Jung, a energia psíquica flui entre dois pólos opostos os quais denominou de os contrários. Considerou de fundamental importância que sua teoria psicológica estivesse baseada no princípio dos contrários, afirmando que uma teoria que não levasse isto em consideração: “(...) só reconstruiria psiques neuróticas desequilibradas. Não há

equilíbrio nem sistema de auto-regulação sem oposição. E a psique é um sistema de

auto-regulação” (Jung, 2002, p.53). Os conflitos surgem da tensão entre estes pares de

contrários, sem os quais não haveria manifestações energéticas. “(...) Segundo Jung, a

função reguladora dos contrários é inerente à natureza humana e essencial para se

compreender o funcionamento do psiquismo” (Fordham, 1966, p.21).

Jung compreende a psique como o único fenômeno imediato que percebemos. Deste modo, é a condição para qualquer relação entre o indivíduo e o mundo. Em suas palavras:

“(...) Tudo o que experimento é psíquico. A própria dor física é uma

reprodução psíquica que experimento. Todas as percepções de meus sentidos que me impõe um mundo de objetos espaciais e impenetráveis são imagens psíquicas que representam minha experiência imediata, pois somente eles são os objetos imediatos de

No paradigma junguiano cultura e indivíduo estão sempre em inter-relação, afetando-se mutuamente; desta forma, a consciência coletiva pode ser entendida como o conjunto de valores e atitudes presentes em determinada cultura (Faria, 2003). Jung faz uma analogia à consciência como uma superfície ou película que recobre a extensa área inconsciente, sendo um produto da percepção e orientação do mundo externo (Jung, 2003). Nas palavras de Stein (2006, p.24): “(...) A consciência é, muito simplesmente, o

estado de conhecimento e entendimento de eventos externos e internos. É o estar desperto e atento, observando e registrando o que acontece no mundo em torno e

dentro de cada um de nós”.

Veremos no capítulo 4, referente ao desenvolvimento da consciência, que esta emerge do inconsciente e, aos poucos, vai se discriminando e se separando dele. Podemos associar a consciência como um foco de luz em meio à escuridão inconsciente que relaciona os conteúdos psíquicos do mundo externo e interno com o ego, auxiliando-o na percepção da realidade externa e interna, possibilitando assim, o desenvolvimento do eu. “(...) não pode haver elemento consciente que não tenha o ego

como ponto de referência. Assim, o que não se relacionar com o ego não atingirá a consciência. A partir desse dado, podemos definir a consciência como a relação dos

fatos psíquicos com o ego” (Jung, 2003, p.7).

Sendo assim, o desenvolvimento da consciência é de fundamental importância, pois é a partir desta que o mundo adquire significado. “(...) Sem a consciência reflexiva

do homem, o mundo seria totalmente desprovido de sentido, pois o homem, de acordo

com nossa experiência, é o único ser que pode constatar o fato do sentido” (Jung, 2005,

p.323, grifo do autor). Devido ao caráter focado e seletivo da consciência, esta sempre se apresentará de forma unilateral, visto a impossibilidade humana de apreender o Todo. E como o Todo sempre nos escapa, a visão junguiana tenta, justamente, revelar ou desvelar os elementos que ficaram ocultos, para o coletivo ou para o indivíduo; trata-se, portanto, de uma busca pela totalidade. A limitação da consciência se deve ao fato de não ser possível apreender dados simultâneos num mesmo instante. Logo, os elementos que não são apreendidos permanecem inconscientes, obscuros: “O mundo da

poucos dados simultâneos num dado momento. Enquanto isso tudo o mais é

inconsciente” (Jung, 2003, p.5).

O ego é visto como o centro e sujeito da consciência e da identidade pessoal. Forma-se a partir do momento em que o indivíduo passa a ter percepção do corpo e da existência e, também pelos registros da memória. É o ego que nos dá a sensação de sermos um processo com início, meio e fim.Para Jung (2003), todos temos uma idéia de já termos existido e acumulamos uma longa série de recordações, logo, ele aponta esses dois elementos como os principais componentes do ego, possibilitando-nos considerá-lo como um complexo de fatores psíquicos que atrai, como um ímã, os conteúdos do inconsciente. “(...) o ego é uma espécie de complexo, o mais próximo e valorizado que

conhecemos. É sempre o centro de nossas atenções e de nossos desejos, sendo o cerne

indispensável à consciência” (Jung, 2003, p.7). É o ego que se relaciona com as

imagens do inconsciente, com os símbolos, e que portanto, possibilita o auto- conhecimento e o desenvolvimento da consciência. “(...) O termo ego refere-se à

experiência que a pessoa tem de si mesma como um centro de vontade, de desejo, de reflexão e ação. Essa definição do ego como o centro da consciência mantém-se

constante do começo ao fim dos escritos de Jung” (Stein, 2006, p.23).

Von Franz (1964) destaca que:

“Tudo acontece como se o ego não tivesse sido produzido pela

natureza para seguir limitadamente os seus próprios impulsos arbitrários, e sim para ajudar a realizar, verdadeiramente, a totalidade da psique. É o ego que ilumina o sistema inteiro, permitindo que ganhe consciência e, portanto, que se torne realizado. Se, por exemplo, possuo algum dom artístico de que meu ego não está consciente, este talento não se desenvolve e é como se fora inexistente. Só posso trazê-lo à realidade se meu ego notar. A totalidade inata, mas escondida, da psique, não é a mesma coisa que

uma totalidade realizada e vivida”(p.162).

O conhecimento que adquirimos sobre as coisas é condicionado pelas limitações e capacidades da nossa consciência. Desta forma, tudo o que hoje conhecemos a respeito do inconsciente nos foi transmitido pela nossa consciência, “(...) A psique

inconsciente, cuja natureza é completamente desconhecida, sempre se exprime através de elementos conscientes e em termos de consciência, sendo esse o único elemento

fornecedor de dados para a nossa ação” (Jung, 2003, p.3). Para Neumann (1990), o estado inconsciente é o estado básico e natural, enquanto que o consciente é um produto do nosso esforço, que consome libido. No entanto, existe uma força de inércia na psique que tende a recair na condição inconsciente original. O autor também afirma, contradizendo Freud, que apesar de sua natureza inconsciente, se trata de um estado de vida e não de morte.

Para além da película consciente, que recobre a vastidão inconsciente, está o inconsciente pessoal, também denominado por Jung de sombra. É no inconsciente pessoal que estão os conteúdos esquecidos ou reprimidos da vivência pessoal do indivíduo, trata-se de conteúdos com pouca força energética. “O inconsciente pessoal

pertence ao indivíduo; é constituído pelos seus desejos e ímpetos infantis reprimidos, pelas percepções subliminares, e por inúmeras experiências esquecidas. É exclusivo de

cada um” (Fordham, 1966, p.24).Existe, porém, uma camada inconsciente mais ampla

que diz respeito à coletividade como um todo: “(...) À medida que nos afastamos da

consciência, penetramos numa região mais inacessível, em que se colocaria o mundo arquetípico, o inconsciente coletivo, fonte das possibilidades humanas, composto de

estruturas inerentes ao ser: os arquétipos” (Faria, 2003, p.30). Nas palavras de Jung:

“(...) coloco o inconsciente como um elemento inicial, do qual brotaria a condição

consciente” (2003, p.6) e “(...) O inconsciente não se identifica simplesmente com o

desconhecido; é antes o psíquico desconhecido, ou seja, tudo aquilo que presumivelmente não se distinguiria dos conteúdos psíquicos conhecidos, quando

chegasse à consciência” (1984, p.123, grifo do autor).

É importante ressaltar que para Jung o inconsciente não é apenas um lugar do reprimido, um porão no qual o homem deposita o que não lhe serve, mais do que isso, é a fonte da consciência e do espírito tanto criativo quanto destrutivo da humanidade (Fordham, 1966, p.28).

Portanto, o inconsciente pessoal para Jung se formaria através daqueles conteúdos que já foram conscientes mas esquecidos, ou por perderem sua intensidade, ou por terem sido reprimidos, em função de uma incompatibilidade com a atitude consciente. Sendo assim, trata-se de uma camada da psique composta por fatores que

poderiam tornar-se conscientes e por aquisições da vida individual, que em nossa experiência de vida acabamos deixando de lado. Entretanto, aqueles conteúdos que foram herdados (da mesma forma que os instintos e impulsos), e que nunca estiveram na consciência, apresentam caráter coletivo, universal e atemporal. Estamos aqui nos referindo ao inconsciente coletivo; a camada mais profunda da psique. Para Jung esta camada:

“(...) não deve a sua existência à experiência pessoal, não sendo

portanto uma aquisição pessoal. Enquanto o inconsciente pessoal é constituído essencialmente de conteúdos que já foram conscientes e no entanto desapareceram da consciência por terem sido esquecidos ou reprimidos, os conteúdos do inconsciente coletivo nunca estiveram na consciência e portanto não foram adquiridos individualmente, mas devem sua existência apenas à hereditariedade. Enquanto o inconsciente pessoal consiste em sua maior parte de complexos, o

conteúdo do inconsciente coletivo é constituído de arquétipos” (2000,

p.53).

A sombra então, seria uma parte da personalidade composta por elementos pessoais e coletivos incompatíveis com a atitude consciente e, que por isso, foram reprimidos; logo, representa uma personalidade parcial e autônoma com tendências opostas ao ego consciente e se comporta de maneira compensatória a este. Como a sombra se refere a elementos que não são aceitos pelo ego, este a percebe como ameaçadora e perigosa. Em linhas gerais, a sombra se refere à parte inferior da personalidade, aos aspectos primitivos não diferenciados; embora não sejam necessariamente negativos, são elementos classificados como inferiores porque não encontraram condições suficientes para se desenvolver. É a atitude da consciência, moldada pelos valores culturais os quais valorizam certos conteúdos em detrimento de outros, que determina quais elementos tornar-se-ão sombrios. A sombra também abriga impulsos criativos, qualidades não reconhecidas, percepções e reações apropriadas.

Para Jung (2002) nenhuma energia é produzida enquanto não houver tensão entre os contrários; por isso ressaltou a importância de encontrar o elemento oposto ao da atitude consciente, pois o reprimido deve se tornar consciente para que seja produzida a tensão entre os contrários. Para ele: “(...) todo consciente procura, talvez

obstrução ou à petrificação. É no oposto que se acende a chama da vida” (p.46). Em outra obra (2000), esclarece que:

“Verdadeiramente, aquele que olha o espelho na água vê em primeiro

lugar sua própria imagem. Quem caminha em direção a si mesmo corre o risco do encontro consigo mesmo. O espelho não lisonjeia mostrando fielmente o que quer que nele se olhe; ou seja, aquela face que nunca mostramos ao mundo, porque a encobrimos com a ‘persona’, a máscara do ator. Mas o espelho está por detrás da máscara e mostra a face verdadeira. Esta é a primeira prova de coragem do caminho interior, uma prova que basta para afugentar a maioria, pois o encontro consigo mesmo pertence às coisas desagradáveis que evitamos, enquanto pudermos projetar o negativo à nossa volta. Se formos capazes de ver nossa própria sombra, e suportá-la, sabendo que existe, só teríamos resolvido uma pequena parte do problema. Teríamos, pelo menos, trazido à tona o inconsciente pessoal. A sombra, porém é parte viva da personalidade e por isso quer comparecer de qualquer forma. Não é possível anulá- la argumentando, ou torná-la inofensiva através da racionalização (...) O encontro consigo mesmo significa o encontro com a própria

sombra” (p.30-31).

A persona é um elemento fundamental de adaptação do ego frente ao mundo externo, é uma espécie de máscara de que o ego se utiliza para conseguir se relacionar com o mundo em resposta à necessidade de adaptação social. “(...) A persona é um

complicado sistema de relação entre a consciência individual e a sociedade; é uma espécie de máscara destinada, por um lado, a produzir um determinado efeito sobre os outros e por outro lado a ocultar a verdadeira natureza do indivíduo” (Jung, 2004, p.68). É de extrema importância que a pessoa possua uma persona bem estruturada, no entanto o perigo é o de se identificar apenas com a persona, acreditando ser formado unicamente por esta, negando a existência de seus aspectos sombrios. Para viabilizarmos o auto-conhecimento é preciso entrar em contato com os vários aspectos da nossa psique. Através desse encontro ocorre a ampliação da consciência, o que nos permite descobrir elementos da própria personalidade, pois outras facetas vão se mostrando para a persona.

Para Jung, sombra, persona, Self, anima e animus, que veremos em capítulo posterior, são arquétipos. A palavra arquétipo deriva de arche que significa a matriz ou

espécime original e typos que significa um cunho impresso numa moeda (Stein, 2006). Para Jung (2005) o conceito de arquétipo:

“(...) deriva da observação reiterada de que mitos e contos da

literatura universal encerram temas bem definidos que reaparecem sempre e por toda a parte. Encontramos esses mesmos temas nas fantasias, nos sonhos, nas idéias delirantes e ilusões dos indivíduos que vivem atualmente. A essas imagens e correspondências típicas, denomino representações arquetípicas. Quanto mais nítidas, mais são acompanhadas de tonalidades afetivas vívidas... elas nos impressionam, nos influenciam, nos fascinam. Têm sua origem no arquétipo que, em si mesmo, escapa à representação, forma preexistente e inconsciente que parece fazer parte da estrutura psíquica herdada e pode, portanto manifestar-se espontaneamente

sempre e por toda a parte” (p.352).

Os arquétipos formam a base dos padrões de comportamentos instintivos, portanto não aprendidos, comuns a toda espécie humana. São disposições típicas, inatas do inconsciente, de natureza primordial que estruturam as ações, reações, pensamentos e sentimentos. Herdados da natureza humana estão presentes em todo o tempo e lugar, não são possíveis de representação imagética, sendo perceptíveis apenas por certas manifestações típicas na consciência humana, só sendo observados a partir dos efeitos que geram: as imagens e os motivos arquetípicos. “Os arquétipos são inconscientes e,

por isso, apenas os podemos postular; temos conhecimento deles, porém, através de

certas imagens típicas que se apresentam à psique” (Fordham, 1966, p.26). Teríamos

portanto, além da herança genética, determinante do nosso corpo, uma herança coletiva universal estruturante da consciência. Jung (2002), esclarece que não são as imagens propriamente ditas que são herdadas, mas a capacidade de termos tais imagens é que é passada de geração a geração. Os arquétipos possuem um caráter numinoso, de forte cunho emocional.

Desta forma, para a Psicologia Analítica o indivíduo não nasce como uma tábula

rasa na qual o mundo vai moldando-o e imprimindo sua marca, pois compreende-se que o indivíduo possui possibilidades arquetípicas, além do mundo físico e relacional que estimulam o desenvolvimento dos padrões arquetípicos. “(...) O indivíduo só se torna

ativado e constelado” (Faria, 2003, p.32). Os arquétipos seriam, então, formas de prontidão para a ação e, simultaneamente, criariam emoções:

“O termo (arquétipo) não tem por finalidade denotar uma idéia

herdada, mas sim um modo de funcionamento psíquico, que corresponde ao modo inato pelo qual o pintinho surge do ovo, o pássaro constrói o ninho, um certo tipo de vespa pica o gânglio motor da lagarta, e as enguias encontram o caminho para as Bermudas. Em outras palavras, é um “padrão de comportamento”. Esse é o aspecto biológico do arquétipo... Mas a situação muda imediatamente quando observada de dentro, isto é, de dentro da esfera da psique subjetiva. Aqui o arquétipo apresenta-se como numinoso, isto é, aparece como uma experiência de importância fundamental. Toda vez que ele se reveste de símbolos apropriados, o que nem sempre acontece, coloca o indivíduo num estado de possessão cujas conseqüências podem ser

incalculáveis” (Jung apud Whitmont, 1969, p.92).

Os arquétipos são núcleos de energia que, quando constelados, exercem forte atração sobre a consciência, que por sua vez o percebe como uma atividade emocional. A partir de então, os conteúdos da consciência passam a se relacionar com o arquétipo, atribuindo-lhe o sentido necessário para que se expressem através da imagem, possibilitando o surgimento de um símbolo. O termo constelação é utilizado para indicar uma situação, individual ou coletiva, desencadeadora de um processo psíquico de atualização de determinados conteúdos. Trata-se de um processo automático, ativado pelo sistema auto-regulador da psique com o intuito de compensar uma carência ou unilateralidade da consciência.

Fordham afirma que com o conceito de arquétipo Jung não pretendia afirmar a hereditariedade da experiência,

“(...) afirma, sim, que o nosso cérebro é moldado e influenciado pelas

experiências da humanidade. É que, “embora a nossa herança consista em vestígios psicológicos, foram sem dúvida os processos mentais dos nossos antepassados que imprimiram esses vestígios. Se eles regressam à consciência no indivíduo, só pode ser na forma de outros processos mentais; e, apesar de estes processos só se tornarem conscientes através das experiências individuais – aparecendo conseqüentemente, como aquisições do indivíduo –, nem por isso deixam de ser marcas preexistentes, que as experiências individuais se limitam a “corporificar”. É provável que toda a experiência

“impressionante” seja precisamente um mergulho nas profundezas de

um antiqüíssimo e anterior inconsciente” ” (1966, p.25).

A partir da visão junguiana podemos entender o inconsciente como fonte de possibilidades, que ao que parece, está sempre conectado à relação do indivíduo com o mundo, visto que, à medida que esta conexão se estabelece, um ou mais dinamismos arquetípicos são constelados e os símbolos começam a emergir (Faria, 2003). Ao citar Brandão, Faria relembra a raiz etimológica da palavra símbolo, que advém do grego

symbolon, do verbo symballein, que significa “lançar com”, “arremessar ao mesmo

tempo”, “jogar com”. Na cultura grega, era um sinal de reconhecimento: “um objeto

dividido em duas partes, cujo ajuste, confronto, permitia aos portadores de cada um se

reconhecerem” (p.32).

Os símbolos podem ser entendidos como produtos dessa fonte inconsciente, sendo que sua função é a de revelar e anunciar ao indivíduo e ao coletivo as direções necessárias ao seu desenvolvimento.

“(...) o símbolo revela certos aspectos da realidade – os mais

profundos, que desafiam qualquer outro meio de conhecimento. As imagens, os símbolos e os mitos não são criações irresponsáveis da psique; elas respondem a uma necessidade e preenchem uma função:

revelar as mais secretas modalidades do ser” (Eliade, 2002, p.8.).

Para Jung, o símbolo é um termo ou uma imagem que, embora nos seja familiar na nossa vida diária, possui “(...) conotações especiais além do seu significado evidente

e convencional” (Jung, 1964, p.20). Para o autor existe uma distinção rígida entre

símbolo e sinal, ou alegoria:

“Toda concepção que explica a expressão simbólica como analogia

ou designação abreviada de algo conhecido é semiótica. Uma

concepção que explica a expressão simbólica como a melhor formulação possível, de algo relativamente desconhecido, não

podendo, por isso mesmo, ser mais clara ou característica, é

simbólica. Uma concepção que explica a expressão simbólica como

paráfrase ou transformação proposital de algo conhecido é

Fordham aponta para a distinção entre símbolo e signo na obra de Jung. Segundo a autora, “(...) um signo é um substituto ou uma representação de uma coisa real, ao

passo que um símbolo tem um significado mais amplo e exprime um fato psíquico que

não pode ser formulado com maior rigor” (1966, p.23).

Jung (2007) coloca que o símbolo é o mecanismo psicológico transformador da energia que comporta material consciente e inconsciente e acrescenta que foi o processo de formação de símbolos que libertou a humanidade dos temores do curso natural das coisas. Os símbolos atuam como mediadores entre os elementos do inconsciente pessoal e a consciência, transformando energias antagônicas numa nova forma de energia, ou seja, ocorre a união dos pares de opostos e a formação de uma nova síntese. Jung denominou de função transcendente à função criadora dos símbolos. Atribuiu este nome, pois denota um movimento de integração de processos conscientes e inconscientes, levando à ampliação da consciência. É uma tentativa de harmonização da psique, de reconciliar o indivíduo com sua essência e com a totalidade perdida, ampliando e compensando certa unilateralidade da consciência (Penna, 2003).

Os símbolos são um conceito muito importante na Psicologia Analítica, pois a premissa de um inconsciente não acessível à observação direta constitui o principal desafio desta teoria e, é justamente a perspectiva simbólica que permite a acessibilidade do inconsciente através de suas manifestações. Segundo Penna:

“O conhecimento então é viável através das manifestações

simbólicas, sendo esta a via de todo conhecimento possível na