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No primeiro capítulo discutimos a história das mulheres a partir de uma perspectiva social, refletindo sobre os diferentes papéis que exerceram em diferentes momentos históricos. Agora, nos atentaremos à compreensão do desenvolvimento da consciência, tanto individual quanto coletiva, para que possamos compreender psicologicamente tais alterações discutidas a princípio, assim como refletir sobre as conseqüências de tais transformações, sobretudo as implicações que o patriarcado trouxe para a sociedade e, principalmente para as mulheres.

Na visão da Psicologia Analítica assim como houve a evolução do corpo humano, desde os nossos ancestrais humanóides até o presente momento, a consciência também apresenta um caminho de desenvolvimento. Aqui não estamos falando da História objetiva e de possíveis fases históricas, mas de dinamismos presentes na consciência nos diversos momentos de seu desenvolvimento, os quais compõem a sua estrutura. Esses dinamismos podem aparecer de forma coletiva ou individual (Faria, 2003).

A apreensão desses dinamismos evolutivos da consciência segue a compreensão de Jung de que “(...) o complexo do ego e a consciência já se apresentam em germe, no

inconsciente, como possibilidades inatas, indicando um movimento arquetípico humano

do Caos primordial para a luz, para uma percepção mais clara de si e do mundo

(Faria, 2003, p.28).

Autores como Neumann (1990) e Whitmont (1991) compartilharam da idéia de que o desenvolvimento psicológico do indivíduo repete a história evolutiva da humanidade, e que, por essa razão, a evolução da consciência por estágios é um fenômeno humano que diz respeito tanto ao âmbito coletivo quanto individual. Nas palavras de Neumann: “deve-se considerar o desenvolvimento ontogenético uma

os elementos que serão aplicados atribuem-se a estes dois âmbitos, os quais procuraremos sempre esclarecer e apontar sua interelação.

Os estudos sobre a evolução da consciência compreendem determinadas fases, iniciando com o momento em que o ego ainda se encontra contido na imensidão inconsciente, partindo para o momento em que começa a tomar consciência da sua própria posição e a defendê-la com heroísmo, até o momento em que se torna capaz de ampliar as suas experiências mediante modificações efetuadas pela própria atividade passando a participar racionalmente e a exercer controle sobre os “mistérios da vida”, que nesta fase conforme veremos adiante, já não são mais tão misteriosos.

Erich Neumann foi o primeiro autor a descrever o movimento psicológico de transformação da consciência do dinamismo matriarcal para o patriarcal, em sua obra História da Origem da Consciência (1990). A consciência matriarcal é entendida como a consciência nascente da humanidade, desta forma nomeada em decorrência ao fato de possuir como arquétipo regente o da Grande Mãe, tido em muitas culturas como o responsável pelas origens do mundo, simboliza a natureza, a fertilidade, os instintos, os desejos e emoções, a vida e a morte.

Com o termo matriarcal, no entanto, estamos nos referindo a um estado psicológico de consciência em que o inconsciente e suas fantasias prevaleceram sobre o ego e, não ao matriarcado sociológico, defendido por Bachofen no século XIX como um suposto período em que as mulheres detinham o poder político sobre os homens.

Conforme colocado, inicialmente o ego aparece imerso no inconsciente num estado de amorfia anônima e justamente por esta imersão inconsciente é que pouco sabemos e não poderíamos saber muito mais sobre este período. Por tal motivo é que esta primeira fase do desenvolvimento foi considerada pré-histórica, ou seja, anterior à história, visto que para existir história é preciso que exista uma consciência de ego aperceptiva, reflexiva e auto-consciente; por este motivo, também, é que se atribui a esta fase pré-histórica o caos indiferenciado (Neumann, 1990).

Nesta primeira fase não existia diferenciação entre os mundos externo e interno, pois a psique ainda era idêntica e indistinta do mundo. Essa ligação do ego com o inconsciente, do homem com o mundo, representam o estado de imersão da consciência e do ego na psique coletiva que foi denominada por Jung de participação mística. Tal termo foi utilizado pelo etnólogo Lévy-Bruhl, estudioso das culturas primitivas, para designar o fato de a psique identificar-se com o mundo externo; segundo este autor, “acreditava-se que partes da alma poderiam ser roubadas ou encarnadas em animais e

árvores, com os quais o sujeito vivia em estado de identidade” (Faria, 2003, p. 35).

Neumann denominou esse estado de identidade do ego com o inconsciente e o mundo, portanto com o Self, de urobórico, lembrando a figura mitológica Uroboros do dragão primordial que engole a própria cauda. Esta figura representa a união dos opostos, os Pais primordiais representantes dos elementos masculino e feminino, ainda indiferenciados. Faz alusão a um momento da vida psíquica coletiva, e individual, no qual ainda não havia separação de opostos: as polaridades estavam unidas e faziam parte de um todo abrangente; portanto, nesta fase ainda não era possível ao ego aparecer como um complexo consciente que estabelece uma consciência discriminada. Esta é a fase pré-histórica da humanidade “(...) na qual o indivíduo e o grupo, o ego e o

inconsciente, o homem e o mundo, estavam ligados de maneira tão indissolúvel entre si

que a lei da participation mystique, da identidade inconsciente, prevalecia entre eles

(Neumann, 1990, p.195).

“O mundo é experimentado como todo-envolvente e, nele, o homem

experimenta a si mesmo, como um eu, apenas de maneira esporádica e momentânea. Assim como o ego infantil, vivendo outra vez essa fase, muito pouco desenvolvido e cansando-se com facilidade, emerge como uma ilha do oceano do inconsciente apenas ocasionalmente, voltando a afundar, assim também o homem primevo experimenta o mundo. Pequeno, frágil e muito dado ao sono, isto é, sobremaneira inconsciente, ele flutua no instintivo como o animal. Envolto e sustentado pela Mãe Natureza, embalado nos seus braços, ele é

entregue a ela para o bem e para o mal. Ele nada é; tudo é mundo”

(Neumann, 1990, p.31).

As primeiras funções psicológicas a aparecer tanto no desenvolvimento dos homens primitivos quanto no da criança são as funções perceptivas, ou seja: a sensação e a intuição.

Seguindo o período urobórico inicia-se o estágio que Neumann nomeou de matriarcal, conforme apontado anteriormente: é o período regido pelo arquétipo da Grande Mãe cuja fertilidade ora propicia ora ameaça de incesto e devoração a sua própria cria. O autor designou de incesto urobórico a tendência que o ego tem de dissolver-se no inconsciente e de voltar ao estado original de onde surgiu, pois esta fase urobórica é prazerosa para o ego no sentido em que está livre de tensões (p.202). O termo incesto é aqui empregado do ponto de vista simbólico denotando indiscriminação; tal termo se opõe à palavra castração que no sentido simbólico expressa separação, discriminação.

Seguiremos nossa compreensão dos estágios de desenvolvimento da consciência a partir das contribuições de Whitmont. Este autor prosseguiu os estudos de Neumann, em sua obra Retorno da Deusa (1991) na qual reflete detalhadamente sobre o caminho percorrido entre a consciência matriarcal e a patriarcal, analisando as implicações desta última para a contemporaneidade.

Whitmont afirma que a consciência se desenvolveu a partir de uma orientação ginecolátrica, matriarcal e mágica. Com o termo ginecolátrico ele denota a reverência pelo feminino. O autor acredita que este período estendeu-se, provavelmente, da Idade da Pedra até a Idade do Bronze.

Ao empregar o termo “mágico”, Whitmont faz alusão à identidade pré-verbal, simbiótica e unitária características deste período, o qual foi governado pela Grande Deusa, cujas principais características são a manutenção e a continuidade da ordem natural bem como seus ciclos intermináveis de nascimento, morte e renascimento.

“(...) Ela é ao mesmo tempo mãe e filha, donzela, virgem, meretriz e

bruxa. É a senhora das estrelas e dos céus, a beleza da natureza, o útero gerador, o poder nutriente da terra, a fertilidade, a provedora de todas as necessidades, e também o poder da morte e o horror da

decadência e da aniquilação. Dela tudo procede e a ela tudo retorna

(Whitmont, 1991, p.60).

Na Idade do Bronze, o culto da Grande Deusa atinge o apogeu: as forças divinas intrínsecas à natureza e ao mundo dos objetos eram adoradas. “(...) Esse culto é o auge

do animismo e da religião panteísta da natureza” (p.61).

Em se tratando do desenvolvimento infantil a fase que corresponderia à era mágica abrangeria desde o momento em que a criança nasce até os três ou quatro anos de idade. Ao longo desse período a criança mantém-se num estado de identidade simbiótica com a mãe e a família que a cerca, sendo assim influenciada pelo inconsciente da mãe e do grupo a que pertence. As atividades da criança pequena, imersa nesse inconsciente familiar, são coordenadas pelo instinto, por padrões de ação fixos e por imitação. Neste período os pais e o grupo exercem grande poder de sugestionabilidade e numinosidade sobre a criança. Por isso é que a perda da identificação grupal pode significar a perda da alma e da identidade e, talvez, da própria vida. Assim também o é para o homem primitivo:

“(...) A história ensina que, no princípio, o indivíduo não existia ainda

como entidade independente, sendo o domínio exercido pela psique grupal, que não permitia a emancipação de um ego individual. Reconhecemos essa situação em todas as áreas da vida social e cultural; em toda parte, há, no início, uma coletividade anônima. Naquele tempo, imperava eticamente a responsabilidade grupal, pela qual o indivíduo não existia independentemente do grupo, mas apenas

como parte dele” (Neumann, 1990, p.197).

O tempo acontecia no aqui e agora, ainda não era possível a compreensão de passado, presente e futuro. Também não existia a separação dos opostos que somente mais tarde a nossa consciência racional realizou. Portanto não havia diferenciação entre dentro e fora; corpo, mente ou psique; eu e outro.

A ética e a responsabilidade social como conhecemos atualmente ainda não existia. Trata-se de um período pré-moral ou amoral em que ainda não existiam regras, leis e ética individual. A pessoa não se via como um indivíduo, a consciência individual ainda não emergira, pois estava imersa na psique coletiva. Cada pessoa representava uma peça que constituía o todo abrangente do grupo; a consciência era grupal; sendo assim, todas as contingências da vida eram consideradas questões a serem enfrentadas em grupo. Questões pertinentes ao que hoje chamamos de bom ou mau se definiam, no

primeiro caso, pelo que beneficiava ou sustentava a vida do grupo enquanto que no segundo, era tudo o que propiciava perigo ou terror ao grupo como um todo.

Os eventos aconteciam como manifestações predestinadas de forças muito poderosas e desconhecidas, ou seja, forças que estavam além do controle humano. Sendo assim, acreditava-se que não era possível causar ou planejar algum evento racionalmente, sendo possível, apenas, invocar, aceitar, propiciar e adaptar-se a essas forças poderosas e desconhecidas e ao destino, dada a inevitabilidade e incontrolabilidade de tais fatos, não sujeitos a intervenções, mudanças, desafios, responsabilidades ou compreensão. Tampouco a natureza era vista como um meio a ser conquistado, mas, sim, como uma totalidade da qual cada ser humano é parte e parcela e com a qual deve viver em harmonia, respeitando-a e venerando-a.

Neste período, e também em períodos posteriores em sociedades prevalentemente matrilineares, de uma forma geral, o Feminino e a mulher eram mais valorizados. Esta recebia um reconhecimento, por sua sabedoria e caráter de criadora, era identificada com a Grande Deusa e com o poder misterioso da procriação mas, ao mesmo tempo em que exercia certo fascínio, também suscitava reações de medo.

A partir do momento em que o ego passou a perceber, relativamente, a presença de outra esfera, inconsciente, é que foi possível manter um certo distanciamento deste e do mundo, fato que permitiu ao ego descobrir as leis regentes do universo. Foi no Neolítico que, através da observação do coito animal, possível por sua domesticação, o ser humano pôde compreender a reprodução e mais tarde imaginá-la nos humanos, permitindo o entendimento do papel do homem na procriação. Este conhecimento despolarizou a função mágico-misteriosa da procriação, até então atribuída unicamente à mulher, conforme destacado no primeiro capítulo.

“Como filho caçula, a consciência do ego precisa primeiro conquistar

o seu espaço próprio e defendê-lo dos assaltos da Grande Mãe interior e da Mãe-Mundo exterior, para, finalmente, numa luta longa

e sofrida, ampliar esse seu território próprio” (Neumann, 1990,

A partir dessa nova consciência inicia-se a fase que Whitmont denominou de mitológica. Esta marca a passagem do mundo ginecolátrico para o androlátrico. Seu início ainda é dominado pela imagem e pelos ritos da Grande Deusa e dos seus consortes. Ela ainda é reverenciada em seus diversos aspectos: como fonte geradora de vida, mãe nutridora e cruel devoradora. Os consortes aparecem como amantes, filhos, parceiros sexuais e como suas vítimas para o sacrifício. O apogeu dessa fase foi caracterizado pela divisão do elemento masculino (Yang) em duas partes produzindo Deuses Gêmeos. Aparecem, então, as imagens de Apolo e Dioniso: o primeiro era o representante da luz, da vida, da imortalidade, da harmonia e da permanência, enquanto que o segundo representava a escuridão, a interrupção, a morte e a transitoriedade (1991). No início esses dois elementos representavam a dualidade de uma mesma polaridade, distinguiam-se porém não se excluíam; pertenciam a um Grande Círculo intacto. No entanto, no final da era mitológica essa dualidade transforma-se em dualismo e ocorre a separação total dos opostos, que não mais considerados como polaridades, passam a se opor de forma excludente: “Os sexos são separados e se

opõem. A luz se opõe à escuridão; o interior se opõe ao exterior; a vida se opõe à

morte” (Whitmont, 1991, p.68).

Com a separação dos opostos iniciam-se as escolhas, o julgamento, a valorização e a hierarquização. O ego vai se estruturando e se fortalecendo ao mesmo tempo em que ocorre a formação da sombra. Esta divisão dos Deuses Gêmeos implicou uma escolha; a sociedade teve que escolher por um, passando a idolatrá-lo, o que implicou em matar, rejeitar e reprimir o outro na sombra. As divindades apolíneas e olímpicas masculinas passaram a ser veneradas, enquanto que os elementos dionisíacos “femininos e escuros” (Whitmont, 1991, p.68) foram retirados de cena e lembrados apenas nos mistérios. Posteriormente, na era patriarcal propriamente dita, os elementos dionisíacos são completamente banidos e seus seguidores caçados como adoradores do demônio.

A era mitológica representou um passo muito importante no desenvolvimento humano, pois foi quando a humanidade teve a primeira noção de interiorização e de afastamento pessoal do que passou a ser concebido como mundo externo e objetivo. Sendo assim, o indivíduo passou a ter noção de uma existência dividida em duas partes:

uma se referia à individualidade; outra, separada desta, que dizia respeito ao mundo e aos demais. Tal divisão possibilitou uma primeira percepção consciente da alma. É neste período que se tem o primeiro registro das palavras eu sou: “Eu sou Odisseu” (Whitmont, 1991, p.68). No entanto, mesmo com a noção de individualidade implicada num discernimento entre o eu e o outro, no início deste período a ambivalência ainda prevalece. Os opostos eram inclusivos e não exclusivos. O tempo passado começou a ser compreendido para o homem mitológico; o tempo, nesta consciência, não dizia respeito apenas ao aqui e agora, pois era o hoje e o ontem e, além disso, era a eternidade. A noção espacial se referia àquilo que era dado de modo concreto e imediato, não existia o conceito de espaço além do que era imediatamente acessível: “Ou está aqui, ou não existe” (p.69). A realidade abrangia somente o que poderia ser tocado e visto diretamente.

Segundo a análise de Whitmont (1991), este período provavelmente iniciou-se no Neolítico, abrangendo a Idade do Bronze e encerrando-se na Idade do Ferro; a idade das lutas heróicas. Foi no Neolítico que o homem começou a ter conhecimento sobre a vida natural; começou a raciocinar primeiro a seu próprio respeito e, depois, em escala crescente, a respeito do mundo à sua volta. Sendo assim, as coisas não mais aconteciam por acaso, pois já era possível compreender algumas manifestações da natureza. No entanto, o controle sobre esta ainda parecia muito distante. Com relação ao desenvolvimento infantil é provável que esta fase ocorra entre os três e sete anos de idade, período correspondente ao Neolítico, e entre os sete e doze anos, Idade do Bronze. À Idade do Ferro corresponderia a puberdade e o início da fase androlátrica. Nas palavras de Whitmont (1991):

“(...) Aos três ou quatro anos, começa a surgir uma pessoa interior,

que passa a dizer eu e a vincular a experiência interior à percepção exterior. Tornar-se uma pessoa distinta promove, antes de mais nada, uma consciência social, a percepção consciente de cerimônias e do que é certo e errado segundo as regras ditadas pela família e pelos costumes grupais. Dirige-se à sensação de vergonha. Ocorre uma primeira discriminação de tempo e espaço, centrado no aqui e no agora. O eu começa a se sentir cada vez mais destacado do corpo e do mundo externo, e a controlar o desejo e a agressão. A identidade mágica e a sensação de pertencer a algo cedem terreno ao animismo e ao pensamento reflexivo, que aos poucos vai se expandindo. As coisas têm alma, com qualidades humanas e também fantásticas. É

possível argumentar com uma bruxa e dela receber conselhos úteis; logo depois, ela decola e sai voando em sua vassoura. É quando

começa o mundo da música e das palavras, dos contos de fada

(p.85).

A vida em grupo implica em ordem social, moralidade e noção de ethos. A moralidade aqui é coletiva, ainda não assume cunho individual. A ordem na era mitológica dizia respeito à aprovação do grupo e ao respeito aos tabus, pois é neste período que iniciam-se as regulamentações e o estabelecimento das proibições e exigências sociais. Este ato canalizou o conjunto de impulsos anti-sociais da era anterior. Sobretudo tais valores ainda estavam longe do atual senso moral e ético. A divisão de bom e mau atribuía-se ao que era aprovado pela prática e pela coletividade ou ao que causa danos ou prejuízos visíveis e que não condizia com os costumes.

“(...) Danificar propriedade do grupo e violar tabus são atos maus,

porque convidam à retaliação de uma força superior, seja ela emanada de um líder, de um deus ou do demônio. A violação dos costumes é má, porque leva à rejeição e ao isolamento. A pessoa é objeto de vergonha, perde a dignidade. No nível mágico, o isolamento em relação ao grupo é vivido como uma ameaça à própria vida. A vergonha é uma reação mitológica ao isolamento; entretanto, a sensação de uma grave ameaça à vida persiste e reverbera nas

profundezas do ser” (p.71).

A tentativa que os homens da era mitológica faziam era de afirmar a consciência como separada do inconsciente e da natureza, a fim de que pudessem dominar essas influências sombrias e invasivas, representadas pelas emoções, desejos e impulsos devoradores. Mas ao subjugar esses elementos a humanidade dessa época abriu mão, progressivamente, do âmbito feminino em prol do ideal masculino de autocontrole. Isto é representado pela vitória de Apolo sobre Dioniso, revelando os valores que passavam a ser importantes tal como a luz, a ordem, a construção, em detrimento da escuridão, do caos e da destruição. O mundo da Deusa passa a ser visto como caótico e com isso, o mundo do feminino, da Deusa e de seu consorte Dioniso cede lugar ao Deus, o Pai soberano, onipresente e onisciente que, conforme veremos adiante, terá o seu posto tomado pelo eu soberano, momento cristalizado pela famosa frase do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900): “Deus está morto!”.

Como conseqüência desse afastamento da Deusa, decorre a gradual dessacralização da Mãe Terra, visto que os homens conseguiram dominá-la com as técnicas apreendidas na Idade do Bronze. Isto acarreta uma dessacralização do Feminino e conseqüentemente da mulher, a quem a terra estava relacionada. Com o passar dos tempos, conforme vimos no primeiro capítulo, a mulher passa a ser a portadora do mal e por consegüinte, depositária das projeções negativas da Grande Mãe.

Na visão mágico-mitológica nada passa a existir sem que algo equivalente tenha deixado de existir. Portanto, toda criação requeria um sacrifício. Nestas fases nascimento e morte eram equivalentes; mútuos aspectos da existência. Originalmente o sacrifício tinha o significado de devoção aos deuses dos mortos e à Mãe Terra. Era uma auto-oferta em nome da transformação e da renovação. “O sacrifício aparece como

tema central da maior parte das cosmogonias mitológicas. A psique não-pessoal percebe o sacrifício como o cerne do processo criativo e como uma condição

fundamental para cada novo passo do desenvolvimento da vida” (Whitmont, 1991,

p.74). Porém, com o advento do patriarcado, o significado do sacrifício muda e passa a