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As grandes demandas da sociedade contemporânea, a exemplo das questões ambiental e patrimonial, recolocam em evidencia e solicitam a atualização do debate sobre o espaço público. Fruto da associação entre referenciais históricos, políticos e identitários, a

noção de espaço público, tal como a entendemos hoje, de acordo com Lyotard (2005), Habermas (2003) e Arendt (2001) tem origem no período moderno.

Os princípios que orientam o funcionamento de um espaço considerado público estão centrados, preponderantemente, no equilíbrio das relações estabelecidas entre sociedade e Estado. Nesta visão clássica ou utópica de espaço público - ainda não totalmente superada, o mesmo tende a funcionar adequadamente mediante a sustentação deste controle que só pode ser alcançado por meio da racionalidade67 e, principalmente, pela obediência a regras específicas que regulam tanto a ação do Estado quanto dos grupos sociais, bem como a comunicação entre ambos. (ARENDT, 2001; HABERMAS, 2003)

Nos fundamentos desta compreensão tradicional, ideais democráticos, representação de identidades e arranjos espaciais encontra-se combinados em favor da harmonia da vida em sociedade que se une na busca do bem comum68. Apesar de vista com certa desconfiança por inúmeros teóricos do espaço público (MIÈGE, 2004), a associação entre democracia, identidade e espaço permanece fundamental para o entendimento das relações que se estabelecem no cenário urbano hodierno, particularmente, se se quer tratar das relações entre sociedade civil, esfera institucional, patrimônio e meio ambiente.

Entretanto, a complexificação das realidades socioespaciais, a multiplicidade das vivências nos espaços públicos da cidade e a diversidade de interesses tanto institucionais quanto individuais ou coletivos questionam hoje, a capacidade de controle e a pretensa unidade (mediadas pelos canais formais da comunicação política) das relações Estado/grupos sociais e mesmo entre estes últimos.

Tal argumento conduz ao entendimento de que a noção de espaço público político não pode ser dissociada de sua vivência material e simbólica. É neste cenário que se insere a contribuição da análise geográfica, ao tratar das múltiplas possibilidades de experiências e vivências (espacialidades) socioespaciais. A geografia corrobora com o alargamento da compreensão e renova o modo de leitura do espaço público no ambiente urbano mobilizando tanto na sua dimensão conceitual quanto na concreta (prática).

67 Guedes (2010) explica que com a separação entre Estado e sociedade na era moderna, a figura da autoridade

despersonificou-se. Desse fato, segundo a autora, emergiu a necessidade de configuração de uma nova forma de

“representatividade pública - o uso público da razão -, o que implicava comunicar publicamente os pensamentos,

por meio de um discurso racional.” (GUEDES, 2010, p. 2).

68 O sentido de bem comum segundo Arendt (2001), também tem se modificado ao longo do tempo. No período

medieval estava restrito às necessidades fundamentais (interesses materiais e espirituais) do grupo familiar. Neste sentido, cabia a um de seus membros a responsabilidade de prover e manter esse bem comum (de caráter privado). Na modernidade, isso se amplia pra a comunidade. A responsabilidade é dada a cada geração. O bem comum se amplia e, neste sentido abarca o patrimônio, a cultura, o ambiente, as condições essenciais à vida de maneira geral (assume caráter público). Somos responsáveis “não apenas pelos que vivem conosco, mas também com aqueles que aqui estiveram antes e aqueles que virão depois de nós.” (ARENDT, 2001, p.65).

Por esta razão, Lyotard (2005) visualiza um espaço público em crise (no sentido clássico), pois não consegue se realizar enquanto lugar de coesão. Na compreensão do filósofo, esta condição de risco à qual o espaço público estaria submetido, enfraquece a democracia e o próprio Estado uma vez que são abaladas as estruturas e os canais formais de comunicação da reivindicação política que conectam diretamente sociedade e instituições governamentais. Portanto, na visão do referido autor, é imperativo repensar seus fundamentos em prol de sua revitalização69.

Para Berdoulay e Morales (1999), é a crise do espaço público o motivo que, a partir da década de 1980, recoloca em evidencia o debate sobre esta temática. Nas palavras dos autores, “o espaço público suscita um interesse particular desde as últimas duas décadas, respondendo em parte a uma inquietude análoga, que seria aquela de um sentimento de crise nas modalidades de participação dos cidadãos nas decisões da cidade70.” (BERDOULAY e MORALES, 1999, p. 26, tradução nossa).

Os autores mencionados apontam como uma das expressões desta crise, a reduzida participação dos cidadãos na vida política em virtude tanto da acentuada diminuição das oportunidades do contato e da comunicação quanto à mudança de visão da sociedade em relação à importância da política. Neste ponto, é possível identificar no pensamento dos autores, uma concordância com as ideias de Lyotard (2005). Entretanto, os mesmos vão mais além, ao estabelecerem a relação existente entre esta crise da representatividade política e seus reflexos negativos no ordenamento do espaço.

Desse modo, impõe-se à sociedade contemporânea o compromisso de repensar “esse lugar de discussão e de refletir, à luz dos fatores que o impactam e o redefinem sobre os modos como, nele, os atores sociais se organizam e atuam.” (GUEDES, 2010. p.1). Isto significa considerar na discussão dos espaços públicos, abordagens que ultrapassem a exclusividade de seu caráter político a fim de considerá-lo em toda a sua complexidade material e imaterial. O que se expressa através das representações, comportamentos, usos, valores e significados a ele atribuídos pelos sujeitos e grupos sociais que interagem com e nestes lugares.

Então, refletir sobre o espaço público na atualidade, exige antes de tudo uma imersão na trajetória de construção deste objeto social. Muitos estudiosos, notadamente,

69 De fato, as leituras realizadas para composição desta parte do trabalho, revelam uma tendência no campo das

ciências sociais (entre elas a geografia) de renovação do olhar sobre o espaço público, mais precisamente a partir dos anos 1980 e 1990, momento em que Habermas, o maior expoente deste pensamento inicia a revisão de sua teoria original.

70Texto original; “L’espace public, quant à lui, suscite un intérêt particulier depuis une vingtaine d’années,

répondant en partie à une inquiétude analogue, qui serait celle d’un sentiment de crise dans les modalités de

filósofos e cientistas sociais, esforçaram-se em erigir marcos teórico-conceituais, a respeito deste tema. Nesta plêiade de pensadores, destaca-se o filósofo e sociólogo alemão Jüngen Habermas71, um dos principais responsáveis pela teorização acerca do espaço público a quem recorremos, mais detalhadamente, para melhor compreender esta noção, sua importância e os termos sobre os quais se fundam os seus debates na sociedade ocidental.

Sabe-se que a dinamicidade dos processos que conformam a sociedade confere ao espaço público, uma constante reconfiguração que o redimensiona e o (re)funcionaliza em cada momento histórico. Sensível a esta característica de mutação, Habermas revisita sua própria teoria alargando o entendimento sobre a mediação social e seus desdobramentos políticos e comunicacionais no cenário do espaço público urbano que se torna cada vez mais plural.

Completando este pensamento, Oliveira e Fernandes (2011), esclarecem que a produção científica de Habermas apresenta-se dividida em dois momentos distintos. De acordo com os pesquisadores, entre os anos 1960 e 1980 o autor vê com desconfiança o projeto moderno de emancipação do sujeito72 via esclarecimento, tão defendido pelos iluministas. Para o estudioso tal projeto ao invés de proporcionar a autonomia e a libertação dos sujeitos, renova as formas de dominação social por meio da racionalidade técnica e econômica (especialmente da mídia, e dos espaços públicos) e acusa esta situação de promover a decadência da vida pública, consequentemente, do espaço público.

Frente a estas colocações, é primordial esclarecer a origem do espaço público a partir de sua concepção político-filosófica. Para compor sua teoria, Habermas realiza uma incursão na História para justificar, na contemporaneidade, as transformações e permanências dos elementos que o instituem.

Habermas (2003), explica que, muito antes do período moderno, na Grécia e Roma antigas, já era possível identificar nas cidades, experiências que buscavam integrar, através do debate público a relação entre espaço, política e cidadania (mesmo que este estivesse restrito a setores sociais privilegiados). Para o referido autor, tais experiências apresentavam um caráter político e nelas estariam contidas as bases elementares que iriam dar suporte a noção de espaço

71 A teoria do espaço público de Jüngen Habermas serve de base para todos os cientistas sociais que se dedicam a

pensar sobre este objeto social. Mesmo despertando críticas e desconfianças verifica-se que mesmo escolas opostas ao seu pensamento se apropriam de sua teoria dando-lhes direções antagônicas (MIÈGE, 2004). Daí resulta a riqueza e a atualidade de seu pensamento e de sua importante contribuição científica ao pensamento do espaço público. Todos os autores geógrafos que discutem espaço público selecionado para compor esta parte do trabalho se insiram inicialmente nas ideias de Habermas. Por isso, para falar da origem do espaço público recorreremos especialmente às suas contribuições.

72 O pessimismo de Habermas justifica-se por sua filiação científica. O filósofo é discípulo da Escola frankfurtiana

o que justifica sua postura científica crítica em relação à modernidade. Entretanto, nos anos 1980, ao revisar sua teoria instituindo a Teoria da Ação Comunicativa, Habermas rompe com o pensamento frankfurtiano e adota uma postura mais otimista em relação à emancipação do sujeito. (OLIVEIRA e FERNANDES, 2011).

público no período moderno. Todavia, as referências do que se reconhece por caráter político nestes dois períodos histórico e, mais precisamente, nos dias atuais, são muito diferentes, conforme veremos no decorrer deste tópico.

É na Europa do século XVIII, mais precisamente na Inglaterra, que se criam as condições necessárias à origem e formalização da conceituação de espaço público, ou seja, uma esfera pública funcionando politicamente. Tais condições são cunhadas mediante o estabelecimento e o aprimoramento de funções e leis assumidas como responsabilidade do Estado em relação aos seus cidadãos. Estes últimos garantem espaço para discutir, sugerir e pressionar a esfera institucional a assumir o compromisso em prol do atendimento de suas necessidades.

É neste contexto de transformações do Estado e suas responsabilidades frente aos cidadãos que, segundo Habermas (2003), a esfera pública se institui e se formaliza assumindo variações em todo o ocidente. Cria-se um ambiente favorável à emergência de forças cujo interesse é adquirir influência sobre as decisões do poder estatal. Portanto, esta é, na compreensão dele, a

esfera das pessoas privadas reunidas em um público; elas reivindicam esta esfera pública regulamentada pela autoridade, mas diretamente contra a própria autoridade, a fim de discutir com ela as leis gerais da troca na esfera fundamental privada, mas publicamente relevante, as leis do intercâmbio de mercadorias e do trabalho social [...]. (HABERMAS, 2003, p. 42).

Para tanto, os interessados (a burguesia73) recorrem ao apoio de intelectuais com o objetivo de legitimar suas reivindicações neste novo fórum. Essa práxis, fortemente ancorada

na “imprensa de opinião74”, (MIÈGE, 2004) e praticada intensamente nos cafés e salões, locais

de reunião do público pensante, alcança as assembleias dos Estados e as transforma no parlamento moderno, processo que se estende ao longo de todo o século XVIII (HABERMAS, 2003).

Assim, os burgueses, inicialmente utilizando-se dos jornais como principal meio de divulgação de suas ideias e reinvindicações, garantem a ascensão de uma esfera pública que mantém a característica de exclusão de setores sociais menos favorecidos tanto do ponto de

73 Poderosa economicamente, a burguesia se coloca em oposição ao Estado e reivindica participação no poder

político. Neste projeto, o foco é o atendimento aos seus interesses particulares. Desse modo não há espaço para o debate sobre as necessidades das demais classes sociais.

74 De acordo com Miège (2004), é em torno da imprensa de opinião que se organizam os primeiros espaços públicos

nas nascentes sociedades democráticas, em outras palavras, a esfera pública liberal baseadano diálogo crítico entre os indivíduos que se posicionavam contrários à política de segredo do Estado. Este tipo de imprensa, (de característica artesanal e estilo polêmico, cujas consequências obrigam seus leitores a assumir os custos dos constantes processos judiciais resultantes das opiniões publicadas), segundo o autor, nasce na Inglaterra e se dissemina por toda parte, em meados do século XVIII apesar da constante oposição da maioria dos governos.

vista econômico como intelectual. Habermas não observou este caráter excludente da esfera pública burguesa. Advém daí, muitas das críticas direcionadas à sua teoria.

O sociólogo americano Jonh B. Thompson (1995), esclarece que, ao excluir de sua tese os conflitos entre a burguesia e os movimentos sociais populares, por exemplo, Habermas deixou escapar uma importante oportunidade de observar outras formas de expressões públicas (igualmente relevantes para a formação da esfera pública) que estavam presentes na Europa no mesmo período analisado pelo filósofo para propor sua teoria (séculos XVII ao XIX). Segundo o referido autor, tais movimentos eram excluídos da sociabilidade burguesa, e em muitos casos a ela se contrapunham.

A comunicação, como já apresentada, é condição capital para o estabelecimento e funcionamento do espaço público. Este último, demostra Habermas (2003), vai assumindo novas configurações na medida em que muda o perfil e, consequentemente, o papel atribuído à primeira. Neste sentido, o modelo de esfera pública burguesa deixa de existir quando o setor privado passa a se confundir com o setor público, ou seja, quando a burguesia consegue o poder político que almejava.

Isso está preponderantemente, ligado aos modelos de comunicação que, por seu turno, refletem as mudanças ocorridas na própria organização da sociedade. Habermas (2003) e Miège (2004) identificam e discutem quatro modelos comunicacionais que, de forma muito clara, demonstram as principais transformações no espaço público, a saber:

A imprensa crítica do século XVIII, modelo de comunicação original do espaço público colocada a serviço exclusivo de uma classe social ascendente, perde espaço (mas não é totalmente substituída) para a imprensa comercial, no século posterior XIX.

 O modelo de imprensa comercial difere muito do anterior. Dentre outras características: já não tem o tom crítico e assume o formato da difusão de informação; adquire o caráter de atividade industrial voltada para o lucro; instaura-se uma relação mercantil entre os jornais e seus leitores, a liberdade de imprensa é garantida pelo poder público; torna-se o eixo central da opinião pública através da manipulação e da propaganda interpondo-se entre os leitores- cidadãos que são mantidos afastados e os instrumentos político-institucionais que ditam a opinião pública.

 O modelo das mídias audiovisuais de massa, que ganha destaque em meados do século XX, mantém-se fortemente dominante. Promove o aprimoramento da publicidade comercial e todas as suas nuances. Privilegia o entretenimento, o

espetáculo e a representação para difundir informações e orientar a opinião pública enquanto negligencia o espaço da argumentação e da expressão.  Por fim, ainda no século XX, mais precisamente, a partir da década de 1970,

emerge o modelo das relações públicas ou a comunicação generalizada, ou ainda, a comunicação social. Aqui se inscrevem, por exemplo, a internet e as redes sociais. Este novo perfil comunicacional adota técnicas de comunicação e gestão tanto social quanto de tecnologias da informação muito aperfeiçoadas. Sedução e fluidez tornam-se poderosos desencadeadores de mudanças sociais e culturais conduzidas por grandes corporações econômicas e instituições políticas (partidos e Estados) que se dirigem aos indivíduos/consumidores/cidadãos com o objetivo de conseguir adesão dos mesmos a temas de interesse privados, travestidos de interesse público. Miège (2004) vê, neste modelo, elementos que reafirmam e fortalecem a dominação da esfera pública por segmentos econômicos e institucionais.

As mudanças desencadeadas no espaço público a cada ascensão de um novo modelo, dizem respeito, principalmente, à redução ou “o afastamento da participação no cenário público.” (MIÈGE, 2004, p. 7). É esse contexto que melhor esclarece o movimento do espaço público na modernidade. Entretanto, nos dias atuais, outros aspectos solicitam evidência nesta trajetória, entre eles, a própria comunicação que (nos termos em que foi apropriada e regeu o espaço público), Habermas acusava de ser um poderoso e perverso instrumento de administração da cultura.

É justamente na ampliação do acesso aos meios de comunicação por intermédio da diversificação e popularização das tecnologias que podemos encontrar a obstinação, a persistência e a ampliação do espaço público. Especialmente, a partir da emergência do quarto modelo comunicacional, alargam-se as possibilidades de interação entre as pessoas. E mesmo que esta interação se faça em um campo muito mais virtual do que no contato pessoal direto, é possível visualizar o surgimento de múltiplos espaços onde o debate, a opinião e as ideias de cada um podem ser compartilhadas e confrontadas.

Está-se então, diante de um novo entendimento de espaço público que mesmo mantendo as contradições parece apontar para uma retomada da participação dos cidadãos nos assuntos de interesse público. Não se deve esquecer, porém, do alerta pertinente de Miége (2004): esta participação pode em muitos casos ser dirigida por setores sociais hegemônicos.

Todavia, essa nova característica, certamente não reduz a importância do espaço público, ao contrário, requalifica-o.

Por isso mesmo, a partir dos anos 1980, Habermas percebe a necessidade de redigir um novo espaço público (MIÈGE, 2004) e adota uma postura mais otimista em relação à modernidade e seu projeto de emancipação do sujeito. O autor, a partir deste momento, passa a edificar seu pensamento sobre o paradigma da comunicação, percebendo a partir de então, “a sociedade como uma permanente tensão entre o mundo sistêmico [compreendido pelo aparato econômico e institucional] e o mundo da vida [composto pela esfera da vida privada e associativa].” (OLIVEIRA E FERNANDES, 2011, p. 117).

Sob este novo olhar, Habermas (2003) investe numa versão de espaço público, menos normativa que a desenvolvida por ele na obra inaugural de sua teoria: “Mudança estrutural da esfera pública” lançada, em 1962. Desta vez, compreende o espaço público que escapa das perspectivas (sedutoras) do Estado-Providência considerando mais as mediações sociais da comunicação (MIÈGE, 2004), do que aqueles referentes às mídias colocadas a serviço de uma elite que controla tanto o espaço público quanto a própria sociedade.

Entretanto, Habermas [...] não abandona “a razão “sistêmica” no funcionamento das mídias (que ele, neste momento, tende a tomar como determinante), ao proveito da única razão “comunicativa.” (MIÈGE, 2004, pag. 4) É assim que ele lança a teoria da ação comunicativa”. Nela ele analisa os processos sociais que são capazes de interferir e transformar os padrões hegemônicos da sociedade, entre eles o acesso à riqueza, os estatutos jurídicos e o próprio padrão cultural (HABERMAS, 1997).

Diferenciando o mundo sistêmico do mundo da vida e suas distintas formas de comunicação, Habermas explora a imbricação dos mesmos que ocorre por meio das diversas esferas públicas contemporâneas. Do mundo da vida emanam as necessidades cotidianas dos sujeitos sociais. A comunicação constitui então o canal pelo qual os sujeitos fazem suas reivindicações ao mundo sistêmico com o objetivo de transformar suas realidades sociais.

Portanto, de acordo com Habermas (1997), o mundo da vida abriga a possibilidade da emancipação, da construção de solidariedades e identidades plurais e, por isso mesmo, é capaz de resistir às investidas do Estado e do mercado. É a esfera da ação política por natureza, em oposição ao conformismo, conforme dito por Arendt (2001) engaja os sujeitos individuais e coletivos na luta em prol de um mundo comum.

A esfera pública, como sinônimo de mundo comum, explica Arendt (2001) e Berdoulay (1997), pressupõe a presença do outro; coloca-nos na companhia uns dos outros sem, contudo, nos impelir ao conflito. É um espaço aonde a argumentação conduz a deliberação, o

esclarecimento das contendas na tentativa do entendimento que seja bom para todos. Esta é uma visão ideal, por vezes, utópica de esfera pública. Na realidade, o espaço público contemporâneo pode ser comparado a um

campo de interesses e de disputa, onde conflito e [...] negociação são iminentes. A dicotomia conflito X negociação está posta em um mundo plural em saberes, mediado e impactado pelas tecnologias da comunicação, onde surgem novos espaços participativos, novos mecanismos de controle e novas vozes. (GUEDES, 2010, p. 11- 12)

É fundamental estimular e fortalecer os canais de comunicação da esfera pública para que as vozes e os reclames da vida cotidiana possam alcançar com maior eficácia o mundo sistêmico e vice-versa. Esta dificuldade de trocas comunicacionais é marcante nas questões que dizem respeito ao trato dispensado pela sociedade e o poder público em relação ao patrimônio ambiental urbano, conforme veremos.

Tanto do ponto de vista qualitativo quanto quantitativo, os sítios lacustres urbanos encontram-se imbuídos de uma riqueza imensurável de referenciais históricos, culturais, geográficos, ambientais e políticos. Tal característica pode-se afirmar, é um dos aspectos que os credenciam como significativos espaços públicos e lugares de patrimônio da cidade e da população fortalezense.

Por esta razão, é fundamental identificar e utilizar a capacidade comunicacional da