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Seguindo uma tendência mundial, em Fortaleza, o patrimônio urbano institucionalmente reconhecido é constituído quase que exclusivamente, por bens que integram a categoria do patrimônio material. É particularmente marcante o predomínio das construções histórico-arquitetônicas.

A supremacia do patrimônio arquitetônico pode ser rapidamente constatada na lista dos bens tombados e registrados em Fortaleza nas esferas de proteção federal, estadual e municipal. Dos sessenta patrimônios dispostos, constam apenas dois bens imateriais (Registro da Igreja de São Pedro no Livro de Lugares e Registro da Festa de São Pedro no Livro das

Celebrações), dois bens lacustres (conforme já relatado, são os espelhos d’água das lagoas de Messejana e Parangaba), um bem fluvial (o riacho Papicu e suas margens) e uma área verde (o Bosque do Pajeú-Bom Delgado) estes últimos protegidos por meio de tombamentos e registros municipais (FORTALEZA, 2013).

No âmbito nacional das políticas públicas de gestão do patrimônio Scifoni (2008), afirma existir um claro direcionamento à promoção dos bens reconhecidos pela UNESCO. De acordo com a referida autora, a Empresa Brasileira de Turismo (EMBRATUR), mantém para estes bens um programa específico de divulgação no exterior. Por outro lado, a autora denuncia uma resistência na divulgação dos bens tombados nas esferas nacional, estadual e local, estes, segundo ela, são encarados com desconfiança, como sinônimo de restrição do uso dos bens.

O título internacional, pelo status que representa, expande a possibilidade do acesso ao mercado turístico. A chancela da UNESCO é uma garantia, aos olhos da indústria do turismo cultural e de seus consumidores de que o patrimônio está em condições adequadas à visitação. Nas escalas locais, a exemplo de Fortaleza, o patrimônio pode não se inserir a contento na esfera do turismo cultural. Isso porque as condições para sua gestão e conservação são muito mais complicadas. Faltam programas de incentivo à visitação, sobram desinteresse e negligência na conservação. É o que mostra uma pesquisa realizada por Garcia (2012).

Às vésperas do início da alta temporada turística 2012/2013 na capital cearense, Garcia realizou um levantamento nos postos de atendimento e informações turísticas mantidas pela Secretaria do Turismo do Estado do Ceará (SETUR-CE) e Secretaria de Cultura de Fortaleza (SECULTFOR). Ao solicitar sugestões de patrimônios históricos a serem visitados na cidade, a autora constatou a ineficiência do serviço e o despreparo dos funcionários que indicaram locais sem programação fixa e até fechados, locais que desconheciam o nome, passando referências vagas e até locais que não fazem parte do patrimônio da cidade. Na segunda parte da pesquisa, a autora visitou onze bens tombados (de diferentes esferas de proteção) e constatou o abandono, a insegurança, e necessidade de recuperação e manutenção na maioria.

De acordo com Moscoso (2012), nos últimos oito anos, apenas quatro bens históricos foram recuperados: o Passeio Público, o Mercado dos Pinhões, o Palácio do Bispo (Paço Municipal) e o Estoril. Como o município depende do apoio financeiro do Governo Federal, os recursos para a promoção de intervenções no patrimônio urbano precisam ser destinados, a partir do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), às Cidades Históricas e, Fortaleza está contemplada. Se a gestão do patrimônio cultural edificado urbano se mostra deficiente, a situação do patrimônio lacustre é muito mais complicada, para não afirmar sua

completa inexistência. A única intervenção da gestão pública na manutenção destes bens é a limpeza dos espelhos d’água.

Desprezando o potencial do patrimônio cultural e sem o incentivo dos órgãos responsáveis e das próprias agências de turismo que respondendo a interesses meramente comerciais exploram roteiros que privilegiam os lugares de compra, Fortaleza, como cidade turística, projeta-se nos cenários regional, nacional e internacional, por meio da imagética e do imaginário sol e mar.

A cidade litorânea revela o litoral-mar-praia aos que vem de fora e esconde deles - e da própria população local - o litoral das lagoas. Deste modo, é importante discutir porque esta cidade que também é lacustre banaliza seu potencial turístico negando toda uma rica simbologia das águas e exacerba a turistificação do mar? As lagoas são importantes espaços que marcam a configuração da interiorização do tecido da cidade e, no que diz respeito a esta presença, o planejamento urbano foi sempre ausente e tomado por certo desprezo frente às possibilidades ambientais e de lazer destes bens ambientais. Cabe refletir para compreender que representação patrimonial simbólica está posta para esta problemática de Fortaleza das lagoas para entender o porquê de tanta desvalorização de outros espaços aquáticos que estão na mesma linha de amenidades e belezas estéticas oferecidas pela beira-mar?

A opção da cidade em promover ostensivamente o turismo marítimo desconsidera como alternativa aos que vêm de fora estes espaços lacustres. Mas, existe uma parte significativa da população local que valoriza as lagoas, muito em função de não poder residir à beira mar, o que os leva a buscar o potencial de amenidades paisagísticas que estes lugares oferecem.

Da mesma forma, há uma quantidade significativa de sujeitos sociais que ignoram e desprezam estes sítios, resultado do tratamento historicamente dispensado a eles no (des) ordenamento urbano. Esta polaridade, manifestada pelo poder de atração e repulsão, carrega em si potencialidades que podem ser tanto positivas quanto negativas e que precisa ser equilibrada se pretende tornar-se um patrimônio diferencial para a cidade. As lagoas revelam os conflitos que a cidade enfrenta nas tramas complexas das relações socioambientais e culturais urbanas, guardam e contam a história, as memórias da cidade e de sua gente, dentre outras características socioculturais, econômicas e ambientais expressas e refletidas em seus espelhos.

Verdadeiros patrimônios ambientais, mesmo que poucos estejam institucionalizados, são acima de tudo, patrimônios sociais e, portanto, indispensáveis na abordagem educacional escolar como elemento fundamental no reconhecimento da

“geograficidade” (DARDEL, 2011) urbana, consequentemente, na discussão sobre patrimonialidade a partir da valorização das práticas simbólicas e das representações sociais.

A ausência ou a fragilidade da promoção destes patrimônios, seja por meio do desenvolvimento de projetos de educação institucional ou escolares entre os grupos sociais locais, é passível de reflexão e crítica. Os poucos bens que recebem certa atenção do poder público na capital cearense, são os inseridos nos roteiros dos agentes de viagens. Neste sentido, Leite (2007), faz uma importante observação ao argumentar que

as demandas empresarias da indústria do turismo não subvertem apenas a lógica da seleção dos bens a ser preservados, evidenciando apenas aqueles potencialmente bons para o retorno financeiro. Pelo consumo massificado, reforçam exatamente os aspectos mais monumentais desses bens, alienando-os dos seus significados históricos locais, construídos pelas práticas cotidianas daqueles que com eles sobrevivem. Mais do que uma solução equivocada, é a reincidência de um equívoco, ou melhor, de uma orientação política que quase sempre negligenciou a participação dos usuários mais diretos do patrimônio edificado. (LEITE, 2007, p. 60)

A exposição do patrimônio a serviço do turismo faz com que a patrimonialização seja privilegiada em detrimento da patrimonialidade. O peso dos vetores econômico e político- turístico (OLIVEIRA, 2011) marca este tratamento desigual. É isto que faz com que determinados conjuntos patrimoniais ganhem evidência ao serem incorporados nos roteiros turísticos enquanto outros permanecem na invisibilidade das políticas públicas patrimoniais e econômicas, mas todos, invariavelmente, ficam longe das políticas educacionais.

Por esta razão, estes espelhos d’água, passivos, tranquilos, disciplinados pela própria dinâmica social, enquanto bens ou patrimônios ambientais constituem elementos fundamentais para se refletir a respeito das representações que os grupos sociais têm sobre seu ambiente. Deste modo, podem ser tomados como instrumentos capazes de evidenciar uma alternativa de entendimento do patrimônio ambiental urbano pelos valores qualitativos presentes nas dinâmicas relacionais entre os sujeitos sociais e seus ambientes. São estas relações que dão vitalidade a estes espaços e que integram num só movimento fenômeno, objeto e sujeito social (MOSCOVICI, 2011) tornando-os uma expressão fenofísica (BERQUE, 1990).

Este entendimento deve nortear o debate a respeito da problemática do patrimônio lacustre fortalezense para que haja o reconhecimento e a valorização dele como potencial turístico significativo, o que não acontece atualmente, pois ele não está incluído nos roteiros de visitação oferecidos aos turistas que chegam à cidade. Muito menos, são desenvolvidos guias alternativos para visitação pelos próprios fortalezenses, nem mesmo compõem rotas de estudos e visitação voltada ao público escolar, por exemplo. A priori, esta seria uma das formas de

diversificar os espaços de visitação da cidade e, certamente constituiria um diferencial no cenário do turismo cultural urbano.

Mas, se estes bens não são prioridade enquanto marca da identidade da cidade, pelo menos aos olhos dos gestores e planejadores urbanos e seus projetos turísticos, faz-se necessário entender como os mesmos são notados e vivenciados pelas populações locais. Se os planos de valorização do patrimônio histórico, com vistas ao turismo convencional, criam sérios problemas para a população residente, um projeto de valorização do acervo das lagoas deve fugir desta armadilha. Ele deve partir primeiro da realidade comunicada nestes sítios para perceber as diversas dinâmicas aí estabelecidas e entendê-los com espaços públicos vivos, plenos de experiências e dialogar com tais tentativas sem a pretensão de ser, excessivamente, impositivo.

Para Scifoni (2008) é inquestionável a importância das ações internacionais para proteção da evolução da natureza no planeta, mas para a autora “é na escala local que se pode encontrar o patrimônio como expressão das práticas sociais, um patrimônio reivindicado por sua função ligada à memória e à identidade coletiva ou como busca de qualidade de vida.” (SCIFONI, 2008, p. 33).

O desafio está posto no jogo aberto do reconhecimento, promoção, valorização e conservação do patrimônio ambiental urbano. Neste processo, a educação constitui um importante aliado. Por essa razão, a escola, lugar social privilegiado da comunicação, pode instaurar uma alternativa à reflexão a partir do entendimento das relações e representações comunicadas pelos grupos sociais, que interagem na escola (alunos, professores, gestores escolares, comunidade local), em suas interrelações com os patrimônios ambientais lacustres localizados no entorno dos estabelecimentos escolares.

Isto atesta que a educação pode oferecer a possibilidade de discussão e compartilhamento do conhecimento a respeito da complexa temática patrimonial. A população deve ser constantemente envolvida neste debate, a fim de participar da construção dos significados do patrimônio no ambiente urbano. Tal empreendimento deve ser conduzido tanto nos espaços formais de educação quanto nos informais. Por isso, é fundamental o desenvolvimento de políticas que priorizem o caráter pedagógico do patrimônio, algo até agora inexistente, em Fortaleza.

O patrimônio de uma cidade é, primeiramente, dos que nela vivem e a compartilham, mas é também dos que estão de passagem atraídos pela consumação dos bens patrimoniais ou não. Neste sentido, todos os sujeitos sociais podem ser importantes aliados na gestão e conservação destes bens. Sensibilidade é o termo capaz de guiar à instrumentalização

da alteridentidade. Isso porque a identidade no contexto pós-moderno tem de, indispensavelmente, ser vista como um momento transitório de enfrentamento e/ou resposta a uma necessidade material e simbólica. A questão patrimonial coloca-se como um meio de projetar essa contingência no cenário territorial urbano de nosso lugar-mundo. Antes de controlar usos e manifestações é preciso incentivar a vivência diária desses patrimônios e isso inclui também a visitação turística. Por ser dos cidadãos é que o legado patrimonial deve ser pensado a partir de seu ponto de vista, mas sem excluir as intervenções da gestão pública, posto que também é necessária para manter as condições essenciais e a plena vivência destas

paisagens-ambiência.

Deste modo, pode-se pensar em um patrimônio ambiental lacustre urbano que seja sinônimo de espaço público pleno em sua dimensão social, portador do imaginário, da materialidade e dos sentidos que lhes são socialmente atribuídos no contínuo processo de (re) elaboração e (re)apropriação dos mesmos. Eis um dos sentidos possíveis de uma identidade patrimonial urbana: a valorização do patrimônio como bem comum capaz de fortalecer o exercício da cidadania pela promoção de um espaço de vivência, da inclusão social e respeito ao outro, ao ambiente e ao patrimônio.

Mas é preciso lembrar que esta valorização também faz dele “capital”. Portanto, pensar o patrimônio ambiental urbano como bem comum, não significa ignorar seu uso enquanto capital, visto que, defende-se aqui a multiplicidade de aproximações e vivências destes bens como forma de torná-los, permanentemente, espaços públicos onde as experimentações são simbólica e materialmente realizadas.

3 AMBIENTES LACUSTRES URBANOS: ESPAÇOS PÚBLICOS PATRIMONIAIS