2. SUÇ TEORĠLERĠ
3.4. TOPLUM DESTEKLĠ POLĠSLĠK MODELĠ ĠLE SUÇ ÖNLEME ….48
Fabro tem razão em diferenciar a noção de transcendental em Tomás de Aquino e aquilo que posteriormente será compreendido no contexto da filosofia moderna, a partir da reviravolta de Kant437. Esta questão é fundamental para sua crítica a Rahner. A mudança do caráter de “transcendentalidade” do ente pela mediação subjetiva, em Karl Rahner, já não poderia ser identificada por “transcendental” como uma das noções primeiras da doutrina clássica dos transcendentais, tal como ocorre em Tomás de Aquino.
A doutrina dos transcendentais cumpre um papel de importância fundamental na metafísica de Tomás de Aquino438. No século XX, este ponto foi destacado sobretudo por Jan Aertsen, analisando o pensamento transcendental em Sto. Tomás no contexto da filosofia medieval439.
O termo “transcendental” é geralmente tomado no sentido proposto a partir de Kant. Mas Kant reconhece que essa noção tem já uma longa tradição, falando expressamente na
437
Cf. “Il trancendentale moderno (Kant-Heidegger-Rahner) e il transcendentale classico (san Tommaso)”. In: C. FABRO, SR, p. 87-97.
438
Na enumeração tradicional, as noções transcendentais são as seguintes: ens, unum, verum, bonum. Em De
veritate 1, a 1, Tomás de Aquno acrescenta as noções de res e aliquid.
439
Cf. J. AERTSEN, Medieval Philosophy and the Transcendentals, op. cit. Ver também, do mesmo autor, “What is First and Most Fundamental? The Beginnings of Transcendental Philosophy”. In: Miscellanea
Mediaevalia 26 91998) 177-192. Houve, no entanto, estudos anteriores a Aertsen. Ver, por exemplo, S. S.
BRETON.“L’idée de transcendental et a la genèse des transcendentaux chez Saint Thomas d’Aquin“. In: J. JOLIF et al. (Orgs.). Saint Thomas d’Aquin aujourd’hui. (Recherches de Philosophie 6). Paris: Desclée De Brouwer, 1963, p.45-74; H. KNITTERMEYER, Der Terminus Transzendental in seiner historischen
Entwicklung bis Kant, Marburg, 1920; G. SCHULEMANN, Die Lehre von den Transzcendentalien in der scholastischen Philosophie (Forschungen zur Geschichte der Philosophie und der Padagogik, vol. IV, 2),
Leipzig, 1929; H. POUILLON, “Le premier traité des propriétés transcendantales: La ‘Summa de bono’ du Chancelier Philippe”. In: Revue néoscolastique de philosophie, 42 (1939) 40-77.
Crítica da Razão Pura (B 113) da “filosofia transcendental dos antigos”, representada pela proposição dos escolásticos: quodlibet est unum, verum, bonum. Entretanto, em Kant, a doutrina dos transcendentais é subvertida conjuntamente àquilo que será a “reviravolta copernicana” do pensar. Por “transcendental” Kant entende todo conhecimento que em geral se ocupa não tanto com os objetos, mas com as condições de possibilidade de constituição dos objetos enquanto objetos, através da mediação da subjetividade e na medida em que tal conhecimento seja a priori. Segundo Kant, a “filosofia transcendental dos antigos” supõe ingenuamente que poderíamos obter predicados transcendentais das coisas, enquanto na verdade não seriam senão “exigências e critérios lógicos de todo conhecimento das coisas em geral” (B 114). Para Aertsen, a perspectiva kantiana afetou fortemente o estudo do pensamento transcendental como foi proposto na Idade Média440. Ora, autores como Tomás de Aquino e Duns Scot desenvolveram diferentes noções de transcendentalidade que não podem ser confundidas. Com efeito, não seria historicamente correto conceber em bloco o pensamento transcendental dos escolásticos, tal como sugere a formulação kantiana. A leitura de Kant acerca da doutrina dos transcendentais já ocorre segundo o clima espiritual moderno, e a concepção de “transcendental” que ele empreende é “lógico-transcendental”. J. Aertsen tem razão, portanto, quando pretende distinguir a doutrina medieval dos transcendentais do que será depois proposto por Kant441. Na verdade, seria mesmo possível considerar a própria concepção de filosofia medieval de acordo com um certo modo transcendental de pensar. Ainda de acordo com Aertsen, no caso específico de Tomás de Aquino, sua doutrina dos transcendentais foi frequentemente negligenciada por seus intérpretes442.
Mesmo em Cornelio Fabro este tópico foi tratado apenas de forma secundária, sobretudo do ponto de vista da análise da formação do conceito de esse em Tomás de Aquino443. A discussão sobre o estatuto de “transcendental” em Sto.Tomás tem por isso uma história relativamente recente, se comparada à recepção do pensamento scotista em torno
440
Cf. J. AERTSEN, Medieval Philosophy and the Transcendentals, op. cit., p. 22.
441
Para uma tentativa de reconstrução da doutrina dos transcendentais do ponto de vista do “tomismo transcendental”, ver E. CORETH. Metaphysik, op. cit.p. 323-396.
442
Cf. J. AERTSEN, Medieval Philosophy and the Transcendentals, op. cit., p. 23. Aertsen não desconhece os estudos mencionados anteriormente. Permaneceria, porém, a tese: “A new history of transcendental thought in the Middle Ages is required”.
443
dessa mesma questão444. Ora, Aertsen pretende mostrar que há uma clara relação entre a doutrina dos transcendentais e a metafísica de Tomás de Aquino445. É verdade que Sto. Tomás nunca escreveu um tratado em separado sobre os transcendentais. Mas este fato não o distingue de seus predecessores ou contemporâneos. Por si a ausência de um tratado específico sobre os transcendentais entre seus escritos não significa que esse tema lhe seja menos importante. Também a problemática em torno da noção metafísica de participação de Tomás de Aquino não resultou de um tratado à parte. Mas é possível reconstruir os elementos essenciais da doutrina da participação em Sto. Tomás, como demonstraram os estudos de L. B. Geiger e de C. Fabro446. De forma análoga, no que se refere à doutrina dos transcendentais, as noções de ente, uno, verdadeiro e bom são examinadas em diversos lugares na obra de Sto. Tomás. Contudo, três textos apresentam essa doutrina em sua unidade: (1) In I Sent., d. 8, q. 1, a. 3; (2) De veritate, q. 1, a. 1; q. 21, a.1. Dentre esses “textos básicos”, De veritate, q. 1, a. 1 é certamente o mais completo e o que de melhor podemos reter do pensamento transcendental de Tomás de Aquino447.
444
Para L. Honnefelder, por exemplo, a doutrina dos transcendentais ocuparia uma parte insignificante no todo da metafísica de Tomás de Aquino. Cf. L. HONNEFELDER, “Die Rezeption des scotischen Denkens im 20. Jahrhundert. In: Theologische Realenzyklopädiel IX (1982) 233 apud J. AERTSEN, Medieval Philosophy
and the Transcendentals, op. cit., p. 23, n. 62. É importante observar que Sto. Tomás não utiliza o termo
“transcendental” e sim outras expressões como: transcendens, transcendere, de transcendentibus etc.. Cf. A. KREMPEL, La doctrina de la rélation chez saint Thomas d’Aquin: exposé historique et systématique, Paris, 1952, p. 66.
445
Cf. J. AERTSEN, Medieval Philosophy and the Transcendentals, op. cit., p. 114.
446
Ver os textos já mencionados anteriormente: C. FABRO. La Nozione Metafísica di Partecipazione secondo S.
Tommaso d’Aquino. op. cit.; L.-B. GEIGER. La Participation dans la Philosophie de S. Thomas d’Aquin.
2.ed. Paris: J. Vrin, 1953. Ver também L. J. ELDERS. La Métaphysique de Thomas d’Aquin dans une
Perspective Historique. op. cit., p. 248-262; R. te VELDE. Participation and Substantialy in Thomas Aquinas, op. cit.
447
Para uma referência direta ao texto De veritate, q. 1, a. 1, ver C. FABRO, Partecipazione e Causalità