Apesar de Engels apresentar em cartas diversas posições que podem ser circunscritas ao próprio diálogo com as lideranças social-democratas, Engels opta neste período por estratégias de argumentação buscando influenciar contatos com quem tem mais familiaridade, como sugere Hal Draper 313 e evitando o confronto direto. É possível notarmos como já se apresenta para Engels uma crítica de nova natureza e mais contundente sobre o desenvolvimento do militarismo na Europa, como presente na introdução de 1888 do livro de Sigismund Borkheims Zur Erinnerung für die deutschen Mordspatrioten. 1806-1807 (em memória dos patriotas alemães mortos 1806-1807) onde apresenta um diagnóstico que o acompanha em outros textos sobre a possibilidade de uma destrutibilidade crescente das guerras, modificando o horizonte político de ação.
E finalmente, a única guerra deixada para a Prússia-Alemanha travar será uma guerra mundial, uma guerra mundial que, além disso, estenderá a violência para um nível inimaginável até então. Oito milhões de soldados irão se matar uns aos outros e no processo deixarão a Europa arrasada como nenhuma nuvem de gafanhotos seria capaz. As depredações da Guerra dos Trinta Anos, condensadas em três ou quatro anos e espalhadas por todo o continente. Fome, doenças, a queda universal na barbárie, tanto os exércitos quanto o povo, na sequência de um agudo e irrecuperável deslocamento de nosso sistema artificial de comércio, indústria e crédito, terminando nem bancarrota universal, colapso dos velhos estados e sua convencional sabedoria política até o ponto em que as coroas rolarão nas valetas às dúzias, e ninguém estará por perto para pegá-las, a absoluta impossibilidade de antever como isto tudo acabará e quem emergirá como vitorioso da batalha.Somente uma consequência é absolutamente certa: exaustão universal e a criação de condições para uma vitória definitiva da classe trabalhadora. [...]Essa é a perspectiva para o momento em que o desenvolvimento de uma superação mútua em armamentos chegará até nós, levada ao extremo e finalmente traz seu fruto inevitável. É nisto onde, Caros Senhores príncipes e estadistas, em sua sabedoria, vocês colocaram a velha Europa. E caso nada mais é deixado para começar a última grande dança da guerra - para nós será o bastante. A guerra pode nos deixar para segundo plano por um tempo, alguns de nós já conseguimos uma posição conquistada. Mas se vocês têm desencadeado as forças que vocês em seguida, não terão forças para conter, as coisas podem tomar seu curso: no fim da tragédia você
313 DRAPER, Hall; HABERKERN, E. Karl Marx`s Theory of Revolution. Vol.5: War & Revolution. New York, NY: Monthly review Press, 2005, p.161-164.
estará arruinado e a vitória do proletariado será alcançada ou então, será inevitável.314
Cabe observar que se o horizonte de ação é novo, aparentemente, a estratégia de ação política para desarmar-se essa potencialidade destrutiva representada pelos estados voltados à guerra baseava-se na velha solução revolucionária da milícia. Assim, os exércitos regulares (ou fixos) deveriam se transformar em um tempo razoável em uma milícia baseada no armamento do povo (Volksbewaffnung), o que é um aparente retorno à perspectiva de liberais pacifistas e socialistas (com raras exceções como Proudhon315) quanto à forma ideal de organização militar a ser adotada. No entanto, esta proposta apresenta condições articuladas com o momento político, pois se daria, de um lado, diminuindo a influência política de um Estado centralizador e, deste modo, permitindo que não se reprimisse a própria população em caso de lutas políticas em direção a reformas e, de outro, abrindo a possibilidade de uma ação revolucionária no campo socialista segundo modelos clássicos como o blanquista (com grupos previamente organizados para situações revolucionárias) em casos de golpe de estado, pois era constante o clima da implantação de um estado de sítio antissocialista, não apenas de iniciativa prussiana, mas contando com o apoio de diversos partidos liberais e burgueses.
A milícia se apresentaria assim como uma forma militar que possibilitaria a manutenção de um corpo armado que pudesse defender o próprio país sem a necessidade de adotar um traço de crescimento militar. De outro modo, permitiria a anulação da possibilidade de um corpo militar distinto do civil, evitando golpes de Estado e, do mesmo modo, mudando o destino de parte importante dos gastos públicos, assim evitando a formação de grupos de interesse que visassem um crescimento de gastos militares ligados a interesses militares expansionistas, adequados ao ciclo de expansionismo nacionalista na busca constante de acumulação de poder político, bens estratégicos e controle territorial, a partir do qual toda a estrutura do estado foi adequada.
Agora o moderno aspecto revolucionário do sistema militar Prussiano consiste
314 Einleitung zu Sigismund Borkheims Broschüre “Zur Erinnerung für die deutschen Mordspatrioten.
1806-1807.” In: Karl Marx/Friedrich Engels – Werke vol. 21. Berlim/DDR: Dierz Verlag, 1962, p.350-1.
315 Pierre-Joseph Proudhon em A Guerra e a Paz (La Guerre et la paix, recherches sur le principe et la constitution du droit des gens de 1869) defende que o conflito seria algo intrínseco às compreensão das relações humanas, portanto, onde “a força e a guerra, longe de serem as fontes de todos os males e o contrário da ordem e da ustiça, eram suas próprias forjadoras,”Thiago Rodrigues. A guerra, condição do homem: nota sobre 'a guerra e a paz' de proudhon. Em: Verve, n. 19 (2011), p.20. Perspectiva distinta de outros socialistas que despertou discussões inclusive entre seus partidários. No entanto, cabe observar que a guerra, no sentido de Proudhon, significava uma forma de conflito distinta da guerra entre estados, vista como fenômeno de natureza distinta desta outra, ligada ao conflito como forma geral das relações sociais, o que leva Thiago Rodrigues a uma comparação com Nietzche e Foucault.
precisamente na demanda que a força de cada homem capaz fisicamente possa ser colocada em serviço para a defesa nacional por tanto tempo quanto possa ser capaz de carregar armas. E a única coisa revolucionária que pode ser discernida em todo o desenvolvimento militar desde 1870 é o único fato de que ele tem sido considerado necessário – algumas vezes com alguma relutância – atualmente incrementando a realização desta demanda, que até agora só tem sido preenchida na fantasia chauvinista. Nem o tempo de serviço obrigatório, nem o alistamento de todo homem capaz fisicamente pode ser chamado nesta questão atualmente, ao menos de todos os alemães e menos ainda o partido socialdemocrata, que, bem ao contrário, é a única força capaz de também colocar esta demanda totalmente em prática. 316
De modo resumido, como intervenção parlamentar direta à Socialdemocracia, a proposta de Engels se resumia à luta pela diminuição do tempo de serviço regular (sob a bandeira In der Fahne) através das seguintes propostas: “regulação internacional pelas grandes potências do continente do tempo máximo de serviço ativo sob uma bandeira para todos os exércitos do serviço, inicialmente de dois anos317 [...] e, tanto quanto possa concernir à minha pessoa – com a ressalva de uma redução ainda maior tão logo as pessoas sejam consentidas da possibilidade, e com um sistema de milícias como objetivo último. E eu mantenho que a Alemanha em particular é a mais capaz de realizar esta proposta, e a Alemanha tem a ganhar mais do que qualquer um realizando-a, mesmo se ela for rejeitada.”318
É possível concluir por uma mudança na postura de Engels quanto à guerra, não em relação ao apoio ou não à possibilidade de uma revolução no formato burguês, isto é, com referência à Revolução Francesa sob uma composição com os meios da luta de classes, mas quanto à possibilidade de uma resposta à transformação das estruturas do próprio estado de tal modo a evitar um grande confronto. De todo modo, uma guinada que demandava inteligência política, adaptação e capacidade de mobilização da parte da socialdemocracia.