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Na terceira parte da teoria da violência presente no Anti-Dühring, os argumentos que refutam os pressupostos de Eugen Dühring que separam violência e economia continuam a observação quanto à mudança contemporânea das formas de combate, que deveria ser compreendida num processo que se assemelha ao da mais-valia relativa, onde “a influência dos militares se reduz, no melhor dos casos, a adaptar os métodos de luta às novas armas e a novos combatentes” 282 dispondo deste modo integralmente das formas de organização e
modificação do próprio corpo do soldado pelo treinamento nacionalmente instituído junto ao desenvolvimento da tecnologia das armas.
Este sentido radical de subordinação parece próximo ao que coloca Marx a respeito da especialização de funções quando estas chegam ao ponto em que modificam o corpo do trabalhador, deformando-o, dada a repetição de uma atividade específica a ponto de se tornar parte do que chama “organismo total” (“Gesamtmechanismus” termo ao qual voltaremos), quando o homem passa a operar com a regularidade de uma peça de máquina, graças, inclusive “ao desenvolvimento parcial dos seus músculos e à curvatura de seus ossos, etc.”283
que o integraria numa totalidade que envolveria o homem e a máquina. Em outros termos, um sentido radical do que conhecemos em outros contextos como o processo de reificação.
No texto abandonado por Engels em prol da formulação de Anti-Dühring, as “Táticas
de Infantaria derivadas de suas causas materiais 1700-1870,” 284, nota-se como apesar de
Engels tratar do impacto das armas de fogo como pressuposto material de onde se desdobram
282 Friedrich Engels. Op. Cit, p. 155
283 Karl Marx. Das Kapital. MEW vol. 23, p.370, nota 440.
284 Friedrich Engels. Taktik der Infanterie aus den materiellen Ursachen abgeleitet 1700-1870. Vol. 20. In MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Marx und Engels Werke (MEW), Vol. 14. Dietz Verlag, Berlim/DDR. 1962. p. 597-603.
as formas de organização militar capazes de utilizá-las de modo eficaz, este faz notar que esta não se realiza de imediato, mas ao longo de 300 anos. É nesse contexto que se apresenta a ideia de uma disposição tamanha do soldado pelo corpo de infantaria que este pode ser, no percurso histórico do desenvolvimento das organizações militares, tomado como meio de produção da guerra.
Assim, Engels ao longo desta exposição denominou o soldado de Material humano (Menschenmaterials285), ao considerar o soldado enquanto parte dos fatores materiais que garantiriam a vitória dos exércitos de infantaria modernizados por Frederico II, quando os recrutas dos exércitos postos em marcha pelos príncipes de então eram “instruídos com todo
rigor, mas com muito pouco o que confiar, pois só mantinham a coesão à base da pancada e que, às vezes, estava formado por prisioneiros de guerra inimigos.” 286 É ao seu lado que Engels entendeu o outro elemento, o material bélico (Waffenmaterials) com o qual criaria uma relação específica cuja interação, ao superar resistências e orientar sua eficácia, poderia desenvolver progressivamente a sua potencialidade destrutiva.
É possível notar como esta comparação pressupõe uma ênfase da extensão do poder desta forma de organização a tal ponto de chegar a apropriar-se do corpo do soldado, que é, enquanto parte de um plano em relação a um alvo ou finalidade militar, alienado dos fins de suas operações, ao ponto de efetuar-se sua determinação enquanto elemento algo análogo à condição de “meio de produção da guerra,” disposto integralmente, inclusive para o próprio “consumo” ou destruição junto com o alvo, caso isso faça parte dos desígnios dos objetivos de uma determinada manobra tática.
Isto é possível de se observar entre as diversas manobras evasivas quanto um determinado exército divide parte de um conjunto de forças militares para atacar um determinando ponto, ou flanco, permitindo que as forças inimigas combatidas se enfraqueçam em outro objetivo local estrategicamente importante, o que resulta em derrotas aparentes serem vitórias táticas e o seu contrário, como as chamadas “vitórias pírricas” onde o exército
285 Menschenmaterials – O termo Menschenmaterial, hoje considerado um tabu na língua alemã, chegou a ser eleito como o termo mais impróprio ou mais passível de crítica da língua alemã do século XX [Unwort] pela Sociedade da língua alemã. O termo apareceu pela primeira vez no relatório de Theodor Fontanes: “Um verão em Londres” em 1854, em um contexto militar: "O soldado inglês como material humano [Menschenmaterial] é ainda uma matéria- prima inigualável.” O contexto da expressão utilizada em Engels é próxima do que dizem Deleuze e Guattari a respeito da Guerra de Materiais “onde o homem não representa mais nem mesmo um capital variável de sujeição, mas um puro elemento de sujeição maquínica.” Gilles Deleuze e Felix Guattari , Mil Platôs, Vol. 5. Ed. 34., p. 168. A palavra teria sido muito utilizada também durante a Primeira Guerra Mundial quando se utilizou os termos "guerra de material" ou "desgaste" observando-se que a carnificina da guerra de trincheiras abstraía o homem como objeto, até o ponto de reduzi-lo a um material de consumo, conforme Engels coloca no texto. Franz Kafka também utilizou esta palavra no conto “Na construção da muralha da China.”
pode ganhar uma batalha onde se esgotam todos os seus recursos logísticos. Do ponto de vista da organização dos exércitos, isto pode ser entendido apenas como parte do desenvolvimento e complexificação das guerras, crescentes em volume de forças empregadas e logística, mas é possível observar a guerra em outro ponto de vista, resultante da mudança dos meios materiais de combate, mas não analisado por Engels neste texto que é o ponto de vista do “soldado raso,”287 conscrito e não profissional, isto resulta na perda de garantia da vida frente a um
objetivo abstrato em relação à individualidade que é subordinada ao objetivo de combate. Se a observação do soldado ao lado do equipamento bélico enquanto material-humano parece forte, cabe notar como ela tem um papel central no que posteriormente foi chamado de “plano Schlieffen” (e que tem alguns de seus pontos previstos por Engels que comentaremos no capítulo sobre o texto “A Europa pode se desarmar?”). Durante a primeira guerra mundial, uma série de manobras que pressupunham um ataque rápido e concentrado na frente de batalha ocidental contra a França, ignorando a neutralidade da Bélgica que seria estrategicamente invadida para atacar a França e a seguir voltar-se para um ataque coordenado e longo contra a Rússia. A estratégia de movimento falhou quando as forças alemãs foram barradas em Ypres, na Bélgica, e voltando com força o que obrigaria a um lento recuo das forças alemãs, estacionando em determinado ponto próximo ao rio Aisne onde teriam começado a sistematicamente cavar trincheiras iniciando a “guerra de posição” generalizada por uma extensão enorme de trincheiras.288 Esta formação tática resultou em uma forma estática de combate no campo de batalha chamado “guerra de atrito,” que é representado pela capacidade de abastecimento de munições, armamentos e, principalmente, tropas (o que remetia aos censos populacionais que calculariam a disponibilidade de soldados dentre a população) contra o adversário, portanto, onde a produção industrial e a população enquanto componente orgânico da guerra passa a ter papel central.
5.7 DISCIPLINA
287 Sobre este tipo de mudança de formato guerra que se relaciona com a análise de Engels a respeito dos meios de combate é pensado por Walter Benjamin em sua crítica ao texto “A mobilização total” ( ÜNGER, Ernst. A mobilização total. Em: Natureza Humana 4(1): 189-216, jan.-jun. 2002, p. 189-216) presente na coletânea citada “Guerra e Guerreiros” de Ernst ünger (BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 2002, p.61-72), uma discussão que reverbera elementos do texto de Engels e trata da relação entre política, produção (mobilização de recursos) e a forma da guerra.
288 Estas formações não são propriamente uma novidade do século e se relacionam com uma mudança da forma de combate envolvendo o pesado emprego de armas de fogo rapidamente recarregadas e estão presentes no texto de Engels sobre as fortificações escrito para o New American Cyclopedia presente em edição fac-símile no site: http://ia600200.us.archive.org/18/items/americancyclopae07ripluoft/americancyclopae07ripluoft.pdf último acesso em 18/11/2011. Presentes também no Collected Works of Karl Marx and Frederick Engels:
Por mais que a concepção engelsiana sobre a disciplina se esforçasse em explicar a dinâmica social do exército, é notável como um dos elementos mais importantes das organizações militares não ganhasse um maior aprofundamento, o que poderia ser compreendido devido em parte à forma como Engels procurava aprofundar-se na investigação a partir de um olhar externo mantendo seus pressupostos teóricos comuns a outras análises teóricas. Mesmo assim, se fôssemos questionar objetivamente sobre a validade de um juízo crítico mais profundo seria necessário observar com mais atenção aspectos da natureza organizativa das instituições militares, como a função da disciplina e da hierarquia que se desmembra em uma série multifacetada de relações, como dão testemunho as obras de Michel Foucault e da antropologia militar, como nas pesquisas de Celso Castro e Piero de Camargo Leirner.
Piero de Camargo Leirner em sua pesquisa sobre a disciplina e a hierarquia na organização da instituição militar brasileira, nota como o exército é nuclear no processo de modernização do país, obrigando inclusive a uma transição de uma forma de organização baseada na aristocracia para uma institucionalidade própria (um sistema social militar) que constituiria o exército a partir destes princípios, que entrariam em conflito com a ordem social da corte.289 Este sistema social militar, como “instituição total” se fecharia em um código particular de relações prescritas que organizariam suas relações sociais segundo o código de hierarquia, representado pelas funções, especializações e patentes que necessariamente manteria uma relação íntima com a disciplina, garantindo a realização de tarefas diversas como se todas as atividades fossem um processo autônomo. Do mesmo modo, é esta forma de organização social que torna os meios independentes dos fins, com um processo automático de realização de tarefas designadas verticalmente, tema que é o foco principal da análise de Michel Foucault em Vigiar e Punir.
Para Michel Foucault, as formas que associaram o meio material da guerra, o armamento, e a organização social que as emprega, são explicadas pelo desenvolvimento mais geral da disciplina, o que possuiria um impacto, não apenas nas formas do exército, mas em toda a sociedade. Michel Foucault, por exemplo, ao descrever o fuzil chamará o seu uso eficaz como “articulação corpo-objeto” cujo sentido seria dado por uma “sintaxe forçada,” a que os “teóricos militares do século XVIII chamavam manobra”290 por sua vez, este
desenvolvimento se relacionaria a um pressuposto de organização social que se desdobra
289 LEIRNER, Piero de Camargo. Meia Volta Volver. Editora fundação Getúlio Vargas - FAPESP, Rio de Janeiro, 1997, p.68.
290 FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir nascimento da prisão. Petrópolis RJ: Vozes. 34ª. ed., 2007., p. 130.
sobre toda a sociedade, como nas prisões modernas, fazendo parte de toda uma forma de racionalização do uso da violência que faz parte do que o autor chama de “grande livro do Homem-máquina” que teria sido “escrito simultaneamente em dois registros: no anátomo- metafísico, cujas primeiras páginas haviam sido escritas por Descartes e que os médicos, os filósofos continuaram; o outro, técnico-político, constituído por um conjunto de regulamentos militares, escolares, hospitalares e por processos empíricos e refletidos para controlar ou corrigir as operações do corpo”291
Para Foucault, parte da história d a disciplina se trata do desenvolvimento de técnicas de controle que conduzem as ações do corpo segundo operações técnicas, que passam principalmente pelo modelo racional que permite abstraí-lo como máquina, e pela ideia de um
dócil corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado. Os famosos autômatos, por seu lado, não eram apenas uma maneira de ilustrar o organismo; eram também bonecos políticos, modelos reduzidos de poder: obsessão de Frederico II, rei minucioso das pequenas máquinas, dos regimentos bem trinados e dos longos exercícios292
De certo modo, podemos tomar esta forma de pensar a história da organização da infantaria como uma ideia de certo modo semelhante ao conceito que Engels empresta do comentário militar de sua época, especialmente quando Foucault escreve em termos de uma correlação entre a disciplina e o corpo dócil, o que colocaria um problema para quem observa a questão segundo um sentido revolucionário, pois dissociaria “o poder do corpo” ao fazer dele
por um lado uma “aptidão,” uma “capacidade” que ela procura aumentar; e inverte por outro lado a energia, a potência que poderia resultar disso, e faz dela uma relação de sujeição estrita. Se a exploração econômica separa a força e o produto do trabalho, digamos que a coerção disciplinar estabelece no corpo o elo coercitivo entre uma aptidão aumentada e uma dominação acentuada.293
Parece-nos que Foucault (no período da escrita de Vigiar e Punir em 1975) trata da disciplina como a chave para a compreensão de uma série de deslocamentos de táticas e técnicas que se adaptam a mudanças sociais e políticas. As técnicas de organização social disciplinar, como as formações militares, apresentam-se assim como o resultado deste processo.
O soldado tornou-se algo que se fabrica; de uma massa informe, de um corpo inapto, fez-se uma máquina de que se precisa; corrigiram-se aos poucos as posturas; lentamente uma coação calculada percorre cada parte do corpo, se assenhoreia dele,
291 Idem, p. 117-118. 292 Idem, p. 118. 293 Idem, p. 119.
dobra o conjunto, torna-o perpetuamente disponível, e se prolonga, em silêncio, no automatismo dos hábitos; em resumo, foi “expulso o camponês” e lhe foi dada a “fisionomia de soldado”294
O resultado de sua aplicação, segundo Foucault, seria uma anulação da potencialidade subversiva, o “risco de sedição” 295 que a junção de elementos armados representa como risco
para as forças hierárquicas e dinásticas que os coordenam, tornando manifesta a importância desta invenção moderna desenvolvida a partir da infantaria. Se a Revolução Francesa e as mudanças operadas pela Grande Armée permitiram mais membros nos exércitos, a disciplina da infantaria prussiana conseguiu, por meio da organização, estender ainda mais a conscrição tornando-os, não apenas dispostos e motivados, mas obedientes, potencializando ao máximo a destruição que se quer realizada, mas com um sentido direcionado, organizado e disciplinado.
O risco que os adversários da conscrição universal colocavam e contra o qual Clausewitz respondia no capítulo sobre o “armamento do povo” em Da Guerra, 296 foram
respondidos primeiro pela sua eficácia, como quando conduzido contra os exércitos napoleônicos que chegaram a dominar a Prússia. No entanto, aquilo que os exércitos possuíam de baixa qualidade como “pouco ímpeto e muito ardor,” condição de um exército não profissional que combatia muito mais em nome da “defesa da pátria,” conseguiu ser subsumida pela reorganização do combate organizado, treinado e já sem regras reconhecíveis que, apesar de serem consideradas legítimas e mantenedoras de certa dignidade, ainda possuíam um valor adicional importante, seriam limitadoras da potencialidade destrutiva do combate, o que Engels observou como correspondente da Guerra Franco-prussiana justamente no momento em que as guerras mudaram de caráter.
Em outras palavras, ocorria constatação do advento de exércitos disciplinados e que
294 Idem, p. 117.
295 Como presente no debate entre Foucault e os jovens maoístas em 1971, transcrito no texto Sobre a justiça popular (presente em Les Temps Modernes, n° 310 bis, 1972, p. 335-366), onde se apresentam alguns traços do programa de pesquisa que toma forma no texto Vigiar e Punir, apresentado como uma análise das formas de poder que respondia, naquele momento, aos questionamentos dos estudantes em termos de possibilidade de uma revolução, que, segundo os apontamentos de Foucault, lidariam com as sedições fundadas na solidariedade entre grupos sociais que normalmente o marxismo chama de lumpenproletarido e o proletariado, como principal forma combatida pela burguesia. Em um momento analítico do debate, tratou da passagem do período moderno onde três formas principais serviriam de controle para evitar riscos de levantes a partir de uma divisão entre grupos da sociedade: “Estes três meios são, ou eram, o exército, a colonização, a prisão (claro que a separação plebe/proletariado e a prevenção anti-sediciosa era apenas uma das suas funções). O exército, com o seu sistema de recrutamento, assegurava a extração sobretudo da população camponesa que superpovoava o campo e que não encontrava trabalho na cidade; e era este exército que se lançava, se fosse preciso, sobre os operários. A burguesia procurou manter uma oposição entre o exército e o proletariado, que muitas vezes funcionou que às vezes não funcionou, quando os soldados recusavam−se a marchar ou a atirar.” Pode-se em parte compreender ainda parte do programa de Foucault em vigiar e punir como uma forma de análise sobre como as relações de poder, que superam o Estado ou a classe, mantém esta divisão.
conduziam seu poder destrutivo à máxima eficácia. Segundo Hal Draper297, é a partir deste momento em que Marx e Engels deixam de apostar no elemento externo da guerra como elemento facilitador de uma guerra interna que poderia se tornar revolucionária levando à considerações progressivamente mais “pacifistas” como horizonte de intervenção política, pois duas novas ameaças se colocavam ao campo revolucionário.
A primeira a da dureza e inflexibilidade dos exércitos que combatem sem ter um espaço que divise um campo possível à desobediência organizada ou à infiltração em unidades armadas semiautônomas como a Landwehr.298 A segunda seria o advento do entusiasmo nacional pela guerra, que dividiu o campo socialista internacional, o chamado
chauvinismo.
297 DRAPER, Hal. Karl Marx’s theory of revolution, vol. 5. New York: Monthly Review Press., 1990, p.
169.