2.2. İlgili Araştırmalar
2.2.2 Kavram İmajıyla İlgili Yapılan Araştırmalar
Publicado em uma série de artigos da então principal revista do partido Vorwärts de primeiro a dez de março de 1893 e escrito durante o debate sobre o projeto de Lei Militar no
Reichstag, A Europa pode se desarmar? representou um novo paradigma político para o
movimento operário, sendo posteriormente publicado como um panfleto sob a égide do partido social democrata alemão. Aparentemente em acordo com os demais membros da socialdemocracia, este texto representa um conflito no seio da socialdemocracia alemã a respeito da política a ser adotada no Reichstag pelos deputados do partido, em particular, a respeito do aumento de gastos militares.
Durante os últimos vinte e cinco anos, toda a Europa armou-se cada vez numa escala até hoje sem precedentes. Cada uma das maiores potências está procurando ultrapassar a outra em poder militar e prontidão para a guerra. Alemanha, França e Rússia estão exaurindo a si mesmos no esforço de ultrapassarem uns aos outros. Neste momento o governo alemão está demandando das pessoas um esforço tão tremendo que até mesmo o tema atual do Reichstag retrocedeu para isso. Não seria loucura, então, falar de desarmamento ? 308
August Bebel pediu um conselho para Engels, na medida em que era um “especialista na questão militar” a respeito de uma política militar ou um modelo de um projeto. No entanto, estava pressuposto, da parte de Bebel, uma mudança política da posição de neutralidade em todas as votações para uma posição favorável ao aumento de gastos militares. Uma aproximação com o governo na busca de maior espaço e evitando os conflitos políticos diretos que enfrentavam duramente até então.
O que Bebel não contava foi a aparente guinada de Engels, que certamente foi no sentido oposto do pretendido e provocando tensões políticas ainda maiores. Na verdade, como vimos até aqui, as posições de Engels refletem, menos do que uma posição como expert militar não castrense, ou algo que tentasse influir na política de estado por cima, uma forma de avaliação política onde tanto as mudanças técnicas quanto táticas dos exércitos nacionais dependeriam de processos políticos revolucionários, ligando-se muito mais a um aspecto das relações entre classes sociais e estado. Além disso, na condição de análise política de pressupostos para uma definição da ação política possível, entra em sua avaliação a preocupação de que os arsenais empregados e a capacidade dos exércitos nacionais aliados
308 ENGELS, Friedrich. Kann Europa abrüsten? In: Karl Marx/Friedrich Engels - Werke. Vol. 22, 3. Berlin/DDR: Dietz Verlag, 1963, p. 373.
possam frear qualquer possibilidade revolucionária.
A proposta de Engels envolvia aspectos políticos que colocam em questão o problema das forças políticas em disputa no Reichstag alemão. Os liberais sustentavam uma política de restrição militar, apesar de, paralelamente, serem favoráveis à expansão do papel da Alemanha na política externa. Hal Draper aponta um problema político quanto a esta questão para a Socialdemocracia na medida em que se apoiassem os liberais, estaria em questão uma reputação de antipatrióticos frente às classes médias nacionalistas, assim como frente à grande parte da classe trabalhadora, apresentava-se o problema de aliar-se aos patrões.
E além destes o problema representado pela política militar externa e interna, naquilo que tocam à corrida armamentista (meios materiais pensados a partir de suas implicações econômicas) e a questão da crescente conscrição e disposição de braços para o exército, além da aliança entre o Estado Francês e a Rússia, o que provavelmente teria como consequência o isolamento da Alemanha entre as grandes potências, dependentes daquele momento de uma mudança do papel dos Hohenzolern como protagonistas de um futuro desfecho bélico.
Para Engels a forma e as demandas do exército alemão passavam a caracterizar um exército acima de tudo agressivo e expansionista, onde “seria requerida do exército a função principal de agressão contra países estrangeiros e a repressão da população civil dentro do território.”309
Resumidamente sua proposta trataria de um
teste para as “Grandes Potências” que era então o teste da força na guerra. Em 1848, e até mesmo muito tempo depois, este teste era muito simples. Apesar do desenvolvimento da artilharia, a infantaria determinava o resultado da batalha; e a “relação de força” era a estimativa básica. É claro, as estimativas eram na verdade, míticas. Em 1848 a França supostamente teria um exército regular de 350.000 homens; mas não tinha força o bastante para colocar 70.000 homens para os corpos expedicionários que supostamente enviariam para a Itália. O exército russo era estimado em mais de 600.000; mas pouco mais que a metade destes soldados serviu na Criméia. Todos os exércitos, exceto os prussianos tinham um serviço de longo termo, virtualmente para toda a vida. Enquanto isso, a população contada para menos que o número de homens efetivamente treinados. Suas vitórias de 1866 e 1870 revolucionaram o pensamento militar. Depois de 1871 toda Potência continental adotou o sistema prussiano de serviço militar universal para três anos; e sua força correspondia mais aproximadamente o que refletia sua população. A mudança não foi precisa. Somente Alemanha e França operaram este sistema totalmente. O treinamento foi inadequado na Áustria-Hungria e na Itália; e na Rússia a máquina militar nunca poderia cobrir os milhões de potenciais conscritos. Ainda assim, o tamanho dos exércitos teve um tremendo salto adiante.310
O principal perigo para Engels seria o brutal desenvolvimento dos exércitos das
309 DRAPER, Hall; HABERKERN, E. Karl Marx`s Theory of Revolution. Vol.5: War & Revolution. New York, NY: Monthly review Press, 2005, p.180.
310 ENGELS, Friedrich. Kann Europa abrüsten? In: Karl Marx/Friedrich Engels - Werke. Vol. 22, 3. Berlin/DDR: Dietz Verlag, 1963, p.374.
principais potências da Europa continental a respeito de sua mobilização. Ligada à questão mais geral da conscrição, como a mobilização de pessoas para os exércitos nacionais, fenômeno que teria chegado, após o último grande conflito que foi a guerra franco-prussiana, a uma potencialização sem precedentes.
Depois da guerra de 1870-71, a superioridade do sistema de serviço militar compulsório universal com a reserva e a Landwehr – até mesmo em naquela sua forma prussiana atrofiada – sobre o sistema de conscrição por procuração (Stellvertretung311) tem sido conclusivamente demonstrado. Todos os países
continentais a adotaram de formas mais ou menos modificadas. Um exército que tem na maioria de suas reservas homens de meia idade casados é por sua própria natureza menos ofensiva que aquela dos exércitos de conscritos de Louis Napoleão, que era fortemente permeado por procurações – soldados profissionais recrutados. Mas então vem a anexação da Alsácia-Lorena, que tornou a Paz de Frankfurt um mero cessar-fogo para a França, como a Paz de Tilsit tem sido para a Prússia. E agora começa a corrida febril entre França e Alemanha, dentro da qual gradualmente entram também Rússia, Áustria e Itália.312
O recrutamento foi estendido à população até o ponto do recrutamento de se requisitarem homens idosos para as reservas, aumentando igualmente o período de recrutamento e treinamento militar de amplos setores da população. Deste modo, apresentava- se o problema de uma mudança tão radical na forma de organização militar que a atuação adotada até aquele período deveria mudar, sob o risco de se tornar um perigo tanto aos principais atores políticos do período quanto a toda conjuntura política. Aliás, é possível dizer que diferentemente de outros que poderiam ser identificados a partir de um gênero textual político híbrido, algo entre o panfleto, o manifesto e a análise teórica, ele apresenta elementos que podem muito bem enquadrá-lo como um tipo puro de análise de conjuntura (como vimos segundo a tipologia relativa aos gêneros políticos textuais adotados por Marx e Engels).
Neste caso, a análise teórica inserida neste debate é também uma intervenção que funciona como uma análise de conjuntura com praticamente todos os elementos que trouxemos a respeito deste gênero, especialmente se considerarmos a importância que fenômenos de natureza aparentemente diversa, como a importância da crise que apresentaria uma dificuldade adicional ao movimento operário e influenciando suas possíveis ações posteriores.
Algo que toca num aspecto particularmente polêmico quanto à obra de Engels no sentido de apresentar um prognóstico e, deste modo, supor a ideia de uma previsão de
311 O sistema francês funcionava como sistema por procuração, onde era possível, caso fosse solicitado a cumprir o serviço militar, a comprar a substituição por outra pessoa. O que torna o serviço de certa forma, um sistema de mercenários. Marx comenta esta questão no 18 Brumário, também citada por Walter Benjamin em alguns temas sobre Baudelaire.
contextos políticos futuros relacionando as condições materiais às relações sociais em que se localiza a luta política. O horizonte de expansão ilimitada da conscrição e das estruturas voltadas ao seu financiamento assumiriam as características de um aviso quase apocalíptico de uma guerra sem precedentes que impossibilitaria uma ruptura institucional que pavimentasse o caminho da revolução. Acima de tudo, este problema representaria um enigma político, cuja resposta deveria ser capaz de evitar o desastre por meio de uma ação coletiva que desarmasse a ameaça que seria posta pela crise que se aproximava.
Este perigoso desastre se apresentaria sob dois aspectos, o de ruína econômica dos povos (e não especificados como países ou classes) e também o aspecto de uma ameaça física de capacidade destrutiva sem precedentes, ligado à mudança da forma militar nos termos de uma Guerra de Aniquilação (Vernichtungs Krieg).
Uma crise de natureza política como esta apresenta uma dificuldade suplementar à estratégia específica da Socialdemocracia, pois envolvia, nos termos em que Engels apresenta o problema, também as demais classes, ao menos segundo a tática democrático-social adotada pelo partido, pois estariam ligadas ao contexto das disputas no seio do Partido quanto à posição em relação ao governo e ao Estado. E principalmente, no que toca às táticas adotadas em momentos anteriores com relação ao governo e à possibilidade de uma revolução socialista, seja no contexto revolucionário, seja segundo o caminho de conquistas pontuais como reformas.
Ao menos em um futuro próximo, não parecia possível a Engels, neste contexto, manter-se a prática convencional, imaginando colocar-se o partido como um ator entre outros grupos, entre militares e políticos em confronto com o governo, mas esperando por um papel ativo da Socialdemocracia mesmo que fosse uma intervenção sobre uma pauta que se apresentava, a princípio, à revelia dos trabalhadores e ligada à questão nacional. Tornou-se importante pensar sobre uma mudança no posicionamento quanto à forma da intervenção adotada e isto não apenas enquanto preenchimento dos quadros militares a tal ponto em que se imaginasse possível uma revolução disputando e dividindo as forças militares (modelo de revolução burguesa), ou ainda de se acreditar na possibilidade colocada por Hobsbawm de ganhar o poder e ter de defendê-lo contra forças proprietárias burguesas que se colocariam numa articulação à direita.
O que se mostrava mais premente – dada a restrição de espaços públicos de discussão e participação dos trabalhadores engolidos na conscrição - era possibilidade de destruição das próprias condições históricas de luta que permitiu florescer a política socialdemocrata. Engels acredita ainda ser possível influir no campo de ação política da Socialdemocracia alemã,
inspirando a ela a observação do campo político das decisões de estado quanto ao sistema militar que se transformava constantemente na tentativa de conquistar cada vez mais autonomia para o Estado, e que, ao contrário das aparências, persistiu para além do período de Bismarck se mantendo, para Engels, como um modelo de governo de tipo “bonapartista,” unificando setores da burguesia que estariam naturalmente em conflito através de uma perigosa política de compromissos, ao mesmo tempo em que também intervinha nas disputas entre os grupos.