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“ A função de âmbito publico é iluminar os acontecimentos humanos ao fornecer um espaço das aparências, um espaço de visibilidade, no qual homens e mulheres podem ser vistos e ouvidos e revelar mediante a palavra e a ação quem eles são. Para eles, a aparência constitui a realidade, cuja possibilidade depende de uma esfera publica na qual as coisas saiam da escura e resguardada existência.”

Hannah Arendt 220

A relação entre os espaços público e privado baseou-se nas análises das entrevistas realizadas, nas quais os pesquisados relataram terem percebido que, ao iniciarem seus estudos nas Universidades da Terceira Idade, suas relações familiares melhoraram; eles passaram a se sentir mais valorizados e respeitados. Analisaremos esta valorização na sua relação com a aquisição do conhecimento, por meio do retorno à vida estudantil (a universidade), ressaltando o resgate da auto-estima para esses alunos.

Ao voltarem a estudar, eles estão constituindo um espaço de sociabilidade, que é um espaço diferente daquele no qual esse público tradicionalmente estava inserido e, para isso, existem vários facilitadores, como não se exigir que eles (alunos) tenham concluído o segundo grau e os cursos não terem sistema de provas. Como afirma Olga221:

é...a gente...percebe...ninguém quer ser só avó, ninguém que ser só mulher, você pode ser uma pessoa polivalente, você pode ser uma ótima avó, mas não em período integral, eu sempre achei isso um absurdo, tá certo, você querer voltar a ser mãe quando você já é avó, você não vai ser nem uma coisa nem outra porque.. .quando você começa a abaixar muito, quando você abaixa demais mostra o

220 ARENDT, Hannah, A condição humana, 2001: 32. 221Olga,aluna da USP há 8 anos, entrevistada em 20/07/2006.

que não precisa então, antes que as pessoas comecem a ocupar o seu espaço, você se posicione e tal, 2ª e 4ª a mamãe tem um compromisso, e se pede antes, você poderia...não sendo o dia da minha aula e não sendo uma coisa grave, está certo, isso é uma maneira também de você se impor...

Esses espaços universitários são, predominantemente, formados por mulheres que têm uma origem comum: vieram da vida doméstica, criaram seus filhos, e, mesmo que algumas tivessem sido profissionais e com curso superior, mantiveram-se fora, na sua maioria, de qualquer atividade no espaço público, com pouca inserção no mercado de trabalho e na vida social. Como nos diz Paula222:

Eu acho que a faculdade da 3ª idade ainda propicia, às pessoas de idade, o preenchimento de vida sem depender da família, se não, você pode se tornar um idoso que depende de tomar conta de um neto, de fazer um favor pra uma amiga, pra poder ter a sua vida preenchida, quando os filhos estão fora de casa levando a sua própria vida autônoma.

Então a faculdade também preenche, ajuda você a ter vida própria.

A partir do momento em que freqüentam as universidades, os alunos vão criando uma série de laços de solidariedade, de sociabilidades distintos. Para uma melhor compreensão, desenvolvemos a nossa linha de análise apoiada nas pesquisas de Arendt(2001), pois como a autora esclarece:

(...) tudo o que os homens fazem, sabem ou experimentam só tem sentido na medida em que pode ser discutido. Haverá talvez verdades que fiquem além da linguagem e que podem ser de grande relevância para o homem no singular, isto é, para o homem que, seja o que for, não é um ser político. Mas os homens no plural, isto é, os homens que vivem e se movem e agem neste

mundo, só podem experimentar o significado das coisas por poderem falar e ser inteligíveis entre si e consigo mesmos. 223

Percebemos a importância das universidades para os idosos quanto a relação com o desenvolvimento do cidadão, na qual os alunos, através da validação do conhecimento na faculdade, levam para sua rede de vida privada suas opiniões e conhecimentos, que muitas vezes já não eram ouvidas ou validadas. Como afirma Abigair 224:

... exatamente, e outra coisa, quando a gente se reúne em família, que estão os filhos e os netos, ninguém vai dizer a vovó não entende nada...

Pelo contrário, entende, vovó entende mais! aí você começa a se sentir uma pessoa que existe, não é aquela velhinha, que é vamos apagar a velhinha e você se enfia embaixo da mesa, porque você fica o que...ah, a vovó está desatualizada, é isso que eu não queria ser...

Os alunos perdem o medo e se sentem seguros, quando apoiados pelo conhecimento e na convivência com os iguais (estudantes na mesma faixa etária). Segundo Arendt (2001), todos os aspectos da vida humana têm relação com a política.

Todos os aspectos da condição humana têm alguma relação com a política, mas esta pluralidade é especificamente a condição – não apenas a conditio sine qua non, mas a conditio per

quam – de toda vida política. Assim, o idioma dos

romanos – talvez o povo mais político que conhecemos – empregava como sinônimas as expressões «viver» e «estar entre os homens» (inter homines esse), ou «morrer» e «deixar de estar entre os homens» (inter homines esse

desinere)225.

223 ARENDT, A condição humana, 2001:12.

224 Abigair, aluna da PUC/SP há 8 anos, entrevistada em 12/12/2005. 225 ARENDT, A condição humana, 2001: 15.

Dessa maneira, acreditamos que, ao freqüentarem a universidade, os alunos sentem-se mais vivos, como afirma Abigair226:

Eu acho que em certos casos a gente não discute de igual pra igual não, a gente discute até com superioridade, porque a gente tem uma outra maneira de encarar, não é a maneira da juventude, então a gente no final das contas você conduz até a modernidade melhor do que eles. Com amparo e com o suporte de um estudo que nós fazemos na PUC, que não aprofunda, que é uma coisa superficial, mas que te dá uma base.

Para Arendt (2001), o termo «público» significa aquilo que pode ser visto e ouvido por todos e pode ter a maior divulgação possível. Por outro lado, a aparência daquilo que é visto e ouvido pelos outros e por nós mesmos constitui a realidade. Até mesmo as maiores forças da vida íntima, as paixões, os pensamentos, os deleites dos sentidos, para esta autora, vivem uma espécie de existência incerta e obscura, até que sejam transformadas, desprivatizadas e desindividualizadas, por assim dizer, de modo a se tornarem adequadas à aparição pública. Como afirma Tereza227:

Nossa!!! Tudo, tudo é um desafio!!! Mesmo na família...tô ótima tudo é bom nas aulas, tudo se aprende...tudo! Na família eles me chamam de mestra!! Porque eles acham que eu dou palpite em tudo, que eu fico repetindo as aulas. Em reuniões da família eu fico repetindo o que eu escuto dos professores então todo mundo...nossa!!!... quando eu falo... nossa como estou importante!!!

226 Abigair, aluna da PUC/SP há 8 anos, entrevistada em 12/12/2005. 227 Tereza, aluna da PUC/SP há 5 anos, entrevistada em 01/12/2005.

Tereza se sente importante pelo fato de ser ouvida, saindo, assim, do anonimato, tendo o seu conhecimento e as suas idéias valorizados pela família, pois assim ela se reafirma como ser social. Como afirma Arendt (2001):

(...) Toda vez que falamos de coisas que só podem ser experimentadas na privacidade ou na intimidade, trazemo-las para uma esfera na qual assumirão uma espécie de realidade que, a despeito de sua intensidade, elas jamais poderiam ter tido antes. A presença de outros que vêem o que vemos e ouvem o que ouvimos garante-nos a realidade do mundo e de nós mesmos. 228

É isto o que acontece na sala de aula: os alunos participam e são ouvidos pelos professores através das diferentes metodologias empregadas229. Sentem-se importantes, pois percebem que suas histórias de vida são valorizadas pelos seus parceiros (alunos, professores e coordenadores), dando, assim, novos significados a sua vida e a suas experiências. Conforme afirma Olga230:

(...) enquanto elas estavam falando, eu estava pensando...eu, eu não sei se eu mudei mas, um aspecto pra mim é fundamental, que eu percebo o respeito num círculo muito maior, primeiro hoje de mim pelas outras pessoas e principalmente num círculo menor que é a família, como eu falei pra você, eu sou muito ligada à família. Existe toda uma postura respeitosa deles em relação a mim, pode ser que eu até modifiquei um pouco meu discurso, não sei, ele é pequeno mas existe....mas, eu percebo isto então, o respeito das pessoas, principalmente dos que estão mais próximos de mim então, quando eu falo alguma coisa, então é aquela coisa assim... mas você

228 ARENDT, A condição humana, 2001: 60.

229Através de entrevista com professores das universidades pesquisadas, foram relatadas metodologias aplicadas em suas aulas: como oficina de memória, dramatização, construção de poesia de textos, confecção de livro sobre a história de suas vidas, árvore genealógica, resgate de história de vida, trabalho com fotos de infância, fotos da família, fotos na transformação do tempo de vida etc.

aprendeu isso lá na USP?, eu digo, olha não é tudo que eu aprendi na USP, mas ela me abriu um pouco a cabeça, os olhos e é toda uma postura que me faz realmente aumentar o leque então, eu percebo que, realmente, esse respeito maior existe...”.

A universidade trouxe o desenvolvimento em relação a sua vida, um aprimoramento, a valorização dentro da vida privada (no âmbito familiar). Como nos diz Lúcia231:

(...) então a gente percebe, a gente percebe que nós buscamos é assim...é ter qualidade pra poder mostrar para os nossos maridos, pros nossos filhos, pros nosso netos, que nós não estamos paradas no tempo, como era antigamente, que a gente via, eu mesma, a minha mãe muito amarrada... eu mesma, quando eu entrei o professor que vocês conhecem, o que a Tereza falou agora há pouco, ele dava aula, eu lembro as meninas até riram de mim, eu não falava nada eu era super quieta. Aí uma vez, ele comentando sobre os vulcões, eu comentei que eu sou da Ilha dos Açores e também fui viajar e vi os vulcões. Ele olhou pra mim, simplesmente ele parou assim, olhou pra mim, elas são testemunhas, não acredito, te dou aula há não sei quanto tempo é a primeira vez que eu escuto a tua voz, ele fez isso, foi verdade...é. Então, poxa vida, eu agora eu já brinco, elas mesmo falam: ah você mudou muito!, e eu to, não que eu mudei...eu era assim, é que a própria vida de ficar dentro de casa, eu era uma pessoa alegre, brincalhona, você parece que vai murchando, então acho que reviveu tudo dentro de mim novamente.

A aluna faz uma reflexão, afirmando não ter realmente mudado, mas sim resgatado o jeito antigo de ser, anterior à sua vida de dona de casa. Quando

afirma que ficava em casa murchando... era isto que sentia, não sentia que estava evoluindo, mas quando começou a freqüentar a universidade, saiu do mundo privado e adentrou o universo público (escola), apropriando-se de si mesma, descobrindo um discurso próprio e introduzindo-o no seu mundo privado, como ela mesma comenta na entrevista:232

Eu vejo assim... as pessoas me ouvem mais, porque eu também falo mais e têm coisas mais interessantes... eu participo das coisas que eu vivencio aqui, a gente troca muita idéia, eu com as minhas noras, principalmente uma delas, a gente discute muito assim.. ponto de vista porque ela também tem três filhos e alguma coisa que eu aprendo aqui eu passo pra ela em casa, pras minhas noras, isso aí acabou unindo mais, eu acredito que melhorou bastante nessa parte também... agora eu converso com o meu marido...

Segundo Arendt, (2005): “ Sempre que a relevância do discurso entra em jogo, a questão torna-se política por definição, pois é o discurso que faz do homem um ser político”. Como reflete Tereza:233

Não, antes não, antes eu nem sabia... que, que eu era antes...?, uma no meio da multidão... é.. era só dona de casa.

Me sinto importante... agora vai ter um almoço muito importante que se não me engano vai até o prefeito e, na sexta feira eu vou trabalhar o dia todo, vou ajudar lá, vamos preparar o almoço...não. Antes da faculdade eu não fazia nada... não... fazia, costurava, era mais dona de casa, era mais dona de casa...

Inclusive as crianças diziam: - minha mãe não trabalha. Ela só fica em casa o dia inteiro.

232 Lucia, aluna da USP há 5 anos, entrevistada em 20/07/2006. 233 Tereza, aluna da PUC há 5 anos, entrevistada em 01/12/2005.

Para essa aluna, a universidade trouxe um desenvolvimento em relação a sua vida privada, um aprimoramento, uma valorização, pois, para um grupo de alunas, viver o universo dentro da vida privada era uma questão complicada, já que o poder se encontra na mão de quem tem dinheiro, de quem sustenta a casa, e como elas eram, muitas vezes, proibidas de trabalhar... (fora de casa), não tinham poder, nem de expressar idéias, nem de proferir opiniões. Como nos conta Ignes:234

É a colocação. Houve uma época em que se dizia que a dona de casa não fazia nada, ficava em casa, então essa era a colocação, né?

E meu marido dizia: mulher minha não trabalha fora... Eu sou macho...mulher minha eu sustento!

E quando essas alunas sentem-se mais fortes, com a auto-estima mais elevada, mais motivadas e com mais saber, sentem-se como “homens no plural” (segundo Arendt, 2001), agindo no mundo. Como afirma Dina235:

... eu me senti mais livre, as amarras que a gente tinha em relação à sociedade, a muita coisa, mesmo em relação aos professores, professores abrindo a cabeça da gente falando que nós temos condições de viver sozinhas, não digo sozinha mas, de caminhar por si própria, eu achei isso muito válido, pra mim foi muito importante, por isso que eu continuo até agora...

Conforme afirma Arendt (2001):

A condição humana compreende algo mais que as condições nas quais a vida foi dada ao homem. Os

234 Ignes, aluna da USP há 7 anos e meio, entrevistada em 01/12/2005. 235 Dina, aluna da PUC/SP há 7 anos e meio, entrevistada em 12/12/2005.

homens são seres condicionados: tudo aquilo com o qual eles entram em contato torna-se imediatamente uma condição de sua existência. O mundo no qual transcorre a vita activa consiste em coisas produzidas pelas atividades humanas, mas constantemente, as coisas que devem sua existência exclusivamente aos homens também condicionam os seus autores humanos. Além das condições nas quais a vida é dada ao homem na Terra e, até certo ponto, a partir delas, os homens constantemente criam as suas próprias condições que, a despeito de sua variabilidade e sua origem humana, possuem a mesma força condicionante das coisas naturais. O que quer que toque a vida humana ou entre em duradoura relação com ela, assume imediatamente o caráter de condição da existência humana. É por isto que os homens, independentemente do que façam, são sempre seres condicionados.Tudo o que espontaneamente adentra o mundo humano, ou para ele é trazido pelo esforço humano, torna-se parte da condição humana.236

Portanto, essas alunas só percebem o seu valor social, a partir do momento em que se apropriam de um discurso, começam a se valorizar e elevar a auto-estima, como revelado no tema a seguir... e nas palavras de Ignes:237

Não. Não satisfez totalmente porque a gente tentava se realizar através do marido e dos filhos, graças a Deus os filhos foram bem criados e bem orientados e, realmente são motivo de orgulho, mas... a gente não pode transferir uma ansiedade da gente pra ser satisfeita com a valorização de terceiros. Há uma necessidade de haver um reconhecimento, um mérito pessoal, o que fazia muita falta que eu acho que faz pra nós dona de casa é justamente levantar o ego, trabalhar o emocional, auto-estima,

236 ARENDT, A condição humana, 2001:17. 237 Ignes, aluna da USP, entrevistada em 01/12/2005.

valorização da auto-estima, né?, porque você sempre estava ali pra prestação de serviço!...

Benzer Belgeler