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BÖLÜM 3: YÖNTEM

3.4. Veri Toplama Aracı

O primeiro serviço público constituído no Estado de São Paulo foi a Repartição de Serviços Técnicos de Águas e Esgoto – RAE29, no ano de 1892 (MOTTA, 1937)30. A RAE ficou sob responsabilidade do governo estadual, subordinada à Secretaria da Agricultura, pois o município não dispunha de recursos para assumi-la. Após a encampação, o Estado (por meio da RAE) em dois anos estendeu a rede à metade do número total de prédios servidos anteriormente pela Companhia Cantareira, que levou 10 anos para ser construída31 (OSEKI, 1991, p.29).

Nessa época, o abastecimento de água contava com duas adutoras, Ipiranga e Cantareira. A primeira fornecia três milhões de litros/dia de uma pequena represa na Água Funda e servia as zonas baixas, além do Tamanduateí, isto é, Brás, Mooca e Ipiranga. A segunda provinha da serra da Cantareira e fornecia a mesma quantidade ao reservatório da Consolação e abastecia o centro da cidade (WHITAKER, 1946, p.5).

Depois de encampados os serviços, a RAE concentrou suas ações na ampliação do abastecimento de água e fez um plano de obras novas. Em 1898, completou o aproveitamento das águas da Cantareira, elevando-se o volume de água que ela fornecia de 3.500.000 de litros/dia para 25 milhões de litros/dia; reforçou a captação do Ipiranga com a adução dos córregos Simão e Borba; incorporou novas fontes de suprimentos, como a captação das águas do rio Tietê32, na altura do Belenzinho, que passavam por galeria filtrante sem desinfecção para

o abastecimento do Brás, chegando essa captação a fornecer 6 milhões de litros/dia; fez ainda uma tentativa de aproveitamento de águas do subsolo, por meio de poços profundos perfurados

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Criada pela Lei nº 62 de 17 de agosto de 1892 e decreto 1524 de 31 de janeiro de 1893.

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A organização da RAE no seu período inicial era a seguinte: uma seção geral, que compreendia a fiscalização geral, contabilidade, organização de projetos e direção de obras da Capital; uma divisão central, a qual incumbia o abastecimento de água e o serviço de esgoto no perímetro da cidade, e o almoxarifado; seis divisões auxiliares, para novas obras de água e esgoto. A RAE era dirigida por um engenheiro-chefe, e após sua reformulação em 1898 foi criado o cargo de diretor.

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Pela Companhia Cantareira, entre 1883 e 1889, foram ligados à rede 5.702 edifícios; e entre 1890 e 1892, 542 edifícios. Pelo Estado, entre 1893 e 1894 foram ligados 3.410 edifícios à rede de esgoto. (OSEKI, 1991, p.29) Em 1894 foram construídos os coletores de Santa Ifigênia, da Luz, da rua das Palmeiras, da rua Sólon, do Anhangabaú, da Liberdade. E ainda 500m do coletor principal do Brás e da Mooca. Os coletores totalizaram 9,5km construídos (Ibidem, p.30).

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O rio Tietê, apesar do péssimo estado de suas águas, passa a ser cogitado como alternativa e em 1898 começa a ser captada água na altura do Belenzinho. Em 1903 foram executadas as obras para aumento da captação. Contudo, a captação nas partes baixas do rio implicava em aduzir águas poluídas e essa alternativa não era consensual (VICTORINO, 2002, p.53). Os médicos eram contrários a utilização dessas águas e atribuíam à sua contaminação o grande número de doenças que estavam ocorrendo no Brás, ligadas ao aparelho digestivo: gastroenterite, enterite e diarreia (RIBEIRO, 1993, p.146).

na margem do rio Tamanduateí (atual Parque D. Pedro II), procedimento mais tarde abandonado na medida em que não se obteve a quantidade de água esperada.

Contudo, em 1899 as providências tomadas já eram insuficientes devido à formação de bairros populosos como Perdizes, Água Branca, Lapa, Vila Cerqueira César e Vila Mariana. Já se observava o espraiamento da cidade por diversos núcleos esparsos e separados por vales e espigões, o que traria dificuldades às novas redes de água por seu alto custo de execução (WHITAKER, 1946, p.6).

Além da necessidade de instalação de redes em áreas novas e a insuficiência das antigas, a situação de contaminação do rio Tietê e a condição de saúde da população eram bastante graves. Em 1903, José Joaquim de Freitas, o fiscal de rios da cidade, apresentou para o prefeito o seu relatório alertando sobre a preocupante situação de poluição do rio Tietê. Ele descreveu as “grandes ilhas de lodo” que ficavam acumuladas nas margens do rio, em estado de fermentação; o lançamento de esgotos na porção central da cidade, onde não havia correnteza e possibilidade de diluição; o mal cheiro e os focos de infecção; e nas épocas de chuva as águas se avolumavam e transbordavam em sua várzea, espalhando esse material que ficava a fermentar (JORGE, 2006, p.27-28).

Além dos pontos de despejo de esgotos, a montante da capital, nos núcleos de Mogi das Cruzes, São Miguel e Guarulhos, havia as atividades de criação de gado e suína, que também contaminavam as águas pouco volumosas e de baixa densidade desse rio (BUENO, 1994, p.67).

Outro fator que agravou as condições de suprimento de água foram as condições climáticas de uma forte estiagem em 1903, gerando uma crise. Nesse ano, foi criada a Comissão de Obras Novas de Abastecimento de Água da Capital33, pelo governo Estadual, que realizou diversas intervenções em diferentes pontos da cidade.

Em 1907 foram iniciadas as obras de aproveitamento dos mananciais do Cabuçu e do Barrocada, também na região da Cantareira, com a capacidade de 43,2 milhões de litros/dia, tendo por objetivo abastecer a parte baixa da cidade – Santana, Luz, Bom Retiro e Brás – sendo que as sobras eram dirigidas para o reservatório da Rua Taquari, na zona baixa da Mooca. Foi também possível abastecer com água do Cabuçu o reservatório da Consolação, mediante o recalque das Palmeiras, instalado no bairro de Santa Cecília, abastecendo Santana, Luz, Bom Retiro e Brás (FARIA, 2004, p.48).

Esse Plano de Abastecimento desenvolveu-se de acordo com um “lema” estabelecido pelo Dr. Carlos Botelho: “... as águas altas para as zonas altas; as águas baixas, especialmente as do rio, para a zona baixa” (Relatório de 1904, p.229 apud WHITAKER, 1946, p.9). Assim, a zona baixa (entre as cotas 720 e 730m de altitude) era tributária do ribeirão Cabuçu, do rio Tietê e mananciais do Ipiranga; a zona média (735 a 770m) era abastecida pelo lado direito do manancial da Serra da Cantareira; e a zona alta (770 a 800m) era abastecida pela ala esquerda do manancial da Serra da Cantareira, por intermédio do reservatório da Liberdade.

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Saturnino de Brito chamou a atenção para o fato que o cumprimento desse lema implicaria em garantir as condições in natura e pós-tratamento das águas do Tietê, o que não aconteceu (BRITO, 1943, p.57)34.

Até este momento, a cidade contava com apenas quatro reservatórios de distribuição: Consolação, antigo e novo, Liberdade e da rua Taquari. A utilização de mananciais próximos estava chegando ao seu limite, ampliando a escala do problema e das formas de seu tratamento, implicando na busca de novos mananciais, mais distantes35.

Com a realização do conjunto de intervenções da RAE, durante os anos de 1907 a 1910 houve uma trégua no problema do abastecimento da cidade. No entanto, a melhora foi temporária, pois em 1911 o problema voltou à tona. Nesse ano estimava-se que o déficit de adução era de 39 milhões de litros por dia (WHITAKER, 1946, p.9).

Passa-se então aos estudos de novos mananciais, com várias alternativas, sendo que foi escolhida a adução do rio Cotia (para abastecer as zonas altas e altíssimas da cidade). Em 1914 iniciou-se a execução das obras de adução das águas do ribeirão Cotia, sendo que a construção do sistema foi realizada em duas etapas36, a segunda iniciada em 192037. Mas somente em 1933, com a conclusão da barragem Pedro Beicht, esse manancial foi regularizado, passando a contribuir com 90 milhões de litros/dia para a cidade de São Paulo. Em 1915 também foi construído o reservatório Água Branca.

Em 1925, em consequência de uma das maiores estiagens verificadas no Estado, que reduziu o volume de água aduzido de 156 milhões de litros/dia para apenas 70 milhões de litros, o Governo do Estado, por meio da Comissão de Obras Novas de Abastecimento38, resolveu dar

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Saturnino de Brito expõe em seu relatório de 1946, os estudos realizados em 1905 sobre os problemas do abastecimento de água e tratamento de esgotos em São Paulo e entregues ao governador. Ele formulou nesse ano o Plano geral para o abastecimento de água, considerando a topografia, de forma a garantir a distribuição da rede sobre toda área ocupada, buscando evitar soluções parciais. Este “estudo geral” figurou um primeiro plano com visão de todo para a cidade. Contudo, esta alternativa não foi implementada (BRITO, 1943).

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Ver em Moreira (2008) a topologia das redes de abastecimento de água, mostrando sua evolução temporal e espacial.

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A primeira etapa do sistema permitiu a adução de 39 milhões de litros/dia, reforçando o abastecimento dos bairros situados na cota mais alta da cidade, ao longo do espigão da Avenida Paulista, por meio do reservatório do Araçá. Deste reservatório, construído em 1907 e alimentado pela Cantareira, a água do Cotia passou a ser encaminhada ao reservatório da Liberdade (depois denominado Avenida) e também, a partir de 1914, as sobras ao reservatório da Vila Mariana, concluído na ocasião. As águas do sistema Cotia passaram a alimentar também o novo reservatório da Água Branca, atendendo um outro setor da cidade. A capital passou a ter 120 milhões de litros/dia, ou seja, menos de 1,4 m³/s (QUEIROZ, 1964).

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Em 1920 houve uma nova crise de abastecimento. Segundo Victorino (2002), um dos motivos foi técnico na avaliação do volume aduzível do rio: supunha-se que o Cotia daria 80 milhões de litros diários para o abastecimento; porém seriam apenas 50 milhões de litros em períodos normais e 36 milhões de litros por dia em épocas de estiagem. Diante do déficit de abastecimento de água que em 1925 era de 130 milhões de litros diários, mesmo na sua melhor condição com atendimento de 80 milhões de litros, ainda faltavam 50 milhões de litros por dia a serem atendidos.

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início às obras do Sistema Rio Claro39, afluente formador do Tietê, manancial situado na Serra do

Mar, a 80km de distância da Capital, o que encarecia sobremaneira as suas obras de adução. O projeto consistia na construção de barragens, estações elevatórias, uma adutora de 80km, 3 subadutoras que cortavam a cidade e de 4 reservatórios, sendo o da Mooca o principal, e os outros 3 na Lapa, Penha e Pompéia.

Para a execução do Sistema Rio Claro foi utilizado o instrumento de desapropriação da bacia e não somente das áreas inundáveis para garantir a proteção do manancial. O governo estadual desapropriou, até 1927, 2.830 alqueires de terra rural e 15,8 hectares de terra urbana, onde hoje se localiza o Parque Estadual de Salesópolis. E para viabilizar a obra foram abertas cerca de 194km de estradas na bacia do rio Claro (BUENO, 1994, p.69-70).

Entretanto, tratava-se de uma obra de grandes proporções e investimento, sobre a qual não havia consenso. Quando a Comissão foi extinta, em 192740, a obra ficou parada por quatro anos

quando seguiu-se um período de reexame do projeto, até toda a tarefa ser transferida para a RAE. O Sistema Rio Claro passou a aduzir 1m³/s de água à cidade somente a partir de 1939, ampliando a capacidade posteriormente (THOMPSON, 1940, p.34).

Segundo Victorino (2002, p.60), “a primeira e mais fundamental crítica feita ao projeto rio Claro foi relativa às próprias intenções descritas no artigo 1º do Decreto de criação da Comissão de Obras Novas, que previa o abastecimento para o triplo da população, ou seja 2 milhões de habitantes ou 6m3/s”. Segundo Henrique Novaes, o rio Claro atenderia 1.588.000 habitantes, o

que seria atingido em 1942, após esse período seria necessário recorrer às águas do Paraibuna, projeto de extensão que foi apenas esboçado. Ou seja, era mais uma obra custosa e provisória, sempre criticada pela opinião pública e pelos especialistas, por diversos aspectos. Outro motivo central era de ordem econômica, isto é, a distância do manancial implicava na necessidade de mais recursos, enquanto que estudos apontavam maior viabilidade econômica no aproveitamento das águas do Tietê e Pinheiros, ainda que fosse necessária a desinfecção das mesmas.

Durante esse período, portanto, se intensificou o debate sobre as formas mais adequadas de abastecimento da futura metrópole, que dividia opiniões. De um lado, estavam os defensores do ideal de captar águas “de cabeceiras, em bacias vestidas de florestas”, conforme o que mandava o Código Sanitário da primeira década do século, defendendo portanto a utilização de águas puras e captação por gravidade. O outro grupo era formado por partidários do aproveitamento em grande escala das águas baixas e já poluídas do rio Tietê, com o emprego de técnicas de purificação de água (VICTORINO, 2002, p.53).

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O primeiro estudo data de 1904 quando o Secretário da Agricultura determina a realização de estudos hidrológicos sobre este rio. Em 1905 o sanitarista Saturnino de Brito indicou o rio Claro como uma das soluções a se examinar na organização de um plano geral de abastecimento. Em 1906 o jornalista e engenheiro Euclydes da Cunha mediu, pela primeira vez a vazão do rio Claro, mas não desenvolveu estudos mais detalhados (VICTORINO, 2002, p.60).

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A Comissão de Obras Novas de Abastecimento foi substituída pelo governador Julio Prestes pela Comissão de Saneamento da Capital, sob direção de Theodoro Augusto Ramos (WHITAKER, 1946, p.11).

Dentro dos parâmetros definidos pelo Código Sanitário, os únicos mananciais que estavam em um raio de 100 quilômetros da cidade eram os rios Cotia e Claro, mas já se previa também seus limites no prazo de 30 ou 35 anos, conforme Saturnino de Brito.

Os professores da Escola Polytechnica argumentavam que nascentes isoladas eram raras e que a simples filtração natural através da terra não ofereceria proteção, sendo as zonas de captação muito suscetíveis à infecção por vetores, que poderiam originar uma epidemia de febre tifóide, por exemplo. A exemplo de outras cidades do mundo que haviam passado por epidemias de veiculação hídrica, os sanitaristas defendiam que somente o tratamento químico asseguraria a potabilidade da água. Por outro lado, as águas fornecidas em São Paulo eram de boa qualidade, porque vinham de áreas ainda pouco povoadas e cobertas de vegetação. No entanto, ninguém podia garantir que isso se mantivesse no tempo e que estariam livres do risco de contaminação. Os sanitaristas, dentre eles Saturnino de Brito, também ponderavam sobre o relativismo quanto à definição de fontes protegidas, diante do aumento provável da expansão urbana (VICTORINO, 2002, p.53).

Esses argumentos tinham como objetivo final desmistificar a idéia de que a água deveria vir de fontes puras, para viabilizar a ideia da captação no rio Tietê. Para Saturnino de Brito (1944), parecia não haver outra alternativa senão a captação no rio Tietê. Segundo ele, no caso de ser “provado que em São Paulo se terá de recorrer forçosamente, no futuro, às águas baixas, exclusivamente para a zona baixa ou também como complemento do suprimento da zona média (...) iniciar o mais cedo possível este processo de suprimento e o garantir com a lei de proteção dos cursos”.

No entanto, Arthur Motta, o principal responsável pelo abastecimento de águas entre 1906 e 1936, era contrário ao tratamento das águas do Tietê, neste momento, por considerá-lo extremamente dispendioso e dependente de progressos técnicos. Essa postura, entretanto, se baseava mais em preconceitos do que em argumentos científicos fundamentados. Além de defender a captação de água em mananciais distantes, ele também acreditava nos mecanismos de desapropriação de toda a bacia, a montante do ponto de captação, como instrumento para garantir a segurança absoluta, no que se refere a epidemias (VICTORINO, 2002, p.55). Para a primeira etapa da adução do rio Cotia, em 1914, foram desapropriado cerca de 10.000 hectares.

A posição de Saturnino de Brito, por sua vez, não era a mesma dos professores engenheiros que acreditavam tecnicamente na desinfecção das águas, pois, além de propor o aproveitamento das águas do Tietê, considerava imprescindível proteger seu curso já em 1905:

O único meio de manter a integridade higiênica do rio é a lei de proteção e a prática do abastecimento: então velarão por ele os interessados pela pureza das suas águas, e o povo e os governos quaisquer, hoje e para sempre. Mesmo que os estudos definitivos provem a vantagem de ainda se recorrer às águas de cursos menos expostos à contaminação (como sejam os dois Cabussus, o Cotia etc.), é preciso proteger as águas do Tietê, a grande reserva para S. Paulo (BRITO, 1943).

Assim, Saturnino de Brito lançava a ideia da conservação dos rios por meio de legislação, e a necessidade de sua proteção não só por questões sanitárias, mas como um importante elemento da paisagem da cidade, salientando a importância de seu uso nesse sentido.

Contudo, a opção pela realização das obras do Sistema Rio Claro não fora puramente técnica, mesmo porque nesse sentido já havia sido criticada na época. Tampouco era o interesse de retorno da oferta de água na forma de tarifas ou mesmo na forma de benefício social. Havia um oportunismo econômico no interesse da realização de obras e de valorização de terras indenizáveis, e Henrique de Novaes estava diretamente implicado com tais interesses, assessorando proprietários que possuíam terras por onde passava o rio, ou a estrada projetada41 (VICTORINO, 2002). As condições foram criadas em 1925, quando Novaes foi chefe da Comissão de Obras Novas de Abastecimento de Água da Capital, e os intermináveis debates entre as opções técnicas de captar águas distantes e puras ou águas próximas com tratamento foram superados, permitindo o início das obras do Sistema do Rio Claro (MOREIRA, 2008, p.93).

O debate sobre a utilização de águas dos rios, por sua vez, não se findou. Em 1924 a Comissão de Melhoramentos do rio Tietê foi restabelecida, sob encargo de Saturnino de Brito. Seu principal objetivo era sanear e promover o combate às inundações da várzea do rio Tietê, possibilitando assim que a área fosse edificada, promovesse a navegação, e o afastamento para jusante das descargas dos esgotos que eram lançados sem depuração. Em 1926, o Relatório da Comissão de Melhoramentos do rio Tietê foi publicado e apresentado ao prefeito Firminiano Pinto. Esse relatório continha um diagnóstico da situação dos esgotos paulistas e sugeria uma solução integrada ao problema.

Nesse Relatório, dentre os principais problemas encontrados, Saturnino de Brito destacou a obsolescência do antigo sistema misto42 de coleta de esgotos. Apesar do sistema separador

absoluto ser adotado a partir de 1912, em 1926, em boa parte da cidade ainda existiam coletores mistos, inclusive na zona baixa, o que era um contrassenso, porque o esgoto aí era elevado através de bombas (porque não podia ser escoado por gravidade, dada a pouca altura), na usina elevatória da Ponte Pequena (OSEKI, 1991, p.31).

Nos bairros servidos pela antiga rede de esgoto como Cambuci, Liberdade, Sé, Bela Vista, Luz, Santa Efigênia, Brás, Belenzinho e Mooca, Bom Retiro, Santa Cecília, Consolação e Pacaembú, os coletores de alvenaria estavam em péssimo estado de conservação e não suportavam a carga durante as chuvas. Além disso, o coletor do Vale do Anhangabaú estava sobrecarregado,

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Em 1912 o senador e engenheiro José Mattoso Sampaio Corrêa (assessorado pelo engenheiro Henrique Novaes) propôs aduzir 60.000m3 deste rio − cujas nascentes localizavam-se em sua propriedade − executando todas as obras e conservando-as durante 20 anos, revertendo ao governo as obras e terras no fim deste prazo. O governo lhe pagaria o volume fornecido à razão de 75 réis por m3 (BRITO, 1944). De acordo com Saturnino de Brito os proponentes “adquiriram direitos (por compra ou por escritura condicional) sobre os terrenos das cabeceiras, como falam na concessão de uma estrada que seguiria grande extensão da projetada linha adutora. Terão adquirido estes direitos no intuito de garantirem o negócio com as águas?” (VICTORINO, 2002, p.60).

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No sistema separador absoluto as águas pluviais são drenadas em tubulações separadas dos efluentes dos esgotos, enquanto que no sistema misto essas águas se misturam numa mesma tubulação, o que exige tubulações de maior volume.

malconservado, e com as chuvas extravasavam diretamente para o rio. As previsões de descarga direta no rio Tietê, com o adensamento populacional e de construções, tornaria a situação intolerável (Ibidem, p.32-33). Além disso, quando as tubulações extravasavam com as chuvas, a população entrava em contato direto com as águas contaminadas, conjugando o problema da salubridade e da água como meio disseminador de doenças (SANTOS, 2011, p.221).

Outro documento, o Relatório de Obras do Saneamento de 1927 expressava preocupações semelhantes em relação aos despejos dos esgotos no rio Tamanduateí, os quais já tinham sido objeto de intervenções entre 1892 e 1893 (antes da retificação do rio), e considerava-se urgente a realização de serviços de construção de galerias de drenagem e escoamento de águas pluviais da região do Brás, assim como a construção de interceptores nas margens do Tamanduateí (SANTOS, 2011, p.218). A construção de novas galerias de drenagem estaria baseada no sistema

Benzer Belgeler