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BÖLÜM 1: İNSAN İLİŞKİLERİ

1.5. İletişim Süreci ve İnsan İlişkileri

A produção do café no sudeste foi economicamente importante para o comércio exterior do Brasil e requereua diversificação de atividades como o aparelhamento de portos, a criação de novos mecanismos de crédito e novos sistemas de transporte,proporcionando um acúmulo de riquezas. Com seu declínio a partir da crise de 1929, o capital foi investido numa série de atividades urbanas que acompanhavam a divisão do trabalho impulsionado pelo processo de industrialização, que por sua vez acelerou o processo de urbanização.

Um dos aspectos centrais da passagem de uma economia a outra, foi a transformação da terra em mercadoria, simultânea ao fim do trabalho escravo e ao processo de imigração de trabalhadores europeus. O marco da mudança foi a promulgação da Lei de Terras nº 601 de 1850, que legitimou a prática da aquisição de terras apenas por título de compra, pelos que já detinham “cartas de sesmaria” ou provas de ocupação “pacífica e sem contestação”, e da própria Coroa (oficialmente proprietária de todo o território ainda não ocupado), e que a partir de então passava a realizar leilões para sua venda10. Com isso impedia-se que os escravos, que seriam juridicamente libertos apenas em 1888, e os imigrantes, presos às dívidas com seus patrões ou simplesmente ignorantes de todos os procedimentos necessários para obter o título de propriedade, comprassem propriedades. Isso, segundo Martins (1981, p.28) “recriava as condições de sujeição do trabalho que desapareceriam com o fim do cativeiro”. A terra passa a ser a nova medida da riqueza e já se definia um claro limite entre proprietários e não proprietários de terras11.

Segundo Murillo Marx (1991, p.119), a Lei de Terras demorou a se impor no meio urbano, pois a compra e venda conviveu por muito tempo com formas precedentes de aquisição de terras

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Anteriormente a esta lei, a ocupação da terra podia ocorrer de duas formas: a ocupação de áreas presumivelmente devolutas pelo pequeno lavrador; ou o grande fazendeiro que, por via legal, obtinha cartas de sesmarias, mesmo em áreas onde já existiam posseiros. A carta de sesmaria tinha precedência sobre a mera posse, razão por que em geral o cesteiro ou comprava a roça do ocupante, ou o expulsava ou o incorporava como agregado de sua propriedade (MARTINS, 1981, p.24-25).

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Segundo José de Souza Martins os ocupantes de terras e os possuidores de títulos de sesmarias ficaram sujeitos à legitimação de seus direitos, o que foi feito em 1854 através do que ficou conhecido como “registro paroquial”. Tal registro validava ou revalidava a ocupação da terra até essa data. No entanto, o mecanismo não impediu uma “verdadeira indústria de falsificação de títulos de propriedades” para validar a posse em cartórios oficiais, geralmente mediante suborno aos escrivães e notários. Grandes conflitos de terra nas frentes pioneiras de São Paulo tinham como base esses documentos (MARTINS, 1981, p.28).

como a concessão de datas, ou partilhadas do rossio; mas foi decisiva. De acordo com Maricato (1995), o mercado de terras efetivamente avançou em São Paulo na Primeira República.

A paisagem urbana passou por transformações com a mercantilização da terra, pois com ela surge, além da necessidade da documentação, a necessidade de precisar a localização, o tamanho do parcelamento e suas frações, configurando o desenho urbano geométrico e racional. A área do lote e sua forma retangular “refletirá a tensão entre a necessidade de atender ao comprador e a de obter o maior lucro possível” (MARX, 1991, p.112). Conforme Murillo Marx, o termo loteamento desponta no final do século XIX e se torna a partir daí corriqueiro (Ibidem, p.108). Nesse momento também passa a existir regulamentações a seu respeito.

Enquanto São Paulo se “modernizava”, e atraia investimentos dos países centrais, particularmente no setor de infraestruturas urbanas, os municípios do entorno continuaram a desempenhar atividade rural, fornecendo alimentos, como é o caso de São Bernardo do Campo. De acordo com Martins, quando a vila de São Bernardo foi desmembrada de São Paulo em 1889, era basicamente um núcleo rural e assim se conservou durante muito tempo, produzindo batata, uva e vinho, lenha e carvão para a cidade. Na região que hoje é o ABC, “um esboço da indústria se dissemina com as olarias para fabricação de tijolos, que serviriam para as grandes construções e a grande revolução arquitetônica da cidade de São Paulo, decorrente do desenvolvimento econômico propiciado pelo café” (MARTINS, 2008, p.47). O fato de estarem numa condição intermediária entre cidade e campo, e desempenharem atividades econômicas relacionadas à São Paulo, diferenciava a situação urbana desses núcleos, chamados de subúrbios12.

Com a mudança no padrão de acumulação, ocorreu simultaneamente uma transformação nas relações sociais, condutas e costumes. O elemento que abalou a lentidão do século XVIII foi a ferrovia, que chega em 1860, com sua velocidade, nova espacialidade e temporalidade, “o tempo regulado pelo custo e pelo lucro” (MARTINS, 2008, p.16). Além de agilizar o transporte do café para exportação, as ferrovias tiveram um efeito considerável sobre a cidade de São Paulo, que passou a sediar residências de fazendeiros.

Entretanto, em meados do século XIX, as cidades brasileiras estavam em estado de calamidade em função da insalubridade e, consequentemente, de uma série de epidemias13, o que se

agravava com o aumento do contingente populacional com a imigração. Segundo Costa (1994), a implantação de sistemas de esgotamento sanitário nas grandes cidades em todo o mundo, em

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Essa designação foi primeiramente encontrada por Martins (2008, p.43), num levantamento oficial da população realizado ainda na segunda metade do século XVIII e referia-se à atual região do ABC, antigos bairros de São Caetano, de São Bernardo, da Borda do Campo e do Caaguaçu, que era povoada por moradores de algumas grandes fazendas e de alguns bairros rurais a elas vinculados, muito ligados à dinâmica cotidiana da cidade de São Paulo. O subúrbio era habitado por poucos brancos, por escravos, por índios administrados e por numerosa população de caipiras, então denominados bastardos, filhos da mestiçagem de índias e brancos (Ibidem, p.47). Depois recebera também a chegada de imigrantes estrangeiros, italianos e alemães.

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Por volta de 1850, epidemias como a febre amarela atingiu o Rio de Janeiro, o Ceará, o Recife, que também teve surtos de cólera e varíola.

geral, só aconteceu após o aparecimento de epidemias de cólera. Em cidades como Paris, Londres, Memphis, Hamburgo e São Paulo, acometidas pela epidemia em 1832, 1854, 1873, 1892 e 1893, respectivamente, tiveram, na sequência, a execução e ampliação de redes de esgotamento (COSTA apud HELLER; REZENDE, 2008, p.67).

O quadro de epidemias, do ponto de vista econômico, ameaçava o desenvolvimento da indústria e do comércio. Isto, aliado à crescente necessidade de adequação das condições sanitárias existentes aos padrões internacionais de comércio, impulsionou a intervenção do Estado nas políticas sanitárias, pois estas se tornavam também imprescindíveis ao avanço da economia14.

Assim o saneamento já era visualizado como intrinsecamente associado à viabilização das relações de produção, e essencial à prevenção de doenças. No Brasil, a realização de melhorias de infraestrutura urbana e dos meios de produção ocorreu inicialmente por meio da concessão dos serviços à iniciativa privada, particularmente de capital inglês, que foi iniciada em várias cidades15. O caso de São Paulo é abordado no item a seguir.

Portanto, a transformação urbano-industrial muda não só a escala e a diversidade das organizações com finalidade econômica, como a vida das pessoas, impulsionando a atuação do Estado sobre aspectos da vida urbana que até então não o ocupava significativamente.

1.3.1

A urbanização em São Paulo: questões sanitárias e segregação socioambiental

Considerando brevemente o contexto de transição do modelo agroexportador para o urbano- industrial abordado acima, passamos a enfocar, no mesmo período, a produção do espaço urbano na cidade de São Paulo, núcleo econômico e geográfico da região metropolitana, que se formará nos períodos subsequentes. Para as temáticas dessa tese, a fase de transição e “explosão” da cidade de São Paulo (para no item seguinte tratar do caso de São Bernardo), reúne uma pluralidade de acontecimentos relevantes, particularmente as mudanças que ocorrem com a infraestruturação da cidade, condição necessária a sua expansão, e por isso mesmo o saneamento passa a ser tratado como problema coletivo, sobre o qual o Estado terá que encontrar soluções. Em paralelo, a questão habitacional passará a ser um problema a ser enfrentado, também do ponto de vista sanitário.

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As reformas sanitárias para modernizar a cidade no Rio de Janeiro empreendidas pelo médico Oswaldo Cruz e o engenheiro Pereira Passos são emblemáticas desse período.

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Heller e Rezende (2008) pontuam as primeiras experiências da presença de empresas inglesas no setor de infraestrutura e serviços urbanos em diversas cidades do período. Em 1855, o Rio de Janeiro foi a primeira cidade a ter sistema de coleta de esgotos, na penitenciária pública. Depois a concessão foi dada para a The Rio de Janeiro City Improvements Company Limited, em 1862, sendo as primeiras obras inauguradas em 1864 (adoção de sistema unitário). Recife, em 1873, contou com o sistema de esgotamento sanitário por meio da concessão à companhia inglesa Recife Drainage Company (até 1908). Em Porto Alegre, a concessão à Companhia Hydráulica Porto Alegrense, de capital inglês, ocorreu em 1861, mas o sistema só foi inaugurado em 1866. Em Belém, o abastecimento de água foi implantado pela Companhia das Águas do Grão-Pará, também de capital inglês, a partir de 1881. Em São Luis, os serviços de água, esgotos, tração, luz e prensa de algodão eram controlados por companhias inglesas. Em Fortaleza, o abastecimento de água foi feito pela concessão à Ceará Water Works Company Limited, a partir de 1867 (HELLER; REZENDE, 2008, p. 128-129).

A historiografia demarca a década de 1870 como um momento de inflexão na cidade de São Paulo, quando passou de burgo de estudantes à metrópole do café, também considerada sua “segunda fundação” (DE PAULA, 1954). As transformações urbanas decorrentes do investimento do capital cafeeiro instauraram nova dinâmica na vida urbana, rompendo com inatividade e a pouca importância que a cidade tinha durante o século XVIII. Do ponto de vista quantitativo, de 1872 a 1890, em duas décadas portanto, a população da cidade dobra, passando de 31.385 habitantes para 64.934 habitantes, respectivamente; quadruplicando entre esta data e 1900, chegando a aproximadamente 240 mil habitantes. “Qualitativamente a cidade explode (e implode), sai dos limites do triângulo central e se espalha com o loteamento de antigas chácaras vizinhas” (OSEKI, 1991, p.12).

O poder público local, durante a administração de João Teodoro Xavier (1872-1875), passa a atuar no embelezamento do espaço urbano, realizando diversas obras e melhoramentos, como abertura de ruas, jardins e passeios16, pois era necessário estruturar os serviços e equipamentos

públicos e coletivos.

Aabertura de loteamentos passa a ser objeto de investimentos lucrativos, atraindo o interesse de empreendedores nacionais e estrangeiros. Os chamados bairros aristocráticos começavam a ser construídos e ocupados pelas elites econômicas. O bairro de Campos Elíseos (1879), de Higienópolis (1890), a Avenida Paulista (1891) e em seguida os bairros jardins construídos pela Companhia City em 1915 (Jardim América, Jardim Europa, Pacaembu, Alto da Lapa, e além do Tietê o alto de Santana) são exemplos do padrão “exclusivo” e higiênico17 de ocupação do espaço urbano.

O ramo imobiliário, portanto, foi um dos setores que recebeu investimentos oriundos do excedente econômico do café, além da indústria, comércio de importação, exportação e varejista, sistema bancário e serviços urbanos, todos produtos do capital mercantil urbano (FIX, 2011, p.51). Como argumenta Fix, “a criação de um mercado de trabalho e a mercantilização da terra, aliadas ao crescimento das atividades urbanas, criaram as condições para que o complexo da construção civil começasse a se configurar”, o que ocorreu como consequência do mercado de residências de luxo, pois ele abriu oportunidades para a organização da atividade construtora em bases empresariais, com a divisão de trabalho entre escritórios de arquitetura e engenharia, construtoras, comércio de importação de materiais de construção, indústria e comércio locais de materiais de construção (Ibidem, p.67).

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As intervenções foram: a construção da Ilha dos Amores (1875), formando passeio público na Várzea do Carmo (sem resolver o problema de enchente); a reforma do Jardim da Luz frente à nova estação de ferro; regularização do largo dos Curros (hoje Praça da República); abertura das ruas Conde d’Eu (atual rua do Glicério), ruas João Teodoro e Palha (hoje 27 de abril); alargamento das ruas do Gasômetro, do Pari, do Hospício (hoje Frederico Alvarenga) e Municipal (hoje ladeira General Carneiro); reformulação do Palácio do Governo (SANTOS, 2011, p. 57). Em 1872 a Companhia dos Carris implanta bondes por tração animal e inicia-se a substituição de lampiões a querosene por gás (BUENO, 1994, p. 54).

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Para esses bairros havia leis que definiam o modo “exclusivo” de construir da elite que, além de determinar um padrão de ocupação, serviam como garantia de proteção de seu espaço. A casa unifamiliar isolada em grande terreno e separada da rua e dos vizinhos ficou conhecida como modelo higiênico (ROLNIK, 2003, p. 46).

Mapa 1 Mapa 1 Mapa 1

Mapa 1 – Planta da Cidade de São Paulo em 1881. Repartição de Águas e Esgotos de São Paulo.

Fonte: Arquivo Público do Estado de São Paulo, disponível em http://www.arquivoestado.sp.gov.br/upload/ Cartografico/mapas/TemplateWebPage.php?imagem=BR_APESP_IGC_IGG_CAR_I_S_0203_001_002, acessado em: 18/02/2013.

Ao mesmo tempo, pouca atenção se voltava aos bairros populares, onde a população vivia nas piores condições higiênicas e sanitárias, submetida a uma precariedade que aumentava com a crescente aglomeração de trabalhadores mal-alojados.

No início do século XX, a ocupação da cidade apresentava-se dividia em dois blocos separados pela várzea do Tamanduateí. No velho centro, onde está o Pátio do Colégio, já haviam se adensado os bairros da Liberdade, Bela Vista, Consolação, Campos Elíseos, Bom Retiro, Santa Ifigênia; do outro lado, atravessando a várzea do Carmo (atual parque Dom Pedro II),

concentravam-se os núcleos do Brás, Mooca, Pari e Santana. Os terrenos situados nas áreas altas tinham preferência sobre as áreas baixas e as várzeas inundáveis, que por sua vez tinham menor preço e onde se instalaram diversos cortiços.

Nesse período, até a década de 1930, variadas modalidades de moradia para as camadas sociais de baixa e média renda foram construídas pela iniciativa privada, tais como cortiço-corredor, cortiço casa de cômodos, vários tipos de vilas e corredores de casas geminadas. A vila operária era considerada o modelo ideal de habitação higiênica, mas nem todos os trabalhadores conseguiam pagar os aluguéis, indo morar nos cortiços, onde as condições eram muito mais precárias, deixando os moradores mais suscetíveis aos problemas sanitários. Essa situação estava presente nos bairros de Santa Ifigênia, Bom Retiro, Bexiga e no Brás.

As moradias para classes de renda média também eram em grande parte acessadas por meio do mercado de aluguéis, outra forma de obter grandes lucros com os empreendimentos imobiliários, o que Bonduki (2011) denominou de produção rentista18. O investimento tinha

retorno garantido e não havia controle estatal sobre os aluguéis, fixados em contrato pela lei da oferta e da procura; o direito de propriedade, garantido pela Constituição Civil, permitia o despejo, favorecendo assim os proprietários (BONDUKI, 2011, p.44).

Mas enquanto a moradia era produzida sem a participação do Estado, no âmbito do empreendimento privado, a infraestrutura insuficiente combinada ao aumento populacional favorecia a propagação de epidemias, constituindo o chamado problema sanitário. É justamente esse problema que forçará a ação estatal sobre habitação popular durante a Primeira República (1889-1930).

Segundo Bonduki, para se compreender o significado da intervenção estatal no espaço urbano nesse período, é preciso considerar que o Estado liberal relutava ao máximo em interferir na esfera privada e nas regulamentações trabalhistas, e tratava a questão social por meio de um aparato policial para controlar os trabalhadores e defender instituições. Na habitação, porém, o Estado foi levado a atuar de forma mais rigorosa (BONDUKI, 2011, p.27).

No final do século XIX, uma importante pressão sobre o Estado foi exercida pelo grupo dos higienistas, médicos e engenheiros que, apesar de liberais, demandavam medidas e uma legislação especial que os possibilitassem intervir nas residências. Tinham como exemplo as leis sanitárias inglesas, francesas e alemãs19. A legislação urbanística brasileira nesse período foi

influenciada especialmente pela teoria dos fluidos, que dominava o pensamento médico na

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Na produção rentista predominava a produção por encomenda (construção em etapas), o que viabilizava a participação de diferentes portes de investidores, inclusive pequenos, que construíam conforme a disponibilidade de dinheiro. Em menor número havia trabalhadores que economizavam, compravam lote afastado e barato, e construíam por conta própria, como fizeram alguns imigrantes italianos.

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A situação nas cidades européias, que já haviam se industrializado e concentrado população, era muito pior se comparada à das cidades brasileiras. A clássica descrição de Londres, feita por Engels em Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra, ilustrava o contexto alarmante em que viviam os trabalhadores. A Lei Sanitária inglesa foi promulgada em 1848, em meio a muita polêmica e resistência dos liberais, mesmo tendo sido aprovada após cinquenta anos de processo de urbanização e industrialização, e após vinte anos de epidemia de cólera (BONDUKI, 2011, p.28).

França desde o século XVIII e segundo a qual o ar e a água eram considerados veículos mórbidos, portadores de emanações fétidas e pútridas, os miasmas, transmissores de doenças.

Por isso, a legislação orientava a construção de moradias e intervenções no meio físico. Mas, “rapidamente, a observação médica e a teoria do contágio desloca-se do meio físico para o meio social, do espaço público para o espaço privado”, responsabilizando os miseráveis urbanos pela propagação de doenças (ROLNIK, 2003, p. 40). Cabe apontar que na década de 1870, a teoria dos micróbios formulada por Pasteur já mostrava que as doenças contagiosas não se transmitiam pelo ar contaminado, conforme acreditava a teoria dos miasmas, mas por germes infecciosos propagados por meio do contato indireto entre pessoas e objetos. No entanto, não foi essa justificativa que embasou a referida legislação (Ibidem, p.42).

Em São Paulo, o conjunto de medidas sanitárias governamentais adotado para enfrentar a propagação de epidemias teve três componentes principais, conforme resume Bonduki (2011, p.30): a criação da Diretoria de Higiene, com poderes de polícia e inspeção sanitária, isto é, podia entrar nos domicílios para controlar a vida, as regras de asseio, higiene e saúde de seus habitantes; a promulgação de vasta legislação de controle sanitário e de produção de habitações, com destaque para o Código Sanitário de 1894; a participação do Estado na gestão de obras de saneamento e de abastecimento de água e de coleta de esgotos, sobretudo pela encampação da Companhia Cantareira de Águas e Esgotos e pela criação da Comissão de Saneamento das Várzeas.

As epidemias causavam pânico na população, o que dava suporte a qualquer medida que a Diretoria de Higiene e polícia sanitária propusessem. Além das violentas ações de desinfecção de edifícios e demolição de cortiços, havia um componente de controle moralizante, que procurava interferir inclusive nos comportamentos e hábitos de vida e asseio doméstico da população pobre, considerada ignorante, sem moral e higiene. Conforme Rolnik (2003, p.41), a associação entre doença, imoralidade e pobreza enredou-se de tal modo que demarcou um território rejeitado na cultura urbanística da cidade de São Paulo. Apesar de grande parte das intervenções da polícia sanitária buscar eliminar focos nas casas pobres, de fato, a falta de saneamento era um dos principais motivos da propagação de doenças.

Outra forma de atuação do Estado foi por meio da regulamentação de controle do uso do solo, fortemente defendida e influenciada pelos higienistas. Em 1886, o Código de Posturas regulamentava a construção de cortiços e das casas operárias, estipulando o tamanho de cômodos, a existência de poço com água e tanque a cada seis habitações e uma latrina com água a cada duas habitações20. Nesse sentido, o Código tolerava a presença de cortiços. Ele continha disposições gerais sobre os melhoramentos relacionados com o saneamento urbano, mas não a garantia de meios para sua implantação (ANCONA, 2002, p.118).

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No nível estadual, em 1892 é criado o Serviço Sanitário, órgão responsável pelo controle das epidemias21. A legislação subsequente, o Código Sanitário de 1894, implantado por decreto, era

mais rigorosa e completa, refletindo a ascendência dos higienistas. No que tange à habitação, proibia a construção de cortiços (nos bairros centrais) e atribuía à municipalidade a responsabilidade de fechar os existentes, bem como determinava que as habitações insalubres deveriam ser saneadas ou demolidas. Por outro lado, permitia a construção de vilas operárias higiênicas fora da aglomeração urbana (ROLNIK, 2003, p.47). Em relação aos serviços de saneamento, centralizava a nível estadual o controle da gestão não só dos serviços de águas, esgotos e lixo, mas definia também algumas regras para ocupação do solo urbano e para a gestão municipal como: o dessecamento e drenagem de terrenos urbanos úmidos e pantanosos, o calçamento de ruas e praças, a arborização da cidade, a proibição de cocheiras e estábulos dentro da cidade, o disciplinamento da localização dos edifícios coletivos e cemitérios, relação entre altura e volumetria dos prédios e largura das ruas (BUENO, 1994, p.45).

Exigências semelhantes foram adotadas nas legislações do município de São Paulo no mesmo período. De fato, se essas leis fossem aplicadas com a rigorosidade que preconizavam, teriam desabrigado grande parte dos trabalhadores urbanos. Por outro lado, o não cumprimento de suas normas mantinha o cortiço como fonte de rendimentos de aluguel, garantida pela

Benzer Belgeler