• Sonuç bulunamadı

Em São Paulo, diante do contexto da crise no abastecimento e o do descontentamento da população, a entrada da iniciativa privada foi a solução encontrada diante do fracasso dos governos Provincial e Municipal em resolver a falta de saneamento. Em 1875, a lei provincial nº 45 de 20 de abril dispõe sobre a instalação obrigatória de um sistema completo de “despejos e esgotos” nos prédios da capital. Entretanto, a obrigatoriedade de instalação de água não foi aprovada. Em outubro, o governo provincial contrata o Coronel Antonio Proost Rodovaldo, o

23

No início do século XX São Bernardo concentrava a parte administrativa e também tinha maior desenvolvimento econômico que Santo André, devido à fabricação de carvão e à então florescente indústria de móveis e serrarias. A partir de uma lei de 1911, contudo, muitas novas empresas preferiram se instalar em locais próximos à estação ferroviária, favorecendo o distrito de Santo André, que passou a se desenvolver num ritmo muito mais acelerado que São Bernardo (SÃO BERNARDO, 2010, p.20).

engenheiro Daniel M. Fox e o Major Benedito Antonio da Silva para o sistema de abastecimento de água da capital (REIS FILHO, 1989).

Em 1877, durante a presidência da província de Sebastião José Pereira (1975-1878), o governo firma concessão com a empresa Companhia Cantareira e Esgotos, montada por alguns capitalistas locais24 que contrataram os serviços de engenheiros ingleses. A empresa teria o monopólio da venda de água e coleta de esgotos por 70 anos, conforme regia o contrato com a província.

A Companhia iniciou a captação do ribeirão Pedra Branca, na Serra da Cantareira. Para a adução de água, executou uma tubulação de 14,5km que ligava o ponto de captação ao norte da cidade ao reservatório da Consolação25, construído em cimento Portland. Este reservatório começou a operar em 1881, distribuindo água de boa qualidade da Serra da Cantareira26 (SANTOS, 2011, p.58). Ainda em 1878, por força de contrato, a Cantareira inicia a construção dos chafarizes públicos dos Largos de São Bento, do Pelourinho (hoje 7 de setembro), do Brás, dos Guaianases (atual Praça Princesa Isabel), e 7 de Abril (atual Praça da República). Esses chafarizes foram entregues para uso público em 1º de janeiro de 1882 (FARIA, 2004, p.46).

Em 1878, quando se inicia o serviço de abastecimento de água domiciliar, o Decreto Imperial nº 6833 regula pela primeira vez o preço da água em São Paulo, autorizando as empresas que exploravam o serviço a cobrar 1$500 por quilolitro (MOTTA, 1938).

Os prédios e casas ligados à rede foram abastecidos a título gratuito até março de 1882, quando a Companhia começou a cobrar as taxas de consumo. Segundo Santos (2011), esse imposto servia para cobrir gastos com a implantação do serviço, e seria pago pelos “favorecidos da fortuna” e do qual a “população indigente” estaria isenta (SANTOS, 2011, p.58). Em março havia 133 prédios ligados à rede; em dezembro, 150. Em 1883 já estavam ligados à rede 745 prédios; em 1885, 2.776 e em 1888, 5.008(FARIA, 2004, p.46). Além da adução da Serra da Cantareira, havia também a adução do rio Ipiranga27.

Entretanto, sob o argumento de melhorar e ampliar o serviço de saneamento, a Companhia passou a desativar diversos chafarizes como forma de obrigar a população a promover a

24

A primeira diretoria da empresa foi composta pelo Barão de Três Rios, Clemente Falcão de Souza Filho e Raphael Aguiar Paes de Barros (SANTOS, 2011, p.57).

25

As obras do reservatório da Consolação, que captava as águas dos ribeirões Toucinho e Iguatemi e também do córrego do Barro Branco foram conduzidas pelo engenheiro inglês Henri Batson Joyner. Foi desdobrada também a rede de distribuição de água pela zona urbana da cidade, abrangendo a área que se estende desde a Ponte Grande, atual Ponte das Bandeiras, até o Largo da Liberdade e desde a meia encosta da Rua da Consolação até a Igreja do Brás, numa extensão de encanamentos de 35.660 metros, de diâmetros diversos, variando entre 3 a 15 polegadas (FARIA, 2004, p.45).

26

Por volta de 1883, os primeiros beneficiários do serviço foram 71 prédios do bairro da Luz. (SAVELLI, 1964, p.84).

27

Esta adução fornecia aproximadamente 3 milhões de litros de água por dia de uma represa na Água Funda, onde hoje se localiza o Jardim Zoológico da Capital, servindo as zonas de além-Tamanduateí, ou seja, Brás, Mooca e Ipiranga (Faria, 2004, p.46).

instalação da infraestrutura para receber água encanada no interior dos imóveis, o que gerou conflitos e tensões, especialmente com a população pobre.

Por certo, uma série de fatores implicava em relações conflituosas entre a Companhia e o Estado, bem como entre a Companhia, o Estado e a população. No primeiro caso, um dos conflitos referia-se ao próprio entendimento de atribuições entre empresa, Estado e municipalidade. Apesar de reguladas em contrato, as responsabilidades eram frequentemente contestadas por cada parte (MOREIRA, 2008, p.64).

Além disso, Moreira (2008) identificou que de 1881 até a entrega do primeiro distrito de esgotos no bairro da Luz, em 188328, há registros de cobranças da Companhia ao governo provincial para que fossem pagas as despesas da instalação da rede de esgotos; e de negativas de pagamentos, alegando má execução da rede, só aceita em 1893. Sendo assim ela conclui que “a sustentação econômico-financeira da atividade e a regulação e controle de seus resultados revelava dificuldades que o padrão de investimento de empresa privada não conseguia suprir.” (Ibidem, p.64).

A Companhia precisava expandir o mercado de água, e dependia do retorno de seus investimentos por parte da Província, na forma de tarifas. Para que isso funcionasse, no entanto, a ligação das residências à rede era fundamental, viabilizando a generalização do consumo. Assim, o domicílio que até então não se conectava aos serviços urbanos, passa a ser elemento fundamental para o funcionamento do sistema, especialmente do ponto de vista econômico. Conforme Mautner e Oseki “A implantação das redes de infraestrutura viabilizariam a produção de um espaço virtualmente homogêneo e reprodutível que será sua condição de troca e mercantilização.” (MAUTNER; OSEKI, 1993, p.14).

O fato de a Companhia destruir os chafarizes, que até então distribuíam água gratuitamente, fazia com que a água passasse a ser mercadoria, visto que o acesso estava condicionado à conexão da residência à rede urbana da cidade e, principalmente, ao pagamento do serviço. Compartilhamos dessa observação feita por Santos (2011, p.59), mas salientamos que o simples fato da concessão ser repassada a uma empresa privada, já implicaria na generalização de sua mercantilização, o que anteriormente era muito incipiente e pontual com a ação individual dos aguadeiros. Por outro lado, os chafarizes já eram alvo de reclamações, tanto pela quantidade como pela qualidade de suas águas, bastante contaminadas, tornado sua manutenção praticamente inviável.

A destruição dos chafarizes já na década de 1870 também tem como hipótese defendida por alguns autores os interesses especulativos e de cunho moralizante, com o sentido de

restabelecer uma civilidade adequada à valorização dos imóveis das imediações, em oposição à barbárie ou incivilidade das aglomerações comuns nos chafarizes. Havia também a tentativa de

28

A rede de esgotos teria ficado pronta em 1883 (TELLES, 1984 apud OSEKI, 1992, p.19), sendo o primeiro distrito de esgotos o da Luz. Oseki (1991) detalha as características e traçado dessa rede, que separava o esgoto da drenagem.

fazer da região central um espaço aburguesado, que não admitia os habituais frequentadores dos chafarizes, em particular os negros (SANT'ANNA, 2004; JORGE, 2006).

A Companhia Cantareira passa a enfrentar sérios problemas porque não tinha capital suficiente para realizar obras que se tornavam de porte cada vez maior, pois a demanda aumentava ininterruptamente com o aumento da população. A empresa entra em crise econômica e é obrigada a recorrer a repetidos empréstimos, pela necessidade de complementar o estabelecimento da rede distribuidora, agravada pela urgência de novas captações (FARIA, 2004, p.47). Isso deixava claro que a construção de condições para posterior prestação de serviços de saneamento não se constituía como atividade lucrativa nesse momento.

Ao final da década de 1880 e início da década de 1890, a demanda populacional de São Paulo superava as expectativas, com cerca de 120.000 habitantes, impulsionada, sobretudo, pela transformação por que passava o trabalho, refletida na vinda dos imigrantes. O sistema projetado para o abastecimento de água era insuficiente para o crescimento da cidade, carecendo de maior volume de água aduzida.

Na busca por soluções para ampliar o abastecimento, a Companhia acabou por adquirir um dos mananciais do Cassununga, também na Serra da Cantareira, quando o Governo intervém em seu auxílio, tomando a seu cargo as obras de adução (FARIA, 2004, p.47). Era o primeiro passo para a encampação, que se deu em novembro de 1892.

Figura Figura Figura

Figurassss 2222 e 3e 3e 3 – Represa do Cassununga nº2 e reservatório de acumulação, respectivamente. e 3

Fonte: Foto Arquivo Público do Estado de São Paulo. Álbum da Secretaria de Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Fotos de P. Doumet para a Repartição de Água e Esgotos da cidade de São Paulo, 1893. Disponível em http://www.arquivoestado.sp.gov.br/aguas.php, acesso em 09/04/2013.

Em relação ao tratamento de esgotos, não havia a mesma preocupação tanto por parte da população como do Estado, pois a reivindicação maior era por água. Conforme explica Oseki (1991) a obrigatoriedade da ligação dos prédios no sistema de “despejos e esgotos” servia mais a São Paulo dos ricos, enquanto que a pobreza continuou à margem da rede. Ainda conforme este autor, a concepção e distribuição da rede privilegiava a drenagem da colina e das elevações fronteiras. “A rede coletora de esgotos trabalhando por gravidade e sendo colocada no fundo dos vales drenava as partes altas, havendo apenas uma canalização simbólica em direção ao Brás, que permaneceu muito tempo sem ser utilizada” (Ibidem, p.40).

Esse descompasso, que se origina desde o início da implementação das redes, só piorou com o tempo, como se verá, chegando a se reproduzir atualmente, como demonstram os índices de coleta e tratamento.

1.5

Saneamento como questão do Estado: A Repartição de Serviços Técnicos de Águas

Benzer Belgeler