3. YÖNTEM
3.3 Veri Toplama Aracı
Mas a dinamicidade da economia levou ao meio rural atividades não
tipicamente rurais, ligadas mais precisamente a uma existência citadina.
Turismo rural, moradias permanentes próximas aos grandes centros urbanos,
empreendimentos imobiliários para a classe média e os ricos. Esses
empreendimentos de origem urbana trazem consigo uma grande variedade de
bens e serviços de suporte ao meio rural. São bares, restaurantes, postos de
gasolina, lojas as mais diversas, lan house’s, locadoras de automóveis etc. Um
micro-universo urbano que se transfere ao meio rural tendo em vista a
construção de estruturas urbanas nesse meio. Por outro lado, indústrias se
instalam, por exemplo, por motivos fiscais em áreas rurais, trazendo consigo a
urbanidade de relações sócio-econômicas muito específicas, anteriormente
estranhas àquele ambiente.
Contudo o próprio meio rural passa a ser hospedeiro de atividades rurais
estranhas num determinado momento histórico. Aliás, nesse contexto o que
Graziano deixa absolutamente claro é o caráter relativo do que se denomina
por “novas” atividades agropecuárias:
O termo “novas” foi colocado entre aspas porque muitas atividades, na verdade, são seculares no país, mas não tinham, até recentemente, importância como atividades econômicas. Eram atividades de ‘fundo de quintal’, hobbies pessoais ou pequenos negócios agropecuários intensivos (piscicultura, horticultura, floricultura de mesa,criação de pequenos animais, etc.), que foram se transformando em importantes alternativas de emprego e renda no meio rural nos anos mais recentes.Essas atividades, antes pouco valorizadas e dispersas, passaram a integrar verdadeiras cadeias produtivas , envolvendo, na maioria dos casos, não apenas transformações agroindustriais, mas também serviços pessoais e produtivos relativamente complexos e sofisticados nos ramos de distribuição, comunicação e embalagens, em busca de nichos de mercados muito específicos (SILVA, José Graziano da; DEL GROSSI, Mauro Eduardo. O novo rural brasileiro: uma atualização para
1992-98. Campinas: Unicamp, 2005. Disponível
em:<http://www.eco.unicamp.br/nea/rurbano/textos/downlo/textos.htm l>.Acesso em : 27, mar. 2006).
Novo como sinônimo de não tradicional e mais, que simplesmente não é
constituído de atividades necessariamente agropecuárias. Esse rural não
simplesmente agropecuário surge da modernização da agropecuária e da
entrada no meio rural de atividades não existentes nesse meio no Brasil.
Nesse contexto, a história de cada segmento desse “novo rural” é, de
per si, de complexidade significativa. Em primeiro lugar trata-se da instalação
de atividades antes absolutamente estranhas a existência humana dentro de
um determinado espaço. O surgimento de cadeias de entretenimento no meio
rural, cujo caso mais radical conhecido, Las Vegas nos Estados Unidos, é
empreitada de enorme envergadura com conseqüências sociais e econômicas
por demais intensas.
O surgimento da piscicultura do salmão no Chile e da carcinicultura no
Equador, México e Brasil, bem como toda a aqüicultura mundial inverte
relações de produção de ponta-cabeça, pelo simples fato de mudar
completamente o principal meio de produção que antes historicamente era a
terra e agora passa a ser a água. Mas nada disso se compara ao movimento
atual de mudança da matriz energética que do petróleo passa para a
fotossíntese. Isso porque ela é a base de todo sistema produtivo de
mercadorias.
São muitos os exemplos, a maioria deles ainda por merecerem maiores
estudos. Contudo o que se tem de essencial é que o novo rural não é, em
absoluto, uma categoria meramente demonstrativa de que novas atividades
passaram a fazer parte do meio rural. É muito mais do que isso. Precisamente
possui uma radicalidade, a saber, de que esse novo é muitas vezes a única
inclusão possível e que o antigo rural, por eliminação, não se sustenta na
contemporaneidade do desenvolvimento das forças produtivas e das relações
sociais de produção do capitalismo contemporâneo.
Concordando com essa tese, as conseqüências sócio-econômicas e
políticas são absolutamente imediatas para o Nordeste. Região amplamente
atrasada no seu meio rural, predominantemente se inventou e reinventou a
partir de suas atividades tradicionais nesse espaço.
O Nordeste não é um fato inerte na natureza. Não está dado desde sempre. Os recortes geográficos, as regiões são fatos humanos, são pedaços de história, magma de enfrentamentos que se cristalizaram, são ilusórios ancoradouros da lava da luta social que um dia veio à tona e escorreu sobre este território. O Nordeste é uma espacialidade fundada historicamente, originada por uma tradição de pensamento, uma imagística e textos que lhe deram uma realidade e presença (ALBUQUERQUE JR, 1999, p. 312).
Espacialidade fundada historicamente numa sócio-economia tradicional
que perdurou em sua quase totalidade territorial. Esse tradicionalismo é
perpetuado como cultura, como elemento central da nordestinidade. Nesse
contexto, um exemplo interessante existe no Rio Grande do Norte: a Festa do
Boi.
A Festa do Boi é, na verdade, um evento que privilegia politicamente um
passado presente apenas no passado, mas que não existe como realidade
econômica. A agropecuária do Nordeste de maneira geral e do Rio Grande do
Norte em particular se acabou. No entanto há nos meses de outubro de todos
os anos em Natal uma festa na qual os principais políticos do estado têm que
“pedir a bênção” a uma categoria econômica de produtores absolutamente
falidos que não têm nenhuma contribuição à sócio-economia do RN vivendo
exclusivamente (quando conseguem) de benesses do Estado. A Festa do Boi é
uma festa do passado como se o passado precisasse ser perpetuado num
presente que não existe e não existirá mais. Essa informação assusta apenas
aos leigos. Aqueles que minimamente estudam os dados e visitam o campo,
conhecem-na. Encerrando essa pseudo- polêmica, uma breve visita ao
IPEADATA evidencia que o Rio Grande do Norte possui o vigésimo PIB
agropecuário dentre os 27 estados da união (os dados encontram-se, dentre
outras fontes, disponíveis no site
<http://www.ipeadata.gov.br/ >)A festa do boi é um exemplo. Festas do boi se reproduzem do Maranhão
até a Bahia, produto da construção de um tipo de Nordeste.
Esse Nordeste é uma máquina imagético-discursiva que combate a autonomia, a inventividade e apóia a rotina e a submissão, mesmo que esta rotina não seja o objeto explícito, consciente de seus autores, ela é uma maquinaria discursiva que tentam evitar que os homens se apropriem de sua história, que a façam, mas sim que vivam uma história pronta, já feita pelos outros, pelos antigos; que se ache “natural” viver sempre da mesma forma as mesmas injustiças, misérias e discriminações. Se o passado é melhor que o presente e ele é a melhor promessa para o futuro, caberia a todos se baterem pela volta aos antigos territórios esfacelados pela história (ALBUQUERQUE JR, 1999, p.85)
Região mitificada no tradicional, no momento em que o tradicional (há
muito em crise) se depara com transformações tão radicais que se
transformam em fosso de profundezas abissais, podendo gerar um caráter
intransponível que serve de mola à continuidade do circuito da pobreza:
Os regionalismos explodem como reação conservadora a este processo de globalização. Os nacionalismos e regionalismos são anacrônicos e reacionários, embora em determinado momento histórico eles tenham possibilitado conquistas sociais e políticas importantes, bem como incentivado a criatividade artística e cultural. Mas estes parecem esgotados na sua potencialidade criativa, visto que se fossilizam no mesmo momento em que um dado feixe de imagens e de enunciados, de sons e de sentidos foram escolhidos como representativos da nação ou da região; no mesmo momento em que esta sedimentação de saberes se apóia numa rede de poderes que se quer perpetuar como defensora da nação ou como representante da região.
Parece, hoje, ser preciso ultrapassar as nações ou as regiões para permitir a emergência do novo, porque a nação, tanto quanto a região, se tornaram maquinarias de captura do novo, do diferente, e
por isso vivem permanentemente em crise. No Brasil estamos sempre carentes de nação, e no Nordeste somos sempre de uma região carente. Quanto mais os golpes de Estado, as ditaduras, as conciliações dos vencedores nos prometem salvar a nação e a região, mais a carência de nação e de região parecem se agravar. Discursos como o da dependência, do subdesenvolvimento como parte do desenvolvimento, da exploração colonial como causas explicativas de nossa situação enquanto país, parecem estar cada vez mais desgastados, porque partem de uma premissa de fundo, que é a de nossa vitimização enquanto país; a culpa por nosso atraso é dos outros, não nosso, enquanto vencedores e vencidos. O mesmo se pode dizer do discurso que gira em torno da denúncia do colonialismo interno, das desigualdades regionais, da exploração do Nordeste pelo Sul e vice-versa. São discursos presos a essa lógica da vitimização, da culpa sendo posta sempre no “outro”, criando um “eu” descomprometido com sua própria condição. O discurso das desigualdades regionais, por exemplo, traz em suas bases a falsa premissa de que um dia existiu ou poderão existir regiões iguais, além de partir da naturalização e homogeinização das regiões que põem em comparação. Na verdade, existem repercussões tanto em nível nacional, como regional, dos mecanismos diferenciados de produção do capital em nível internacional e dos interesses imperialistas, mas tais relações não são hoje externas a nós; elas nos atravessam, são constitutivas de nós; nós as reproduzimos. Não existem, portanto, o externo e o interno (ALBUQUERQUE JR, 1999, p.309-310)