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Uma agropecuária moderna baseada no agro-negócio significa dizer por

exemplo (e são muitos os exemplos) que o gado que está sendo exigido na

contemporaneidade não é mais qualquer animal, mas um bovino de qualidade,

criado dentro dos melhores padrões de higiene e engorda (cada vez mais

tendo por exigência o rastreamento), abatido em estabelecimentos fiscalizados

pelo SIF, acondicionados em embalagens especiais, com cortes especiais,

enfim adicionando valor de forma continuada a partir da continuidade das

mudanças existentes na produtividade social média exigida no segmento

produtor de carne. Ora, esse segmento hoje é, no Brasil, o mais avançado do

mundo e tem sua ponta de lança na bovinocultura do Centro-Sul, tendo São

Paulo como eixo principal, responsável por 39,4 % das exportações brasileiras

de carne bovina em 1996.

O colocado anteriormente atende pelo nome de teoria do valor. Uma

mercadoria (qualquer que seja ela) é unidade dialética entre suas

características úteis (de satisfazerem necessidades humanas físicas e/ou

espirituais) e sua capacidade de ser vendida no mercado. Essa relação entre

utilidade e capacidade de ser vendida é absolutamente tumultuada e

interdependente. Produz-se algo com o objetivo de se obter lucro (o que

tenderia a conferir menor status à utilidade da mercadoria produzida); mas ao

se fazer isso numa sociedade que produz ininterruptamente com o mesmo

objetivo, a análise constante da utilidade da mercadoria passa a ser feita,

sobretudo em duas de suas características principais impactantes na

lucratividade, quais sejam, a qualidade da mercadoria e a produtividade social

média com que ela está sendo produzida. Sendo assim, qualidade e

produtividade passam a ser determinantes da utilidade social da mercadoria,

portanto do alcance das vendas e, em decorrência, da lucratividade obtida com

a sua produção e venda. Esse cenário de mudanças permanentes foi se

desenvolvendo até atingir o estágio atual de transformações quase que

cotidianas. Um mundo em permanentemente mutação

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.

Portanto o que se chama de mercadoria muda permanentemente.

Aqueles que conseguem permanecer acompanhando as transformações

continuam circulando no meio de uma lucratividade social média do sistema.

Os que superarem a média terão uma lucratividade extra. Quem não

acompanhar as mudanças, é excluído do mundo do lucro. Essa “lei” geral da

produção de mercadorias há muito dominava o meio urbano artesanal e

posteriormente industrial. Foi se adentrando gradativamente na agricultura e

hoje a domina por completo.

É consenso no âmbito da história econômica brasileira que a

modernização da agricultura inicia-se a partir da dinâmica da economia

cafeeira. Última grande atividade agroexportadora nacional nasce sob o atraso

de relações sociais de produção que tinha por base a escravidão, mas

continuou a se desenvolver com a inevitável destruição dela. De qualquer

forma, para os fins do presente trabalho, não tratamos das mudanças ocorridas

com o fim da escravidão e sim, do papel da produção cafeeira como criadora

de uma nova dinâmica no meio rural no sudeste brasileiro. Portanto, o café não

é encarado apenas como uma atividade agroexportadora, mas como

construtora de novas dinamicidades produtivas rurais. Tal foi a sua importância

que mudou completamente a história produtiva do Sudeste e Sul do país. Isso

      

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Uma das mais profundas e radicais dessas transformações começa a se fixar como novo centro gravitacional do meio rural no geral e dos Complexos Agroindustriais, no particular. Trata-se exatamente da nova matriz energética mundial que se impõe com o fim da era do petróleo e a necessidade de produção de biocombustíveis. Tendo seu eixo de funcionamento a fotossíntese, põe na terra e nos CAI’s seu espaço de atuação.

mostrando que, sob a expansão do modo de produção capitalista no campo,

essa atividade logrou transformações quantitativas e qualitativas fundamentais

ao desenvolvimento não apenas rural, como urbano dos estados mais

poderosos do Brasil. Aceitamos sem contraposições essa tese, estando ela

plenamente sintetizada por José Graziano (1988) em “A nova dinâmica da

agricultura brasileira”. As situações aí apresentadas servem para demonstrar o

que foi e o que não foi transformado na dinâmica da agricultura de boa parte

dos nove estados que compõem o que chamamos de Nordeste. E mais, para o

que nos propomos na nossa tese, que a agroenergia desenvolve esse papel

impulsionador de uma nova dinâmica no meio rural, que não é agrícola nem

pecuário, mas com as mesmas características transformadoras (em patamares

inclusive bem superiores) um dia exercidas pelo café.

Para Graziano, as necessidades (financeiras, comerciais e infra-

estruturais) da economia cafeeira criaram o “ambiente” necessário ao

surgimento de novas atividades direta e indiretamente ligadas à economia

cafeeira.

As necessidades comerciais e financeiras para a comercialização e a expansão das atividades agrícolas, a necessidade crescente de novos meios de transporte com o deslocamento da produção do café do Oeste, bem como a necessidade de novas máquinas e novos equipamentos (de beneficiamento, por exemplo) e de outros insumos (sacos de junta, por exemplo) fizeram com que o complexo cafeeiro engendrasse fora da fazenda de café atividades complementares como os bancos, as estradas de ferro, as fábricas têxteis, etc., atividades que foram em grande medida financiadas pelos excedentes acumulados pelos próprios fazendeiros de café (SILVA, José Graziano da. A nova dinâmica da agricultura brasileira.

Campinas, SP: Universidade Estadual de Campinas/Instituto de Economia, 1988. p.8).

A expansão cafeeira não poderia se dar sem a criação de uma “estrutura

de suporte” ligada ao café. Toda uma multivariada gama de mercadorias

deveria ser produzida para dar suporte à economia cafeeira. A plantação de

café deixa gradativamente de ser uma plantação de café. Aliás, para que ela se

expanda tem que haver o surgimento de outras atividades, metamorfoseando

uma atividade agrícola num complexo, fora da própria fazenda, mas dela

umbilicalmente dependente. No entanto surge um questionamento. Sob quais

condições uma atividade rural poderia se metamorfosear num complexo que,

ademais, foi responsável (no limite) pelo surgimento de toda uma economia

diversificada e não rural? O que determinou que uma atividade rural fosse a

base sob a qual se edificou a gênese da transformação do Brasil em país

industrial?

Mas porque isso não ocorreu no âmbito do complexo rural que também dispunha de excedentes? Porque apenas com o surgimento do complexo cafeeiro paulista criaram-se as novas oportunidades de investimento resultantes da ampliação da divisão social do trabalho – ou da separação cidade/campo no bojo do qual se implementou um processo de substituição de importações. Aproveitou-se assim uma “oportunidade histórica” – conjugando a disponibilidade de excedentes com a oportunidade de novas inversões que o complexo cafeeiro gerou. ‘A razão’ econômica disso foi bem precisada por Rangel (apud Paim, 1957:11): somente ocorre um aumento da divisão social do trabalho quando, no ato de tentar a substituição de importações, a economia suscita a procura de fatores liberados pelo setor exportador e, em conseqüência, retira fatores antes empregados em “âmbito natural”. Em outras palavras, a expansão das atividades “não agrícolas” engendradas no seio do complexo cafeeiro paulista não poderia ser mais satisfeita internamente nas próprias fazendas, obrigando a um aprofundamento da divisão do trabalho e “delegando” novas funções as cidades. Estabeleceu-se assim, a partir do complexo cafeeiro paulista, uma mudança fundamental com a passagem de uma economia rural fechada e assentada em bases materiais para uma economia aberta e um mercado interno que começava a estruturar-se a partir das indústrias montadas nas cidades, mas ainda voltadas a demanda de segmentos da própria agricultura (SILVA, 1988, p.9).

Valor de uso social, transformando-se em valor de troca com ampla

capacidade de circulação internacional. O café era uma excelente mercadoria

naquele momento, com grande aceitação internacional. Existia e expandia-se

um mercado mundial para o produto. Esse produto com venda internacional,

dava lucro nas fazendas. Mas para a continuidade dessa rentabilidade carecia

de inversões fora do ramo especificamente rural. Na mesma medida em que se

expandia o mercado mundial para o café, as necessidades dessa expansão

geravam necessidades de modificação da própria atividade cafeeira. Essas

modificações não se davam simplesmente dentro da fazenda. Muito pelo

contrário, muitas delas eram simplesmente de natureza não rural. Máquinas

agrícolas, adubos, pesticidas, sacaria, transporte, logística de transporte e

acondicionamento, embalagem no varejo. O café para ser café não pode mais

ser apenas café. E dele outras atividades surgem e se expandem para,

futuramente, se libertarem do próprio café. Portanto a condição essencial é a

alta rentabilidade da atividade no meio rural, sua dinamicidade econômica. Por

que esse processo de desenvolvimento é fundamentalmente paulista?

Graziano Responde,

Vale a pena assinalar que a “oportunidade histórica” não se colocaria mais como alternativa para os outros complexos rurais a partir do momento em que São Paulo se consolida como núcleo dinâmico do processo de industrialização. A divisão regional do trabalho que se estabelece a partir daí, indica a definição de uma “periferia” regional do que se explica basicamente em função de seu “atraso histórico” em relação ao pólo dinâmico, até que se altere o padrão de acumulação. Como explica Cano (1985), antes do processo de integração do mercado nacional a capital comercial dominava o padrão de acumulação nas diversas células exportadoras, o que não consegue ser rompido no momento em que se deflagra a industrialização. Essa “periferia” não consegue competir com a dinâmica de São Paulo, de base capitalista mais avançada, porque seu próprio desenvolvimento histórico havia sido duplamente mais problemático, sua integração ao mercado internacional na fase primário exportadora era débil e as relações capitalistas não haviam se instalado, ou a sua existência era ainda precária.

Perdida a oportunidade histórica de uma industrialização autônoma a “periferia” irá manter o seu atraso relativo ao longo de todo o período de industrialização. Persiste assim o espaço comandado pelo capital mercantil até que o potencial de acumulação do capital industrial leve-o a invadir aquele espaço e a concentração e a centralização forcem a expulsão do capital mercantil para a sua órbita específica.

De forma análoga, a modernização agrícola da “periferia” é problemática: dada a desigualdade na origem (pelo maior avanço do complexo cafeeiro paulista), as regiões periféricas, basicamente as Norte e Nordeste, Minas Gerais e parte do Centro-Oeste não conseguem atingir o grau da modernização da agricultura paulista ou sulina. Apesar do ritmo acelerado de incorporação do progresso técnico, tais regiões não elevam proporcionalmente o nível de produtividade, alargando as disparidades regionais. O esforço de modernização empreendido pelas regiões periféricas não é suficiente nem para elevar a sua participação no produto agrícola nacional, nem para reduzir os contrastes regionais de produtividade. Esse esforço não é proporcionalmente recompensado porque a base de acumulação mais ampla, a magnitude e a concentração do capital e o avanço das relações sociais capitalistas das regiões desenvolvidas propiciam afeitos de ‘ressonância’ que aumentam seu potencial de crescimento, enquanto na periferia essa base é muito mais estreita e precária, bloqueando a própria difusão dos efeitos da modernização (SILVA, 1988, p.9-10, grifo do autor).

A modernização uma vez estabelecida num determinado espaço,

tenderá a se expandir, mas no mesmo espaço. Isso porque o que chamamos

de modernização são processos complexos, que levam tempo para maturarem

e quando o fazem, caso venham a se expandir, não irão buscar espaços

desconhecidos. Aliás, não irão buscar mesmo que queiram. Produzir café

custou tempo, dinheiro, suor, lágrimas, articulações políticas, benefícios

governamentais, derrubada de florestas e preparação da terra, formação de

trabalhadores e relações de trabalho específicas. A expansão disso tudo

tendencialmente obedece à ampliação de fronteiras próximas. Quando essa

atividade “ultrapassa ela mesma” se transformando num complexo, aí sua

movimentação se torna ainda mais complicada. Seu fator impulsionador se

“cristaliza” num espaço específico. A modernização se retroalimenta também. E

assim foi, e assim é. Caso contrário, não podemos explicar as disparidades

regionais da gênese do nosso capitalismo que só o Estado Nacional num

amplo e prolongado esforço tentou e tenta romper.

Não há absolutamente nada de errado ou minimamente ilógico nas

apreciações de Graziano, muito pelo contrário. O que há de irracional é que os

nordestinos simplesmente ainda não entenderam isso. Ou seja, a

industrialização do Sudeste e Sul teve uma gênese numa atividade dinâmica

internacionalmente que impulsionou o surgimento de outras atividades no

cenário local para suprir-lhes as necessidades. E mais, que essa dinamicidade,

atingido determinados patamares passa a se retroalimentar numa espiral

crescente. O que acrescento a Graziano é que essa espiral não apenas é de

cunho econômico, mas também político. Esse mundo que já tendo por base

uma agricultura de exportação rudimentar, mas a mais lucrativa do país

naquele momento, já dominava o cenário político. Sua metamorfose ampliará

seu poderio político e, portanto, da própria lógica de atuação do Estado

Nacional em benefício desse setor mais dinâmico. É absolutamente natural, até

porque os agentes bem mais capitalizados e refinados politicamente não se

restringem mais ao meio rural, mas cada vez mais ao citadino. Cresce e se

torna mais ascendente a espiral.

Como parte desse desenvolvimento as antigas formas de subordinação do sistema econômico ao capital mercantil vão se rompendo, dando lugar a uma vagarosa metamorfose do capital com o industrial soltando à frente. A agricultura, no entanto, permanecia atrelada aquelas velhas formas em vastas regiões do país (como o Norte e o Nordeste). A agricultura paulista, única para a qual a

crise transformou-se em elemento dinâmico dá um salto de diversificação na década de 30 (em especial algodão e açúcar), saindo renovada da crise. Mas excetuando a cafeicultura e a cotonicultura em São Paulo em que se incorporam algumas melhorias técnicas , o resto da agricultura continua a crescer nos moldes tradicionalmente extensivos (SILVA, 1988, p.17, grifo

do autor).

Não possuíamos esse setor dinâmico. Muito pelo contrário fazíamos a

apologia do glorioso passado oligarca. O Nordeste se inventou como um eterno

passado sertanejo e/ou canavieiro escravocrata, emperrando o novo, não se

vendo ou se propondo a partir de outras perspectivas que não a de seu

passado. Essa não modernização não é fruto apenas da economia, mas a

extrapola, passando a ser, inclusive, cultuada como símbolo regional:

Esta verdadeira aversão ao moderno não se localiza apenas em setores dominantes, mas em setores de várias classes sociais. As idéias, as imagens, os enunciados associados ao Nordeste, que o inventaram, são um componente decisivo dessa “falta de capacidade modernizadora”. Existe uma verdadeira falta de legitimidade social do valor da inovação, das novidades, uma falta de aspiração à mudança, um acentuado apego ao tradicional, ao antigo, fazendo com que a modernização atue no Nordeste no sentido de mudar o menos possível as relações sociais, de poder e cultura. A modernização nordestina seria uma “modernização sem mudanças”, bloqueando a necessidade e a legitimidade da independência do indivíduo, levando a aceitação da hierarquia e da proteção pessoal como meios de se proteger do caráter corrosivo das mudanças, dificultando a emergência de qualquer cidadania. Esta falta de legitimidade social do novo faz do Nordeste esta poderosa maquinaria de dissolução da novidade. Torna-a uma região que serve não apenas aos vencedores, mas as parcelas de outras classes sociais, como escudo contra a radicalidade da modernidade; como maquinaria que cega o gume da novidade, que moderniza sem alterar radicalmente as relações que sustentam o antigo (ALBUQUERQUE JR, 1999, p. 312).

Enquanto isso São Paulo buscava a partir das suas oligarquias dar o

salto inclusive construindo uma política de imigração para a continuidade

dessas transformações.

Com São Paulo dá-se um fato particular. Apesar de ser São Paulo o baluarte atual da escravidão, em São Paulo e nas províncias do Sul ela não causou tão grandes estragos; é certo que São Paulo empregou grande parte do seu capital na compra de escravos do Norte, mas a lavoura não depende tanto quanto a do Rio de Janeiro e a de Minas Gerais da escravidão para ser reputada solvável.

Tem-se exagerado muito a iniciativa paulista nos últimos anos, por haver a província feito estrada de ferro sem socorro do Estado, depois que viu os resultados da estrada de ferro de Santos à Jundiaí; mas, se os paulistas não são, como foram chamados, os ianques do Brasil, o qual não tem ianques - nem São Paulo é a província mais adiantada, nem a mais americana, nem a mais liberal de espírito do país; será a Louisiana do Brasil, não o Massachusets - não é menos certo que a província, por ter entrado no seu período florescente no fim do domínio da escravidão, há de revelar na crise maior elasticidade do que as suas vizinhas. No Paraná, em Santa

Catarina, no Rio Grande, a emigração européia infunde sangue novo nas veias do povo, reage contra a escravidão constitucional, ao passo que a virgindade das terras e a suavidade do clima abrem ao trabalho livre horizontes maiores do que teve o escravo. (NABUCO, Joaquim. O abolicionismo. São

Paulo, SP: Publifolha, 2000. Grandes nomes do pensamento brasileiro da Folha de São Paulo. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000127.pdf> Acesso em 12 jan. 2005, grifo do autor).

O alerta sociológico de Nabuco é brilhante. Havia um processo de

transformação em curso que passava inclusive pela mudança das relações

sociais de produção não simplesmente a partir da eliminação do trabalho

escravo mas também pela vinda de trabalhadores estrangeiros com outra

lógica societária. A atividade em sua dinamicidade exigia novas lógicas,

inclusive com a radicalidade da formação de uma política de imigração.

O fato é que a partir do café, uma dinâmica capitalista se desenvolveu

em São Paulo, dinâmica que sai do campo para atividades urbanas industriais

inicialmente de suporte apenas ao café, mas posteriormente ligada a todo o

desenvolvimento de uma sociedade que gradativamente se enriquece, cria

setores assalariados que demandam produtos agora passíveis de produção

interna, sempre num contexto de desenvolvimento continuado. O combustível

para essa mudança era o café e o fator de ignição, a centelha única capaz de

gerar essa explosão, um novo agente societário, imigrante, moderno como

proletário não acostumado à lógica escravista.

O setor dinâmico da economia paulista (e brasileira) era o café e

continuou sendo o café com todas as crises. Mesmo assim, muito embora o

Estado Nacional tenha enveredado pela política nitidamente industrializante de

substituição de importações, a renda gerada para tal advinha do setor cafeeiro,

e essa expansão era a do aumento da fronteira agrícola. Após ter mencionado

que “O crescimento com base no aumento das áreas cultivadas perdurou até o

final da década de 60, aproveitando-se das fronteiras próximas aos pólos mais

desenvolvidos do centro-sul” (SILVA, 1988, p.17)

coloca na página seguinte

que “É verdade que o crescimento agrícola ainda que apoiado

fundamentalmente na expansão da área cultivada e em formas tradicionais de

tecnologia, lentamente incorporava algumas transformações.” (SILVA, 1988,

p.18). Isso não podia se dar de maneira diferente. Se o café era a atividade

rentável de circulação internacional, mesmo com toda a crise, a expansão

agrícola (e portanto da dinamicidade da economia) vai estar diretamente ligada

ao aumento da área plantada. Mesmo assim, mudanças qualitativas existem,

dada a própria relação dialética entre valor de uso e valor de troca. Com o

tempo, as exigências para a venda internacional do café levam a

transformação na técnica redefinindo a produtividade social média do trabalho.

Obviamente que a presença do Estado também se coloca como a de

agente central na dinâmica dessas transformações. Foi assim antes de Vargas

com toda política protecionista de compra de estoques e depreciação da

moeda nacional. E mesmo com e após Vargas pela continuidade e acirramento

dessa mesma política. No entanto, a questão é que uma vez gerado o impulso

dinamizador do crescimento no setor cafeeiro, “automatiza-se” a espiral

ascendente de multiplicação de emprego, renda e novas atividades que

passam a gerar outras espirais.

O processo de modernização, ao mesmo tempo em que implica a mercantilização intra-setorial da agricultura, promove a substituição de elementos do complexo rural por compras extra-setoriais (máquinas e insumos), abrindo espaço para a criação de indústria de

bens de capital e insumos para a agricultura, como se verá mais adiante [...]O processo de modernização, ao mesmo tempo em que implica a mercantilização intra-setorial da agricultura, promove a substituição de elementos do complexo rural por compras extra- setoriais (máquinas e insumos), abrindo espaço para a criação de indústria de bens de capital e insumos para a agricultura, como se verá mais adiante ( SILVA, 1988,p.20).

O café não é mais café. E mesmo a necessidade de continuar sendo

café gera um processo modernizante que ultrapassa o meio rural.

O aumento da participação do consumo intermediário no valor bruto