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Como já mencionamos, as atividades tradicionais agropecuárias, ao não

atuarem na faixa determinada pela nova produtividade social média do sistema

passa a empobrecer, seja pela incapacidade da venda do excedente

produzido, seja pela não produção de excedente ou pela redução dos

rendimentos obtidos por mercadorias produzidas abaixo dos padrões

determinados socialmente pelo mercado. Estratégias de sobrevivência

começam a ser elaboradas e postas em prática pelas famílias. A mais antiga e

radical é o abandono completo do meio rural e a arribada aos centros urbanos.

Mas outras alternativas passam a se apresentar. Uma delas é a

mercantilização de atividades antes desenvolvidas para o auto-consumo na

propriedade familiar. Doces, queijos, biscoitos e tantas iguarias da vasta

culinária rural brasileira passaram a ser produzidos com objetivo exclusivo de

venda, transformando o que antes era apenas valor de uso essencialmente em

mercadoria. Uma outra maneira de organizar o trabalho passa a ser a própria

desvinculação deste da atividade agropecuária como forma exclusiva de

obtenção de rendimentos.

Para Graziano e Del Grossi (2005), o tempo de trabalho antes livre das

famílias que trabalhavam com a agropecuária, agora está sendo vendido como

mão de obra para a novas atividades rurais em decorrência da queda do

rendimento econômico das atividades agrícolas.

Como conseqüência dessa queda da renda agrícola, observa-se uma crescente importância das atividades e rendas não-agrícolas entre as famílias rurais. E esse fenômeno é tão forte e rápido que nossos dados apontam que em 1998 o total das rendas não-agrícolas já ultrapassou o montante das rendas agrícolas recebida pelos moradores rurais. Isso significa basicamente que as atividades agropecuárias já não respondem pela maior parte da renda da nossa população rural nesse final de século (SILVA, José Graziano da; DEL GROSSI, Mauro Eduardo. O novo rural brasileiro: uma atualização para 1992-98. Campinas: Unicamp, 2005. Disponível

em:<http://www.eco.unicamp.br/nea/rurbano/ html>.Acesso em : 27, mar. 2006).

.

Portanto se tem uma situação que vem se configurando da seguinte

forma:

a) Queda do rendimento das atividades rurais em relação às urbanas. A

partir de 1998 as rendas não agrícolas ultrapassam as rendas agrícolas no

meio rural;

b) Se esperaria um declínio vertiginoso da população rural que, segundo

os autores, não vem ocorrendo graças a entrada em cenário das novas

atividades rurais: “a PEA rural não-agrícola - vem apresentando um

extraordinário crescimento, impedindo até que a PEA rural decrescesse no

período 1992/98”

(SILVA, José Graziano da; DEL GROSSI, Mauro Eduardo. O novo rural brasileiro: uma atualização para 1992-98. Campinas: Unicamp, 2005. Disponível

em:<http://www.eco.unicamp.br/nea/rurbano/textos/downlo/textos.html>.Acesso em : 27, mar. 2006).

Os dados apresentados pela Tabela 11 mostram que houve um aumento

de 1991, 1992 e 1998 na população ocupada no meio rural, mas um aumento

graças ao acréscimo da ocupação não agrícola:

Tabela 11

PEA RURAL -1991-1998

População 1991 1992 1998

“PEA restrita” Rural

13,9 15.0

14,8

Ocupados

13.8

14.7

14,2

Agrícola

10.7 11.2

9,6

Não-agrícola

3.1

3.5

4,6

Desempregados

0.3

0.3

0,6

Mais do que isso, outros dados apresentados pelo Projeto Rurbano

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denotam uma situação de significativa mutação do trabalho rural em 1997:

Tabela 12 

Os dados são muito significativos. Precisamente, a soma das famílias

rurais com trabalho não agrícola e pluriativas chega a 85,4% das famílias com

trabalho exclusivamente agrícola.

Contudo os autores fazem a consideração de que tem aumentado a

parcela de desempregados, inativos e pensionistas no meio rural no período da

pesquisa.

Na nossa avaliação, se a pesquisa é nacional ela pode estar refletindo

com maior força a não dinamicidade do Norte-Nordeste no novo cenário

agropecuário brasileiro. Nós nordestinos sabemos a sina rural que acompanha

nossos municípios: desemprego, renda proveniente de aposentados e

pensionistas além de um poder público dependente do Fundo de Participação

dos Municípios (FPM). Obviamente que, politicamente, esse é um terreno difícil

de atuar. No entanto, Graziano e Del Grossi fazem uma avaliação adicional:

      

12

Projeto Rurbano. Campinas, SP: Unicamp.

Disponível.em:<http://www.eco.unicamp.br/nea/rurbano>. Acesso em: 24 jun. 2006.

Distribuição das famílias rurais segundo o tipo de ocupação dos seus membros. Brasil 1997

Tipo de Família Rural Número de Famílias (x 1000)

Agrícola

3.714

Não-Agrícola

1.664

Pluriativa

1.508

Total

6.886

O crescimento dessas duas categorias - desempregados e aposentados residentes no campo - é um dos mais importantes indicadores de que o meio rural brasileiro já se converteu também (num lugar de residência dissociado do local de trabalho; ou ainda, de que os espaços rurais não são mais apenas espaços privatizados e local de trabalho; e que as pessoas residentes no meio rural não estão necessariamente ocupadas, nem muito menos ocupadas em atividades agrícolas (SILVA, José Graziano da; DEL GROSSI, Mauro Eduardo. O novo rural brasileiro: uma atualização para 1992-98.

Campinas, SP: Unicamp, 2005. Disponível em:<http://www.eco.unicamp.br/nea/rurbano/textos/downlo/textos.htm

l>.Acesso em : 27, mar. 2006).

Essas famílias na verdade (segundo os autores) têm buscado trabalho

em atividades urbanas ou não agrícolas, muito embora continuem residindo e

também trabalhando no meio rural. A tal situação chamam de pluriatividade:

No total, somando urbano e rural, a pluriatividade afeta 39% do conjunto de famílias que estamos considerando (residentes no meio rural F.N), proporção essa que varia relativamente pouco em função da ocupação principal do seu chefe, se empregador (51%) ou conta própria com acesso a terra (41%), ou se pertence a outras categorias de trabalhadores agrícolas e/ou rurais sem acesso a terra (35%), quando se considera tanto a ocupação principal como as secundárias dos membros do domicilio (SILVA, José Graziano da; DEL GROSSI, Mauro Eduardo. O novo rural brasileiro: uma atualização para 1992-98. Campinas, SP: Unicamp, 2005. Disponível em:

<http://www.eco.unicamp.br/nea/rurbano/textos/downlo/textos.html> .Acesso em : 27, mar. 2006).

São percentuais elevados e bastante visíveis. Como materialização desse

fenômeno, no Rio Grande do Norte tal se verifica nos locais onde existem

atividades verdadeiramente dinâmicas desse novo rural. Por exemplo, a

população rural de Pendências empregando-se na carcinicultura, na região do

Alto do Rodrigues em tarefas da Petrobras ou no circuito da fruticultura irrigada

nos arredores de Mossoró. Municípios dinâmicos próximos a áreas rurais (ou

circundado por elas) possuem crescentemente essa característica.

A análise da renda nesse novo contexto é particularmente polêmica:

É claro que as famílias empregadoras tem uma renda maior - no caso, quase quatro vezes maior - que a renda familiar média per capita de todas as famílias rurais brasileiras. Mas podemos notar que

as famílias por conta própria têm uma renda familiar média per capita

inferior à dos empregados rurais. E dentro de cada um dos seus respectivos grupos, as famílias agrícolas são sempre as que apresentam as menores rendas per capita. As famílias rurais que tem menor renda per capita são as de assalariados agrícolas e pluriativos;

e logo a seguir vem as famílias de agricultores familiares por conta própria, agrícolas e pluriativas. Conclusão: o que puxa a renda média per capita das famílias rurais para baixo é a dedicação às atividades agrícolas (SILVA, José Graziano da; DEL GROSSI, Mauro Eduardo. O novo rural brasileiro: uma atualização para

1992-98. Campinas, SP: Unicamp, 2005. Disponível

em:<http://www.eco.unicamp.br/nea/rurbano/textos/downlo/textos.htm l>.Acesso em : 27, mar. 2006, grifo do autor).

Essa é uma observação fortíssima se levarmos em consideração que

Graziano e Del Grossi trabalham o Brasil, mas sempre com os olhos voltados

para a realidade do Sudeste-Sul, bem mais “amena”. Essa realidade

transplantada para o Nordeste deve ser bem mais ampliada. No limite isso quer

dizer que as tradicionais atividades rurais não se sustentam. O que é a

realidade de boa parte do interior nordestino, insustentabilidade absoluta

13       

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Uma realidade pouquíssimo estudada é a da população rural do litoral. Quando tratamos de população rural, curiosamente a imagem que se apresenta é a não litorânea das montanhas, vales e sertões etc. Pois bem, o meio rural litorâneo (não é meu objeto de estudo e portanto não levantarei esses números) provavelmente mais miserável do que o não litorâneo (ao menos no Nordeste). Isso porque a atividade desenvolvida é a da extração pesqueira e cata de crustáceos e alguns moluscos num cenário de extinção de estoques e profunda precariedade dos meios de produção. A miséria litorânea é tremenda, ainda mais num contexto em que esses trabalhadores(as) das águas salgadas e salobras não possuem mais um público para quem vender em quantidade (público agora cativo dos supermercados, com frango barato, lingüiça e carne bem mais em conta). Pode parecer o mais completo absurdo, mas no Rio Grande do Norte há municípios costeiros em que quase não se encontra peixe para comer. Como caçador do mar, o pescador de têmpera arredia (e sua maioria sem outra atividade) se

decorrente da mais completa falta de dinamicidade das atividades rurais? E a

perspectiva nortista do não desenvolvimento extrativista vegetal travestido de

sustentabilidade? Vem em seguida uma constatação que para o Norte e o

Nordeste é uma sentença:

Vejamos agora a composição dessas rendas: nas famílias agrícolas, o peso relativo das aposentadorias e pensões é sempre maior; e no caso dos agricultores familiares por conta própria, chega a representar 20% do rendimento total. Ou seja, se não existissem as transferências da Previdência Social pública, os agricultores familiares seriam seguramente o grupo de famílias mais pobre do meio rural brasileiro em 1998[...]Podemos concluir dizendo que os dados apresentados mostraram uma forte redução do número e da renda daqueles produtores que se denomina de agricultura familiar no âmbito do PRONAF, ou seja, das famílias agrícolas e pluriativas por conta própria e dos empregadores com até dois empregados permanentes. E que muitas dessas famílias estão buscando nas atividades não-agrícolas e na produção de subsistência uma forma alternativa de sobrevivência frente à queda de seus rendimentos provenientes das atividades agropecuárias (SILVA, José Graziano da; DEL GROSSI, Mauro Eduardo. O novo rural brasileiro: uma

atualização para 1992-98.

Campinas,SP:Unicamp,2005.Disponível.em:<http://www.eco.unicamp .br.html>.Acesso em : 27, mar. 2006).

3.3 O novo rural dos “sem-sem”

No mundo rural contemporâneo em países capitalistas desenvolvidos ou

em vias de desenvolvimento, cada vez mais não basta ter um boi, um bode ou

uma galinha, mas ter um boi, um bode ou uma galinha socialmente

determinada por níveis quantitativos e qualitativos de produção e produtividade

também socialmente determinados. Quem é o determinante dessas

mudanças? O mercado, entidade fundamentalmente coletiva constituída de

consumidores e produtores em permanente relação dialética. Os consumidores

determinam a produção e são determinados por ela. Se consome um

       multiplica na aposentadoria, seguro defeso e cachaça. Simplesmente, não existe como atividade a pesca para o IBGE. Se buscarmos no IBGE cidades os municípios litorâneos não encontraremos dados sobre a produção pesqueira. Esses são os sem-sem-sem, sendo o “terceiro sem” decorrente do fato de que não se possui nem dados estatísticos nas principais fontes sobre a nossa população. Daí que a miséria não é dimensionada, tampouco o impacto que esse novo rural vem apresentando sobre o rendimento dessas comunidades.