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A mulher do mundo contemporâneo tem um papel bastante representativo e heterogêneo na sociedade. Sem deixar de ser mãe, esposa, trabalhadora e condutora do lar, hoje ela faz parte do sustento e do planejamento familiar. O século XX representou uma grande (r)evolução para o sexo feminino. Suas conquistas lhe deram mais liberdade de agir e de se expressar, marcando a sociedade como um todo.

Apesar de reconhecermos esses avanços, não é nosso intuito aqui, como foi dito, transformar esta dissertação num libelo em prol do movimento feminista, mas sim descobrir – ou, pelo menos, delinear – como o perfil dessa mulher contemporânea se mostra em Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. Nessa perspectiva, procuramos apontar como é feita a construção de sentidos do discurso relacionado ao universo feminino na perspectiva do autor.

O universo feminino é complexo (e polêmico), e hoje, na literatura moderna, percebemos isso de forma mais nítida. Deparamo-nos sempre com

estereótipos (culturais, comportamentais etc.) comuns em conversas cotidianas, textos literários, textos midiáticos etc. Esses estereótipos são amplamente conhecidos: sexo frágil, físico fraco, incapacidade para exercer posições profissionais superiores, a mulher doméstica, a mulher como o segundo sexo. Embora possam parecer arcaicos, esses estereótipos ainda prevalecem naquilo que poderíamos chamar de imaginários sociodiscursivos. A mulher vitoriosa é ilegítima perante alguns olhares. A natureza da mulher fez com que a sociedade criasse essa desigualdade entre os sexos. A mulher, por ser, de fato, mais fraca/frágil fisicamente, é a mãe protetora dos filhos e do lar, sendo, em geral, a única responsável por organizar o aconchego familiar. O homem, por sua vez, é o responsável por sair de casa e trazer o sustento da família. Portanto, esses estereótipos interpretam a mulher como objeto sexual passivo, mãe devotada e esposa obediente (ROSADO, 1979).

Diversos antropólogos mapearam os conceitos coletivos sobre a mulher, delineando a grande importância do sexo masculino na construção da história e da civilização, enquanto a mulher é desconsiderada e mesmo invisibilizada nesse processo. Mas hoje, em pleno século XXI, sabemos que não é possível relatar nada, principalmente no que se refere à história recente, sem citar a participação do dito “segundo sexo”. Portanto, a mulher tem, sim, um papel significativo na sociedade atual, e isso vem sendo expresso na literatura, nas artes plásticas, no cotidiano, nas mídias, no mundo empresarial e político. Esses “territórios” são perceptíveis no texto de Saramago, não só pelo que ele deixa evidente, mas também pelo seu avesso, pelo que o autor deixa implícito ou subentendido, um fora de quadro que surge na dimensão interpretativa, a partir do que no texto é dito, figurativizado, tematizado.

Podemos observar em Ensaio sobre a cegueira situações em que é a mulher que exerce o poder, situações em que ela será mais forte do que o homem, sobretudo se considerarmos sua (do homem) condição fragilizada na narrativa: ele está cego, doente, destituído de seus bens materiais e logo, enfraquecido em sua virilidade e potência física, condição que permite, então, que a mulher sobressaia. Em meio a essa situação caótica, uma mulher que vê, diante da cegueira de todos os outros, é a única capaz de manter autonomia e, portanto, de controlar sua situação e a dos outros.

Porém, por vezes, essa mulher tem que recuar, ser estratégica para não morrer e relegar ao abandono os cegos que em volta dela se agrupam e que dela dependem para sobreviver. Isso faz com que ela se deixe violentar, o que, de certa maneira, a reconduz à sua condição de mulher inscrita num mundo dominado pelo poder do homem.

O discurso do/sobre o feminino, em Saramago, nos mostra, paradoxalmente, toda a fragilidade e força do universo feminino. Em outras palavras: esse universo se mostra fortificado pelas grandes decisões advindas exatamente da fragilidade, sobretudo pela resistência à sedução do poder num momento em que este estaria ao alcance fácil das mãos. A mulher assume a figura da sensatez, do realismo, mesmo a da pureza, ao passo que o homem se entrega ao desespero, à delinquência moral diante da condição em que se encontra – e que é incapaz de resolver sem o uso (e o abuso) da condição feminina.

Nesse conflito e nessa exposição do ser humano diante de uma situação que o torna indefeso e frágil, duas figuras dominantes parecem se delinear: uma figura do feminino, que busca uma saída por meio da manutenção de uma certa ordem; e uma figura do masculino, que se entrega ao desespero e à tirania diante de uma situação que interpela sua virilidade original, evocando a perda de seu poder natural, e que, diante disso, não vai muito além dessa luta pela manutenção de seu poder (simbólico).

Embora seja nítida a mudança do papel da mulher em nossa sociedade, podemos concordar com Rosado (1979, p. 19), quando afirma que “em todas as sociedades contemporâneas, de alguma forma, há o domínio masculino, e embora em grau de expressão de subordinação feminina varie muito, a desigualdade dos sexos, hoje em dia, é fato universal na vida social”.

Em outras palavras, seja qual for seu meio social, a mulher da atualidade é ainda (apesar de inegáveis avanços) caracterizada por sofrer, em certo grau, a força do domínio masculino. Embora suas conquistas sejam significativas, ela, muitas vezes, ainda se incrusta no estereótipo de sua inferioridade em relação ao homem. O aspecto biológico parece impor certa hierarquia entre a força do homem e a fragilidade da mulher, mas não pode nos dizer muita coisa sobre o mundo social em que vivemos, produto da cultura e da história que, em certo sentido, refletiu a força física do homem e seu papel

na imposição dos lugares da mulher. O biólogo não pode nos explicar porque a força e as atividades masculinas, em geral, parecem ser valorizadas pelas pessoas em todas as culturas, mas a história poderá nos dar pistas do exercício da força na constituição da dominação.

Na narrativa saramaguiana existe, pois, um discurso de desigualdade entre os gêneros sociais. Mas quando tal desigualdade começa na história do mundo? Na história da civilização, a maioria das descrições dos processos de formação social tratou a mulher como um ser dominado pelo mais forte e, portanto, incapaz de interferir nas mudanças sociais e culturais de uma época. Em todo lugar – e o mundo latino não é exceção – o homem sempre teve privilégios e maior destaque em relação à mulher, tendo em vista sua vinculação a papéis sociais de domínio e autoridade. Na literatura, no cinema, no teatro, no mundo das artes em geral, muitas vezes a mulher que exerce certo tipo de poder é vista com certo preconceito, tomada como “manipuladora”, “autoritária” ou muito “masculina” e, na melhor das hipóteses, uma rara exceção.

Essas afirmações denotam o machismo contemporâneo, mesmo em sociedades mais avançadas em que a mulher já conquistou espaços importantes na estrutura de poder. Parece claro que os avanços do mundo empírico nem sempre se refletem nos discursos que circulam, visto que estes continuam, em larga medida, conservadores. Um exemplo disso são as publicidades. Com efeito, muitas publicidades de produtos consumidos tanto por homens quanto por mulheres não evocam, no discurso que produzem, a figura do destinatário-consumidor mulher. É o caso, por exemplo, das publicidades de carro e de bebidas alcoólicas, como as de cerveja no Brasil. Nelas, a mulher é, via de regra, representada como um mero objeto de desejo do homem, e o produto anunciado, como um auxiliar na satisfação do desejo masculino. Eis um exemplo apenas, entre tantos outros. Conscientemente ou inconscientemente, essas representações circulam e são legitimadas independentemente do real empírico e, na maioria das vezes, as próprias consumidoras, ou seja, as mulheres, não refutam essas representações que as silenciam como destinatárias de um produto que, na realidade, elas também consomem.

Antropólogos, sociólogos, biólogos, estudiosos da linguagem, bem como grupos feministas ou machistas, mostram-nos um conjunto de representações do que foi – e poderá ser – a figura da mulher na sociedade contemporânea e futura. Nesse sentido, muitas mulheres (e seus simpatizantes) buscam desvelar a ideologia existente na corrente “machista”, quebrando preceitos e preconceitos enraizados no inconsciente coletivo. Outras vezes, no entanto, elas próprias legitimam essas representações cristalizadas sem perceber.

3.2 A perspectiva comportamental da mulher: o universo feminino em