Trago a seguir dois exemplos de crianças que choraram por brabeza na adaptação. Os dois, meninos, queriam ficar com a mãe e choravam muito, aliando isso a outras reações, quando estas saíam do seu campo de visão.
No primeiro exemplo, trago um excerto retirado do meu Diário de 2008 e outro da Avaliação Individual do segundo semestre de 2008, que descrevia, entre outras coisas, como havia sido o processo de adaptação deste menino, já que sua entrada no colégio se deu em julho27.
No segundo, trago alguns trechos do meu Diário de 2010 que vão dando conta das informações que a criança foi me passando ao longo de três semanas, finalizando com o trecho de sua Avaliação em que aparecem as combinações feitas com a mãe.
Em 2008, no primeiro dia em que a criança chegou à sala de aula, percebi que demonstrava brabeza e não sofrimento no choro, como escrevo no meu diário:
Ambientação: 01 de julho. Veio com a mãe. Na primeira meia hora,
ficava muito brabo quando a mãe saía de perto dele. Chorava. (Trecho do Diário de 2008. JG, 1a)
A adaptação ocorrida no meio do ano, que foi o caso da criança, é geralmente mais tranquila, porque como já aconteceu anteriormente comigo, as outras crianças estão adaptadas, já estão com outro ritmo, fazendo muitas descobertas e
27 Havendo vaga, as crianças que completam um ano de idade, durante o ano letivo, podem entrar
brincadeiras juntas. Já as conheço, sei a maneira de ser de cada uma, porque tenho um cuidado atento com elas, observo-as e faço o registro (retomando-o sempre que necessário) das aprendizagens, do crescimento, do jeito de ser de cada uma, o que torna mais fácil o acompanhamento e mais rápido aprendizado sobre uma criança que chega depois da adaptação dos demais. Foi o que aconteceu. A postura, o enrijecimento do corpo, a vermelhidão no rosto, o choro que, às vezes, vinha acompanhado de um grito, a não aceitação da ajuda de outro foram reações percebidas desde o primeiro momento, mas, precisava da mãe mais tempo na sala para entender se aquelas reações eram momentâneas ou se eram uma constante. Era seu primeiro dia em sala, não posso achar que conheço uma criança vendo-a pela primeira vez (não houve visitação domiciliar), mesmo já tendo conversado com a mãe (reunião inicial). Esta me dará a visão dela sobre seu filho. Eu posso vê-lo de outra forma.
O tempo, no entanto, foi confirmando esta ideia inicial do choro ser de brabeza e assim o descrevo na avaliação individual:
A adaptação do J também foi feita pela sua mamãe, sendo que nos primeiros dias, reagia de acordo com o esperado para um bebê da sua faixa etária frente a um novo ambiente, com muitas crianças e adultos desconhecidos. Ele ficava muito brabo, demonstrando isso pelos seus gestos, pelo corpo, que ficava enrijecido, pela expressão facial (ficava também todo vermelho) e pelo choro quando sua mamãe afastava-se um pouco dele. (Trecho da Avaliação Individual - Segundo semestre de 2008. J.G., 1a)
As combinações com a mãe foram feitas e ela passou, depois de alguns dias, a deixá-lo na sala conosco, ficando por perto, caso precisasse.
Em todos estes momentos (no colégio e em casa), JG não demonstrou sofrimento ou tristeza: comia bem, brincava, sorria e dormia, o que é um sinal de estar adaptado. O momento da separação é que lhe causava este tipo de reação.
No segundo exemplo, trago observações na esteira de pequenos relatos diários das informações sobre uma criança.
Dia 10: olha p28 mãe e chora (se atira no chão). (Trecho do Diário - Dia 10 de março de 2010. L.H., 1a 3m)
Dia 11: Brabo: grito e “choro”29 no refeitório. Acalmou-se (meu colo) depois, brincou faceiro. (Trecho do Diário – Dia 11 de março de 2010. L.H., 1a 3m)
Na segunda semana de adaptação, mais precisamente no dia 11, já percebia que as atitudes do LH me indicavam que estava chorando de brabeza, o que foi sendo uma constante nos outros dias, como relatei no diário, trazendo estes relatos nos trechos a seguir.
Muito brabo, atirando-se no chão e olhando p mãe: se ela não tivesse olhando, ele “caia”30de novo e “chorava”. Tentando chamar a atenção. Na entrada, fica perto da mãe e chora se alguém vai segurá-lo (p31 ela entrar, p/ ex.32). Fica no meu colo chorando e/ou gritando brabo até se acalmar. Desce e logo vai brincar, sem ir ao encontro da mãe (fica na sala, saindo depois). (Trecho do Diário - Semana de 15 a 19 de março de 2010. L.H., 1a 3m)
Na 5ªf33, dia 18, estava com a mãe e batia a cabeça no chão
(levemente, a testa) de brabeza. (Trecho do Diário – Dia 18 de março de 2010. L.H., 1a 3m)
LH chorava, enrijecia seu corpo e ficava vermelho quando não via o adulto de referência que estava com ele. Quando chamávamos este adulto para dentro da sala, ele entrava e dava a segurança necessária que LH precisava para ir brincar novamente. Assim, no caso, a mãe ficava um pouco perto dele, que logo ia explorar o ambiente, sem procurar o olhar deste adulto. Em todos estes momentos, ele não deixou de brincar e de explorar todo o ambiente.
As suas atitudes não eram de sofrimento ou tristeza, não demonstrava nem
28 Para
29 O uso das aspas na palavra choro, neste caso, serve para me orientar: choro sem lágrimas ou
choro sem tom de tristeza.
30 Utilizo aspas para dizer (a mim mesma) que ele não caía, sem querer, mas se atirava no chão de
propósito.
31 Para
32 Por exemplo 33 Quinta-feira
em casa, conforme relato da mãe, nem na sala de aula, momentos de passividade, falta de apetite ou apetite exagerado, febre, vômitos, apatia etc. Tendo todas estas informações, combinei com a mãe os procedimentos que faríamos a partir dali: ela entraria, ficando pouco tempo na sala (de 15 a 20min), sairia e eu ficaria com LH. Após o momento inicial de choro ao não ver o adulto, ficava no meu colo até acalmar-se, indo depois brincar. A mãe, mesmo sabendo que o choro era por brabeza, preferia ficar aguardando até ele acalmar-se para ir embora do colégio, outra combinação que havíamos feito e que servia para deixá-la mais tranquila em relação ao seu filho.
O trecho a seguir faz parte da sua avaliação individual e traz esta última combinação feita com sua mãe.
Com o passar dos dias, estas reações somente aconteciam no início da tarde e quando ele via que a mamãe sairia da sala. Nos outros momentos, L H ficava bem à vontade e seguro no ambiente preparado para os bebês. Pelas suas atitudes durante a tarde, a mamãe e a professora perceberam que o seu choro não era de tristeza e, sim, de brabeza, pois queria que ela ficasse na sala com ele.
Ele necessitou, então, de um olhar especial e de bastante aconchego (colo) da professora para passar por este período. Assim que ela o pegava no colo para a mamãe sair da sala (na terceira semana de março), a professora ia para a Área de Alimentação para dar o lanche, ficando com L H até ele acalmar-se, conversando e brincando com ele, distraindo-o com músicas, objetos e brinquedos. Aos poucos, ele ia parando de chorar, descia do colo e ia brincar bem faceiro com os colegas. Neste momento, a professora liberava a mamãe que sempre ficava do lado de fora da sala, aguardando notícias de seu filho. (Trecho de Avaliação Individual - Primeiro semestre de 2010. L.H., 1a 3m)
No caso deste aluno, encontrei na mãe uma aliada no entendimento do choro. Tanto esta mãe, quanto eu, tivemos esta leitura, a de que o choro dele era brabeza. No entanto, algumas vezes, o choro não é percebido por mim da mesma maneira que pelos pais (e vice-versa). Tive casos em que eles achavam que o choro era de sofrimento, enquanto eu percebia que não, que era um modo de manipular os pais para estes fazerem o que a criança deseja. Em outros momentos, o choro era de sofrimento, mas os pais achavam que era manha, que era tentativa de manipulação por parte da criança. As conversas eram feitas com os pais, tentando mostrar a eles
o que percebia, mas alguns não aceitaram esta opinião. A partir deste contexto, ficava dando maior atenção a esta criança (sem deixar de lado as outras) que os pais achavam estar pronta para ficar na sala sozinha, ou ficava com os pais na sala, percebendo que eles é que necessitavam, por vezes, ficar perto da criança para sua própria adaptação neste processo de separação da criança, o que já foi abordado no indicador anterior.
O que deve ser levado em conta é que cada criança tem uma reação diferente pelo modo como é criada, pelo seu jeito de ser; a conhecerei, se tiver tempo para isso junto com adultos de sua referência, que podem me ajudar a entendê-la. Reconheço os tipos de choro porque percebo em cada uma as diferenças no (seu) chorar. Para isso, de preferência, preciso vê-la chorando com e sem os adultos de referência por perto (Como as crianças agem com eles? Como elas agem sem eles? Como eles agem com as crianças?). Não trago receitas de como cada criança reage: se fica vermelha e enrijecida, é choro de brabeza, por exemplo. O que quero mostrar é como a observação é importante aliada para identificar estes tipos de choro.